Capítulo 9: "I´m Sorry."
Lá fora, apenas o guitarrista moreno estava ajudando Kai a colocar as pequenas coisas na Van. Equipamento que faltava e todas aquelas montanhas de papéis despojados de letras e mais letras, cansando até mesmo a vista do mais velho. Este escutando muito bem todas as ordens e precauções a tomar durante o momento em que Kai iria se manter fora naquele dia.
-Hai.-balançava a cabeça afirmativamente, como em sinal de que havia compreendido perfeitamente o que lhe fora passado.
-Então... –suspirou, fechando os olhos e passando os mesmo rapidamente pela casa, mordendo o lábio inferior e fechando a porta do passageiro.-Conto com você, Yuu-kun.
-Fique tranqüilo.-disse calmamente, voltando a colocar as mãos dentro do bolso do casaco, sorrindo como sempre.
-E nada de sair nesse tempo. Conheço bem você!-brincou, fechando o cinto em sua cintura e voltando o olhar para as orbes negras do amigo.-É sério... eu realmente estou preocupado.-respirou, tomando a postura de que, muitas vezes, parecia o mais velho de todos.
-Eu sei. Vou segurar a barra até você voltar.-riu brincalhão, mexendo o corpo para frente e para trás. Uma brincadeira corporal que distraía apenas e unicamente o nervosismo de Aoi.
-Certo...-suspirou novamente e voltou-se completamente para dentro do carro, olhando para a frente, fazendo um sinal ao motorista.-Se cuida, Aoi-chan.-dito, observando bem a cara amarrada pelo apelido carinhoso dado ao amigo.
-Kai-chan.-rebateu, se afastando do carro e erguendo uma mão em aceno.-Ja matta ne.
O moreno ficou a observar a van se distanciar. E com isso, suspirou profundamente quando viu que o segundo round naquela casa estava prestes a começar. Era duro confessar, mas ele estava incrivelmente nervoso com toda a situação. Mas se mantinha calmo boa parte de seu tempo, até atravessar a porta do quarto. Onde o tempo parava, e ele mesmo esquecia de seu auto-controle.
Mas no momento, isso não importava.
Na verdade, a muito tempo ele mesmo não importava. Dava poucas atenções a seus próprios pensamentos e distanciava-se para bem longe da realidade que estava acostumado. Não que fosse realmente incômodo... mas com o tempo, o começava a cutucar. Provavelmente passageiro.
Suspiros.
Deu as costas para a estrada e rumou para dentro da casa, girando a maçaneta com tranqüilidade e lentidão, adentrando na casa e olhando em volta. Uma careta ficou explícita quando seus olhos foram parar na cozinha. Quem iria fazer coisas boas sempre que queriam?? Logo ele, que sempre adorara a boa e carinhosa comida caseira, estava agora a mercê de suas próprias idéias culinárias que, convenhamos, eram perigosas.
Caminhou em passos lentos até seu atual pior pesadelo e fitou bem a pia. Limpa. Lançou o olhar para as estantes. Arrumadas. E finalmente depositou o olhar sobre a mesa, jogando os ombros para frente e suspirando da forma mais pesada que conhecia. Estava arrependido por ter se candidatado em cuidar daquele bando de complexados, pois significava também cozinhar e arrumar a casa. Logo ele!
Se bem lembrava, na casa que dividia com o mais novo da turma, seu quarto era o mais bagunçado. Até mesmo na casa atual que dividia com todos da banda, seu quarto é o mais medonho. Se bem lembrava também, havia roupas até em cima do guarda-roupa. Engoliu em seco a saliva, e declarou-se perdido. E jurou a si mesmo que casaria com alguém organizado, que não acharia ruim em arrumar suas próprias bagunças e que, definitivamente, cozinharia para ele. Caso contrário, morreria.
-Filosofando?
-Ahn?
