Capítulo 6:Broken

Kai, como sempre, resolvera levantar tão cedo quanto os demais.

Se arrastava pelos corredores da casa à procura de uma alma viva e, pelo visto, não encontraria nenhuma em plena 10 da manhã.

O que era... estranho, pois se bem recordava e não estava ficando louco, Ruki e Uruha eram as pessoas quem lhe faziam companhia nos dias de semana nas manhãs.

Deu de ombros, dando meia volta e descendo novamente a escadaria, soltando um longo suspiro e batendo mão contra mão, rumando para a varanda, lugar favorito que o acolhia até as 11, pois depois iria fazer o almoço.

E como mania, apanhou debaixo do braço um livro de culinária. Nesse tempo todo à toa naquela casa, acabara lendo mais livros de cozinha do que cifras para a banda.

Isso, com toda a certeza, traria problemas, estava consciente, mas no momento, descansar a mente parecia prioridade. Sentou-se nas raízes daquela enorme árvore que era tão apreciada pelos cinco e recostou-se no tronco, sorrindo sereno e abrindo o livro, vendo o que faria de tarde. Um novo doce, quem sabe. Misturar algumas coisas seria interessante, pensou. E conforme ia desenvolvendo pensamentos, deixou a cabeça pender levemente para trás, num suspiro curto.

-...-se seu bom sentido não tivesse mudado, sentia que a cada dia aquela casa aparentemente mergulhava num tipo de escuridão agoniante e profunda.

Um novo suspiro, agora mais longo, fora dado pelo baterista quando sua mente o avisou de que, ele seria o único a tentar ajudar aqueles quatro... novamente.

-É para isso que servem os amigos.-murmurou fechando o livro depositado-o em uma das coxas, olhando para cima, admirando as folhas da árvore e seu balançar, deixando algumas caírem até o solo, abrindo brechas de luz até sua face.

-... e como líder... guiar os demais.-recitou como um poeta, fechando os olhos e deixando nos lábios aquele sorriso de quem, novamente, havia descoberto inúmeras coisas.

E a hora do almoço, tão esperada pelo baterista, soou.

Havia preparado a comida com um único objetivo: animar os demais. Se dedicou para em tão pouco tempo agradar cada paladar.

Agradeceu o fato do guitarrista moreno sempre gostar de tudo que fosse caseiro e feito com atenção. Kai sempre gostara de cozinhar para aquele ser de sotaque engraçado. Já Reita era seu grande desafio. Nem quando era o que ele gostava o agradava, mas no final o dito comia. Uruha nunca reclamava, mas sempre tinha suas preferências. Já Ruki...

Ops, gente faltando.

-O Ruki-san ainda dorme?-indagou num tom brincalhão, depositando as mãos na cintura, enquanto segurava uma colher, passando o olhar por cima de cada um. Nenhuma resposta.

-Hummm...

-Ontem...-começou Aoi, parando a frase ao pensar um pouco mais, mirando os olhos no teto e fazendo um pequeno bico, sorrindo brincalhão em seguida para os demais.-Ele foi dormir cedo. Estranho.

-...-o guitarrista loiro já estava bem encolhido na cadeira, mordendo com força o lábio inferior,ofegando pesadamente e baixo. Aquele sorriso do outro o fizera tomar um rumo mental que, até então, estava tentando evitar.

E toda a situação só fazia Reita ficar ainda mais apreensivo, mas de imediato fechou a cara, abaixando a cabeça e apanhando entre os dedos os ohashis, brincando com o arroz anteriormente imposto no prato, afastando qualquer pensamento que fosse de sua mente.

-Acho que vou acordar o nosso príncipe adormecido.-riu Kai, colocando a colher em cima da mesa e tirando o avental ,depositando-o em cima de uma das cadeiras, caminhando para a sala ainda com aquele ar brincalhão, subindo as escadas, sumindo da vista dos outros 3, que permaneceram quietos.

Mas não por muito tempo.

-Dormiram bem?-indagou Aoi de súbito, levando à boca um pedaço de peixe cru ensopado de molho de soja, sujando levemente o canto do lábio,o caldo escorrendo pelo piercing até o queixo, deixando uma risadinha escapar pelo acontecido.

-...- o loiro aldo de Reita não poderia estar tão mais apreensivo quanto agora. Seu estômago havia revirado de imediato, e seus músculos estavam todos rígidos, enquanto sua respiração só tendia a piorar ainda mais, o forçando a abaixar a cabeça e fazer um gesto rápido.

-Ahan.-fora a resposta mais seca de Reita nos últimos tempos, fazendo o mesmo movimento do moreno e fazendo de conta que era o único no recinto, chegando até mesmo a apoiar o cotovelo na mesa.

-...-Aoi arqueou uma sobrancelha e voltou sua atenção para o prato, desenhando alguma coisa sem noção na comida e faz um barulho baixo de quando alguém quer atenção.

-Vocês...-começou a frase, recebendo de imediato o olhar de Uruha e Reita.

