Capítulo 7:"Stay Away"

Aoi suspirou e fechou a porta atrás de si, mordendo o lábio inferior e mantendo o rosto baixo, como se fosse de um quarto de hospital que havia acabado de sair, em seguida ergueu o olhar para a frente, deparando-se com o rosto do baterista. Este estava a muito tempo lá, de braços cruzados e com o corpo apoiado numa das paredes, esperando o amigo.

-...?-a expressão de preocupação do mais novo fora logo captada pelo mais velho, que apenas abriu os lábios momentaneamente e voltou a fecha-los após deixar um suspiro escapar por entre os lábios.

Kai estava preocupado, e se não lhe fosse documentada logo a situação do outro, ficaria louco e entraria no quarto.-...?!

-... ele dormiu de novo.-falou ao receber um olhar ameaçador, se afastando da porta e andando até a pequena sala antes dos quartos, parando em frente à janela enorme, as mãos dentro dos bolsos.

-Ele falou algo mais?-indagou, seguindo o moreno, sentando-se em seguida no sofá com os dedos das mãos entrelaçados, mordendo o lábio inferior.

-Só chorou.-fora a resposta rápida do moreno, que ficava encarando a janela e a imagem depois dela, os ombros bem caídos. Sinal de cansaço.

-Chorou... chorou... e ficou cansado de chorar.-comentou, abaixando a cabeça e balançando-a negativamente.-O que aconteceu, afinal...?

-Além do lógico?-Kai abaixou o olhar e apoiou o cotovelo no braço do sofá, colocando em seguida a cabeça nas costas da mão, pousando o olhar no chão da pequena sala.-...

-É.

Aoi virou-se para o amigo, sua expressão não sendo vista devido o sol que batia e ofuscava a visão de Kai, mas estava tão preocupado quanto o outro. Era quase um dever que sentia pelo o menor de todos.

-Não me esconda nada, Yutaka.-respirou, sentando-se ao lado do outro.-Onegai.

-...-era algum tipo de padrão, ou todos eles reagiam diferente perante o verdadeiro nome pronunciado? O mesmo efeito tocara Kai, fazendo-o sair da posição atual e virar-se para o lado, engolindo a saliva em seco, abrindo a boca e deixando todas as informações vazarem.

Era assim que agiam. Kai sempre sabia demais, e Aoi sempre soubera onde procurar as verdadeiras informações, pois com os envolvidos seria completamente difícil saber. Escutou calado, atento, buscando encaixar cada pedacinho do quebra-cabeça que ele mesmo formava, fechando hora ou outra o semblante, ficando sério até o final. Muito sério, e assim que o baterista terminou todas as confissões, Aoi fechou os olhos e mordeu o lábio inferior com força, suspirando pesadamente.

Um ato de controle próprio.

-...

-Eu não sei o que aconteceu no final direito... mas o grito hoje de manhã foi...

-Entendi.-voltou a abrir os olhos, mirando a janela novamente, hábito que o acalmava sempre.

-O que pretende?-o menor arqueou a sobrancelha, piscando algumas vezes, esperando por alguns segundos a resposta.

-Só segurar o pequeno.-sorriu, mas era um sorriso claramente nervoso, cínico.

Estava levemente com raiva, era normal acontecer isso com Aoi, que era sempre tão estourado.

-Não seria inteligente nos metermos.-argumentou Kai, cabisbaixo.-Mas eu me vejo na obrigação... se é que me entende.-sorriu, gentilmente.

-Uhun.-levantou-se, arrumando a roupa e ajeitando a franja grudada na face, passando a língua por cima dos lábios, brincando com o piercing no caminho.

-E Uruha...? Ele parecia estranho...-comentou baixinho, fazendo bico, olhando inocente e ingênuo para o amigo, sorrindo em seguida e levantando-se ao lado do moreno, o encarando.

-Esse eu interrogo pessoalmente.-mesmo com a atitude infantil do outro, mantivera-se sério e com postura, captando todas as mensagens subliminares do amigo, já iniciando passos para o corredor, visando as escadas.

Kai sorriu e cruzou os braços, seguindo com o olhar cada passo que o outro dava. Aquele sorriso de cúmplice maior de toda a situação, balançando o corpo como uma criança. E quando o moreno ia descer as escadas, pigarreou, chamando-o a atenção.

-Não faça besteiras, Yuu.-falou sereno, porém sério, tendo como vista o perfil do moreno.

