Capítulo 10: Feelings

O som da porta se fechando no andar de baixo fez Reita sentar-se na beirada da cama e passar o olhar da mesinha até a porta, lentamente.

Um momento de reflexão, e uma tentativa de constar a hora olhando diretamente para a imagem da janela afora.

O sol estava se pondo, e aquele tom avermelhado no céu dava-lhe uma pequena nostalgia. Nada que não fosse passageiro.

Firmou os pés no chão e impulsionou o corpo com as mãos para que pudesse ficar em pé com mais facilidade.

Olhou para a regata preta no próprio corpo e tirou algum fio que fosse, direcionando-se até a porta, onde calmamente girou a maçaneta e abriu-a. Só assim para caminhar pela casa. Apenas quando alguém saía.

Quase rogou uma enorme praga em si mesmo quando vira, no mesmo corredor que ele, o menor da turma passar do quarto para o banheiro, ignorando sua presença com uma facilidade que chegava a assustar.

Ficou assim um tempo.

Olhando para a porta do banheiro fechada, estranhamente se remoendo, seu estômago bem sabia o que era revirar com freqüência desde então. A noite passada havia sido, em todas as questões, horríveis.

Se alimentar forçadamente no almoço só ajudou a seu vômito ter algo para preencher a privada.

Estava acabado emocionalmente, o que refletia pouco à pouco em seu físico, mas ninguém percebia. Sabia esconder perfeitamente seu estado.

Suspirou, derrotado de poder ver novamente o menor, direcionando-se para as escadarias, no intuito de poder beber algo. Estava fraco demais, após colocar o almoço para fora do corpo, quem sabe uma boa dose de vitamina o ajudaria a se manter de pé.

E fora em devaneios que nem escutara a última porta do corredor se abrir, Ruki se aproximar em passos cansados, passando por ele e descendo primeiro as escadas. Novamente, ignorando Reita completamente.

Em um curto espaço de tempo, no momento em que Ruki passara por Reita –a qual até parecia que tudo havia parado-, o baixista se sentira mais do que um fantasma na casa.

Estava invisível. Imperceptível. Nem um olhar de desprezo, nem um suspiro, nada. Era ainda pior. Muito pior.

Vago, acordou no instante seguinte quando finalmente o menor sumira de sua visão, o fazendo balançar a cabeça sem muita força e colocar uma enorme quantia de oxigênio nos pulmões, sem perceber a pequena gota de suor feita na lateral de sua testa. Apertou os pulsos e desceu com nem um pouco de calma, e lentidão, parando no final e observando toda a extensão da casa.

Nenhum sinal de Ruki.

Onde ele havia se metido?

E por quê diabos estava preocupado? Até parecia que ele mesmo havia ignorado o mal estar antes passado a segundos atrás.

Respirou profundamente. Na verdade, o único som na casa toda, o dia inteiro, ia ser o barulho dos pulmões de Reita se preenchendo de oxigênio,o que logo o mataria, pois o silêncio era... de todas as formas, torturante.

Chegara até a pensar em ligar o som no volume mais alto, mas Ruki o amaldiçoaria até a sua décima geração.

Pensara em ligar o baixo em seu amplificador, e tocar algo que agradasse, mas se mataria em seguida. Iria se sentir solitário demais.

E lá estava seu estômago, novamente, embrulhando. Seria uma péssima idéia ingerir algo naquele estado, então, a vitamina estava descartada.

Abaixou o olhar e tomou dianteira em seus pensamentos enquanto dava a volta no sofá e jogava-se pesadamente nele, deitando em seguida e apoiando os pés nos braços do móvel. Os braços cansados demais para ficarem atrás da nuca, o que era mania. Apenas os esqueceu ao longo do sofá, um quase caindo do mesmo.

O que faria? Não iria suporta tanto tempo aquela situação.

"Você é um cretino... procurando uma foda que te agrade."

Sem perceber, estava revivendo a situação de alguns dias atrás, a última vez que falara com Ruki.

