Capítulo Dois

Luz nem sempre é o mesmo que bondade e escuridão nem sempre é o mesmo que maldade a voz no fundo da cabeça de Anna havia dito no momento em que conheceu Ruby, havia seus pensamentos normais, racionalidade e emoção baseadas em experiências, a voz era diferente de tudo aquilo, a voz as vezes passava meses sem aparecer, sem dizer uma única frase, mas quando aparecia era com convicção, com sabedoria que Anna não sabia de onde vinha, a voz pertencia a ela mas era distante, uma parte dela trancada no fundo de sua mente que as vezes conseguia sair por alguns segundos, muitas vezes ela ignorava o que a voz dizia mas não naquela situação, havia escuridão sim mas negar ajuda não era algo que costumava ou gostava de fazer e ela estava curiosa, mais do que já estivera em toda a sua vida, ela sempre teve certeza que as criaturas que a bíblia citavam eram reais (embora para o desgosto de seus pais ela não gostasse muito de ler tal livro já que muitas partes ali lhe soavam erradas, meio distorcidas, como se tivesse sido escrito por alguém que não sabia muito a respeito do que estava falando), e Ruby certamente era uma delas.

As roupas de Ruby estavam um pouco rasgadas então ela trancou as portas da igreja e a levou para a sua casa que ficava perto dali para trocar por algumas das dela, Ruby disse que não era necessário, que ela podia arranjar outras facilmente, mas Anna simplesmente a puxa pela mão e Ruby vai com ela. O quarto de Anna era normal, a casa toda era, havia uma ou outra cruz a mais do que Ruby gostaria mas nada que já não fosse esperado da casa de um pastor, se eles são monstros são os mais estranhos que Ruby já tinha visto. O edredom que cobria a cama de Anna era azul com pequenas borboletas amarelas, tinha uma estante de livros em um canto e o armário de roupas no outro, ela se senta na cama enquanto Anna vai escolher as roupas no armário, a parede ao lado da cama estava coberta de fotos, a maioria dela com seus pais, algumas do que ela supunha serem amigos de escola e de faculdade, e duas da infância, nas duas a menina ruiva estava fantasiada, em uma ela estava como uma fada com grandes assas rosa, um vestido azul, uma coroa prata de plástico na cabeça e uma varinha com uma estrela amarela na ponta, na segunda foto ela está com a fantasia de Ariel do filme A Pequena Sereia, ela não tinha muito instinto maternal mas não conseguia negar que Anna havia sido uma criança muito fofa, Ruby já tinha conhecido fadas e sereias e sabia que em tais criaturas não havia qualquer tipo de fofura mas nem isso consegue evitar que um pequeno sorriso apareça em seus lábios ao observar essas fotos e só desaparece quando percebe que Anna havia reparado no que ela estava fazendo.

"Aqui" Anna lhe diz entregando as roupas cuidadosamente dobradas, uma calça jeans e uma camisa regata branca, bem casual, não era o tipo de roupa que Ruby usava normalmente mas considerando que estava vindo do armário de uma filha de pastor ela estava esperando muito pior.

Anna se vira de costas em direção a estante de livros quando Ruby começa a se despir.

"Você é um demônio não é ?" Anna pergunta enquanto percorre seus dedos por entre os livros da estante.

O jeito como ela pergunta isso é tão casual que chega a surpreender Ruby, como se estivesse perguntando de que parte do país ela veio. Ela respira fundo e diz já pensando em uma rota de fuga :

"Sim"

"Essa era realmente a primeira opção que me ocorreu. Você nasceu assim ou se tornou com o tempo?"

"Eu me tornei"

"Você antes era humana" dessa vez não é uma pergunta, é uma afirmação. "Esse corpo que você tem não é seu originalmente , estou certa ?"

"Sim, mas a dona original dele não está mais aqui, a alma dela deve até estar no céu agora" o que Ruby decide não mencionar é que ela não estava mais ali há pouquíssimo tempo. "Então não adianta tentar me exorcizar ou me matar de algum jeito porque você só vai acabar com um corpo morto no seu quarto"

"Eu não faria isso de qualquer maneira, a não ser é claro que você tentasse me matar primeiro"

"Só tentar matar aqueles que tentam te matar parece uma boa filosofia de vida, quem dera o resto do mundo pensasse assim"

"Eu suponho que resolveria mesmo muitos problemas"

"Se você quiser já pode se virar, eu já me troquei"

Anna se vira e a olha dos pés a cabeça.

"Elas ficaram muito bem em você"

"Bem são as suas roupas"

"Bem é o seu corpo. Isso soou bem mais inocente na minha mente do que em voz alta"

Ruby riu.

"Então você estava se escondendo na igreja, tem alguém atrás de você ?" Anna pergunta.

"Sim mas logo eles devem se esquecer, em umas duas horas já deve dar pra eu me mandar dessa cidade"

"Você pode ficar aqui se quiser durante essas duas horas ou mais eu não sei, tem alguns filmes aqui e tem um dvd na sala, nós poderíamos assistir algo para passar o tempo"

"Obrigado , mas Anna eu não acho que você entendeu exatamente o que eu sou, eu não vou te machucar mas muitos do meu tipo te machucariam"

"Eu sei"

"Então porque você está me chamando pra ficar aqui, você tem algum tipo de desejo suicida ?"

"Não, nem um pouco, a vida é a coisa mas preciosa que existe para mim"

"Então porque ? Não faz o menor sentido"

"Tem algo dentro de mim que diz que eu posso confiar em você. Pode chamar de voz da intuição se quiser"

"Você sempre da atenção a essa sua voz da intuição ?"

"Não mas essa parece uma boa hora para começar"

Obrigada por ler, reviews são sempre apreciadas.