-...-parou de andar e girou os olhos até o outro, sorrindo sincero.-Eu sou o único que não age por impulsos. Fique tranqüilo.-e desceu as escadas, sumindo da vista de Kai.

-Humm...

O moreno rumou até a sala, observando-a com atenção e notando que não havia mais ninguém naquele cômodo.

Caminhou até a janela da cozinha e olhou-a , avistando agora, no lugar de Reita, um Uruha cabisbaixo e jogado nas raízes da enorme árvore. Arqueou uma sobrancelha e iniciou passos até a porta para a varanda.Escutou uma segunda porta bater com um pouco de força e, em seguida, a moto sair da casa.

Lógico, Reita.

Deu de ombros e continuou, girando a maçaneta e fechando a porta logo atrás de si, fixando sua visão apenas no corpo jogado de Uruha debaixo da árvore. Analisou-o vendo se era realmente apenas um estado vegetativo de culpa, e continuou sem medo,aproximando-se cada vez mais, até parar ao lado do outro, que, pelo jeito, não notara sua presença.

Era deplorável a maneira como o loiro estava,e não era de agora que vinha notando toda aquela mudança da casa.

Nota Mental: nada de férias em conjunto.

Riu, colocando as mãos nos bolsos da calça e fitando bem as mechas loiras do outro, sorrindo.

-Ei.-chamou-o sem formalidades, um tom de voz jogado, agachando-se ao lado e apoiando os cotovelos nas coxas, o encarando.

Percebeu que não receberia uma resposta tão cedo.

Levou uma das mãos até o queixo do outro e sentiu a umidade em excesso, e sem cerimônias levantou o rosto de Uruha.

-... A...oi...-falou baixinho, desviando o olhar rapidamente, não dando-se ao trabalho de elevar um braço e limpar as marcas de lágrimas. Estava com vergonha.

-O que foi?-indagou, mostrando-se inalterado com a situação do amigo, mantendo a voz séria e repreensiva aos ouvidos de Uruha enquanto segurava seu rosto, o encarando.

-...

Não houve resposta, novamente. O corpo todo de Uruha tremia e suas lágrimas pareciam não cessar, ainda forçando a cabeça para baixo, de forma que pudesse não mais encarar a face cúmplice do moreno, que apenas o deixava ainda mais depressivo com o que havia acontecido.

Se sentia horrível, e sequer tinha controle de seus próprios sentimentos. Estava confuso e com vergonha.

Vergonha de Aoi.

O moreno passou o olhar de cima a baixo, como um perfeito calculista.

Deixou com que o rosto do outro fosse abaixado e voltou a mesma posição, mas não sossegaria até receber todas as informações.

Sua curiosidade o corroia, e a pequena raiva para com parte dos membros da banda apenas aumentava.

Suspirou. Sua mente era um completo vazio, para que não errasse. Elevou uma mão até os fios loiros do outro guitarrista e começou a brincar, alisando-os até a ponta, deslizando os dedos da raí a ponta, deslizando os dedos da raa e começou a brincar, alisando-os atavia acontecido. otovelos nas coxas, o encarando. z até o fim.

Percebeu o quanto o corpo de Uruha novamente tremia, aumentando a quantidade de lágrimas, fazendo-o entrar em desespero.

Aoi notou.

Notou cada reação que fazia ao toca-lo, e por um momento, sentiu-se satisfeito.

Antes que uma das mãos do outro alcançasse a sua, parou o carinho, desviando-se de qualquer toque que o loiro tentara, vendo a mão de Uruha cair na terra,mantendo-se cabisbaixo. Aoi olhou-o por cima. Simbólico.

-Me procure mais tarde, se ainda tem alguma dignidade.

-...

Para Uruha, fora ainda pior a situação que Aoi o metera. Não, ele mesmo havia se enfiado nesse tipo de buraco. Dignidade. Então, aos olhos de Aoi, ele não tinha nenhuma?

Sentiu-se ainda mais lixo... um enfeite. Um enfeite que ficava no fundo e nunca era notado.

Aquela frase o fizera sentir-se partido em dois. Aoi o quebrara completamente.

E por que ligava tanto para que Aoi achava?

Por alguns instantes a conversa com Reita viera a sua cabeça. Quem eram aqueles dois homens que se gostavam a qual usara como exemplo?

Em quem ele estava pensando?

Será que havia se iludido demais?

Não... tinha certeza disso. Havia sonhado demais, isso. Sonhado que sentia-se atraído por Aoi, e o outro sentia algo por ele.

Mas conhecia esse "sentimento". Tesão.

