Capítulo 11: They are. I´m. You are… memories.
Podia sentir a tensão voltando conforme a van se aproximava ainda mais da casa onde, atualmente, a estadia era revoltante. Não, a casa era perfeita. A companhia em si que era, deveras, desagradável.
Não que estivesse reclamando dos amigos, mas não gostava da infantilidade a qual estavam agindo um com o outro.
Suspirou, agradecendo ao trabalho pesado e pegando as pequenas coisas.
O resto do equipamento havia ficado no local do show, enquanto, em mãos, apenas o lap-top de Aoi – emprestado, com muito custo- lhe ocupava um dos braços.
Acenou, vendo o carro distanciar-se e voltou-se para o sobrado, aparentemente arrumado, nada de gritos ou xingos.
Nem um corpo pra fora da janela, nem sapatos voando.
Bom começo.
Deu de ombros, mas cauteloso.
Caminhou lentamente até a porta, onde, girando a chave e maçaneta, primeiramente enfiou o rosto na frente do corpo, o que, claramente, fora uma atitude sem pensar. Se algo voasse contra ele, o rosto seria a primeira parte a ser ferida.
Essa era a impressão que Kai tinha sobre os amigos: uma guerra.
Encarou primeiramente o aparador, colocando as chaves em cima e voltando-se para a sala, mantendo-se estático, boquiaberto.
Olhando para os lados, levou a mão atrás da nuca e sorriu sem jeito, balançando a cabeça e indo de encontro a porta, trazendo a atenção dos dois presentes na sala para si.
-Perdão, acho que eu... hehe.. errei a casa.-disse, já abrindo a porta trás de si.
-Kai, somos nós.-a voz debochada de Aoi saiu num sucumbo de risada, enquanto trazia para mais perto de seu corpo o de Uruha, que o enlaçava pela cintura.
-Já sei. Fãs invadiram a casa, e vocês são cosplayers. Nossa.. -analisou.-Realmente muito bom...
-Não, sério, somos nós.-insistiu o moreno, agora fazendo um esforço enorme para não rir.
-...-o baterista largou a porta e voltou a caminhar até a sala, passos cuidadosos, analisando por completo a cena que via, não conseguia digerir com facilidade.
Arqueou uma sobrancelha, a medida que sentava-se na poltrona logo a frente dos dois, boquiaberto.
-Certo. Vou agradecer se me explicarem.
Uruha sorriu largo, consideravelmente satisfeito com o resultado final a qual compartilhava agora com o guitarrista moreno. Cruzou as pernas de modo feminino, passando o braço livre por cima do tórax de Aoi e aconchegando a cabeça no ombro dele.
-Nós... conversamos.-poucas palavras ditas pelo loiro, que parecia mais concentrado no rosto de Aoi do que a qualquer outra coisa, em transe, tamanha sua atenção dada ao outro.
-Na minha cabeça, vocês fizeram mais do que isso!-riu o mais novo, se ajeitando na poltrona.
Nem havia notado, mas o ar na sala estava deveras muito mais leve do que estava acostumado. Sentia-se, sem palavras, a vontade.
-Vamos! Me expliquem!-sorriu.
-Resolvemos sair ontem, assim que você partiu.-começou Aoi, mantendo seu sorriso costumeiro.
-Uhun.-Uruha concordava, esfregando-se.
-Fomos à uma boate.
-Uhun.
-Bebemos.
-Uhuuun.-sorriu ainda mais largo.
-Tivemos um pequeno choque...-levou os olhos até o teto, mordendo o lábio inferior tentando buscar uma palavra mais apropriada para se explicar.
-Corporal.-completou Uruha, quase ronronando.
-A conversa mesmo, foi só hoje de manhã.-sorriu, natural.
-...-Os olhos de Kai vagavam por todo o local, passando dês as atitudes de Uruha até as de Aoi, pela casa, sala, escadas.
-Vocês me surpreendem.-riu, cruzando as pernas.-E fico feliz que tenham se resolvido! E...-fitou Aoi, quase assassino.-Você saiu!
-...-o sorriso ficara amarelo, levando até a nuca a mão livre, bagunçando os cabelos semi-curtos, lisos, fazendo-os arrepiarem levemente.
-Eu... ahn... foi inevitável.-defendeu-se.
-Ahhh, mas você não tem jeito mesmo, Aoi!-indignou-se, levantando e indo para a cozinha, porém ainda sorrindo.
-Vou fazer algo para comermos. E vocês...-virou-se para ambos estáticos, o seguindo com o olhar.-... Parabéns.-riu, piscando, fazendo os dois guitarristas avermelharem.
Assim que Kai retirou-se e começou sua costumeira bagunça na cozinha, Aoi virou-se para Uruha, levemente rubro pela indireta dada pelo amigo, deparando-se com a face escondida do loiro em seu peito. Sorriu, depositando um beijo nos cabelos do outro e o apertando levemente na área do ombro, onde sua mão estava pousada o enlaçando com o braço.
A reação foi de imediata, porém lenta.
Uruha levantou a face levemente, mostrando apenas os olhos, que fitavam sem escrúpulos algum, escondendo as maças do rosto ainda vermelhas graças as dobras exageradas do blusão de Aoi.
-Hun?-ronronou, inclinando-se ainda mais sobre o moreno.
-Olhando você.-a mão livre fora erguida até alcançar o queixo do mais novo , erguendo sua face, podendo finalmente ver a tonalidade rosa que predominava na face de Uruha.-...