Não tinha percebido o quanto aquela frase havia o machucado. Não era verdade aquilo. Não era! Não era um cretino, e nem procurava uma boa foda. Ele jamais fora daquele jeito, e jamais seria. Não era verdade!

Mas de alguma forma, era assim que Ruki o via. Era a imagem mais errada que já passara em toda sua vida, não conseguia pensar numa forma de desfazer aquela situação, ainda porquê, não podia negar, havia feito uma enorme besteira. Mas não era assim que deveria continuar.

E o que fazer?

Levou com muito esforço o braço direito até acima da face e o depositou sobre os olhos, fechando-os , tentando quase sem sucesso lhe dar um minuto de paz interior.

Mordia o lábio inferior com força, soltando um pesado ofego ao final do ato.

Mal pôde notar o momento em que Ruki parou logo atrás dele, observando-o com atenção agora que Reita não podia o ver.

Para Ruki, era bem mais fácil o olhar assim, do jeito que sua cabeça conhecia. Do jeito que sua mente formara, e não como a vida o obrigara a acreditar.

Preferia a imagem que criara de Reita do que a que ele criara.

Preferia acreditar, que seu bom amigo estava enfiado em algum canto daquele ser, e sua cabeça só latejava numa proporção inexplicável conforme passava o olhar por todo o corpo de Reita estendido no sofá.

Ruki balançou a cabeça negativamente mecanizando os passos em direção à escada novamente, ignorando mais uma vez a presença de Reita, que agora virara-se bruscamente para trás, tentando buscar a existência do menor. Só pegando-o ao final das escadas. Inalcançável.

Novos suspiros. Era apenas nisso que consistia Reita. Suspiros.

Sua mente sabia claramente que não era assim que tudo iria se resolver, ficar deitado e sentado pelos cantos da casa não "andaria" toda a situação, pelo contrário, só tendia a piorar.

E onde diabos haviam ido aqueles dois?

Preocupação momentânea, até voltar a fechar os olhos e deixar o leve sono lhe pegar. Um cochilo rápido, não o mataria. Ainda que, estava exausto. Não se cuidava desde então.

xxxx

A noite jamais parecera tão inicialmente pacífica quanto agora. Nenhum dos outros dois guitarristas havia dado a graça de aparecer, ou então de Kai ligar.A janta logicamente não ficaria pronta sozinha, pensara Reita, tão largado no tapete da sala quanto, suspirando pesadamente e rolando os olhos em direção à cozinha.

-Ah...-novo suspiro.

A fraqueza eminente nas olheiras, e o cansaço claro devido a forma que se arrastada pela casa desde tarde.

Durante todo aquele tempo não havia visto o menor deles, nem que fosse para ignorá-lo, estava se preocupando.

Nem Ruki estava se alimentando, se bem lembrava todos os passos dados do outro pela casa, no dia que tirara Ruki do chão e recebera o beijo roubado, estava incrivelmente mais pálido e leve.

Não tinha nada que se lamentar e rastejar. Havia uma pessoa pior que ele.

Uma pessoa qualquer não... Ruki.

E por esse simples fato, por ser simplesmente ele, forçou ambos os braços contra o chão e levantou-se, sentindo a pressão cair violentamente. A visão escureceu, mas a vontade de cuidar, e tomar de volta o que perdera, o colocara em pé.

Se é que, um dia, fora dele...

Puxou todo o oxigênio que conseguia até os pulmões e apoiou-se no sofá, fechando os olhos fortemente, tomando a consciência perfeita.

-Arg...!-resmungou, chacoalhando a cabeça e direcionando-se automaticamente até a cozinha, onde encontrara tudo lindo e guardado.

Organização típica e a cara de Uruha.

Passou o olhar vagamente por todo o local, tentando ter uma idéia do que poderia fazer, melhor, como iria fazer.

Jamais dera-se bem na cozinha ou esforçara-se a fazer algo do gênero, e isso desanimava-o rapidamente.

