Disclaimer: Inuyasha e seus personagens não me pertencem, todos os créditos são de Rumiko Takahashi. Personagens originais são de minha propriedade e não autorizo quaisquer reproduções.

Notas da Autora: Não demorei muito dessa vez, né? Agradeço IMENSAMENTE a cada review enviado, vocês me deixaram muito, muito feliz! Obrigada de coração!


Capítulo 19 – Um coração gelado

Uma respiração doída contra o peito, olhos latejantes e uma boca árida e incômoda. Estas foram as primeiras noções que Hyrin adquiriu em quase duas semanas de inexistência. Os segundos iam passando e a hanyou abriu o par de olhos dourados herdados do pai e, surpreendentemente, não viu nada além de uma profunda escuridão. Em seu íntimo, uma ansiedade fora do comum dominou-a, e tentou mover os dedos da mão direita, não recebendo qualquer sensação em troca. Ela não conseguia ver e não conseguia sentir.

Hyrin também não ouviu a voz de Rin chama-la incessantemente ao seu lado:

- Filha, minha princesa... pode me ouvir? – Rin viu o esforço que a filha fazia para mover os dedos das mãos e imediatamente a acolheu entre as suas.

Sesshoumaru ficou parado na entrada do casebre, observando atentamente as reações da cria.

Hyrin, por sua vez, ia se acalmando assim que notava que a escuridão em seus olhos ia gradativamente sumindo, e seu olfato apurado parecia se normalizar. O primeiro aroma que sentiu foi um cálido cheiro de flores silvestres, tão familiar que a fazia sentir vontade de chorar assustada. Sentiu o cheiro de sua mãe. Sua expressão amoleceu e Sesshoumaru arqueou a sobrancelha quando sentiu o cheiro salgado de lágrimas.

- Não, não chore, minha princesa – Rin disse assim que percebeu, tomando a filha nos braços e a acomodando contra o peito. – Eu estou aqui, nada de mal vai lhe acontecer.

A mais jovem não podia falar ainda, mas sua expressão disse tudo que sentia naquele momento: estava sã e salva nos braços da mãe.

Isso até sentir um odor irritantemente assustador.

As mãos de Hyrin se agarraram com mais firmeza nos braços da mãe e seu nariz torceu, desgostoso, quando sentiu o cheiro de Sesshoumaru. A expressão tranquila transformou-se numa de profunda ameaça, como se quisesse expulsá-lo com uma carranca feia.

Sesshoumaru não se abalou. Pelo contrário, ele esperava aquele tipo de reação, só não esperava que se sentisse compelido a sair da cabana, como acabou fazendo. A hanyou havia acabado de despertar de um pesadelo, não precisava de mais um incômodo naquele momento. Incômodo.

- Ssessshoumaru-ssama? – Jaken parecia surpreso com a atitude de seu lorde.

- Prepare logo a maldita refeição, antes que você faça parte dela. – Sesshoumaru ameaçou e o youkai sapo apressou-se.

Dentro do casebre, Rin arrumava as mantas no corpo ainda gélido de Hyrin.

- Consegue ouvir-me, pequena? – sussurrou, e a resposta da filha veio num débil aceno positivo de cabeça. A mãe sorriu e alisou os cabelos prateados com carinho e continuou a falar – Deve estar com fome. Vou pegar uma fruta para você.

Dizendo isso, Hyrin foi pousada de novo no futton. Não tinha forças para ficar sentada sozinha, o que a fazia ser reduzida praticamente à um bebê de novo. Isso, ainda que a hanyou não estivesse de posse de suas faculdades mentais, a irritava.

Rin a alimentou com algumas frutas e com a cesta que recebera de Sango, mas logo depois Jaken já havia terminado a refeição que Sesshoumaru trouxera. Hyrin não comeu, fazendo Rin concluir que sua filha sentira o cheiro do pai e por isso recusava.

Depois de pensar um pouco, resolveu que, ainda que a menina não pudesse falar, era hora de dizer o que havia acontecido e, que principalmente, ela devia respeito à Sesshoumaru.

Missão que não foi fácil. Mesmo que Hyrin não replicasse, seus olhos transbordavam descontentamento:

- Não faça este olhar. Se não fosse ele, você – Rin suspirou – Muito provavelmente não estaria aqui agora.

A mais jovem desviou o olhar, mas a mãe continuou:

- Assim que você estiver melhor, irá falar com ele e agradecer.

. . . .

A letargia começou a regredir mais rapidamente após a primeira refeição da meio-youkai. Antes do final da tarde, os braços e mãos da garota já estavam voltando a obedecê-la, tal como a sua voz, ainda que não passasse de um sussurro. Sesshoumaru, por sua vez, manteve uma distância "segura" da cabana durante todo o dia. Atitude que deixou Jaken profundamente apreensivo, mas não se intrometeu.