Virou-se sem surpresa para trás, notando a presença de seu parceiro no palco. Aparentemente de pijamas, calças largas e uma blusa cinza. Os cabelos ajeitados e a ausência de maquiagem deixavam claro algumas marcas que, para Aoi, não pareciam significantes. Tratou de sorrir sem graça ao notar sua posição cansada e levou uma mão à nuca, desarrumando os cabelos atrás.
-Acho que sim.-disse brincalhão, rumando até a pia. Indiferente. Parecia até mesmo que nada acontecera.
-O Kai te faz falta, não é?-indagou súbito, a voz tão seca quanto, enquanto o corpo do loiro apoiava-se no batente da porta. Os braços cruzados e as pernas levemente juntas, e a medida que o mais velho se mexia, seus olhos o seguiam.
-Digamos que sim.-sorriu, apoiando o corpo na pia e agora podendo fitar bem a imagem de Uruha. Um diálogo interessante, constou.
-Hum.-a expressão que ele usara para pensar parecia despojada de descontração, saindo da posição atual e caminhando até próximo à Aoi, porém com destino a um objeto mais ao lado, onde Uruha ergueu o braço e abriu a tampa da panela de arroz, sorrindo abafado.-Ele deixou fazendo.-constou a existência do alimento, passando em frente de Aoi e abrindo a geladeira.-O resto a gente se vira.
-...-apenas as orbes negras do mais velho se mexiam, seguindo o movimento de Uruha por mínimos que fossem, entortando a boca quando se imaginou cozinhando.-Não sei fazer essas coisas...
-Eu sei.-Uruha o cortou, tirando ovos, e a lula do congelador, empurrando com o pé a porta da geladeira, seguindo novamente até a pia. Surpresa para Aoi, que piscou algumas vezes.
-Você sabe cozinhar??-indagou, saindo de seu apoio e encarando bem as mãos do outro que arrumavam um espaço para começar a fazer algo. Não identificado para Aoi, claro.
-Quando eu e o Reita resolvemos comprar um apartamento juntos, tive que aprender.-parecia natural, a medida que quebrava os ovos e puxava do armário rente a suas pernas uma panela.-Era uma zona também. Então aprendi a organizar.-sorriu, ligando o fogão elétrico e colocando a panela sobre o fogo.-Nada tão completo. Mas conseguimos viver lá.
-Humm...-suspirou, atento ao que o loiro fazia. Era acostumado a ficar presente na cozinha sempre que Kai começava a preparar algo, pois gostava de ver como o amigo fazia, e com tal dedicação. Mania, quem sabe. Mas gostava.-Lá em casa, se tem algo caseiro, é o Ruki quem faz...-comentou, lembrando-se das tentativas que fizera em cozinhar.-E é raro. Mas ele faz.-caminhou até a mesa e sentou-se com a cadeira virada na direção de Uruha, observando-o.-Na maioria das vezes, é comida congelada. Ou restaurante. Varia pelo humor.-riu, apoiando os dois braços no encosto da cadeira e deixando a cabeça pesar sobre.
-Você e Reita são muito abandonados.-brincou, cortando a lula e limpando, a medida que, em seguida, a empanava.-Imagino o que aconteceria se ficassem sozinhos numa casa.
-Nos mataríamos.
-...
Uruha jurava que não havia feito o comentário na maldade. Mas de alguma forma, tinha que concordar que muitos assuntos estavam começando a ser regularizados pela situação atual. E não fora mal intencionado o comentário, apenas algo que muitas vezes se comenta sem querer, por impulso. Mas sentira o peso da voz de Aoi, e o quanto ele estava nervoso. Sentiu-se reprimido por alguns instantes, coisa que estava procurando evitar o resto do dia. Por isso arriscara em se aproximar da cozinha quando vira o moreno de costas. Acreditava que podia ter um momento de naturalidade ao lado do amigo. E assim manteve-se em silêncio, suas ações completamente robóticas, terminando de fazer o que acreditava estar fazendo certo e apoiou as mãos sujas na beirada na pia, suspirando longo e pesadamente, as mechas loiras levemente caídas para frente e os olhos cerrados com força.