Caminhou em passos lentos até a dispensa e procurou algo que fosse humanamente preparável por uma pessoa como ele. Alargou o sorriso quando, pela primeira vez em toda sua vida culinária, o pacote de macarrão estava depositado estrategicamente na estante.

Apanhou o pacote em mãos, assim como a lata de molho, e conforme pegava as panelas, sal e óleo, ficou imaginando a aparência lógica de uma macarronada.

Mole, afogado em olho, salgado, bem vermelho. Fácil, por algum momento.

Encheu a panela funda com água e deixou ferver, enquanto esvaziava a lata de molho toda numa panela menor, óleo e sal. Talvez fosse assim. Descobriria mais tarde, quando ele mesmo, ou Ruki, reclamasse.

E molho demorava, disso ele sabia. Certo...? Pensando assim, deixou ambas as panelas em cima do fogão e descansou o corpo extremamente cansado sobre uma das cadeiras. Apoiou ambos os braços sobre as pernas e abaixou a cabeça. Sentia-se zonzo.

Suspiros. Estava cansado demais, uma ardência inconveniente na área do estômago que só dava-lhe ainda mais ânsia de colocar o nada para fora.A peça que seu corpo estava lhe pregando fez questão de completar-se, quando inconscientemente cenas e imagens aleatórias do menor lhe invadiu a mente.

Jamais o vira tão belo como quando o possuíra. Jamais admirara tanto a voz do menor como quando o escutara gemer. Chamar seu nome. Transpirar... naquela noite conhecera aquele pequeno corpo em todas suas dimensões, e sentira aquele frágil coração bater de uma forma diferente.

E tudo que fizera foi ignorar todos esses mínimos detalhes, além do problema inicial, que não deu-se ao trabalho saber, fora o motivo oculto de ter adentrado no quarto e ter feito o que fez.

Mas por quê?

Apenas desejo, a procura de uma boa foda, querer o corpo do outro abaixo do seu? Talvez essa fosse a visão atual que Ruki tivesse de Reita, mas não era a verdade.

Não a verdade que, na cabeça de Reita, esvaiu-se erroneamente, e cometera tal erro.

Em devaneios, estava prestes a esquecer de sua presença na cozinha. Balançou a cabeça, na tentativa frustrada de concentração e levantou-se, pegando uma travessa no armário superior.

Dera realidade à imagem que tinha de alguma macarronada.

Observou. Sentia-se um bobo vitorioso pelo fato de ter conseguido fazer algo comestível – ao menos aparentemente – na vida.

Agora, talvez o pior desafio.

Ainda pior que tentar cozinhar: conversar com Ruki, informa-lo que havia feito algo de útil.

Lançou o olhar no relógio ao alto da parede.

Estava tarde, até, para aqueles dois ainda estarem fora de casa, mas agradeceu ao fato.

Ergueu a face e deixou-se respirar uma última e profunda vez, forçando-se a sair do local e caminhar em direção à sala, depois passaria pelas escadas e pararia novamente à frente daquela porta.

Belo plano, se o "final Level" não estivesse descendo no exato momento as escadas. Isso fez com que Reita parasse no meio do percurso e fitasse o menor, que ainda o ignorava.

-...-abriu a boca, mas som algum resolvera propagar-se.

Suspirou e apertou os pulsos, imagem batida de um Reita nervoso.-É...-fechou os olhos e largou os ombros numa postura derrotada.

-...-todo o movimento frustrado do baixista era impossível não notar. Ruki paralisou-se e manteve o olhar pesado sobre o sofá, inconscientemente esperando alguma atitude do outro, rente a euforia.

-É...-Reita não ergueu o olhar, ou então encarou o outro. Suspirou.

Como podia acreditar que Ruki aceitaria algo dele, após tanto?

-...bom. Eu tentei preparar algo pra janta. Eu ia te chamar, mas já que... hum..-levou a mão atrás da nuca, tentativa de distrair seu nervosismo.-...venha jantar.-anunciou.