Com a chegada da noite e, por consequência, da lua, a melhora da hanyou fora ainda mais visível, como Rin previra. Uma das vantagens de pertencer ao clã dos Taishou, os filhos da Lua. Quando já estava recolhida devido ao frio noturno, mãe e filha finalmente puderam ter um diálogo e não um monólogo.

- Por que ele não foi embora ainda? – foi a pergunta de Hyrin.

Deitada, Rin demorou um pouco para responder. Ainda que anos tivessem passado, ela ainda conseguia compreender o seu youkai. Ela ainda conseguia desvendar o labirinto que era Sesshoumaru. E o caminho pelo qual passavam agora era o da preocupação.

- Está preocupado com você.

Hyrin não pareceu acreditar:

- Você quer que eu acredite que ele, Sesshoumaru, depois de passar anos longe, simplesmente sinta-se preocupado conosco em apenas semanas de convivência? Ele é youkai sem coração, kaa-san.

- Você não o conhece, filha, mesmo tendo escutado todas as minhas histórias sobre nós dois. – a morena afastou um pouco o kimono e mostrou a marca de meia-lua que recebera dele anos antes. – Sesshoumaru nunca, filha, nunca, marcaria uma humana quando o conheci. Assim como eu, ele passou por uma mudança gradativa nos anos que ficamos juntos. E eu sei que você não é tão rancorosa assim.

- Como ele eu sou.

Rin riu do orgulho da filha:

- Vocês são iguaizinhos.

Aquela afirmação não agradou Hyrin, que segurou um rosnado na garganta. A mãe não se intimidou.

- Esqueça isso, Hyrin. – a filha a encarou, um tanto confusa – Essa história de ter me feito sofrer. Você não é responsável por nenhuma de minhas tristezas, nem mesmo essa história ridícula de culpar-se por ser parecida com Sesshoumaru é verdade. Compreenda isso.

O silêncio reinou até que Rin dormisse, exausta.

Uma vez adormecida, fora alvo dos olhos suaves de Hyrin. Avaliou a mãe detalhadamente, notando ainda algum cheiro salgado de lágrimas restantes. Também reparou que os olhos de Rin tinham pequenas bolsas de insônia, provavelmente causadas pelo choro e o tempo em que passara sem dormir ao seu lado.

Ela suspirou, desviando o rosto para o teto da cabana, pensativa. Se não fosse por si, devia ser por sua mãe. Usou os cotovelos e os braços para erguer o tronco até ficar sentada no futton. Suas pernas ainda não estavam perfeitamente bem, mas com um pouco de esforço extra, conseguiu ficar em pé.

Com o máximo de silêncio e com uma manta nos ombros, caminhou pisando em ovos para fora da cabana, abrindo o mínimo possível da porta. A primeira coisa que viu foi Jaken e Ah-Un dormindo próximos à fogueira. O youkai verde tremia de frio com os braços ridiculamente pequenos agarrados ao seu bastão de duas cabeças.

Hyrin rolou os olhos e colocou sua própria manta em cima do servo de Sesshoumaru, que parou de tremer quase imediatamente. Depois, com passos lentos e débeis para alguém com pouco mais de quinze anos, caminhou para onde seu olfato indicava. O cheiro de Sesshoumaru era peculiar, distinto, mas ainda assim nostálgico para o nariz recém acostumado com o aroma.

Era como se estivesse presente desde sempre. Talvez impregnado em sua mãe, ou talvez fosse parte de seu próprio cheiro. Quase caiu de boca na neve quando seus joelhos falharam, mas ela imediatamente se agarrou à uma árvore até se equilibrar novamente.

Resmungando, ela retomou sua curta caminhada até o local onde Taishou Sesshoumaru estava. Sentado sobre uma grande pedra, perto do lago, ele parecia refletir enquanto encarava fixamente a lua. Se ele não fosse um youkai, existiria a possibilidade dela não ter sido notada. Ela se encostou contra uma árvore, apenas a alguns metros longe do genitor, também encarando a lua.

Não se encararam e não trocaram nenhuma palavra até a hanyou se vir obrigada a cortar o silêncio:

- Você dorme, afinal?

Talvez não fosse um bom começo para uma conversa.

- Raramente.

Outro longo momento de silêncio.

- Por que não foi embora ainda?

O lorde youkai não parecia que iria responde-la, mas, para a surpresa da cria, ele disse quase sem rodeios:

- Não irei até você estar bem.

Pega de surpresa, ela realmente não soube o que responder. Finalmente Sesshoumaru a encarou, ainda não parecia estar cansado de avaliar as incríveis semelhanças que ambos tinham fisicamente. Ela sentiu o olhar sobre si, mas não retribuiu.

- Arigatou.