-Aoi, eu—
-Vamos, eu te ajudo a terminar isso.
A voz do moreno parecia temerosamente mais próxima de sua orelha, fazendo Uruha arregalar os olhos e seu coração falhar monstruosamente. Sequer havia percebido quando o mais velho se aproximara e ficara atrás dele, um braço o tocando levemente pelo lado direito, porém sem a intenção. A cabeça de Aoi quase deitada sobre seu ombro, pesando sem tocar. Uruha sentiu-se um completo estranho com aqueles atos inocentes. E só notara o quanto suas mãos estavam pressionadas na pia quando seu sangue pedia por passagem por entre os dedos levemente avermelhados.
-Uruha?
-... a-ahn... des-desculpa.-pediu, um leve chacoalhar de cabeça, olhando para o lado direito e constando a mão do moreno sobre a tigela de lula, e ergueu o olhar, trombando com os olhos de Aoi.-Pode deixar, eu mesmo termino.-desviou os olhos, tomando em mãos a tigela, evitando tocar Aoi.
-Tem certeza?-deixou o objeto ser tirado das mãos e ficou observando o mais novo se aproximar do fogão e deixar o óleo esquentar.
-Ahan.-a distância parecia boa. Podia respirar com mais tranqüilidade agora.
-Então ta.-Aoi voltou-se novamente para a cadeira que estava, tomando novamente a mesma posição, encarando o loiro de costas.-As férias estão acabando.-comentou, agora os olhos mirados para a janela.
-Ahn... mesmo?-desligado. Uruha estava completamente fora da realidade.
-Uhun. Ligaram para o Kai sobre o show, e parece que está quase tudo pronto. Só falta os ensaios.-falava calmo e compassado, respirando profundamente no final.
-Legal...-distraído. Até mesmo se queimara sem querer com o óleo, mas não arriscou em reclamar.
-Está me escutando?
-Estou.
-Vai me tratar assim em palco também?
-... como?
-Esqueça.-girou os olhos, os parando novamente no corpo do loiro.
-...
-Quer dividir algum pensamento?
-... não sei.
-Quer mesmo ficar com Reita?
-...
-...
Silêncio. Uruha mexia constantemente na comida fritando, enquanto Aoi pesava seu olhar sobre Uruha. O moreno parecia terrivelmente sério, olhando para cada movimento que o outro fazia, constando o nervosismo do outro quando Uruha partiu para pegar uma travessa no armário e sua mão tremeu. Já sabia a resposta internamente. E porquê estava forçando tanto a barra com o amigo?
-Vocês transaram, não é?
-...-os dentes do loiro estavam muito bem cerrados. A respiração tão baixa e a temperatura corporal alterada, o fazendo perder-se em pensamentos tão obscuros quanto o momento que estava passando.-... A-Aoi...
-Era apenas curiosidade. Vocês deixam bem na cara.-pendeu a cabeça para o lado, sem desviar o olhar do outro. Sem mudar a expressão. Sem ligar para si mesmo.
-... não tem preconceito?-indagou. Arriscou tentar conversar, por mais que estivesse completamente nervoso, ignorando isso a medida que terminava seus afazeres culinários.
-Não.-fechou os olhos, sentindo a brisa do término da manhã bater em sua face, os cabelos caídos sobre um dos olhos, brincando com o pircing a qual o material do mesmo parecia levemente gelado.-Eu mesmo já transei com homens.-concluiu, abrindo os olhos e deparando-se com a cara de espanto do loiro.
-...?!
-É, eu prefiro manter segredo.-sorriu, deslizando a língua do objeto metálico até o outro canto da boca.-E aqueles que transei, igualmente juram segredo. Sabe como é... a imprensa pega bem no pé.
-Não chegou a se apaixonar??-indagou, claramente curioso com o assunto.
-Eu?-riu, sentando-se corretamente na cadeira, de costas para o loiro.-Não preciso me apaixonar por quem deitou na mesma cama que eu.-levantou-se, ajeitando a roupa e dando alguns passos.