-...está me desconsertando, Aoi.-murmurou baixinho, automaticamente se aproximando ainda mais dos lábios de Aoi que, aos olhos de Uruha, lhe eram um pecado tentador.
-São pequenas vinganças pelo que você me faz passar em palco. Acostume-se.-revidou, alternando o olhar entre os olhos naturalmente amendoados do loiro e seus lábios, úmidos após Uruha fazer a graça de lambe-los provocantemente.
-Humm...
O sorriso era de diversas forma interpretado, porém apenas na cabeça de Uruha podia conter o significado mais puro que conseguia. O mais limpo e claro de toda a sua vida.
Estar com Aoi, e poder toca-lo era de diversas forma acolhedor, por mais que não tivesse acontecido o fato mais cedo, estava feliz. Por mais que a situação não fosse tão clara, ainda assim estava feliz.
Quando via o moreno passar, sentia aquele estranho incômodo no estômago, ou quando lhe era direcionado olhares incoerentes, fazendo-o sorrir de volta.
Era apenas isso, que conseguiam trocar quando não havia um instrumento entre ambos. Notou que o diálogo era praticamente dispensável, e os sorrisos e olhares compensavam toda a ausência de palavras.
Aoi traçou a linha dos lábios de Uruha com a língua até o ponto de te-la capturada pelos dentes do loiro. Introduziu a língua à boca deste, colando os lábios lascivamente a medida que moviam as línguas numa dança erótica.
Mordeu, em meio ao beijo, o lábio inferior de Uruha, trocando a cabeça de lado e explorando-o ainda mais, por completo, escutando um gemido abafado quando sua mão percorreu a extensão da perna dele, apertando a parte interna da coxa.
-Aoi...-um novo gemido, agora tentador devido ao som coerente.
-Hn?-continuou os beijos, agora descendo pelo pescoço e mordendo-o, chupando com uma considerável força.
-Ah..!-contorceu-se, apertando o ombro do moreno ao sentir a ardência e a redenção de seu sangue sendo puxado até o pescoço, e só não transpassando a pele porque não havia furo algum, era apenas o que faltava.
-... ahhh... você me marcou...-choramingou, levando a mão até o pescoço assim que lhe fora dado a permissão de se afastar.
Aoi não dera a resposta perante o choramingo do mais novo., estava centrado em fitar o ser que descia as escadas desatentamente. Sério, o seguiu com o olhar.
Reita nem se dera ao trabalho de notar o olhar pesado do moreno sobre sí, estava preocupado demais em tentar arrumar os cabelos bagunçados e puxar a calça que teimava em cair.
Bocejou e passou pela sala, indiferente, murmurando um "bom dia" tão perdido quanto, indo diretamente para a cozinha., parando estático ao ver o baterista de volta à casa.
-Ahn...-arqueou a sobrancelha, encostando-se no batente da enorme porta, deixando o peso do corpo a mercê do ombro.
-Bom dia pra você também, Reita.-riu, terminando de cortar a carne do yakissoba.
-Bom dia...-murmurou, era a única coisa que conseguia, desde muito tempo.
-Como passaram o dia sem mim?-direto, sem encarar o baixista falsamente loiro, sorrindo discretamente.
-Porque o plural?-indagou.
-Resolvi perguntar sobre Ruki também.
-...
Resolveu não perguntar. Estava naturalmente exausto demais para responder a tais coisas.
Apoiou o cotovelo na mesa e assim segurou a cabeça com as costas da mão, passando o olhar pela cozinha até a porta para o quintal, suspirando pesadamente.
Aparentemente cansado, logicamente cansado.
Foi então que resolveu novamente se levantar, abrir a geladeira e apanhar a primeira fruta que vira em sua frente. Abocanhou e saiu de lá, ignorando um Kai dando-lhe inúmeras broncas sobre que não deveria comer coisas antes de almoçar devidamente.
Passou reto nos dois pombinhos, que pareciam claramente felizes.
Sentiu inveja, por não estar nem perto desta possibilidade, já os dois, em apenas um dia, se reconciliarem, como se fossem amantes a muito mais tempo.
Na verdade, sua situação estava longe de estar clara.
Seguiu rumo pelas escadas, passou batido pela pequena sala com a grande janela, aproveitando para arrumar a franja no meio do corredor, parando rente á última porta.
Engoliu em seco a saliva, assim como o pedaço de carambola importada, pois era melhor. Dês a pequena cena que fizeram na cozinha, levara Ruki para o quarto e o deixara lá para dormir. Sequer ameaçou tocá-lo com segundas intenções, e só não ficara até tarde o esperando dormir, porque sua própria condição física estava de mal a pior . Agora queria verificar.
Sem permissões, sério, e com a cara amarrada de sempre, abriu a porta, adentrando no quarto e encontrando-o estendido sobre a cama, a coberta jogada para um lado, enquanto ambos os braços envolviam com força um dos travesseiros.
Reita achou, sem maiores detalhes, fofo. O menor parecia no seu melhor sono, depois de tudo.
Caminhou lentamente, dando a volta na cama, e sentou-se no chão, cruzando as pernas e apoiando um dos braços sobre a cama, enquanto o outro braço movia a fruta em direção à boca, degustando-a enquanto o observava.
Hobby estranho, constatou, mas duplamente gostoso.
Riu.
Os lábios do menor estavam desenhados num singelo sorriso, o semblante sereno, perfeitamente infantil e atrativo.
-Não sei em que momento vou ser perdoado... –sussurrou, mais para si mesmo do que para o outro adormecido, abaixando a cabeça e a apoiando com leveza na cama.-... mas vou ficar te esperando... Takanori.- Sorriu, esquecendo-se que se alimentava, ou que tinha fome.
