Capítulo 8: Sweet Heart
Kai bateu a mão no rosto ao término de toda a história.
Como previa, todos naquela casa eram uns irresponsáveis.
Às vezes conseguia tirar Aoi desse julgamento, como agora, o moreno não tinha parte em nenhum assunto, só estava tentando ajudar, assim como ele.
Ambos quase falhando. O mais novo balançou a cabeça de um lado a outro e suspirou, buscando no ar alguma resposta e teoria concreta pra tudo aquilo, sequer podia acreditar no que Uruha havia dito para Aoi, aquela casa estava de ponta cabeça.
-Arg...-resmungou, batendo pela terceira vez, a cabeça no estofado do sofá, realmente não acreditava no que estava escutando. Não acreditava!
-Ele disse MESMO isso??-indagou, tentando escutar de Aoi um "Brincadeirinha" ou o que fosse.
-Uhun.-soltou as palavras por entre a fumaça do cigarro, sem mudar de pose ou desviar o olhar para o amigo, fixo na janela a sua frente, concentrado demais em montar seu próprio quebra-cabeça.
-...-esfregou parte do rosto com uma mão fortemente, demonstrando-se cansado com tudo aquilo, e claramente o guitarrista percebeu, desviando o olhar rapidamente para o amigo, fixando-o.
-Porque se importa tanto?-súbito e inesperado. Esse era Aoi, imprevisível, por mais que o tom de voz aparentasse indiferença, não chegava a assustar Kai, que parou suas lamentações sobre os demais e levantou o rosto, encarando as íris negras do moreno.
-...-os olhos mudavam de direções em constantes piscadas, olhando para os lados, então finalmente para Aoi, vendo que o outro não mudaria a pergunta de forma alguma, sua capacidade de não mentir era enorme.
Não conseguiria esconder a verdade, mas até que demorou um deles se importar com o fato.
-Hum...-sentou-se corretamente, virando o rosto para a janela, fitando a escuridão que estava lá fora, e as chamativas luzes da afastada cidade grande, que não condizia nem um pouco com os dois sentados no sofá.
-Parece curioso quanto à isso.-sorriu.
-Parcialmente.-riu, tragando novamente o cigarro e assoprando a fumaça para uma direção contrária, cruzando as pernas.
-Se faz tanta questão.-brincou, gesticulando levemente os braços, encolhendo os ombros no mesmo movimento e lançando o olhar de volta para o amigo.
-Hn... é.-sorriu, apoiando as costas no braço do sofá e recolhendo as pernas para cima, como uma criança, esperando o outro contar.-Vou precisar de uma coberta? Travesseiro?
-Iie!-riu, dando um soco leve na perna do mais velho, voltando a tomar uma posição ereta, formal, mordendo o lábio inferior, esforçando-se a lembrar dos fatos.-É um pouco... triste. Está disposto?-virou a face para Aoi, sorrindo serenamente.
-Se for mais triste que a desses caras, eu posso chorar?-brincou novamente, inclinando-se para frente, pernas cruzadas, levando as mãos até os cabelos do menor e os bagunçando.-Ei, não se preocupe. Desabafe.-sorriu tão ou mais sereno quanto podia, dando conforto à Kai.
-Baka...-resmungou, encostando-se no sofá e cruzando os braços, como que num abraço, resolveu fixar seu olhar na janela. Conseguiria lembrar melhor aquele fato que o marcara eternamente,e o fizera ser o que era.
Não tivera tempo, e com tudo, jamais teria.
Tarde demais,e ainda matara o dia de trabalho apenas para correr para a cidade natal e procura-la.
Tarde demais.
Correu até a casa em que morara com os pais, procurando algum vestíalgm vestisque morava, procurando de trabalho apenas para correr para a cidade natal e procura-la.uscando no ar alguma respostgio deles para que pudesse recorrer ao local em que o esperavam. Nada. Sequer sabia para onde correr agora. Por tanto tempo, e jamais tivera a coragem de dizer três palavras tão fáceis, e antes, tão obscuras.
Fechou a porta com força e correu pelas ruas mais desertas que o normal. Atravessou ruas e avistara, de longe, um campo com uma única árvore centralizada. As flores não estavam mais lá, diferentes de antes, de quando escutara-a falar a coisa mais sincera de sua vida.
E se corroia por não corresponde-la.
Arrastou-se até a árvore, encostando as costas e deslizando até o final, se sujando completamente, dobrou os joelhos e apoiou os braços, dando um apoio confortável à cabeça, que não recusou-se em descansar alí, cabisbaixo.