-...
-Reh...-bufou uma risada, do mesmo local que estava.-Na verdade...
-... o que..?
-... tsc. Esqueça.-balançou a cabeça, virando-se novamente para o outro, que o encarava atentamente.-Vou treinar um pouco. Se quiser, mais tarde, podemos trocar alguns acordes. O que acha?-sorriu, daquele jeito que encobria todos os pensamentos do moreno.
Nada mais Uruha podia dizer, apenas concordar com o convite. Não mataria ninguém trabalhar um pouco e ocupar sua mente tendo sua amada e idolatrada guitarra em mãos. Ah, na verdade, o instrumento o faria ficar melhor.
Passou o olhar pela cozinha e voltou a se concentrar no que fazia. Terminaria logo, e ficaria tudo corretamente preparado para o almoço que ele mesmo sequer sabia do porque estar fazendo o mesmo.
Inconsciente, talvez. Não podia explicar exatamente porque... provavelmente as palavras de Kai ainda ecoavam em sua mente a todo momento.
Igualmente a sua vergonha.
Deixou o corpo ir involuntariamente para trás, sentando-se numa das cinco cadeiras dispersas ao redor da mesa redonda. Sequer reparou que a cadeira em que sentara era a mesma que a alguns minutos atrás era Aoi quem a ocupava. O cotovelo apoiado no encosto da cadeira e a mão dobrada, podendo apoiar a cabeça na mesma com facilidade a medida que encarara a cozinha. E por um momento, sentiu que estava tudo corretamente perfeito na casa. Aquele silêncio dominando, a pseudo paz no local. Seu coração queria aquilo tudo, de uma maneira mais realista.
Estaria longe demais disso?
Não demorou para que estivessem os quatro muito bem sentados em cada cadeira. E Uruha sentia-se na obrigação de ser o elo de paz momentânea do grupo, afinal, se todos ficassem naquele clima um poderia se matar, assim como Aoi mesmo havia mencionado.
E podia jurar que a atmosfera era sufocante. Ainda mais para o lado do menor de todos, que estava acomodado ao lado de Aoi e uma cadeira vazia, enquanto Uruha sentava-se entre Reita e Aoi. Tentaria se matar de agonia, se a situação não fosse contornável.
O guitarrista loiro ficou sentado na cadeira até todos levantarem-se e colocarem os pratos corretamente na pia, para então voltarem a seus rumos de antes, isolados. E agradeceu por nenhuma discussão ter começado. De qualquer forma, sequer começaria. O almoço fora em total silêncio.
Uruha lavou a louça e dispôs-se a andar pela casa. A toa. Nossa, como era horrível não ter o que fazer. E Kai provavelmente só voltaria amanhã para casa. Suspirou pesadamente e começou a subir as escadas após horas sem fazer nada, escutando cada vez mais próximo o doce som do instrumento que mais admirava. Ah... os treinos a qual Aoi insinuara. Seria realmente inteligente arriscar uma nova aproximação?
E quando deu-se por si, estava com a mão fechada, dando leves toques na porta de madeira. Quase saiu correndo dali, se não fosse a agilidade com a qual Aoi abrira a porta, sorrindo perdido, encostando-se no batente da porta e cruzando os braços sobre o peito.
-Então aceitou meu convite.-sorriu, agora saindo da frente para dar passagem ao outro guitarrista, que não sabia exatamente como agir.
-Sim... Caso contrário não estaria aqui.-retrucou, olhando para direções contrárias do moreno, respirando profundamente e tomando dianteira, adentrando naquele quarto que mais parecia uma fortaleza de campo de batalha.
-Não ligue tanto pra bagunça.-riu o moreno, fechando a porta do quarto e direcionando-se para a cama, onde sua guitarra estava deitada com todo o conforto, e apontou de imediato um canto não ocupado da cama.-Senta ali.-falou, percebendo claramente a alteração que o peito do mais novo executou.