Ficar ao lado dele, o fazia perder qualquer vontade, e apenas querer estar ali.
Quando ergueu a face, lá estava ele, exatamente a pessoa que lhe invadia a mente com ainda mais freqüência, o encarando sonolento, sereno, constrangido.
As bochechas bem a mostra avermelhadas, e os olhos percorriam cada traço de seu rosto. Reita quase podia jurar que estava rubro, com aquele tipo de olhar tão penetrante, talvez tivesse sido escutado. Talvez não.
Ou quem sabe, não compreendido, mas antes, teria de dar um motivo para estar sentado no chão, apoiado na cama do menor e sussurrando incoerências.
-Saia do chão.-ronronou Ruki, abraçando com mais força o travesseiro e se afastando um pouco, dando o devido espaço.
-...?-Reita ergueu o olhar um pouco mais, tentando desvendar o que era aquele afastamento, e aqueles olhos nublados.
-A cama é mais confortável.-novamente em pequenos murmúrios, escondendo as maçãs do rosto atrás do travesseiro. Escondendo seu constrangimento.
-... posso?-indagou, levantando-se.
-Se me fizer te chamar uma terceira vez, vou te tacar esse travesseiro.-resmungou, fechando a cara e puxando a coberta sobre o corpo, deixando um pedaço grande para Reita.
Um sorriso singelo fez-se nos lábios do mais velho, sentando-se na beirada da cama para, seguidamente, deitar no espaço dado, apoiando a cabeça numa das mãos, observando atentamente o menor ao lado, que puxava a coberta até a ponta do nariz, igualmente o encarando de soslaio.
-Hum?
-Nada.
-Então porque está me olhando?-levemente rude.
-Uma mania antiga minha.-retrucou, suspirando pesadamente. A atmosfera ainda não estava apropriada.
-Hn...-voltou os olhos para a frente, finalmente soltando a coberta e a repousando sobre o peito, encarando pensativamente o teto.
-O que foi?-indagou, finalmente se ajeitando.
-Nada...-sussurrou, voltando a girar os olhos na direção do mais velho.-Kai chegou?
-Uhun.
-Quando vamos ensaiar?
-Acho que logo. O Show não demora.
-Ahn...-revirou-se, ficando de costas para Reita, abraçando fortemente o travesseiro.
Ficaram em silêncio por algum tempo, a atmosfera os engolindo gradativamente, um pouco pesada, mas provavelmente muito menos do que estava antes.
Reita não sabia se agradecia por estarem meio caminho andado, ou simplesmente se amaldiçoava toda a sua vida. Se sentia jogado num mar de situações embaraçosas, e Ruki em cima como um náufrago gritando.
Gritando...
Ainda conseguia sentir o menor recatado e reservado, certeza essa, que fora esquecia apenas ao perceber o menor virar-se para si, sorrindo um pouco mais calmo, mas ainda sim escondendo a face com as cobertas. O que Reita fez questão, automática, de estender a mão e tirar esse empecilho de sua frente, avistando a face do menor com mais facilidade, este, corando.
-Temos ensaio amanhã.-as palavras praticamente foram sussurradas, porém estava mais perdido em observar os traços do rosto do menor do que qualquer outra coisa.
-Temos?-retrucou. A ausência que estivera praticando era tanta que estava completamente fora de órbita.
-Ahan. Me biparam enquanto eu dormia...-resmungou, revirando os olhos e fazendo uma careta.-Mandaram eu avisar todos. Algo deve ter acontecido com o bip de Kai...-comentou, pensativo.
-Algo deve ter acontecido com todos os nossos bips.-brincou, claramente mais a vontade, e distraído o suficiente que mal percebeu quando a mão de Reita lhe tocou a face, instantaneamente o fazendo calar-se.
Estático.
Ruki não conseguia mover-se, e podia jurar que até mesmo sua respiração havia parado.
Não se lembrava em momento algum quando precisara de tanto oxigênio, saindo sôfrego por suas narinas, e voltando por sua boca. Um movimento errado, mas com coerência a todas suas reações assustadas.
Não que estivesse realmente reclamando, mas não estava preparado para agüentar novamente ser tocado por ele. Seus olhos teimavam em marejar.
-Reita...?
-... Ahn, perdão.-abaixou o olhar, recuando os dedos da bochecha esquerda do menor, soltando um longo e pesado suspiro em seguida. Havia ido... longe demais?
-...-e nunca agira tão por impulso como agora. Estendeu suas mãos em direção à de Reita ainda suspensa, a acolhendo entre as suas, trazendo para perto do peito, segurando com firmeza enquanto os olhos se fechavam.
Aquela imagem indefesa, buscando segurança em apenas segurar a mão de Reita, o fez quase tombar para a frente e o trazer para mais perto do próprio corpo. Quando Ruki se tornara tão alheio à tudo, que mal percebera?
Por um bom tempo conseguiu se culpar, mas lembrara-se vagamente do dia em que o menor estava extremamente irritado.
E a vontade de saber lhe subiu à mente, a consciência lhe mandou insistentemente não perguntar.
Os olhos voltaram do desfoque em que sua mente sempre os levava, e abaixou o olhar ao encontro do corpo do mais novo que gradativamente, e com certo receio, se aconchegava. O deixou agir sozinho, tendo em vista que seria melhor ele escolher o que fazer. Quando estava prestes a mergulhar em um novo pensamento aleatório, a respiração de Ruki estava chocando-se com a pele de seu pescoço. Calmo e lentamente.