O choro baixo de quem se arrependia arduamente dos feitos tortos e mal pensados. Doloroso demais para que ele pudesse agüentar.
-... eu...-seus olhos não facilitavam ver alguma coisa que fosse, as lágrimas insistiam em cair com força sobre o solo bem entre suas pernas, se abraçando fortemente em seguida.-... eu... me desculpa...-repetia, sozinho, segurando-se para não desabar e perder todas as forças, por mais que, agora, fosse impossível se manter forte.
Havia perdido, para sempre, a pessoa que amara sem saber, e só descobrira tarde demais.
Seu arrependimento o consumia completamente.-... eu... não consigo... -e mordeu fortemente os lábios, desabando em choro.
Não conseguia falar as três palavras, mais claras ainda para sua mente.
Não suportava a idéia de que iria recitá-las sem poder ver os olhos dela, sem poder tocar sua mão, sem poder abraça-la após cada palavra dita, assim como ela fizera consigo.
Era triste... triste demais. Não a tinha para dizer a verdade.
Naquele momento, prometeu a si mesmo que não diria as palavras até sarar completamente do ocorrido, e jurou ainda mais convicto, de que pretendia não esquecer.
Havia se amaldiçoado naquela tarde.
Aoi se mantivera em silêncio profundo. Atento. Estático. Não sabia desse lado do amigo, e jamais pensara que havia de existir algo semelhante. Realmente, surpreendente.
Kai o surpreendia.
Ficou encarando o rosto do amigo, percebendo a feição de serenidade no rosto enquanto contava seu passado amargurado, até mesmo azedando sua própria garganta, admirou ainda mais aquela pessoa a sua frente ao ver como ele não se afetava contando o fato.
-Está... conformado?-perguntou o moreno, olhando para o lado, tapando levemente a face com as mechas dos cabelos.
-Não.-sorriu, sem desviar sua atenção da janela, entrelaçando os dedos e pousando as mãos sobre o colo.
-... quanto tempo faz isso?
-Dois anos.
-Ainda está triste?-sentiu-se idiota.
-Eu não diria triste...-suspirou, agora encarando o amigo, sem debochar. Kai era, incrivelmente, doce.-Arrependido.-e levou a mão até a mecha de cabelo de Aoi, tirando-a da face e podendo observar atentamente o amigo, os olhos e a face.
-Eu não disse o que sentia, e quando descobri, e podia falar... não tive tempo.-viu o rosto do amigo entristecer-se levemente por ele, e logo tratou de sorrir.
-Arrependimento é muito pior que tristeza. A tristeza passa um dia, arrependimento é um sentimento eterno, até você fazer o contrário.-afastou-se e deixou a cabeça apoiada no encosto do sofá, quase deitando.-E eu... não posso fazer o contrário.-sorriu.
Aquele sorriso estava começando a incomodar profundamente Aoi.
-Sou um amaldiçoado, por assim dizer, pelo arrependimento.
-...-os olhos de Aoi detalhavam cada expressão que Kai usava, decorando, aprendendo e recolhendo o sentimento do amigo.
-Eu gostaria de poder dizer que sou o único que carrega esse tipo de maldição.-riu, voltando a ajeitar-se na poltrona e brincar com os dedos das mãos.-Porque dói demais. Mas... -suspirou.-... já não tenho tanta certeza.
-Fala de Ruki?-indagou o moreno, apagando o cigarro no cinzero e soltando sua última fumaça por entre os lábios.-Por isso o protege tanto?
-Uhun.-confirmou, trocando de posição as pernas que já estavam formigando pela posição praticamente fixa .
-Diferente de mim, que sofri e me fechei na primeira vez, ele simplesmente se esforça em esquecer.-mostrou-se pensativo, mas era apenas um momento de pausa, tentando se acalmar após recordar o fato de que o perseguia sempre.-E quando sofre de novo, ele se lembra e...
-E fica assim.-terminou Aoi, cortando a frase, levantando-se e limpando o casado de alguns vestígios de cinza, novamente de perfil, descendo o olhar até Kai, que o encarava curioso.-Tudo faz sentido agora.
-Tem certeza?-a voz de Kai saiu baixa, mostrando-se insatisfeito ainda.
-Sim. Por quê?-virou-se de frente, encarando o amigo, as mãos no bolso do casaco já muito amarrotado por todos os acontecimentos daquele dia.