Ruki manteve-se estático por algum tempo antes de finalmente começar a mover-se lentamente. Em um movimento rápido, desviou o olhar do chão para Reita, então logo voltando a tomar rumo, adentrando na cozinha, seguido pelo mais velho.

-Senta, eu arrumo tudo.-Reita parecia menos nervoso a medida que via Ruki aceitar jantar. Era bobo ficar feliz com aquilo. Algo quase tão insignificante, mas ao menos não sentia-se um fantasma, o que era bem pior. Caminhou pela cozinha recolhendo pratos e talheres, chegando ao lado do menor e ajeitando corretamente. Até sorriu, o que aprendera em PV´s estava colocando em prática.

-...-Ruki continuava sem mover-se. A blusa grossa por cima da camiseta branca o protegia, como escudo, mas ao mesmo tempo dava-lhe um ar ainda mais infantil. E nenhuma parte de seu corpo estava exposto. Observação rápida de Reita.

-... e suco. Cítrico. Só sei fazer esse...-disse baixinho, despejando o líquido em abundância num copo alto.

Assim feito, afastou-se e sentou na cadeira um pouco a frente do outro. Novamente aquela sensação nostálgico.

-É...-pigarreou.-... eu sei que é algo feito por mim e que logicamente nunca me dei bem na cozinha e...

Ruki moveu-se, depositando um pequeno conteúdo de macarrão afogado em molho.

Em são consciência, zombaria o baixista, mas sua condição atual nem o permitia sorrir.

Automaticamente o baixista parecia centrado nas ações do outro, fixando o olhar, e desviando este quando Ruki o encarou profundamente.

A indiferença parecia afogada quando, durante a janta, trocavam olhares.

Conforme o tempo passava, Ruki parecia menos inexpressivo e Reita um pouco mais atencioso. E se isso tivesse ocorrido a algumas noites anteriores, talvez agora estivessem melhores.

Ruki pousou corretamente os talheres sobre o prato –agora vazio- e passou a olhar sobre as suas próprias pernas, pressionando as mãos sobre as coxas logo em seguida, sem que Reita percebesse algum tipo de nervosismo que aquele ato carregava. Suspirou e alcançou com os dedos gélidos o copo de suco, dando suporte com a outra mão, e levando até os lábios vermelhos de molho.

Um exagero de Reita, comentou consigo mesmo, um pouco mais de sal iria bem.

Mas estranhamente, vindo de quem veio, estava bom, nem sabia como agradecer, se é que tinha alguma vontade de o fazer, depois de tudo.

O som da cadeira do baixista se arrastando fora o mais alto do dia todo. O loiro caminhou com o próprio prato até a pia e o depositou com cuidados, voltando-se para Ruki logo em seguida, parando ao seu lado.

-Posso?-perguntou, apontando o prato e copo. E recebera como resposta um balançar frustrado de cabeça, para em seguida perder a visão do rosto de Ruki devido a franja do menor.

Depositou tudo corretamente na pia e voltou a sentar-se na cadeira, pousando as mãos sobre as pernas quase transpirando. Silêncio...

Nenhum pio, nem mesmo a respiração de um dos dois podia ser ouvido. Isso incomodava violentamente Reita, mas antes que qualquer coisa fosse feita, o menor levantou-se, empurrando a cadeira com as pernas e apoiou ambas as mãos na mesa, fitando os dedos. Movimento brusco.

Reita não sabia exatamente o que fazer, não podia negar que aquele era o momento menor pior de todas as situações. E provavelmente sua única chance.

Raspou a garganta e respirou profundamente, levantando-se e notando o claro desespero no olhar do menor.

-Eu queria conversar com você...

-Não temos o que conversar.-ríspido, a voz de Ruki parecia claramente mais fria.

-Temos sim!-argumentou, dando a volta na mesa e ficando a frente do outro, que ameaçava sair do local.

-Não se aproxime!-a mão estendida na frente do corpo numa ação de defesa.

-Porque está com medo de MIM?!-esbravejou, agora a mão direita gesticulando com velocidade, a face em profundo desespero. Se abrir era um parto para Reita, sequer sabia porquê ligava tanto.-Ruki!