Sentiu a própria mão solta pelas do outro, que voltar a dormir como antes, agora visivelmente mais calmo, fazendo o interior de Reita sorrir com aquilo.
Com a mão livre, levou-a para trás do menor, o puxando ainda mais perto, encaixando-o ao seu corpo. Perfeitamente.
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A porta do quarto do vocalista fora aberta com rapidez e velocidade, batendo até mesmo na parede atrás da madeira, quase estourando o pino. O ato fizera praticamente o inquilino cair da cama tamanho o susto.
Ruki não se assustara. Estava tão ocupado em se concentrar no sono ainda pouco perdido, que espreguiçava-se sobre o colchão, amassando e retorcendo todo o lençol, assim como derrubando um travesseiro sem querer no chão.
Murmurando, ronronando, se abraçando a um pedaço da coberta e voltando a fechar os olhos em meio a resmungos.
Reita, que estava praticamente estirado no chão, chacoalhou a cabeça, semi-cerrando os olhos e procurando algo concreto e que o fizesse acreditar que estava onde estava, e como viera parar lá.
Suspirou, levantando-se parcialmente e apoiando-se na beirada da cama, olhando diretamente para a figura de um Kai mal arrumado e aborrecido.
-...- No momento, nenhum motivo lhe viera a cabeça. Tão cedo...
-Reita, como você pôde?!-Indagou, caminhando até a cama do menor e pousando a mão sobre o ombro dele.
-...quê...?-com as mechas claras mescladas ainda arrepiadas naturalmente, forçou os olhos a se manterem abertos. A primeira coisa que viera à mente fora o fato de ter se aproximado de Ruki novamente.
-O ensaio.-rosnou o guitarrista moreno na porta, acompanhado de seu travesseiro numa imagem infantil. Os cabelos completamente amassados, as olheiras expostas devido a falta de maquiagem e o olhar praticamente assassino. Odiava ser levantado tão cedo, e tão a força.
-...-o baixista engoliu em seco, mordendo a parte interna do lábio inferior ao lembrar-se realmente que havia esquecido de avisar a todos. Provavelmente ficara tão entretido observando o sono do menor, o jeito como ele escrevia músicas, as conversas aleatórias e, novamente, o convite para dormir junto à ele. Era tentador demais, esquecera de avisar.
-A Van está lá fora nos esperando, Reita!!-berrou novamente Kai, descabelando-se, desesperado, enquanto chacoalhava sem forças o menor, que novamente ronronou, recusando-se à acordar.-Por deus... como vou acordar esse daqui...?-suspirou pesadamente, voltando-se para a porta.-Aoi, já levantou o Uruha??
-Esse daqui serve?-indagou, empurrando a porta levemente e mostrando a figura do loiro de cabelos igualmente abaixados, os olhos fechados e a cabeça apoiada no batente da porta, praticamente abraçado a madeira, buscando algum tipo de sossego.
-Ótimo... ahhhn, vão assim mesmo pra Van!-dito, apontou para que descessem, e antes que repetisse uma nova ordem, os dois guitarristas haviam se arrastado para a Van. O travesseiro de Aoi servindo para ambos ao fundo do automóvel, que novamente voltaram a dormir.
O baterista praticamente se coçava, buscando um jeito de acordar Ruki. Água no rosto provavelmente traria um certo baixinho dos infernos. Gelo, jogar da cama, tirar a roupa ou a coberta traria sérios problemas. Nem chama-lo pelo nome verdadeiro estava dando algum resultado, e Kai podia jurar que sentaria ali mesmo e começaria uma maré de choro.
-Se apresse. Eu dou um jeito no baixinho.-informou Reita, levantando-se e colocando a blusa branca extremamente larga, seguidamente apanhando no armário do menor uma ainda mais larga, de mangas longas e tonalidade clara, vestindo Ruki. O corpo mole de sono facilitando parcialmente ser manipulado.
-Espero os dois na Van. Não demore, pelo amor de Deus!-Saiu correndo pelos corredores, catando papéis e documentos, rumando para fora da casa.
Reita sorriu.
A sua falta de responsabilidade e adoração à imagem do menor havia o levado a afundar a banda lentamente, de uma forma quase inocente. Passou um dos braços abaixo das dobras dos joelhos de Ruki, assim como o segundo braço aconchegava o pescoço, o tirando da cama em questão de segundos.
O trouxe para mais perto do próprio corpo, vendo seu rosto alojar-se no tórax e uma das mãos – que antes estava caída-, pousar-se sobre o tecido da blusa, aninhando-se como um filhote no colo.
Sentiu a face avermelhar enquanto descia as escadas, deparando-se com Kai –as sobrancelhas elevadas-, e passando pela porta, onde o baterista fechara rapidamente, tomando a dianteira em seguida e subindo no co-piloto. Assim, sentou no banco de costas para o motorista e depositou o corpo de Ruki logo no da frente, fechando a porta e balançando a cabeça em sinal de que já estava tudo certo.
Kai quase bateu a cabeça no porta-luvas ao olhar pelo retrovisor a imagem da própria equipe. Os dois guitarristas esparramados nos bancos do fundo, o vocalista em sono profundo e um baixista bobo. Não podia ter escolhido melhor. Mas teve de admitir, do fundo, que era melhor do que a situação de antes. Conseguia até mesmo respirar melhor.