-... nada não.-fez um movimento rápido de olho e abaixou-os, suspirando pesadamente.
Era claro que Kai sabia mais, mas não estava disposto a meter-se ainda mais naquilo, já estava levemente desnorteado com seu passado.
-Só tome cuidado para não se arrepender de algo, Yuu-kun...
-Fique tranquilo.-apressou os passos, bocejando levemente, se aproximando da porta do quarto.-Isso não vai acontecer.
Ninguém parecia querer comparecer ao jantar.
Kai estava bem ciente disso, e portanto, não se dera ao trabalho de pensar no que fazer para os cinco.
Naquela noite cada um se trancou em seu quarto, exceto o baterista, que escolheu apoiar-se na pia da cozinha e olhar para fora, num sorriso levemente apagado.
Não pensara que um dia chegaria a falar sobre seu passado, ou coisa do tipo. Sempre preferiu esconder, e achou que passaria despercebido por todos.
Agüentou aquela lembrança sozinho por 2 anos, e agora alguém sabia de sua vida. Ou ao menos, parte dela.
Sentiu uma brisa gélida acolhe-lo, tocando sua face de canto a canto, empurrando os fios da franja para trás de uma forma reconfortante. Seu coração ainda estava agitado, e precisava tranqüiliza-lo o mais rápido possível. Odiava se ver naquele estado de antes, o mesmo estado que, agora, via na face de todos seus amigos. De alguma forma, porque estava se enfiando nos problemas deles?
Abaixou a cabeça e levou a mão a testa, esfregando-a até os cabelos e os trazendo para trás, num movimento casando, e aos poucos estava descobrindo porquê.
Conseguia ver em cada um, uma parte de seu deplorável passado, e isso o atormentava de uma forma irredutiva.
Inexplicável. De certa forma, era para seu próprio bem mental.
Por dentro... sentia que ele era o único com direitos a passar por esse tipo de sofrimento, não aceitava, de forma alguma, que mais pessoas passassem pela mesma situação.
Era triste demais.
Ficou daquele jeito por um bom tempo, pensando no que fazer de sua própria vida, finalmente, estava dando mais atenção à si mesmo.
Podia lembrar-se com mais clareza o que acontecera naquele dia em que, a pessoa que amava, o deixara sem antes escutar que ele...
E nem em pensamentos ainda conseguia recitar aquelas três palavras.
Bufou, levemente nervoso e levantou-se da posição em que estava, no mesmo segundo em que escutara um som agudo do seu aparelho telefônico, parando imediatamente de filosofar sobre a própria vida. Caminhou em passos largos e apressados até o sofá, jogando-se divertidamente e apanhando o celular em mãos – onde o havia esquecido – atendendo a pessoa atrás da linha, que convenhamos, havia ligado um pouco tarde demais.
-Moshi, moshi?-disse mais alegremente, cruzando as pernas e apoiando um braço sobre o corpo, deitando-se no sofá.
-Kai-san, como tem passado?
-Ahn...?-parou para pensar um pouco, tentando reconhecer a voz atrás do fone.-Bem... e você?
-E você o que? Kai-san, falta uma semana para o show!-a voz do outro lado parecia engraçadamente desesperada, choramingando no final. Claro, o empresário, o cobrando por tempo.
-...-mordeu o lábio para não rir, e respirou profundamente em seguida.-Hai! Hai! Gomen! Acabamos nos perdendo um pouco.
-Um pouco?? Não sabe o quanto está corrido aqui para planejar tudo!-a voz continuava chorosa, e Kai só conseguia segurar com mais afinco as risadas.
-Ca-calma... etto... ahn...-pôs-se a pensar numa forma de tranqüilizar o homem do outro lado da linha, olhando em volta da casa, notando um Uruha cabisbaixo descendo as escadas e rumando silenciosamente para a cozinha, abrindo a geladeira e sentando-se na mesa com um copo de água, tirando as atenções de Kai imediatamente.
-KAI-SAN!!!!
-Ha-hai!?!?!?-saltou do sofá, fechando os olhos e rindo sem graça pela falta de atenção.
-Não ouviu o que eu falei novamente???
-I-iie!! Gomen!!-falava, entre risos.
-Ahhhh, meu trabalho!-resmungou, choramingando novamente.-Certo, vou repetir! E preste atenção agora!
-Sim, sim!
-Amanhã a Van irá busca-lo para nos ajudar no jogo de luz e banners. O repertório igualmente deve estar pronto. Amanhã, às 10.