Seu corpo era a atração principal de todo seu ser, ninguém queria conhecer a verdadeira pessoa que existia alí dentro. Eram sempre os mesmos comentários "Belas coxas." , "Rosto bonito." , "Corpo perfeito." , "Curvas do Uruha.". Estava se irritando. Era então por isso que perdera a linha, não é...? Queria escutar um dia "Uruha, você é amável.", mas conformou-se, momentaneamente, dp fato de ser um simples bibelô de estante.

Dignidade? Que bibelô precisava de dignidade?

Riu, levantando-se de forma desajeitada e caminhando em passos lentos e curtos para dentro, olhando apenas e unicamente para o chão a medida que, finalmente, chegara na casa.

Girou a maçaneta que dava para a entrada da cozinha e a transpassou sem dificuldades, olhando em volta e notando a ausência total de todos.

Suspirou, tomando postura e fitando a porta do escritório, sem mais pensar, passou a caminhar até lá, sem nem saber direito por quê logo ali. Mas era a única porta recostada, então aproximou-se, empurrando-a lentamente.

Escuridão total.

-Ora... chegou mais cedo que o esperado.-a voz quase apagada de Aoi se fez presente por todo o cômodo.

-Eu pretendia descansar aqui, e não fazer o nosso encontro, mas...-sorriu, elevando uma mão elegantemente até o interruptor de luz e ligando-o, iluminando todo o local e sua face, que mantinha um sorriso cúmplice.

-...foi o primeiro lugar que me veio a mente.-O mais alto deu de ombros, sem tirar a mão de cima da maçaneta da porta, com a clara intenção de já sair.-Mas eu não pretendia te encontrar.

-Ahn, mesmo?-levantou-se, deixando as mãos confortáveis nos bolsos do casaco e aproximou-se.

-Daijobu. Eu só quero saber o que vem acontecendo nessa casa.-e manteve-se sério. Aquela expressão que dava medo em Uruha, internamente.

-... está acontecendo algo?-engoliu a saliva em seco, desviando o olhar de imediato da face do moreno, empurrando seu corpo contra a porta e fechando-a, cruzando os braços no mesmo instante, tentando manter-se com uma expressão fechada.-Não percebi nada.

-...-Aoi arqueou uma sobrancelha e aproximou-se novamente, agora ficando a uma distância relativamente perigosa para Uruha, inclinando ainda mais o rosto para frente, respirando o perfume do guitarrista mais novo, fazendo sua se pele eriçar.

Para Uruha aquilo tudo que estava se passando era uma tortura, que dava lugar a um desespero cada vez maior. A culpa, e a vergonha, tudo estava se acumulando apenas com o aproximar do outro, e acima de tudo, arrependimento.

Teria que agüentar aquele interrogatório até o fim, sem chorar. O que era típico seu, às vezes. Era fraco demais para algumas coisas. Não tinha base para todos aqueles problemas, e muito menos pessoas para o segurar.

Era assim que se sentia, sem base.

-De novo: o que está acontecendo na casa?-insistiu Aoi, cada vez mais frio aos olhos de Uruha. E o moreno se aproximava ainda mais.

Uruha podia jurar que tinha um sorriso maldito nos lábios daquele ser sem sentimentos, era cruel. Aoi não parava, estava cada vez mais próximo , e mais atrevido.

Era lógico que o outro tinha noção do que acontecia entre eles. Tão lógico... O loiro precisou engolir novamente a saliva e cerrar os olhos com força, segurando o choro.

E quando Aoi percebeu que não receberia uma resposta tão cedo, ergueu a mão até o ombro de Uruha e deslizou até o ante-braço. O toque quente, diferente dos atos e pensamentos, uma deliciosa carícia que seguia-se que, se não fosse a clara intenção de Aoi, Uruha podia jurar que o outro estava o acalmando.

Mas lembrou-se que não, Aoi apenas o tocava para conseguir algo, alguma informação, algo que faria bem apenas para o moreno, e ele sairia perdendo.

Conhecia essa situação, seria usado novamente se continuasse deixando que fosse cruelmente tocado daquele jeito. Gradativamente seu olhar ficara vago, fitando mais o chão, sentindo a garganta dar um nó a medida que Aoi se aproximava de seu pescoço, sentindo todo seu perfume, e como troca, o perfume doce de Aoi invadia suas narinas, o entorpecendo.

Por um tempo, sentiu vontade de chorar... Engolindo o choro, fechou os olhos e deixou-se sentir momentaneamente o carinho falso que Aoi proporcionava.

