Capítulo 5: "Akira..."

Não sentia tanto tédio assim desde que tomara as tais "devidas" férias em Kanagawa. A convivência com todos da casa havia diminuído consideravelmente, a ponto de mentir que ficaria fora o resto do dia. Na verdade, era o que queria. Um pouco de sossego. Mas sabia que ninguém passaria o dia em casa. E gostava, mais do que tudo, de passar as suas horas mais vagas em seu quarto, seu templo de paz e sossego.

Esperara todos tomarem seus rumos naquele cair de tarde, e ficara na frente da casa, sentado em uma pedra bem ao lado da parede enquanto via o carro de um dos amigos distanciar-se gradativamente em direção à cidade, sumindo no horizonte, o fazendo suspirar. Riu, levando as mãos até a franja e a puxando gentilmente para trás, como se tocasse numa criança. Era esse os cuidados que tomava consigo mesmo, sempre.

Balançou a cabeça e levantou-se da pedra, limpando a roupa que eventualmente poderia estar suja e caminhou em direção à porta da frente, naturalmente. Faria a janta em algumas horas, e isso já o cansou apenas em pensar na sujeira que ficaria depois. Girou a maçaneta e abriu lentamente a porta, olhando aos arredores, analisando se realmente era o único presente naquela casa. E era exatamente isso que esperara e obteve ao constar que a sala mesma estava completamente vazia. Fechou a porta atrás de si e caminhou rente as escadas, subindo-as, visando o final da mesma onde recebia uma claridade pouco admirada, mesclada à laranja e amarela, e só pôde notar de onde via a mesma quando pisou na área do sofá de frente à janela. O pôr do Sol. Sorriu, meio apagado, passando reto pelo estabelecimento e seguindo em direção ao seu quarto.

Mas não pôde deixar de notar na porta aberta do quarto de Reita. Abaixou momentaneamente a cabeça e respirou profundamente, sem perceber que uma de suas mãos já pousava no batente da porta. Suspirou e apoiou-se no batente, olhando para o interior, o quarto todo muito bem arrumado. Certamente Reita não passara tanto tempo no cômodo. Sorriu, cruzando os braços e passando o olhar pela cama até uma cômoda, onde haviam diversos objetos dispersos e organizados. Exceto por algumas folhas, o que o chamara a atenção.

Descruzou os braços e rumou até a mesinha, puxando a cadeira e sentando-se na mesma, olhando fixamente o amontoado de papéis que haviam empilhados, todos muito semelhantes aos seus olhos conforme passava a ler as cifras. Nada muito nítido como alguma letra visada para a banda. E sorriu, ao deslizar novamente os olhos por cima da mesa e encontrar um antigo boné, mas muito bem preservado. E como breves flashes, lembrara-se de como aquele objeto havia parado naquele local. E não pôde deixar de transcorrer um novo sorriso.

Passou o polegar pela madeira, contornando cada coisinha mínima que havia. Parecia que o acalmava apenas em estar presente no local, olhando e sentindo o doce aroma da pessoa que, uma hora, já esteve tão próximo à si e tão sincronizado à seus pensamentos. Era maravilhoso pensar que, um dia, já chegara a ter alguém do nível. Um dia...

Suspirou, abaixando a cabeça, deixando que sua mente dispersasse por todo o cômodo. E com tal atitude, percebeu a aproximação barulhenta. Irritante, com estalos muito bem conhecidos. Mas estranhou, claramente, a presença de pessoas na casa. Não era o único naquela tarde? Desesperou-se. Apoiou ambas as mãos na borda da mesa e impulsionou-se para trás, levantando com pressa e correndo de imediato para a porta. Não teria tempo, as sombras já estavam no final das escadas. Se ousasse sair do local, seria visto de qualquer jeito. Voltou-se para trás, a medida que encostava a porta, esquecendo-se completamente que a encontrara aberta. E deixou assim. Parou exatamente no meio do quarto, olhando para todas as possibilidades que lhe fora dada. Cama? Banheiro? Armário. Correu. Abriu rapidamente e jogou-se na repartição do armário e fechou a porta, recostando as costas no fundo, na madeira, e diminuindo instantaneamente a respiração, para que não fosse percebido. E ao visto, ação muito bem feita.