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A van não demorou para estacionar numa casa típica da tradição japonesa. Portas de papel de arroz, tablados, tatames, um jardim provavelmente repleto de "Boas Energias",assim como a casa toda.
Do lado de fora uma série de equipamentos, equipes, um ferro infestado de cabides com roupas igualmente tradicionais do país.
Kai sorriu largamente antes de pular do passageiro e rumar para a porta dos amigos, vendo cada integrante ainda muito bem aninhado em seus bancos, dormindo. Chacoalhou a cabeça negativamente enquanto mexia na perna do baixista, o fazendo abrir os olhos.
Moveu a cabeça em direção ao trabalho do dia, e o loiro rapidamente sentou-se, chacoalhando sem forças o vocalista.
-Aoi, Uruha, chegamos!-anunciou na voz mais fina que conseguia, apenas para irritá-los e os fazer levantar.-Ikkeeeee!
-Ahhhhh!-Uruha levantou-se num pulo, pegando o travesseiro e jogando-o em Kai, atingindo-o na face.
-Ah!-Aoi, que até então dormia no mesmo, bateu a cabeça em uma das fivelas dos cintos, fazendo a pior feição mau-humorada.
-...-o loiro maior girou os olhos até chocarem-se com as orbes negras mortalmente o encarando, e saltou do banco, de pijamas, mal arrumado, se jogou da Van, correndo em direção as maquiadoras, que riam da situação.-Vejo vocês mais apresentável depois!-acenou, sentando em uma cadeira.
-... quanta energia...-resmungou Kai, pegando o travesseiro e depositando-o no banco em que Reita ainda estava, inutilmente, tentando acordar Ruki.
Aoi dobrou-se de qualquer forma e saiu do automóvel, em forma de "L", quase se arrastando no chão. Sua preguiça e má vontade de acordar era imensa, ainda mais quando os afazeres não eram premeditados.
Amaldiçoou eternamente o cara com um band-aid na cara por essa.
Arrastou-se até uma das cadeiras e se jogou, pendendo a cabeça para trás, fechando os olhos, deixando-se ser maquiado e arrumado.
-Ahn...-Ruki sentou-se completamente a contra gosto no banco, esfregando os olhos, cabisbaixo, pensativo. Estava totalmente em alpha, ainda em resultado do dia que havia começado –muito- mais cedo.
-Ruki?-indagou Kai, balançando a mão na frente do rosto do menor, rindo.
-...-parou por um momento, girando os olhos lentamente na direção da mão à sua frente, que logo chocou-se com a imagem de fundo, e tudo ao redor. Certo, abdução?
-Que isso tudo?!
-O ensaio...-avisou Reita, o sorriso forçado, levantando e retirando-se da Van.-Eu te carreguei até a van, você dormiu o caminho todo.
-Ah...-piscou algumas vezes, engolindo as palavras do mais velho. Respirou profundamente, esfregando os olhos com as mãos.
-Eu preciso comer...-murmurou. Ah, o mau-humor de Ruki.
-É... café da manhã...-Kai voltou o corpo para trás, passando os olhos por toda aquela bagunça do lado de fora da casa. Demorou um pouco, até sorrir ainda mais largo.
-Montaram uma mesa!-anunciou, apontando uma tenda branca, com várias cadeiras e alguns produtores sentados na mesma, conversando descontraídos.
-Menos mau...-resmungou novamente, ainda respirando em intervalos, apoiando a cabeça nas mãos juntas, logo trazendo a franja que teimava em lhe tampar a face para trás
-Eu já vou,podem ir na frente. Só preciso... pensar na trajetória.-completamente sonolento ainda.
Kai riu mais um pouco, antes de se despedir dos dois e igualmente se jogar numa das cadeiras, logo sendo "socorrido" da noite rapidamente dormida.
O vocalista colocava em ordem os pensamentos, as passagens e as cenas. Não que tivesse algo de errado, mas era como ter apenas fechado os olhos em cima da cama, e, de repente, estar jogado em um milharal sem roupas. E foi nesse pensamento que se tateou, constando que estava devidamente vestido.
Suspirou, esfregando uma última vez os olhos e os erguendo, deparando-se com a imagem de Reita apoiado na porta, braços cruzados e fitando os amigos, em particular rindo do guitarrista moreno, que jogara um pote inteiro de pó de arroz em Uruha.
-Reita?-indagou, agora trocando de banco, ficando na porta, olhando-o rir, e não soubera quando, estava igualmente sorrindo, seguindo o olhar do baixista e tapando as risadas com uma das mãos.
-Ah, voltou para a terra?-a pergunta viera sem cinismo, ou coisas ofensivas. O sorriso dado era ainda mais efetivo para Ruki.
-Hai.-riu, ajeitando-se no banco e espreguiçando, esticando os braços.
-Então vamos, meio metro.-afastou-se da porta e ficou a frente do mais novo, o esperando descer.
-Meio metro?-súbito.
-... um metro e meio...?
-... como??
-... um metro e meio e alguns milímetros...?
-Reita!-fechou a cara, ao mesmo tempo em que fizera um bico. Tão infantil.
-Que?-aproximou-se do automóvel novamente, apoiando as mãos nas beiradas.
Não que os argumentos fossem nulos, mas os devaneios do mais novo estavam aumentando, e em grande quantidade. Parecia que todo o acontecimento passado havia se prendido bem lá trás, a ponto de Ruki mal se lembrar.
E isso era, a si próprio, ótimo.