-Você me usou!

Os pés de Reita plantaram com firmeza no chão, não conseguia se mover, ou então formular alguma frase. Era uma situação sensível, sabia bem, mas suas emoções estavam descontroladas, e nem sabia ao certo porque sentia uma sensação sufocante o tomar. Súbito.

Seus olhos nublavam a medida que passava o tempo encarando a face de Ruki. Aquela face que desejava tocar e acariciar com todo o carinho que guardava por anos.

Anos...

Todos os anos, passava pela difícil prova de aceitar os namoros de Ruki. O menor nunca se estabilizara em um, e por motivos claros, arranjava mais de uma pessoa por ano. Sempre tão apaixonado... que quando tudo terminava, e Reita o via chorar, seu próprio coração se partia em milhares de pedaços.

O medo de o consolar como queria sempre o impedia. Tinha um medo maior...

Se tornar igual a todas as outras que partiram o coração de Ruki. E, ah, ele era igual a todas as outras. Vendo agora, repensando, provavelmente era o pior pesadelo de Ruki. Pensando assim, sua pele toda eriçou-se num sentimento angustiante.

-Eu não te usei...-a voz mais baixa, tentando se controlar em não gritar, o que era típico seu.

O esforço que fazia com Ruki era monstruosamente enorme, que em certas horas nem ele acreditava que conseguia.

-Usou.-afastou-se mais alguns passos, procurando não chorar novamente. Estava cansado de chorar, de sofrer. Exausto.

-Se você ainda tivesse dito algo depois de tudo, tentando me explicar que esse tipo de relação não é fixa ou séria... que se pode sair com quem quer. Que não se envolve sentimentos...-falhou a voz, respirando com dificuldades logo em seguida.-... então, eu não sou desse mundo de vocês.-abaixou ambos os braços, deixando-os caídos ao longo do corpo, encarando Reita tão sério quanto.

-Já foi o suficiente pra mim... e eu sequer sei porquê me importei tanto. Não faz diferença alguma mais.-ergueu a cabeça, levando as mãos até a franja e a puxando para trás, deixando apenas alguns fios no rosto, para logo em seguida a franja tomar seu lugar.-Você não faz diferença, Reita...

Aquilo atingiu o mais velho como uma facada tão funda e firme em seu corpo quanto quando via Ruki chorar.

Inexplicável, chegava realmente a sentir dor física perante a frase posta entre os dois, o sangue ferver e todo seu organismo rejeitar a nova quantia de alimento. Ruki o faria sofrer e o deixaria doente até o final dos tempos se continuassem agindo como estavam agindo, e provavelmente a situação pararia ali, se a mente frustrada e desesperada de Reita já não tivesse toda uma seqüência de palavras e sentimentos postas à mente do baixista.

Fechou os olhos, engolindo cada palavra e raiva do outro, caminhando em passos nada firmes e lentos, notando que Ruki novamente ameaçava sair do local.

Assim sendo, esticou um dos braços em direção ao pulso do menor, o segurando onde estava.

Os olhos negros do menor jamais estiveram tão abertos e espantados quanto agora, ou desesperados. Tinha medo do que poderia vir a acontecer, ou o que diabos Reita faria com ele. Acreditava em tudo que poderia vir a sofrer sob as mãos do mais velho. E tudo o que sentia agora era a palma da mão do outro pousada carinhosamente sobre sua bochecha, o polegar o acariciando. Seus olhos embaçaram de imediato perante a atitude de Reita. Estava entorpecido e confuso, sua garganta em um nó dolorido e seu corpo paralisado.

-Eu sei que você não acredita mais em mim agora.-sussurrava as palavras, olhando de uma forma completamente diferente a face de Ruki, tendo de abaixar pouco a cabeça para o fazer.-Você faz a diferença pra mim a anos, e nunca percebeu.

-...-estático, era assim que Ruki estava sobre as mãos de Reita. Paralisado e dominado com um toque tão relevante e palavras são reduzidas.