Deixou a porta entreaberta, podendo avistar parcialmente a cama, e o banheiro completamente. Respirou estremecido, engolindo em seco a saliva quando a porta do quarto bateu com força, e logo um corpo caindo na cama. Podia ver claramente o perfil daquele que, um dia, repartia os mesmos pensamentos e sensações que si. E rezou que fosse apenas ilusão. Que Uruha tivesse cortado o cabelo para zuar visivelmente Reita, como sempre faziam.

E suas pupilas dilataram-se quando, aquele tal corpo caído, era justamente aquele à qual queria que fosse. Não podia controlar, mas seus lábios estavam a muito separados, abertos, demonstrando sua surpresa e claro desaponto. Seus olhos não o enganavam. Seu coração palpitava. Queria estar enganado, e lentamente fechou completamente a porta do armário. Não era percebido, os sons lá fora eram altos demais. Altos demais...

Deixou novamente as costas colarem a madeira, e lentamente, deslizou até o final do local em que estava, os joelhos dobrados e bem pressionados contra si, enquanto depositava toda a dor mental no lábio inferior, respirando pesadamente e sôfrego. Ferido demais... e não queria admitir porquê. Levou rapidamente as mãos até os ouvidos, abafando grande quantidade de qualquer som que fosse daqueles dois malditos, - assim como amaldiçoou o tempo todo- durante todo o ato que praticavam. A cabeça automaticamente pendeu-se até mais a frente, apoiando-se nos joelhos e cada vez mais traziam as pernas para perto do próprio corpo. Uma posição fetal tão conturbada e frustrada quanto. Provavelmente partido ao meio.

Ruki não agüentava mais ficar no local. Os gritos haviam se intensificado, e sentia-se ainda mais agoniado conforme o tempo passava. Era uma sensação terrível. Sua garganta parecia fechar. E achou um enorme exagero, de repente. Mas tarde de mais quando as pequenas gotas de choro já escorriam em abundância por toda a sua face, molhando seu colo e roupas. Umedecendo completamente cada extensão daquela expressão triste que estava estampada em seu rosto. Lentamente o corpo pendeu-se para o lado, apoiando a cabeça na madeira e deixando que chorasse. Faria bem. E já era costume. Um chorão, que sempre se fazia de forte. Pose de mau. Vocabulário sempre pesado. Mas no fundo, um vaso de cristal.

Com facilidade, quebrava.

E já havia perdido as contas de quantas vezes todo aquele vidro sensível havia se lascado e quebrado. Quantas vezes seu consciente já se perdera, e quantas vezes voltara numa escuridão que, engraçado, sempre lhe rendera boas músicas. Ah Reita... havia à quem dedicar a próxima música, naquele mesmo estilo que sempre seguia.

E parecia que seguia-se uma eternidade naquele local. De tortura e sofrimento, até o instante em que escutara aqueles dois lá fora gritarem em uníssono, fazendo-o estremecer e fechar os olhos com força, cerrando os dentes uns contra os outros, afogando entre as mágoas um deságüe. E sentia que não pararia, e passaria a vergonha de ser descoberto chorando, sofrendo. Fora o momento em que suprira qualquer som que pudesse emitir no simples ato de fechar a boca e afundar a cabeça entre as pernas, tentando quase sem sucesso compassar a respiração.

Gradativamente conseguira escutar o silêncio tomar o quarto, e com isso passara a diminuir ainda mais qualquer som que pudesse fazer. Mordeu forte o lábio inferior e deixou-se sentir o oxigênio fluir de suas narinas até os pulmões, aliviando um pouco a dor que sentia no momento. Mas um pequeno soluço de choro lhe escapou por entre os lábios, num reflexo tão rápido e natural, que a si mesmo assustara, levando rapidamente ambas as mãos até a boca e tampando-a, para que nada mais fosse propagado. Deixou o tempo passar, alguns longos minutos se recuperando inutilmente da situação, até escutar o total silêncio por trás daquelas portas.