Uruha não hesitou, e logo estava sentado no canto limpo da cama, olhando para os lados e tentando entender porquê ainda estava lá. E mal notara o mais velho se aproximar com uma outra guitarra preta, a estendendo para ele.
-Não dá pra tocar sem isso.-falou, sorrindo em seguida e deixando o instrumento nas mãos de Uruha, ajoelhando-se no chão e ajeitando o cabo da guitarra, que estava ligado ao amplificador.
-É...-concordou, seguindo o olhar e em seguida pegando a guitarra corretamente no colo, apoiando os dedos nas cordas e dedilhando para testar o volume. Não era a sua guitarra, mas a de Aoi lhe cabia muito bem, apesar do design da mesma lhe machucar levemente a coxa.
Aoi voltou-se para o local onde antes estava, pegando a guitarra e inclinando o corpo levemente para a frente. Pose, apenas. Achava que daquele jeito facilitava muito, e depois de tocar tanto daquele jeito, suas costas pareciam completamente acostumadas. Apesar de gritarem de dor uma hora ou outra.
E pareciam duas crianças com um brinquedo novo, deslizando os dedos pelas cordas harmonizando toda a melodia, traçando caminhos que parecia lhes agradar, um som inexplicável. Que tão somente poderia dar formato quando a letra fosse adicionada.
Uruha parecia, por um momento, distraído de seus problemas pessoais.
-A guitarra te expressa, não é?-indagou de súbito o mais velho, parando os dedos sobre as cordas do instrumento.
-Hn?-Uruha ergueu a cabeça, encarando Aoi, uma enorme interrogação no ar.
-Você está usando acordes em maior.-sorriu, desviando o olhar e voltando sua atenção para o instrumento.
-...-estava realmente tão distraído que sequer notara a mudança. Tratou logo de formar um sorriso forçado nos lábios e deixar perdido a frase no ar. Não precisava de uma afirmação. Notas maiores eram caracteristicamente tristes.
Por mais que os instrumentos estivessem contrastando aquele momento quase inexplicável para Uruha, ele ainda podia sentir o silêncio mortal entre ambos. Era quase esmagador. E foi pesando nas costas de Uruha que errara um dos acordes, avermelhando-se pelo erro e abaixando ainda mais a cabeça, parando de dedilhar, engolindo em seco a saliva presa na garganta. Só conseguiu escutar sua própria respiração por um curto momento.
Aoi olhou-o de soslaio, notificando o quanto o mais novo estava se alterando, pouco a pouco, com a situação. Balançando a cabeça negativamente, caminhou ainda com a guitarra no colo até uma das paredes, olhando através da janela e em seguida para o contraste que os cabelos claros do outro faziam quando a luz do sol se pondo batia nele. Deixou o instrumento recostado na base e colocou ambas as mãos na cintura, desviando de algumas bagunças que jaziam pelo chão de seu quarto e parou em frente ao loiro. Um sorriso gentil em seus lábios.
-Tudo bem errar.-falou, fazendo a tensão nos músculos de Uruha diminuírem.-Vamos sair um pouco? Eu estava de olho na cidade esses dias, e achei interessante uma parte dela.-dizia, agora dando as costas para o amigo e pegando o casaco no armário.-E como é a sua cidade natal, seria ainda mais interessante sair um pouco.-sorriu, vestindo o casaco preto, que combinava muito bem com a blusa social branca e a calça larga preta.
-...-não sabia exatamente o que responder. Suas orbes dilataram-se brevemente, seu cérebro entrou num tipo de confusão interna. Tentava de todas as formas ver um lado mais calculista naquele convite. Mas não achara. Sua última carta fora se levantar, ficar com a maior cara de bobo e balançar a cabeça afirmativamente.-Tá.