-Só deixei você ver o meu desejo por você.-conforme falava, deixava de fazer força sobre o pulso do outro para deslizar a mesma mão até a cintura, o puxando delicadamente para si. Atitudes que jamais conferiam a sua personalidade normal, mas era Ruki, e apenas este o fazia agir assim.

-...o que quer... dizer com isso...?-as palavras saíam dos lábios de Ruki de uma forma quase inaudíveis e embaçadas. Nervoso e confuso, chegando a tremer.

Seu corpo todo tremeu quando o braço de Reita enlaçou sua cintura, quando a respiração pesada do outro podia ser sentida sobre sua face, e que o coração de Reita palpitava tão fortemente que podia sentir em seu próprio corpo.

-... eu quero você pra mim.

Ruki sentiu-se enfraquecer.

Os olhos marejando e as orbes se afogando na quantia estranha e teimosa de lagrimas que começavam a vir se formar.

O que Reita queria com ele? Porque dessa conversa, tão súbita e sem sentido?

Qual era o sentimento ainda oculto que Reita parecia despejar sobre seu pequeno corpo, trêmulo e confuso?

E pior, o que era esse sentimento torturante que havia crescido com aquela frase?

A cabeça de Ruki girou numa velocidade que nem ele poderia explicar. As pernas quase gritavam para abandonar o corpo, e sentia que a qualquer momento poderia vir a ter um novo distúrbio nervoso. Ridicularmente sentiu-se uma mulher, tonta e fraca. E sentindo-se assim, queria se enforcar, mas o toque suave da mão de Reita agora em seu pescoço e nuca, o puxando com cuidados, parecendo até mesmo que poderia se quebrar a qualquer momento, o fez sentir-se seguro. Segurança estranha e enegrecida pela quantia grande de dúvidas que crescia em Ruki.

Segurança essa que fora interrompida pela porta da entrada se abrindo bruscamente, vozes altas e risadas do escandaloso guitarrista loiro, repetindo seguidas as vezes o nome do outro guitarrista, que respondia a frases curtas e extremamente sensuais, corando de imediato Ruki, que apertou com força o braço de Reita com o susto.

-Aoi... devagar. Não é assim...-gemia Uruha, pendendo a cabeça para o lado dando maior espaço ao moreno, que dava-lhe mordidas e chupadas fortes sobre as já existentes marcas anteriores.

-Seus gemidos... não condizem com seu pedido.-Aoi intercalava frases com atos, fechando a porta ao colocar o corpo de Uruha contra ela, segurando com força os braços,o impedindo de toca-lo. Uma brincadeira a parte.

-...!-Reita arregalou os olhos e pendeu-se levemente para trás, trazendo involuntariamente o corpo de Ruki consigo, o abraçando sem perceber, olhando rapidamente a cena que acontecia na sala.-... Meu deus, eu sabia!-murmurou, voltando para o local que anteriormente estava, completamente em devaneios e alheio a situação.

-...-Ruki não conseguia falar, ou colocar alguma frase em questão sobre situação alguma. Em sua mente, estava tudo de ponta cabeça e pernas pro ar. Tudo o que conseguiu foi puxar levemente o final da blusa de Reita, em pedido de atenção, abaixando a cabeça e escondendo a face.-Reita...

-...-o dono do nome parecia em espectativa com os acontecimentos na sala, até então achar algo que o prendera mais a atenção, encarando o menor, e como flash, toda a sua própria situação parecia o nocautear. Engoliu em seco a saliva e suspirou, ignorando qualquer pensamento que Ruki tivesse dele, ou o que poderia vir a acontecer depois de tudo. Simplesmente, o abraçou da forma mais carinhosa que conhecia.-Me deixa ficar assim com você...-pediu, confortando o outro perfeitamente em seu corpo, apoiando o queixo no topo da cabeça dele e fechando os olhos.

-...Hai...-não conseguia sentir mais nada, além do batimento cardíaco de ambos estranhamente compassado.