Fechou os olhos. Teria de sair dalí, com alguma força que lhe fosse arranjada na hora, e tiraria a mesma de suas próprias entranhas. Empurrou com a lentidão de seu raciocínio no momento a porta, vendo toda a cena bagunçada e a noite caindo com uma rapidez que deixava ainda mais a situação angustiante. Debruçou-se até o chão, arrastando-se para fora do armário e podendo fechar a porta do mesmo sem fazer barulho algum. Sem olhar para a cama. Estava cego por dentro, de tão ferido. Havia se iludido... devia saber. Reita nunca fora de se apegar. Nunca. E não seria com ele a pessoa que tiraria algum tipo de frase romântica dos lábios do loiro.

Com aquela maldita força que juraria arranjar, levantou-se, ficando de pé rente ao armário, fitando a madeira escurecida com algum tipo de sentimento dolorido. Os olhos pesavam na direção do chão enquanto fechava os punhos até sentir a palma da mão ferida pelas unhas. E amaldiçoou-se quando sua vontade de ver aqueles dois na cama lhe invadiu. Queria mais raiva. E sabia que, se visse aquela cena, gravaria em sua mente para sempre. Mas se quer sabia do porquê de querer tanta raiva. Apenas... sem explicação. E num passo a seguir, deixou seu pequeno corpo virar-se para trás, os olhos atentos que perderam ainda mais o brilho quando os mesmos bateram justamente na fisionomia do baixista.

Os corpos tão próximos. As mãos e rosto de Uruha por cima do tórax de Reita, e este com um braço acolhendo o outro contra seu corpo. As pernas de ambos levemente entrelaçadas, e o lençol cobrindo até onde as curvas permitiam.

Ruki estava se sentindo um completo idiota, ficando tanto tempo perdido naquela imagem, perdendo-se ainda mais em suas próprias memórias.

Não. Memórias não.

Vaga lembrança. Era assim que Reita ficaria. Uma vaga... e dolorida lembrança.

Abaixou a cabeça e rumou em direção à porta, não se importando se fazia algum tipo de barulho ou não. Não se importando se seria visto saindo daquele local cabisbaixo, derramando mais algumas lágrimas. Não se importava com muita coisa no momento. E se achava ainda mais ridículo, chorar por algo que sequer tinha algum tipo de pé ou cabeça.

Ah sim. Haviam transado. Havia confiado seu próprio corpo àquele maldito ser que deitava com o primeiro corpo que lhe era oferecido. E por algum momento, se sentira um lixo. E sequer era reciclável. Riu abafado, fechando a porta atrás de si com um pequeno barulho, rumando para as escadas e assim as descendo lentamente, o corpo jogado para a frente, completamente distraído e alheio a qualquer situação que lhe fosse imposta no momento. Estava tão vulnerável que esquecera completamente que com o cair da noite, não ficaria mais sozinho.

Não estava sozinho.

-Ruki?

Uma voz jovem e abafada fora imposta da sala para os ouvidos do menor, que recebera o nome como um trovão à mente, fazendo-o paralisar e olhar de imediato para o lado, assustando-se com a presença espontânea do amigo guitarrista, esquecendo até mesmo que estava com o rosto completamente úmido e levemente inchado pelo choro. Toda essa situação claramente percebida pelo moreno sentado no sofá de costas para as janelas.

-...-raspou a garganta e olhou para os lados, tentando buscar novamente um meio de sair daquela situação rapidamente. Não gostaria de ser visto naquela visão pouco apreciável. E muito menos gostaria de dar satisfações do porquê de estar assim. Seria... desgastante se lembrar de tudo, novamente.

-... está chorando?-indagou o mais velho, levantando-se no impulso até o menor, que recolhera as mãos contra o corpo, dando alguns passos para trás, recuando-se e evitando-o.

- I-iie.-gaguejou, tropeçando num degrau e batendo com as costas na parede auxiliar da escadaria, fazendo-o ter um tipo de pane, parando com qualquer ação que lhe fosse possível, respirando longo e pesadamente enquanto levava as mãos até os olhos, enxugando o rosto rapidamente.