Como era barato, bastava um tipo de toque, que estava quase amolecendo. Sentiu-se cada vez mais lixo a medida que Aoi o torturava, agora, os lábios do outro tocavam a pele do pescoço alvo de Uruha, fazendo-o estremecer completamente.

Não era justo... sua mente não sistematizava nada no momento, apenas sentia uma pequena pontada na cabeça, uma leve dor, a medida que entreabria os lábios ,e ofegou quando Aoi parou com a boca na parte sensível de seu pescoço. Seu peito subia e descia, mas de uma forma dolorosa. Sentiu-se perder os sentidos quando as mãos de Aoi pousaram em sua cintura, tendendo a descer, alisando-o sem pudor, não suportaria tanto tempo, certamente deixaria que algo acontecesse.

E sabia que erraria... novamente.

Piscou algumas vezes ,lenta e dolorosamente, tentando trazer a sua normalidade a respiração que o condenava. Como era fácil para Aoi, um dia, o tomar.

Sentiu-se fácil, e desvalorizado, sua dignidade sendo cada vez mais drenada pelos toques do moreno.

Se era isso que o outro faria, que tipo de moral Aoi queria impor sobre ele? Sem o encarar, deixou que as primeiras palavras saíssem de sua boca, sem querer.

-Você também é do tipo... que vai usar meu corpo... até conseguir o que quer...?-perguntou, a voz baixa e sôfrega, respirando com dificuldades em seguida.-Vai transar comigo por pura luxúria... e quando conseguir o que procura, me deixar...?-riu, mas era tão lógico que estava fora de si.

-Conheço seu tipo.-Cada palavra parecia fazer Aoi parar os atos e prestar atenção nas palavras do loiro.

De qualquer forma, tudo o que sairia da boca de Uruha era útil.

-... e conhecendo você, Aoi-san...-os olhos negros giraram até encontrar as orbes também negras do outro. Uruha parecia morto, aos olhos de Aoi.-... vai me foder até eu chorar e gritar a verdade que você tanto quer.

-...!-a saliva na garganta de Aoi praticamente travou no meio do percurso. A expressão na face de puro espanto e novamente assustado com tudo o que Uruha falava. Era impressão, ou era o dia de todos o assustarem?

Por mais que fosse calculista, aquelas palavras do loiro não constavam em seus planos, e muito menos que passos tomar. E porque Uruha tinha uma visão tão horrível dele? Certo... não era o mais sentimental de todos, mas sequer passara por sua cabeça que o que fazia era tido como frieza.

-...-Uruha manteve-se por um momento encarando a face branca do outro, mas não conseguia explicar que tipo de sentimento seu coração estava alimentando.

Suspirou, abaixando o olhar e tentando desenhar nos lábios um sorriso fraco, levando as mãos até as de Aoi paradas em sua cintura, tirando-as de seu corpo e se afastando.

-Eu sabia...-sorriu, dando a volta em Aoi e girando a maçaneta, abrindo a porta e vendo o outro guitarrista dar passagem para que passasse.-A verdade é... quero ficar com Reita.-e saiu do escritório, deixando um Aoi completamente perdido em cada palavra dita pelo outro.

Não sabia mais quem havia pego quem, mal sabia se era essa a verdade que procurava. Ainda incrédulo, caminhou de costas até deixar seu corpo cair pesadamente no sofá, pensativo, juntando todas as peças que tinha e tentando montar aquele enorme e complexo quebra-cabeça. Com quem estava lidando no momento? Quem era aquela pessoa que, agora a pouco, estava com ele no escritório? Não era Uruha, tinha certeza disso. O Uruha que conhecia era mais cheio de vida, e menos repreensivo. Elétrico. Nada de sorrisos falsos, que, convenhamos, já estava vendo muitos destes num mesmo dia.

Sorrisos falsos... o que o fez lembrar de Ruki em um tipo de estado vegetativo, sorrindo e chorando, apertando os lençóis contra a palma da mão, amassando a coberta contra o peito, até adormecer. Estava tentando distinguir Uruha de Ruki no momento. Não conseguia ver muita diferença, a não ser o fato de que, Ruki, estava muito mais frágil.

Mordeu o canto da boca, brincando com o piercing, cruzando as pernas e apoiando o cotovelo em uma das coxas, deixando a cabeça sobre as costas da mão, olhando vagamente para a frente. Ele mesmo não aceitaria nenhum tipo de deslize seu. Parou e pensou nos tipos de possibilidades que estavam acontecendo na casa.