As bochechas, rubras, o condenavam. A aproximação de Reita ainda lhe era em todas as proporções, efetiva. Engoliu a saliva com certa dificuldade, apoiando uma das mãos no banco e inclinando-se muito pouco para trás, deixando com que o baixista se aproximasse ainda mais, quase em cima de seu corpo.
Por um momento a respiração falhou monstruosamente, o forçando a fechar os olhos, mal notando que os lábios eram um convite irresistível aos de Reita, que igualmente se aproximava desse ponto em questão, tocando as almofadas dos lábios de Ruki.
Reita não pretendia, a não ser que visse sinais de que estaria liberado para tocá-lo como queria, e como estava se segurando. Sentiu-o estremesser, aquele pequeno corpo tremer sem ao menos perceber,e deixou-se assim, apenas tocando os lábios nos dele, sentindo a respiração pesada e quente.
Deu um selinho antes de enlaça-lo pela cintura e o puxar para fora da van, o colocando em chão e arrumando as mechas da franja. Sorriu quando ele abrira os olhos lentamente, um pouco confuso, mas claramente mais disperto. Bagunçou-lhe as mechas e afastou-se um pouco, dando espaço para colocar todos aqueles inúmeros pensamentos que tinha mania, em ordem.
-Venha comer, antes que seu mau-humor ataque.-brincou, lembrando-se de todas as vezes em que o menor se excluía ou resmungava pelos cantos quando ficava sem comer.
-... hai.-ainda meio bobo, em transe, seguiu o baixista.
Passou pelos amigos, que terminavam toda a produção.
Passou o olhar a sua volta e notou cada detalhe: as roupas, o local, a equipe. Lembrava bem os colegas de trabalho da companhia.
Deu de ombros, puxando uma cadeira e sentando-se perto da mesa, fazendo um lanche natural com os frios e, alternadamente, bebendo um suco de maça.
Reita ficou o observando por um tempo.
Cumprimentou os produtores e direcionou-se para a mesa, puxando um frio e tomando em mãos o copo de vitaminas que todos já sabiam que gostava de tomar pela manhã.
O menor deixava sempre o olhar pesado no gramado, pensativo.
Por que Reita não havia o tomado lá, no momento? Por que parecia tão hesitante, e ao mesmo tempo, tão compreensível? E por que a si próprio se sentia tão inseguro? Aquele sentimento o consumindo pouco a pouco, temendo gradativamente ainda mais os resultados, se bem lembrava, todos ilusão.
Por um momento, quase achara que Reita se tornaria mais um dos seus fantasmas do passado.
Suspirou pesadamente, terminando de comer e levantando-se automaticamente, lançando um olhar para Reita, que até então se distraía com uma conversa ou outra, sobre que tipo de novo material devia usar nas próximas criações.
O baixista levantou-se, pedindo licença e seguindo o menor até as cadeiras. Sentou em uma logo ao lado de Uruha, que terminava a produção, enquanto, com o canto dos olhos, viu o menor sentar-se ao seu lado, logo sendo atendido.
O barulho dos outros integrantes começara a ser mais alto, ainda mais quando Uruha soltou uma deliciosa risada, vendo a roupa de Aoi.
O loiro deu uma volta completa no moreno, analisando-o com o costume tradicionalmente oriental masculino, assoviando descaradamente ao puxar a barra do tecido apenas para provoca-lo, tirando de Aoi um resmungo de irritação.
Kai voltou vestido com uma tradicional roupa de patriarca. Camadas de tecidos de seda em tonalidades fortes, que esbanjavam soberania e força, porém teimavam em, alternadamente, lhe escapar dos ombros, sorrindo sem jeito.
-Hummm... acho que o seu é ainda mais interessante, Uru...chan.-brincou Aoi, dobrando-se em dois, mordendo ambos os lábios para, sem sucesso, não rir.
-...-Uruha fechou a cara, virando-a de perfil e deixando a barra do enorme quimono feminino nas tonalidades mais claras do que todos o envolver.
O cabelo preso como as damas das famílias reais, deixando algumas mechas livres para que o vento lhes dessem movimento. Estava, completamente, feminino.
-Fica mais bonito que qualquer mulher.-as brincadeiras não tinham limites, e Aoi só transfigurava mais o rosto para não rir.
-...hunf!
Reita olhou pelo espelho, e rezou para não rir no exato momento em que sua maquiagem era finalizada. Respirou profundamente e levantou-se em um pulo, sendo acompanhado por uma das ajudantes, que logo carregou a roupa escolhida pelo produtor. Um costume dos soldados japoneses, sem muitas peças, pois poderia dificultar seus movimentos, porém boa parte estava ali presente. A parte as coxas e ombros na tonalidade de vermelho.
-Hum... –caminhou até Uruha, sorrindo largo enquanto o analisava, rindo logo em seguida.
-Já chega, okay?-rosnou, ajeitando o quimono para se sentar e descansar.
-... ahn...-Ruki abaixou a cabeça, respirando muitas vezes antes de sair para onde os amigos estavam. Queria sufocar o empresário até ele mudar de cor, ou coloca-lo em cima de um poste, na chuva, com muitos relâmpagos.
Aoi girou a cabeça na direção do menor, e não suportou toda a força que fazia para as risadas não saírem de seu controle. Todos ali estavam de prova quanto a todo seu esforço sobre-humano, tentando todas as vezes manter-se sério e indiferente.
Respirou profundamente, trazendo todo o oxigênio até os pulmões e deixou-se soltar uma enorme e chamativa risada, dobrando-se para a frente e abraçando a própria barriga.
-Damero!-Ruki não conseguia esconder a tonalidade rosa que as bochechas estavam tomando. Era vergonhoso.