-Amanhã?!?!?!-bateu a mão na cara, esfregando-a com força.
Não podia deixar um bando de leões trancados numa mesma sela!
-É...é...
-Está decidido. Até amanhã, Kai-san!-e após isso, escutou alguém no fundo gritar. Alguém não, várias pessoas. Provavelmente o local do show. Estavam trabalhando arduamente, enquanto os cinco só se metiam em mais problemas pessoais. O que não condizia com o trabalho.
-Hai... ja ne.-e desligou, suspirando pesadamente e passando o olhar novamente para a cozinha, avistando um Uruha pensativo e absorto em pensamentos que não coexistiam.
Deixou o celular jogado no lugar de antes e levantou-se, caminhando com cautela até a cozinha.
Na altura do campeonato, não estranharia se um dos amigos atirasse uma faca em sua direção. Parou um pouco afastado do loiro, analisando-o completamente, hesitando em falar alguma coisa, percorrendo o olhar do amigo para o local em volta.
Não sabia exatamente o que falar.
Deu a volta na mesa e sentou-se na cadeira um pouco a frente do outro, depositando as mãos em cima da mesa de forma entrelaçada e olhava hora ou outra para o amigo, vendo que, pelo visto, não conseguiria falar nada.
-Na...ni?-a iniciativa vinha justamente do guitarrista, sem mexer-se ou mostrar-se realmente disposto a começar uma conversa. Os dedos bem pressionados contra o copo, levando-o à boca e sorvendo do líquido lentamente, mantendo o olhar fixo para o nada.
-Ahn...-pensou várias vezes sobre o que falar ou argumentar, mas não valeria a pena cutucar ainda mais em algo que machucaria profundamente o amigo, então desviou o verdadeiro assunto.
-É... amanhã... eu vou ter que sair, ficar fora o dia todo. Então...
-Não se preocupe.-a voz do loiro parecia realmente sem a mínima emoção, terminando seu copo de água e levantando-se, depositando-o em cima da mesa e voltando-se para o baterista, que o encarava com certa dúvida quanto a frase.
-... eu não consigo não me preocupar, Uruha.-falava sincero, dando finalmente o ar de líder que lhe fora imposto dês do dia em que entrara para a banda.-Você sabe, todos vocês estão alterados. E não seria sensato largar todos aqui, sozinhos.
-Por quê você acha isso?-novamente, indiferente a qualquer questão. Muito frio.
-Abra os olhos, Uruha!-exaltou-se, levantando da cadeira e chegando até o amigo, pegando-o pelos ombros e o chacoalhando com um pouco de força, bagunçando os fios de cabelos de Uruha.
-...
-Você sabe muito bem o que poderia vir a acontecer!-e subitamente empurrou o amigo contra a pia, que bateu o final das costas no mármore e fez uma careta de dor, assustando-se claramente com as atitudes do outro.
-Aoi e Reita já saíram se batendo hoje a tarde, imagine se o Ruki não estivesse lá para pará-los?!-alterou levemente o tom de voz, relativamente perto do guitarrista.
-E olhe que ele está péssimo! E ainda ampara as brigas da casa!
-...-e parecia um tipo de complô, mas com cada frase, Uruha só conseguia ficar pior ainda. Seu estado foi de mal a péssimo, apenas em observar os olhos de Kai marejarem.
Sentiu-se um fraco. Covarde. E sua vergonha só crescia.
-Está me ouvindo, Uruha??-chamou-o, realmente segurando as lágrimas, afastando-se e tentando ver a face do outro que gradativamente só escondia-se mais por entre os fios loiros do cabelo.-Uruha??
-...-não respondeu, e nem pretendia fazer algo que se assemelhasse em deixar sua voz se liberar.
Abaixou a cabeça até o ponto de esconder os olhos e desviou-se de Kai, passando reto na sala e subindo as escadas apressadamente.
No fim, Kai apenas escutou o bater da porta um tanto quanto forte demais a seus ouvidos. Sentiu-se fora da razão pela primeira vez.
Não tinha nada que se meter no assunto, e já estava enfiado até o pescoço depois daquilo.
Fechou os olhos e deixou o oxigênio voltar a seus pulmões, tomando um pouco mais de controle.
Não conseguia esconder, estava terrivelmente apavorado em deixar os quatro sozinhos na casa, envoltos pela pior situação que já pudera pensar que um dia existiria entre eles.
Mas era um dia apenas, e estava torcendo com todas as forças que, nesse um dia, todos resolvessem criar teias dentro do quarto.