E parecia tudo perfeitamente normal. Parecia que Aoi e ele estavam saindo como bons amigos até um bar qualquer, conversar, beber e dar risadas das boas memórias. Parecia até que o clima baixava sempre que AOI queria, e nada mais. Ele parecia ter esse tipo de força, inexplicável, de melhorar a situação. Mas era superficial. Uruha sabia. Não podia se esconder na segurança que Aoi sempre proporcionava. Ou então, estaria se iludindo ainda mais.
E foi a pergunta "O que estou fazendo aqui?" que se passou na cabeça de Uruha quando sentiu o estofado macio do carro do moreno. Engoliu em seco assim que o motor roncou, rumando para a cidade grande. Movimentada e iluminada. Diferente daquela casa cada vez mais sombria.
-Quer dar alguma opinião sobre onde ir?
-...-Uruha rolou os olhos lentamente, sem mexer a cabeça, até poder "encarar" o outro ao seu lado, dirigindo concentrado com ambas as mãos enluvadas sobre o volante encapado, o cigarro parando no canto da boca do mesmo enquanto aquele mesmo sorriso estranho permanecia. Uruha olhou para o lado oposto, colocando o meio braço para fora do carro e sorrindo.-Algum lugar legal. Qualquer um.
As luzes passavam com velocidade pelos olhos de Uruha, que mal conseguia acompanhar. Estava distraído demais em perder-se em pensamentos alheios e sem sentido. Tão perdido, que perdera o sol se pondo bem na frente de seus olhos.
Chacoalhou a cabeça e ergueu as mãos até os fios loiros para arruma-los após o pequeno passeio "tranqüilo" que Aoi o proporcionou, olhando em volta e notando uma movimentação razoável, um bar fechado, uma música ainda baixa devido o horário. Provavelmente havia acabado de abrir, constou.
Uruha esperou que Aoi estacionasse corretamente, o que parecia uma tarefa bem complicada, já que o amigo estava preocupado em não bater no carro de trás.
Finalmente, destravou a porta e desceu do automóvel, desamassando a roupa em questão e olhando para os lados. Aoi tomou dianteira e já tirava do bolso traseiro a carteira de couro preta, arrancando dela duas notas de dinheiro claramente altas quando Uruha bateu os olhos delas, e em seguida foram parar nas mãos do segurança da frente, e os dedos de Aoi indicavam duas entradas.
-Aoi, eu pago a minha...-o mais novo se aproximou e segurou o braço do outro, fazendo uma cara de inquietação e dúvida quanto aquilo.
-Eu te chamei pra sair. Na se preocupe.-respondeu com aquele maldito sorriso encantador, fazendo Uruha calar-se de imediato e abaixar a cabeça, seguindo Aoi para onde quer que ele fosse.
O local ainda estava claro, e os garçons começavam a andar até pouco tempo atrás, servindo os poucos clientes presentes. Que ao cair da noite aquele pequeno número parecia triplicado, e pouco a pouco o local estava lotado. E a careta de Uruha demonstrava claramente o quanto aquela multidão esbarrando nele estava o incomodando, tirando uma risada alta de Aoi.
-Cuidado para não se sujar.-avisou o moreno enquanto tentava segura as suas risadas, levando até à boca seu provável terceiro copo de mistura alcoólica da segunda garrafa que dividia com Uruha.
-Estou bem sóbrio!-riu o loiro, encolhendo os ombros para que mais uma fileira de pessoas dançando e se esfregando passassem.
-Eu sei que está.-virou o copo, depositando-o na mesa e encarando a pista de dança.-Eu só sinto meu sangue circular mais rápido...-comentou abaixando a cabeça e mantendo o sorriso.
-Você é bem fraco.-comentou o loiro deslizando o copo por seus lábios até termina-lo novamente, apoiando o vidro na mesa e olhando para a frente, na mesma direção que Aoi.
-Você que está acostumado demais a beber.-retrucou, levantando a cabeça e respirando profundamente, se preparando para levantar. E por mais que suas pernas estivessem bem bambas, sua idéia de caminhar até o bar não abandonava se sua mente.