-..?!

-...vocês sabem o que vem acontecendo com Ruki?-terminou a frase, encarando os dois e, ao ver a expressão de puro medo daqueles dois seres a sua frente, se assustou um pouco, recuando para trás, piscando algumas vezes.-Sabem?

-Ah... é... na-não.-e parecia que aquela presença, para Uruha, só estava o incomodando cada vez mais. Não tinha mais apetite, ou sequer conseguia ingerir o suco que há muito tempo jazia em seu copo.

-...-Reita novamente voltara a abaixar a cabeça, tentando escapar do momento ao agarrar o copo de vidro e levar à boca, bebendo do líquido enquanto escutava com atenção as palavras do mais velho.

-Hn... achei que vocês saberiam.-dizia, apoiando o cotovelo na mesa e a cabeça nas costas da mão, enquanto balançava os ohashis distraidamente. Típico seu

.-Sabem, eu que acabei morando com ele... mas vocês o conhecem a muito tempo,são unidos e tudo mais. Confidentes. -sorriu, os encarando. -Eu esperava uma resposta!-voltou novamente sua atenção para o prato, comendo um pouco do arroz. -Demo, daijobu.

E foi ao término da frase de Aoi que Reita levantou-se bruscamente, batendo o copo na mesa e afastando a cadeira para que pudesse se retirar. A face completamente fechada, o semblante ameaçador e o lábio inferior constantemente mordido. Seu interior estava explodindo! Até mesmo esquecera que atualmente morava com todos os demais, e voltou-se unicamente para Aoi, o encarando com toda a fúria que conseguia, podendo jurar que o perfuraria apenas com o olhar, tirando uma expressão de pequeno espanto do parceiro. E com uma mão apoiada no encosto da cadeira, lançou toda sua raiva em palavras, altas e grossas, cerrando os olhos com a força a qual gritara.

-POR QUÊ VOCÊ NÃO FODE LOGO ELE?! VAI LÁ! APROVEITA QUE ELE ESTÁ DORMINDO, E FODE O TRASEIRO DELE!!

A casa entrara num profundo silêncio. As íris de Aoi estavam dilatadas com o susto perante o grito, e sua boca levemente aberta, não acreditando no que havia escutado. Até mesmo suas mãos haviam se fechado contra a mesa, por pura reação. E sua respiração havia parado bruscamente, pois era o receptor agredido.

Uruha mantinha-se cabisbaixo e pressionava os dedos contra a mesa, encolhendo os ombros , e quando viera o grito, seu corpo todo tremeu, fechando os olhos com força e segurando-se para ser forte naquele momento. Sua fama de chorão não seria bem vinda no momento.

No final das escadarias, Kai havia se apegado ao braço do menor a sua frente enquanto o guiava degrau por degrau, até que a gritaria começara, e assustara-se. Ficou boquiaberto, olhando como podia para a cozinha e vendo claramente os dois amigos se enfrentando visualmente.

Quanto ao menor, parecia sem reação. Havia pego a frase toda, e compreendido completamente, para sua infelicidade e começo de um péssimo dia. Mas que já não fazia tanta diferença, a noite passada havia sido igualmente horrível. Seus olhos e rosto levemente marcados pelas lágrimas o entregavam completamente. E parara toda e qualquer ação que seu corpo fazia, girando a face em direção à cozinha, abismado. Era pior ainda ter a certeza de se sentir iludido. Muito pior.

Reita havia acabado de entregar o corpo do menor a outro em todas as letras possíveis. Ele, que um dia acreditou ter sido especial.

Nem de corpo era especial.

Sentiu os olhos marejarem novamente, como na noite em que tivera sua primeira desilusão. E novamente aquela maldita dor física. Abaixou a cabeça e escondeu os olhos com a franja, levou uma mão ao peito sobre a blusa branca e apertou com força, como se quisesse fazer parar aquela dor que o corroia. Continuou em passos claramente derrotados até a cozinha, a mão de Kai em seu ombro o apertando, parou na porta, fazendo o silêncio aumentar.

Mentira.

Seu choro baixo, recolhido, e pequenos soluços estavam bem claros pelas quatro paredes do local. Soltou-se com facilidade do apoio de Kai e continuou a andar, sentando-se em uma das cadeiras, mais precisamente ao lado de Aoi e deixando um vão, de frente para Reita que se mantinha em pé. Serviu-se de suco, tremendo, quase derrubando a jarra, sendo rapidamente acudido pelo baterista.

-Da...Dai-Daijobu!-a tentativa frustrante de Ruki em tornar a voz rouca e chorosa em sua normal fora completamente mal sucedida, misturando-se completamente, tendo qualquer frase cortada e escondida por um sorriso tão falso que chegara a doer no moreno ao seu lado.