Primeiramente aquele estranho acontecimento na cozinha, agora Uruha.

Parou e olhou para cima, uma expressão avoada, pensativa, concentrada.

Sorriu, já sabia, e sem mais hesitar levantou-se do sofá e caminhou até a porta, saindo do cômodo e subindo as escadas logo adiante.Sequer percebera que estava mordendo fortemente o lábio inferior. Ato de nervosismo.

-Ei, Aoi.

-...?-virou-se para a direção que ouvira seu nome, fitando com dificuldade a figura a sua frente, por justamente estar entre ele e a janela com uma quantia exagerada de luz. Apertou os olhos e pôde identificar a silhueta de Reita, se aproximando a cada instante, arqueando a sobrancelha.

-Reita. Nani?

-Quero conversar.-falara seco, parando bem à frente de Aoi, sério, o olhar fixo.

-Deu um passeio bem curto. Voltou rápido.-manteve-se de perfil aos olhos do baixista, sem tirar as mãos do bolso, encarando-o de soslaio. Sem medo algum, até mesmo usando um tom de cinismo.-Que tipo de conversa quer ter?-sorriu, sarcástico, virando-se de frente e andando um pouco, ficando contra o sol. Parecia ainda mais maníaco.

-Ah, deixe-me ter uma idéia. Sobre: como fazer amigos?

-Me escuta.-cortou-o, suportando o tipo de zuação, desviando o olhar para o lado a medida que apertava os punhos.-Hoje cedo...

-Não tente argumentar. Tenho uma vasta idéia do que aconteceu...-Aoi fez questão em o cortar, porém sem desviar o olhar do loiro mais novo, mordendo com um pouco mais de força o lábio inferior.

-...-Reita manteve-se em silêncio, apenas em pensar que tipo de idéias Aoi estava sabendo. Cerrou com ainda mais força os dentes, suspirando em seguida. O grau de arrependimento apenas crescia, e o olhar condenador de Aoi o fazia sentir ainda mais essa sensação.

-De qualquer forma... não se preocupe. Ainda somos uma banda.-tirou as mãos dos bolsos e tirou o cigarro e o isqueiro, levando o maço à boca e tirando uma unidade, ascendendo-a em seguida.-Uma banda com um guitarrista arrependido, um baixista sem vergonha, e um vocalista deprimido.-fez questão em enfatizar o último, lançando um olhar ainda mais pesado sobre Reita.

-Seu...-rosnou, agora fitando o moreno e erguendo o pulso, descontrolado, avançando em passos pesados e lentos para cima de Aoi, apertando com força os dedos contra a palma da mão.-Será que você não sabe calar a boca na hora certa?-e sem perceber, já estava como um animal, mostrando os dentes e encurralando o moreno na parede, que parecia indiferente aquele tipo de ação.-Vou te ensinar a ficar calado, Aoi!-gritou, recebendo apenas uma fumaça de cigarro na cara, enfurecendo-se completamente.-...!!!

-Melhor se acalmar.-falou baixo, respirando, mordendo com um pouco mais de força o lábio inferior.-Antes que eu lhe ensine algo.-e abaixou-se, desviando do soco de Reita contra sua face, vendo apenas a mão do baixista pregar na parede. Agia com total indiferença, sem alterar a face.

-Tsc... você anda me irritando muito.-Reita virou-se na direção de Aoi, preparando novamente o punho para desferir mais alguns socos de graça naquele guitarrista metido a sábio.

-Não fui eu quem deu o corpo da pessoa que ama.

-...

Aquilo fez o sangue de Reita ferver. Era um tipo de tabu, e se arrependia indescritivelmente do que havia dito naquela hora, e Aoi estava usando todas aquelas coisas contra ele, fazendo-o se diminuir ainda mais, como um castigo. Aquele maldito guitarrista estava tentando lhe pregar uma lição? Não conseguiria daquela forma. Se continuasse assim, a única coisa que ele iria conseguir pregar era o punho de Reita na cara dele.

Cerrou os dentes com força e bufou, partindo para cima de Aoi sem calcular exatamente o que estava fazendo. Estava cego de raiva, de ciúmes. Estava simplesmente cego... tanto que mal notara uma das portas se abrir e passos se aproximar dos dois.

Por um momento, sua raiva o cegou quanto a pessoa a sua frente.

-Damero, Akira!-gritou Ruki nervoso, ainda visivelmente acabado, mas disposto a pará-los quanto a briga que estava acontecendo na sala. A imagem que o menor tinha era a de um desentendimento sem nexo.