-Onde pretende ir?-indagou Uruha o pegando no braço para que não caísse, se levantando logo em seguida e ficando à frente do moreno.
-Só no bar, pedir a minha cerveja favorita.-riu ao ver a preocupação do loiro para com sua pessoa, deslizando o olhar até a face do mesmo, dando-lhe a devida atenção visual.
-Você já está bem mole, Aoi...-comentou, sereno, dando uma última olhada para a mesa antes de sentir um vácuo em suas mãos.
Virou o rosto bruscamente e viu o guitarrista moreno sendo puxado e repuxado como um boneco por um grupo estranho de menininhas que, por deus, Uruha jurou nem terem a maior idade. Balançou a cabeça negativamente e riu sem graça ao ver o sorriso idiota de Aoi nos lábios. Aquele otário estava sempre daquele jeito, emanando maturidade em algumas horas e esbanjando infantilidade em outras. Aoi era uma criança brincando de médico. E sentiu-se bem observando-o girar e dançar. Corou ao notar que os sorrisos do moreno lhe eram direcionados, e que o braço do mesmo estendeu-se à ele, puxando-o sem mesmo antes aceitar, o trazendo para a pista. E sentiu-se constrangido com o tumulto, passando o olhar a sua volta, sorrindo sem graça.
Mas Aoi não parou. Manteve o sorriso e continuava a dançar. Dança essa que Uruha notara o mexer de quadril que o moreno fazia, trazendo novamente a tona aquela tonalidade avermelhada pelas maçãs do rosto. Quase riu, lembrando-se de um texto que lera, o comparando à Aoi. E quase se bateu quando o término da frase viera à sua mente. Não prestava, nem em pensamentos.
E fora desconcentrado assim que virara um alvo fácil, mal notando quando Aoi se aproximara conforme as garotas se afastavam dos dois, e ficando exatamente à sua frente, deixando as pernas de ambos numa posição paralela. Uma de Uruha entre as de Aoi, e uma de Aoi entre as de Uruha. Aquilo quase fizera o loiro cair para trás, tamanha a vergonha.
Só não acontecera o acidente porque seu corpo tinha algo mais interessante para fazer, observando o moreno rebolar, rente a suas pernas, até o chão. Foi o momento que Uruha perguntou-se se Aoi era o passivo das relações que ele supostamente dissera ter. Era um pouco novo ver o mais velho dançar daquela forma...
-Moreno, bonito e sensual... –falou baixinho, a frase que estava batendo de frente com seu cérebro. E amaldiçoou-se por pensar alto demais.
-Profissional do sexo?-indagou Aoi, levantando-se rapidamente de onde estava, as pernas firmes mesmo que bambas, quase colando o corpo com o de Uruha, aquele mesmo sorriso incubo.
-...-Uruha jurara a si mesmo que, depois de ser pego, jamais acordaria pensando em sua escova de dentes.-É... ahn...-tentou buscar uma desculpa rápida, olhando para os lados, mexendo pouco a cabeça para que a franja cobrisse a face.
-Quase isso.-Aoi rira alto. Tão alto que, se não fosse pela música alta, os clientes lá de fora ouviriam.
-... Aoi, quer beber uma água?-pergunta idiota, mas defensiva.
-Da sua boca?-a frase saíra debochante, ofendendo brevemente Uruha.
-Você está bêbado demais!-defendeu-se, colocando, entre ambos, os dois braços cruzados.
-...-as orbes negras de Aoi abaixaram-se, notando o ato defensivo do outro. E a pouca consciência que lhe restara fora o suficiente para levar até a testa as duas mãos, apertando fortemente as têmporas e se afastando, sorrindo ainda sim.-Me desculpe. Exagerei.-riu, dando meia volta e rumando por entre os presentes da pista, sumindo da visão de Uruha.
Por um momento Uruha quase sentira seu coração na boca. Até o gosto ruim de sangue parecia presente na garganta, arranhando-a, fazendo a saliva descer com dificuldades. Ficara pensativo, olhando na direção que supostamente Aoi tomara caminho, suspirando pesadamente e levando uma mão ao coração.