Não que nunca tivesse usado algo do naipe, mas daquele jeito estava aos extremos. Uma roupa.. de gueisha.
Cores fortes e pesadas. Muitos fios traçados, fivelas, e seu cabelo estava quase tão lambido que sentia vontade de morder algumas pontas para diminuir o comprimento. Além de terem o clareado ainda mais. Estava tão mais loiro quanto Uruha, e menos que Reita.
Suspirou, procurando com os olhos o empresário que, de trás da mesa do café, acenou para ele, sorrindo largamente.
-...-rosnou, caminhando até os amigos e sentando-se ao lado de Uruha, contando até 10 para não explodir, o que lhe era natural.
-Está... está...-o guitarrista moreno não conseguia completar a frase, ficando imediatamente de costas para não encarar o vocalista e nem o outro guitarrista.
-... Kawaii...-Reita mordeu os lábios e virou a face para rir, logo levando a mão à boca e igualmente virando-se de costas, esforçando-se para não rir.
-... bakas.-Kai caminhou até os dois e estendeu um sorriso amarelo, na tentativa quase desesperada de os acalmar.-Ahn... é... vocês ficaram encantadores.-dizia olhando cada um cuidadosamente, analisando a maquiagem e os cabelos.
-Sabemos que estamos iguais mulheres, Kai. Não precisa confeitar a situação...-sussurrou Uruha, abaixando a cabeça para observar melhor a parra da roupa de seda, sorrindo em seguida, acostumando-se lentamente, como acontecia com todas as roupas que lhe eram direcionadas.
Riram por mais alguns segundos e foram chamados a atenção pelo produtor, que ergueu-se sorrindo largamente e, juntamente do empresário, os chamou para dentro da majestosa casa. Cada membro tinha uma parte da casa especialmente para si, como sempre faziam na maioria dos photoshots.
Ruki movimentava-se com algumas dificuldades, arrastando o enorme quimono pela casa, sempre atrás de todos, e com a péssima mania de manifestar todos os seus pensamentos quando ficava naquele estado em quase alfa.
Suspirou pesadamente, mal percebendo que uma das mãos largara o pedaço de tecido e automaticamente tocara a face direita, tapando um dos olhos que, com o carinho, fechara-se. E os movimentos mal-pensados o distraiam cada vez mais, não notando que ficara em um dos corredores sozinho.
Não importou-se com o fato. Deslizou o olho aberto pelas tábuas bem preservadas do local até um canto onde a porta de papel de arroz dava-lhe claridade, sentando-se na parede oposta, deixando com que as marcas das vigas que seguravam cada pedaço do papel lhe marcar a face devido a sombra que faziam. Distraído.
-Ei, baixinho.-ninguém mais na turma toda o chamava assim. Apenas e unicamente Reita, independente da hora ou situação, dava um jeito de atormenta-lo.
-Se perdeu?-indagou, sentando-se ao lado, indiferente se incomodava ou não.
-Hn... hai.-sorriu praticamente sem forças, ambos os olhos ainda muito bem fixos em algum canto qualquer do cômodo quase escuro.
Deixaram os segundos passarem lentamente. O oxigênio compartido se tornando cada vez mais quente em cada remessa, os levando a crer que as roupas estavam pesando e esquentando gradativamente.
Mais indiferente do que antes, Ruki deixou pender a cabeça para o lado, perdido no seu hobby mais atual e permanente, deixando claro o olhar vazio.
-Ruki.
-Hn...?
-Posso... fazer uma pergunta?-e sua consciência parecia o ensurdecer tamanha a negação à idéia que entalara em sua mente.
-Uhun.-não que estivesse realmente ligado em cada palavra que o baixista falava. Tudo agido por puro impulso.
-...-os olhos, artificialmente azuis, rolaram do tatame muito bem planejado e limpo até as vestes do menor que se arrastavam pelo chão como algas em pleno movimento do oceano meramente raso.
E a medida que se aproximava da face de Ruki, o deixava ainda mais deslumbrante.
-O que você tinha, aquele dia, que estava tão nervoso?-cuspiu praticamente todas as palavras, entaladas a mais de um dia.
-Aquele... dia?-a especificação não estava tão clara assim, mas mesmo assim, Ruki não deixava de fitar seu ponto interessante em algum lugar da porta de papel de arroz.
-... é. Que nós transamos.-preferiu ser direto e não enrolar. No fundo, nem sabia porque exatamente queria saber, mas o incomodava quase monstruosamente esse fato que, após pensar e juntar inúmeras peças, chegara a conclusão que os motivos não eram o trabalho e excesso de cobranças.
-Ah.-no exato momento deixou o olhar pesar, mas ao mesmo tempo ainda parecia tão cético e inatingível quanto antes. Um pouco mais frio, se Reita podia arriscar.
-Por que quer saber...?-suspirou, ajeitando um dos laços vermelhos que insistiam em cair devido o peso do gizo.
-... eu resolvi me preocupar... por motivos... óbvios.-passou a encarar a ponta da própria roupa, que se tornara agora ainda mais interessante.-Então?
-Eu já havia dito... o trabalho.
-... Ruki...
-... hn?
-Não minta para mim.
-Não estou mentindo.
-Mentiu de novo.
-...-agora concentrou-se no que estava fazendo. Mentir se tornara um hábito horrível em seu dia a dia. Mentia e sequer sabia quando, e como.
Não sabia mais o que era verdade em sua vida ou o que era apenas uma farsa para cobrir os pequenos erros.