Os olhos de Reita percorreram desde os dedos do vocal ,enlaçados na alça da jarra, até o queixo dele, onde as lágrimas teimavam constantemente em cair. Há muito sua expressão de raiva fora tomada por algo que não podia explicar. Estava ameno, notando com dificuldade cada ação que o outro a sua frente fazia, tentando agir naturalmente, como se nada tivesse acontecido. E claro, aquele choro lhe era conhecido, fazendo-o fechar os olhos e abaixar levemente a cabeça, afastando-se da mesa aos poucos.

-Ruki...-o moreno o ajudou a apoiar então a mão com o copo à mesa, mas não recebendo a atenção com o ato.

-Akira, perdeu a fome?-fora a primeira frase não cortada pelo choro que Ruki conseguira dizer, levantando levemente a face, mostrando-a completamente úmida e depressiva.

-...

-Pára com isso! Se continuar a cortar as refeições e só tomar aquelas malditas vitaminas, vai se prejudicar.-e parecia ainda mais distante. Ainda mais triste.

-... Ru...

-Ruki.-a frase de Aoi passou por cima da de Reita, abafando completamente o que o outro iria dizer, ficando em pé e puxando o menor da cadeira, abraçando-o contra o peito e fazendo um rápido sinal para que Kai empurrasse a cadeira para trás, podendo assim pegar Ruki com facilidade no colo, este parando de falar gradativamente.

-Não precisa me carregar...-as frases iam diminuindo a cada instante.-... eu ainda consigo usar as pernas, Yuu.-e parecia tomar um tom de voz mais sério.

-Não se preocupe quanto a isso.-o moreno o segurou com precisão, virando-se na direção dos dois loiros ainda presentes na cozinha, os encarando seguidamente, com um olhar cúmplice.-...-deu uma última olhada no baixista de cima a baixo, menosprezando-o apenas com esse ato, não precisando deixar uma palavra sequer sair de seus lábios.

-... eu ainda... não quebrei.-e sem mais nem menos, deixou o copo de suco cair por entre seus dedos até o chão, quebrando-o em vários pedaços, e o líquido vazou em todas as direções.

O olhar de Reita rapidamente direcionou-se para o copo quebrado, fazendo-o parar o raciocínio naquele instante.

"Eu ainda... não quebrei". A frase de Ruki repetiu em sua mente, trazendo a si uma seqüência de cenas que, aos poucos, lhe faziam sentido. O copo quebrado agora, e no dia em que... transaram. Na hora, não lhe significava nada, mas verificando bem, e parando para pensar, Ruki se comparava a peças quebradas? Lembrando agora, não havia perguntado do por quê que, naquela noite, ele estivera tão nervoso. E nem depois. E depois. E ainda se fizera de idiota, ignorando o acontecimento ao encontrar Ruki na cozinha minutos depois no mesmo dia. Grande erro.

Lembrando agora, aquele choro era semelhante demais.

E foi num estalar que levantou o rosto e encarou a cena de Aoi subindo as escadas com Ruki no colo, recolhido e tão indefeso que sentia uma vontade inexplicável de correr e o pegar no colo, apertar e o abraçar, pedir as mais sinceras desculpas por sempre agir de forma grosseira.

Mas tinha uma culpa maior. Muito maior. E sabia muito bem o que fizera. Dois erros.

Drásticos erros. Bem que fora avisado por Kai, este que o fuzilava com o olhar, claramente o ignorando. Não tinha tempo e nem vontade de encarar qualquer outra pessoa na casa, apenas a imagem de Ruki sumindo com a pessoa que ele mesmo mandara o roubar de si.

Sim... era tão possessivo, que sem perceber já tinha posto uma enorme etiqueta transparente com seu nome no menor, e apenas ele podia ver. E apenas ele sabia disso. E fora logo ele, quem havia simplesmente entregue Ruki.

Não conseguia explicar, nem ao menos descrever como estava se sentindo. Sua expressão vazia não o denunciava, e sequer seus pensamentos entravam em uma ordem apropriada.

Mas uma pequena lágrima o entregou, mas sequer havia percebido isso, tanto que passou despercebido por meio da expressão que voltava a se fechar.

Retirando-se do recinto para a varanda, passou os dedos por entre os fios da franja, trazendo-a para trás neste único movimento, enquanto mordia com certa força o lábio inferior. Em seguida, abaixou o olhar.

Estava tão certo de que havia perdido Ruki, sem nem mesmo o possuir.

Deixou seu corpo cair ajoelhado por entre as raízes da árvore e apoiou o corpo nas duas mãos apoiadas no solo, deixando a cabeça pendida, os fios de cabelo rentes ao chão.

Não se permitiu chorar, ou deixar qualquer tipo de pensamento dramático o consumir. Já tinha uma extensa idéia de como o outro estava sofrendo por ele, e por provavelmente outras diversas tristezas que consumiam o menor.

As imagens de minutos atrás passaram por sua cabeça como um tiro, forçando-o a cerrar os olhos com força.

Arrependimento.

E então discretamente chorou. Chorou a dor da perda. A pior de todas as perdas.

A perda em que nós mesmos provocamos.