-Saia, Ruki.-pediu Aoi, as costas apoiadas na parede e seu olhar fixo na pessoa de porte menor, notando a expressão do outro.

-Vaza, baixinho!-o olhar de Reita era fixo no moreno a sua frente, agarrando a gola da roupa do outro; - a qual estava distraído olhando Ruki-, e o lançou contra o sofá, batendo as costas de Aoi.

-Gah...-gemeu de dor, fechando a expressão, tentando imediatamente manter-se em pé, ignorando a dor nas costas, encarando Reita com uma gota maior de raiva.-... está me tirando do sério!

-Yamette o...!-o menor ignorou qualquer frase dos dois, se aproximando e forçando os olhos. A expressão claramente triste, porém nervoso pela briga.

E foi a medida que o pequeno se aproximara que Reita tomara novamente a partida de golpear Aoi, os dois pareciam se devorar em raiva um com o outro, o que não era normal. Ruki apressou-se em agarrar o punho erguido de Reita , e com a pouca força que ainda restava, o impediu de desferir um novo golpe em Aoi; este que olhava fixo os atos do loiro mais velho, os braços erguidos numa defesa, estranhando quando o golpe não viera, erguendo o olhar por cima, avistando o menor deles segurando Reita.

-Eu disse para vazar!-vociferou Reita, agora encarando Ruki. Descontrole.

-Não!-retrucou. Por mais que odiasse quando Reita gritava consigo, manteve-se forte de alguma forma, encarando-o, segurando ainda com força o braço do outro, que em seguida livrou-se.

-Não me faça te bater também!

-Reita!-Aoi gritou, puxando Ruki para seu lado, o protegendo.-Não ouse...!

-Não venha com ignorância para cima de mim.-Ruki cortou Aoi, saindo da proteção e ficando entre Reita e o moreno. E desceu o olhar para o punho do outro que estava novamente fechado, em seguida erguendo-se contra ele.-O que? Vai me dizer que é o troco por eu ter tentado te socar naquele dia?-ironizou, num sorriso maníaco, dando alguns passos para a frente.

-Que dia, nanico?-indagou o pegando pela gola, tirando-o levemente do chão. Percebendo a perda de peso. Ele estava mais leve. Muito mais que o normal. E pela aproximação, percebera a palidez e marca de lágrimas, fazendo Reita entrar mais na realidade.

Que logo fora retirada de si. Ruki debruçara-se com um pouco de dificuldades devido a forma como estava e alcançou os lábios enfurecidos de Reita, tirando dele um beijo que, para Ruki, havia doído ainda mais, se torturando. Pelo susto, o mais velho não tivera tenpo de reagir, corresponder... apenas, ficou parado, espantado, sustentando o corpo do menor no ar, que logo se afastou, cabisbaixo, num sorriso perdido, tendo os olhos marejados.

Era como se, com aquilo, Ruki houvesse tirado todas suas dúvidas.

-...-Reita não podia esconder a leve ofegação, olhando para a face de Ruki entristecida, sua vontade de pedir desculpas voltara. Abriu os lábios numa tentativa muda de falar algo, o colocando de volta no chão.

Incrível como a presença de Aoi parecia inexistente.

Aproximou-se, centímetros dos lábios de Ruki, sentindo a respiração quase nula do menor, e quando achou que podia se redimir, falando ou fazendo algo, fora cortado.

-... este gosto diferente...-começou o menor, sem se afastar, sem se mexer, estático.-... sua pele exala o perfume do Uruha...- e sem freios, deixava as finas lágrimas derramarem uma a uma.-... você é um cretino... procurando uma foda que te agrade...-ergueu a face, encarando-o fixamente, desafiador, depressivo, humilhado.

Nunca se sentira tão sujo quanto agora, mas ao menos tinha a certeza de que não precisava mais se iludir.-...-mordeu forte o lábio inferior e desviou-se da face de Reita, se afastando e caminhando para o corredor, um pouco mais calmo, mas ainda muito atingido.

-Já basta.-suspirou, parando numa área do corredor enegrecida, olhando para os cantos da porta, rangendo os dentes pelo nervosismo das palavras que se formavam em sua mente, segurou-se para não gritar. Na verdade, seu tom de voz saíra quase apagado.

-Me arrependo... profundamente... -Abriu a porta. Tantas palavras, tantas decisões. Sentiu-se como se uma parte de si houvesse sido arrancada, e num último suspiro, deixou a última frase lhe escapar dos lábios. Provavelmente, a mais decidida.

-Fique longe da minha vida.