-... eu estava com problemas. Apenas isso.-suspirou, sentindo o estômago revirar.
-De que tipo?-havia sentido a conversa fluir para rumos mais prósperos, mas ainda sim, menos confortáveis.
-...-desistiu de pensar internamente na situação atual e o que poderia desencadear. Reita estava insistente, tinha de admitir que se pegara inúmeras as vezes pensando.
-Do tipo... que novamente ama... e novamente se perde,e novamente promete... e novamente sofre.-fez uma pausa, mesclando todas as situações que já passara.-É minha rotina de vida, Reita, que me dá tantos ataques... que me adoece... que me frustra.-riu, mas podia julgar-se nervoso.
- Meu quarto tem se tornado um bom refúgio nesses momentos.
Reita sentiu repentinamente uma tontura, seguida de uma pequena dor no lado direito da cabeça, o fazendo levar a mão instantaneamente para a área e massagear, para então voltar a fitar fielmente os olhos enfeitadas pelas lentes completamente mirabolantes do menor.
-Tinha... terminado com alguém...?-e nunca sentira uma frase tão esmaecida quanto aquela.
-Não sei se posso dizer que comecei, para poder terminar.-sorriu, trazendo para perto do peito ambas as pernas, onde as abraçou e deixou a cabeça repousar, finalmente encarando a face do baixista.-Mas me fez pensar... em todos os meus relacionamentos.-a respiração estava falha, mas sentia-se estranhamente a vontade em compartilhar sobre si.
-...?
-Não que eu queira parecer a vítima. Ah... ultimamente eu venho parecendo uma mocinha de filme de terror. Culpo você por alugar apenas isso.-riu, ajeitando-se para abraçar ainda mais fortemente as pernas, que uma das ficara exposta devido o quimono ser aperto.-Já chorei e me senti assustado demais... não acha que eu devia mudar?
-...-Reita podia colocar assinado nos sagrados pergaminhos que tentara falar algo, ou contestá-lo, mas apenas a imagem de vê-lo chorar na cozinha o paralisava completamente.
-Eu sou um homem, não uma mulher. Não que eu esteja sendo machista, de forma alguma. Mas acho que já chorei mais que uma mulher... minha mãe sim, era forte. Até na hora de me colocar pra fora de casa... foi forte...-e lembrando-se do fato, juntando o ponto de vista que vinha criando a sua volta, a voz enfraquecia, mordendo o lábio inferior com força.
A dor deixando com que, nem por um segundo, os olhos marejassem.
-Eu devia parar de sonhar que um dia eu possa ser especial. Sei lá. Sabe... se nem para meus pais eu fui de grande importância, o tal amor materno, que dizem ser para sempre. Ou algo parecido... eu não compreendo. Pessimismo talvez. Mas nesse mundo, me diga, quem na primeira oportunidade não pisa no próximo? Um cachê absurdamente alto, e tudo que você precisa, é passar sobre quem ama. Não importa o que aconteça... a vida é assim.-respirou, deixando a cabeça ainda mais folgada no apoio das pernas.-Não vou negar que já pisei uma ou outra vez. E outra... amor não é eterno.
-...!
-...-Ruki levantou o olhar ao escutar o barulho de passos. Provavelmente o empresário dando-se conta tarde demais que perdera dois integrantes.
-Eu não consigo ser especial para ninguém... né, Reita?-levantou-se, cravando na face um sorriso e dando tapas no tecido da roupa apenas para limpar qualquer tipo de poeira ou sujeira.
-Eu acho que não faço idéia de uma boa parte de tudo que falei agora, mas me sinto mais leve. Um pouco vazio... mas esse vazio, meio que me protege.-virou-se para o baixista, vendo a expressão de confusão e desespero –não tão visível-, agora deixando na própria face um sorriso sereno.
-Perdão por parecer tão confuso. Talvez eu apenas tenha medo desse sentimento. E você...-suspirou, preferindo deixar a frase incompleta, assim como o seu raciocínio, que parecia gradativamente parando, deixando novamente o olhar perdido.
Respirou profundamente e deixou apenas o sorriso, encarando Reita logo em seguida com algum olhar que fazia o baixista sentir-se englobado por um tipo de mundo alternativo medonho, congelando ainda mais cada músculo de seu corpo.
Reita queria perguntar o que fora aquilo, ou até mesmo qual o tipo de raciocínio o vocal estava usando.
O que sentia, e por que agora ele estava tão confuso.
Sua cabeça queimava, podia sentir-se levemente febril e zonzo.
Um nó na garganta e uma nostalgia que lhe retirava todas as forças de levantar de onde estava e continuar o dia.
Ruki havia acabado consigo.
Ruki havia o afundado em confusões que mal conseguia descobrir onde estava cada ponta, ou até mesmo qual fora o fundamento de ter desencadeado todas aquelas frases do menor. Ruki era... incompreensível.
Abaixou a cabeça e deixou a franja tapar-lhe metade do rosto, absurdamente afundado em teorias que sozinho havia retirado das frases sem nexo do outro.
A imagem de se ver prometendo que o esperaria,o carinho e o aconchego. Aquele Ruki indefeso meigo que clamava por um abraço que o levaria ao sono mais profundo.
Por um momento, sentiu o próprio peito dobrar e revirar, amassando e repuxando toda e qualquer pele em volta, doendo como nunca doeu.
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N/A: Achei o Ruki muito confuso aqui no final. Mas as ações justificam os meios... ou os meios justificam as ações? o'' AH! Confuso! Mas... comentem! n.n