O que havia sido aquilo?! Sua mente estava tão perdida em pensamentos ilógicos que, sem mais perceber, rumou para a mesma direção que Aoi, achando uma porta peculiar e um vento gelado bater em seu rosto. Arqueou uma sobrancelha ao notar que a saída era para uma espécie de parte aberta do bar, com direito a árvores mal cuidadas, arbustos medonhos e alguns bancos dispersos ao lado de cada poste de luz. E fora exatamente num destes bancos que encontrou Aoi sentado, com um braço sobre o encosto, a cabeça pendida para trás e deixando que apenas o vento guiasse seus negros cabelos. Fora em passos lentos que se aproximara quase mais do que queria, parando em frente à Aoi, que logicamente não notara sua presença.
-Aoi...-falou com extrema dificuldade. Nunca achara que um dia aquele nome sairia de uma forma tão estreita por seus lábios. E ofegou em seguida, abaixando o olhar.
-...-o moreno pareceu acordar de seus devaneios, abrindo os olhos e separando brevemente um lábio do outro, emitindo um som que se assemelhava a seu costumeiro "Humm".
-...-engoliu a saliva enquanto enrolava os dedos longos de uma mão à outra. Sinal de nervosismo.-E... eu sei que... mal conversamos. Mas quando conversamos, os tópicos são maravilhosos. E... –finalmente levantou o olhar, encarando agora as duas orbes negras.-E que ter me chamado pra sair, e tentar se comunicar comigo foi... inexplicável.-suspirou.-Mesmo depois de tudo que aconteceu... você não me tratou mal. Na verdade... nunca me tratou mal. Eu...-respirou mais uma das muitas vezes que sentia necessidade de oxigênio.-Eu... queria agradecer.
-Me perdoa?-fora a frase rápida de Aoi, sem se mexer, ou demonstrar qualquer tipo de alteração. Já estava aparentemente sóbrio.
-...?
-Pelo o que eu fiz dentro do bar. Me perdoa?-e a concentração em fixar os olhos em Uruha era ainda mais convicto.-Eu desrespeitei você. E sua escolha em ficar com Reita. Me perdoa.
-...
A vontade interna de Uruha era de começar uma lista de xingos que aprendera com o decorrer da vida. Mas sua reação fora totalmente contrária à sua mente. Completamente inversa.
Olhou pasmado para o moreno a sua frente e, sem avisos, se aproximou consideravelmente perigoso, dobrando o joelho direito e o colocando em cima do banco ao lado da coxa esquerda de Aoi, fazendo o mesmo movimento com a outra perna e finalmente aconchegando o corpo contra o do outro. As mãos pousadas sobre os ombros, apertando fortemente, enquanto o rosto estava a milímetros do rosto do moreno.
E Aoi não podia não deixar de transparecer toda a sua nova condição. O rosto rubro sem perceber, e os olhos mais abertos, espantado com a reação de Uruha. Estava quase completamente congelado. E até soltaria uma gargalhada interna, afinal, Aoi jamais perdia o controle da situação, mas hoje estava completamente fora de cogitação, mas até mesmo sua mente estava ocupada demais tentando formular alguma reação que fosse.
-Uruha...
-Yuu, eu...-suspirou novamente, aliviando o peso sobre as pernas de Aoi e colando ainda mais o corpo.-... me perdoa, por te amar...
-... –e sem perceber, suas mãos estavam pousadas sobre as coxas do loiro.
-.-.-.-.
Ah! Gomen a demora!
E gomen, Tâmara-chan por não ter te passado esse Cap.! É que eu ando doente, e entrar no MSN ficou meio que uma "Missão Impossível.". Além dos problemas adicionais --'
E eu não podia deixar de passar pra Final de Semana isso.
Mas o Cap. 10 estará em suas mãos (L).
E arigatou pelas idéias 8D (L)
"Oi Aoi 8D" faz voz fininha
