Cap. 17: Ainda é uma triste canção.
Aquele momento pareciam anos, por mais que o ponteiro apenas tivesse dado a sua volta matinal nos 360 graus existentes. A vida sempre passava a frente dos olhos daquele que estava a beira da morte, mas não condizia agora, se não afirmar que fora um retrocesso normal, de quando a vida era esquecida bruscamente. Ruki sentia como se houvesse voltado a um ano atrás, quando dissera "Vamos terminar".
Suspirou então, colocando na face os óculos escuros e verificando se as luvas estavam bem postas. Puxou do bolso uma bala qualquer, pondo-a à boca. Fazia alguns meses que havia parado de fumar, substituindo o vício por qualquer goma na boca. Parecia mais saudável.
-Vai me ignorar?
-...-fechou os olhos, buscando exatamente não falar tudo o que vinha a mente.-Não.-enfiou as mãos nos bolsos, o corpo voltado na direção da rua.-Só estou me perguntando o que faz aqui.
-Hn.-o mais velho parou por um momento. Puxou o maço de cigarro, levando o fumo à boca e ascendendo-o calmamente.-Quer?
-Não. Estou tentando parar.-virou a face ao sentir o leve cheiro de fumo.
-Ah, desculpa.-Reita tragou e assoprou a fumaça para cima, por ser de fácil acesso e que não chegasse às narinas do menor.-Já que estou aqui, seja menos grosso e me acompanhe até um café.
-Se não percebeu, eu estou no horário de almoço do meu serviço.-puxou o celular do bolso, verificando as horas.-Que por um acaso, já está acabando.
-Eu tenho certeza que seu chefe não vai se incomodar se você demorar um pouco.
-... ele iria, com certeza.
-Liga pra ele.-não parecia exatamente se importar, enfiando uma das mãos no bolso da jaqueta de couro, tragando novamente.-Eu espero.
-...
O menor parou momentaneamente o raciocínio, deixando fluir toda e qualquer raiva momentânea que pudesse fluir, para então esmaece-la numa nova bala levada à boca, suspirando pesado. Com o tempo, nem isso havia tornado Reita uma pessoa melhor.
-Olha, Akira, uma hora e nada mais.-dizia nada contente, digitando uma mensagem qualquer no celular e fechando-o a contra gosto, enfiando o aparelho no bolso e ajustando os óculos sobre a face.
-Por mim.-deu de ombros o mais velho, voltando-se para um dos lados a qual já rumava, caminhando na frente.-Não é longe. Afinal, aqui é o melhor centro comercial de Tokyo.
-Não me surpreende você saber.-caminhava mais separado, levemente mais atrás, olhando para o lado oposto. Raiva?-Afinal, você nunca cozinhou em casa. Sempre dependeu dos outros.
-Quem sabe.-foi a única resposta do ex-baixista durante a caminhada pela calçada.
E que se seguiu assim, afundado naquele tipo de silêncio que para ambos não era um intruso ou algo incomum. Sempre havia existido todo aquele momento de ausência de palavras, que os consumiam até então. Até nenhum dos corações realmente se importar.
ooooooooooooooooooooooo
-Porque?!
A voz aguda e sofrida de Reita rapidamente atingia cada pedaço daquele quarto; atingindo os ouvidos de Ruki como uma flechada diretamente nos tímpanos do menor, fazendo este levar ambas as mãos até as orelhas e tampa-las.
Os olhos do vocalista fechavam-se fortemente, como se evitando que até a imagem daquele momento fosse até seu cérebro, e que pudesse processar com clareza o que estava acontecendo. Balançou a cabeça negativamente, tentando negar a si mesmo o que estava se passando em seu próprio quarto.
-Olha pra mim, Ruki!-não fora necessário que o próprio respondesse, sendo logo surpreendido pelas mãos do baixista lhe apertando os punhos. O cigarro que ainda suspendia em uma das mãos caiu sobre o chão, e os braços haviam sido postos para baixo.
-...! O que foi?!-indagou grave, surpreendendo à Reita que quase o soltara. Mas persistiu. Era automático continuar a pressionar os pequenos punhos, até que em algum momento sua voz emitisse qualquer som de dor.
-Me diz, Ruki! Me diz porquê! Porque além de terminar com a banda, também está terminando comigo!?
-Você só pode ser muito idiota!
-...!-e como uma ação involuntária de quando era ofendido, Reita impulsionou o corpo de Ruki em direção qualquer, jogando-o no chão e subindo de imediato em seu corpo, prensando o pequeno contra o chão.-Repita isso!
Provavelmente o choque de todo o impacto ainda corria por cada veia do corpo do vocalista, assim como a adrenalina. Os olhos perdidos, tentando se localizar devido à mudança de localidade, os lábios entre abertos tentando captar maior quantidade de ar. Nada que pudesse facilitar tão bem sua fala.
-Ruki!