-Pare de mentir.-fora a fala rápida do outro quando ficara a frente do menor, observando-o atentamente, como se analisasse o parceiro.-Morar com você esse tempo todo me rendeu algum tipo de experiência quanto à você.-sorriu sereno e acolhedor, abrindo os braços e fazendo um sinal para que se aproximasse.-Vamos... venha cá.

-...-abaixou o olhar, deixando assim os braços caírem rente ao corpo, um sinal de redenção, e pendera-se para a frente, enlaçando a cintura do moreno como uma criança, afundando o rosto no outro, segurando-o o som de choro, apenas deixando as lágrimas correrem. Até mesmo sua expressão se mantivera aquela séria.-Aoi...-sussurrou, rouco, quase impedido pelas lágrimas.

-Hai...?

Ruki engoliu em seco, fechando os olhos com força, fazendo o impossível para seu coração parar de doer como doía. Era incrível como uma decepção o afetava fisicamente de uma forma assombrosa. Chegava a doer... fisicamente. Soluçou algumas vezes a medida que ia sentindo que logo sessaria todo aquele drama que, à sua mente, já era demais. E recorrer aos outros... nunca fora de seu feitio se afogar nas palavras de outras pessoas. E não seria de agora que mudaria. Iria se recolher, até "sarar" de tudo isso. Como sempre fizera.

-... Arigatou.-falou baixinho, se afastando em seguida do amigo e o encarando infantilmente. Aquele ar que apenas ele tinha de demonstrar uma falsa segurança, sorrindo e apoiando-se no corrimão das escadas, olhando o moreno por cima dos ombros.-Acho que fiquei emotivo demais... com a nova música.-riu abafado, levando uma mão à nuca e visando o final das escadas, subindo algumas.

-...eu pedi para você parar de mentir.-falou baixinho, fechando os olhos e suspirando. Aoi levou as mãos até os bolsos e virou-se de perfil, visando a face do menor que o encarava com uma certa curiosidade.-Descanse bem, Ruki-san.

-... hai. Arigatou.-e assim rumou novamente para a cima, tentando arduamente ignorar aquele maldito quarto que ainda não fizera nenhum som de que aqueles dois haviam acordado. Ficou à frente de sua porta e girou a maçaneta, entrando em seu prório quarto e fechando a porta com calma.

Caminhou até a cama e deixou-se cair pesadamente, e amaldiçoou-se por tantos motivos que já estava perdendo a conta. Não devia ter acolhido a brilhante de idéia de passar o dia em casa. Não devia ter ficado parado na porta do quarto de Reita absorvendo velhas lembranças. Não devia... ter se apaixonado.

E aquela palavra lhe doeu tão forte em suas entranhas que uma expressão de dor ficara exposta em sua face, fechando os olhos com força e deixando um novo soluço lhe escapar por entre os lábios, suspirando em seguida. Se apaixonar sempre significou sofrer em dobro em equivalência ao sentimento. E podia jurar que aquela dor era a pior de todas.

Virou-se para o lado e deixou a face levemente escondida por entre os travesseiros, molhando os mesmos com as insistentes lágrimas que corriam por sua face. Que logo voltou a fechar-se no simples momento em que se lembrou de que, naquela mesma cama, sua virgindade fora tirada da forma mais iludida que sabia. E não mais aguentou-se, desabando em choro, agarrando os travesseiros com força e entrelaçando as pernas à coberta, fazendo uma bagunça de corpo e tecido. Queria expulsar todas aquelas lembranças daquela noite com Reita. Queria esquecer.

Não queria mais sofrer.

"Reita..." Sua mente não o deixava dormir. Recitando tantas vezes o mesmo nome, o assombrando em todas as maneiras. "Reita..." O coração doía fisicamente, os lábios entre-abertos chorando alto, apenas abafando o som com os travesseiros pressionados contra o rosto. "Reita..." E não tinha nem uma semana, e já se ferrara novamente.

-Aki...ra...-chorou.