-... eu sou um idiota.-suspirou. A dor leve nas costas não parecia nada comparado ao aperto que o coração fazia. Os olhos levemente cerrados, tentando controlar que nenhuma lágrima corresse por seus olhos.-Eu devia saber... que era perigoso demais. Eu devia ter parado a muito tempo... mas eu fui idiota... de querer continuar com você.
-...
-... mas e você Reita? Você não percebia que estava correndo na contra mão... quando me traía?
Na verdade, nunca achou que aquele tipo de informação chegaria aos ouvidos do menor. Não era de propósito, e nunca seria. Era carnal. Era uma forma de tentar suprir, na época, a dor do término da banda. Eram as noitadas com os amigos, as saídas sem volta do dia... na verdade, não se lembrava de fazer tudo isso... a ponto de se tornar um símbolo de raiva. Mas sua depressão e decepção com a banda tinha um nome: Ruki! Era Ruki quem o havia feito ficar daquela forma, tão deteriorado!
-Eu percebi... Reita...-suspirou longo e cansado.-Eu percebi que eu estava andando na contra-mão...
-... Você...?
Preferiu que o silêncio tomasse conta de toda e qualquer resposta que fosse imposta no momento. A força para prensar o menor havia sido desfeita a muito tempo, onde facilmente Ruki levantou-se e manteve-se sentado, olhando diretamente nos olhos negros do namorado que, agora, parecia não só espantado... mas também acabado.
-Eu sinto muito... Reita.-e tudo o que pudera fazer no momento, fora inclinar-se um pouco para frente e tocar os lábios do mais velho com os próprios, mesmo que amargamente.
Mesmo que em seguida, a porta estivesse fechada.
"Saigo
no kisu wa
Tabako no flavor ga shita
Nigakute setsunai kaori."
(Nosso
último beijo teve gosto de cigarro
um sabor amargo e triste.)
Oooooooooooooooooooo
Pararam em frente a um antigo Café. Antigo local freqüentado também quando eram uma banda. A mesa do fundo com as cinco cadeiras já não existiam mais, além do local estar com algumas mudanças, como cores novas.
Como um mundo novo.
Se puseram a caminhar paralelamente entre as mesas, até então receberem a devida atenção de uma garçonete que parecia bem humorada, e acima de tudo, simpática. Os recebeu com dois cardápios, apontando uma mesa não muito isolada, mas a vizinhança era pouca –como pedida pelo loiro-.
Sentaram-se, e só então quando as mãos já desnudas do menor tocaram a mesa, Reita pode perceber no anel dourado na mão direita. Noivo? Não que estivesse tão longe disso.
-O que vai pedir?-sussurrou o mais velho, puxando o cardápio à frente, num movimento não premeditado, mas estranhamente necessário.
-Estou só te acompanhando. E você tem 40 minutos.-resmungou Ruki, simplesmente cruzando as pernas por debaixo da mesa e apoiando a cabeça em uma das mãos. A mesma que brilhava tão intensamente a jóia dourada.
-Não seja mau-educado e me acompanhe devidamente.-retrucou chamando a garçonete.-Café e..
-Eu não gosto de café...
-Eu sei.-voltou à moça, que trocava de olhares para ambos.-E um chocolate quente.
-...
"Ashita no imagoro
niwa
Anata wa dokoni irundaro
Dare wo omotterundarou"
(Amanhã nesta mesma
hora
aonde você estará?
Em quem estará pensando?)
Por mais que pequenos gestos ainda se assemelhassem demais à uma realidade que nunca e jamais poderia ter existido –ou então, não daquela forma-, um tipo de bloqueio insistia em lhes afetar a ponto de que nem a maior mania os irritassem mais.
Como se a pessoa a frente fosse alguém recém conhecido no dobrar de uma esquina qualquer, ao trombar na saída da farmácia, ao bater sem querer na traseira do carro. Alguém.... quem?
Ruki suspirou, claramente desgastado. Os dias, um após o outro, projetos de vida, planos interminados, um futuro com uma longa data de duração. Seu chefe era uma boa pessoa, ainda mais após compreender sua situação via uma mísera mensagem de celular. E por mais que seus dedos tamborilassem nervosamente sobre a mesa, mal cabia a ele o motivo de tal sentimento. Aquele brilho prateado sobre a sua face estava lhe irritando.
Ignorar.
Girou os olhos até de encontro com a janela, movimento comum que executava sempre que estava sentado sozinho, divagando sobre a vida, e sobre todos aqueles papéis inacabados.
Adiados.
-Me diga... o que exatamente tem feito esse tempo?-a voz rouca e grossa do loiro cortava o ar em momentos inesperados, arrancando surpresas de Ruki; este, quase sempre acreditando estar sozinho.
-Sou estilista. Entre outras coisas, que uso esse dom...
-Seu dom é cantar.
-...-girou os olhos.-E você?
-Abri uma loja de doces em Kanagawa. Minha mãe me ajuda, mas ela fica muito tempo no hospital com a minha avó.
-Oh... como ela está?
-Ela quem?
-Sua vó...
-Internada.-fizeram um momento de silêncio enquanto a garçonete pousava as duas xícaras sobre a mesa, assim como alguns pães quentes.-A velhice chega um dia, não tem como evitar.
-Muito mal...?
-Uhun.
De repente, pareciam se conhecer.
Quem eram mesmo...?
"You
are always gonna be my love
Itsuka darekato mata koini
ochitemo
I'll remember to be love
You taught me how
You are
always gonna be the one
Ima wa mada kanashii love song
Atarashii
uta utaerumade"
(Você sempre será
meu amor
mesmo eu me apaixonando por outro algum dia.
Eu me
lembrarei de amar
como você me ensinou.
Você sempre será a
pessoa certa.
Mas ainda é uma triste canção,
até que eu
cante uma nova canção.)
-Ruki...
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
Um vulto, se não mais que um corpo deteriorado com o tempo, percorria insistentemente o apartamento cinicamente iluminado. Que de luz, não havia nada.
Reita percorria cada cômodo daquele lugar buscando qualquer vestígio seu. Objetos, roupas, marcas, qualquer coisa. Ignorando desde então o ex-namorado sobre o sofá, mudo e desamparado. Que não houvessem culpa, certo? Era um empate merecido... com um término dito pelo não dito.
"Vamos terminar", ou "Está tudo acabado entre nós". E por mais que parecesse clichê, ainda sim, era uma segurança.
Aquele silêncio matava não à um só coração, mas mutuamente à duas vítimas que, indiferente da idade, não sabiam amar.
Ruki mantinha-se desajeitado no sofá, a blusa branca semi-transparente na gola pelas lágrimas, um choro baixo e contido. Um choro remoído, sem moral, por mais que estivesse para explodir palavras. Por mais que quisesse gritar todas as coisas que sentia, apesar de tudo. Apesar da dor, ainda nutria...
-Tchau.
Monólogos. Odiava monólogos mais do que a si mesmo no momento. Odiava o fato de sequer não conseguir se mover. Odiava o fato de não conseguir gritar "Por favor, vamos tentar novamente, eu te amo...". Odiava aquele momento. Mas era como se algo simplesmente estivesse gritando mais alto "Fique quieto".
Odiava que ainda continuasse chorando. Gradativamente. Mais intensamente do que seu próprio coração conseguisse suportar.
Morrer.
Porque não?
Perder Reita era como perder o chão e todos os motivos de conseguir seguir em frente. Como acordar no dia seguinte sem aquele sorriso bobo, aquelas frases sem sentido, aquela companhia silenciosa... mas misteriosamente reconfortante.
Conseguiria perdoar, conseguiria se ajoelhar e pedir perdão. De repente, faria tudo para tê-lo de volta.
A porta novamente fechada. Destrancada. A chave cópia sobre a bancada.
-.... tchau...
O choro novamente baixo. O adeus só para si. Para a sua consciência, para seu coração. Que soubessem que estavam sozinhos logo, antes que o fizessem fazer qualquer besteira.
Gritar. Afundar. A garganta apertava e lhe poupava de conseguir propagar qualquer som de dor, qualquer sentimento extravasado. Aos poucos, chorar não parecia suficiente, e deixar o sofá úmido não significava nada, se não o cansaço e a guerra perdida.
De todas as batalhas... aquela havia sido a mais cansativa.
O adeus. A perda.
-Reita...-e antes que conseguisse concluir qualquer frase, o sono era o anjo perfeito.
"Tachidomaru
jikanga
Ugokidasouto shiteru
Wasuretakunaikotobakari
Ashita
no imagoro niwa
Watashi wa kitto naiteru
Anato wo
omotterundarou"
(As horas que
estavam paradas estão começando a se movimentar,
e há coisas
que eu não quero esquecer.
Amanhã nessa mesma hora
estarei
certamente chorando, pensando em você.)
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
N/A: Hai hai! Depois de muitos meses, venho presentear a todos com o cap. 17. A verdade é que, por eu ter parado de escrever essa fic por muito tempo, os meus ideais estão perdidos. Mas re-li grande parte, e minha idéia principal seria re-escrever os capítulos iniciais.
Mas não tenho tempo. Logo me tornarei vestibulando (de novo. Yeah.), e o tempo que me sobrará serão para os livros. Além de eu ter me esquecido completamente que a F.L. é minha. -_-" É.
Tomarei vergonha na cara, e continuarei a escrever! Não sei como agradecer todos os comentários aqui, e na comunidade do orkut. Eu simplesmente sou movida/estimulada por eles. Portanto, muito obrigada de verdade! São tantas pessoas, que eu esqueceria boa parte, então não farei injustiças.
Muito obrigada, realmente!
Até o próximo capítulo!
