Primeira temporada

Episódio 05 – Parte I

"O amor dói porque o Cupido usa flechas"

...

SEASON FINALE

Já era hora do almoço, mas Saga não queria saber de comer. Espalhou diversas caixas velhas e cheias de papeis pelo Salão do Grande Mestre. Sentado no chão, revirava algumas folhas que havia ali, mas parecia não obter sucesso. Foi quando Afrodite entrou.

- Boa tarde, Saga.

- Boa tarde – Respondeu o geminiano sem levantar os olhos das caixas.

- Que é isso hein? – Perguntou Afrodite, passeando pela sala.

- São caixas, oras. – Disse Saga, ainda sem prestar atenção.

- Dã! – Falou Afrodite, fazendo o gesto de sorvete na testa. – Que são caixas eu sei! Eu queria saber que tipo de caixa! Se é caixinha de leite, caixa de papelão, Federal...

- Calado! – Resmungou Saga.

- Posso olhar o que tem nelas? – Perguntou Afrodite, receoso.

- Fique à vontade.

Então Afrodite passeou um pouco pela sala, chutando uma caixa aqui e outra acolá. Revirou algumas e, quando terminou sua busca, parecia frustrado.

- Poxa, Saga! Não tem nenhuma do meu tamanho, pô!

- Sai! – Expulsou Saga, levantando-se – Some daqui imediatamente! Vai ali na cozinha e tome um chá de sumiço!

- Ai, tá bom! – Disse Afrodite, saindo. – Mas eu deixo a água ferver por quantos minutos? – E, quando Saga devolveu um olhar mortal, Afrodite achou melhor sair sem perguntar mais nada.

Então Saga voltou ao seu misterioso e ingrato trabalho de garimpar caixa por caixa daquele enorme amontoado que ele havia criado. Foi interrompido mais uma vez, mas dessa vez por Miro e Aioros. A dupla entrou na sala e ficou parada, sem dizer nada, olhando para Saga. Este olhou pra cima e balançou a cabeça negativamente:

- Ah, não. O que a Azia e Má Digestão estão fazendo aqui?

- Viemos dar uma forcinha – Disse Miro.

- Porque como diria He-Man, eu tenho a força! – Emendou Aioros.

- Não, Oros! – Interveio Afrodite, entrando com uma xícara na mão – Ele não diz "eu tenho a força". Ele dizia "eu tenho a forca", lembra? Tanto é que foi o He-Man que matou Tiradentes.

- Tão vendo? Tão vendo porque eu mandei essa praga embora? – Esbravejou Saga, olhando para Miro e Aioros. Então voltou-se para o cavaleiro de Peixes – Mas que diabos você tá segurando?

- Você falou pra eu tomar chá de sumiço, fui na dispensa e não tinha. Acabei fazendo um de erva-doce, será que o efeito é o mesmo? – Perguntou inocentemente Afrodite, bebericando o chá.

- Dite, vem cá. – Chamou Miro, e Afrodite obedeceu, chegando perto – Quando o Saga diz "tomar chá de sumiço", ele quer dizer uma expressão que significa "suma daqui", entendeu?

- Exato! Some! – Disse Saga, jogando uma caixa vazia em Afrodite.

- Ah, é? Pois saiba que construirei um castelo com as caixas que me atirastes! – Bradou Afrodite, saindo.

- Olha, sabe que o Dite tem razão? – Comentou Aioros, olhando em volta – Essa sala tem tanta caixa de papelão que é praticamente uma mansão de mendigo.

- Aioros, eu vou botar pra você pra dormir numa caixa dessas. Mas não é uma caixinha. É um caixão! – Espumou Saga. – Será que ninguém percebe que eu to ocupado?

- Ocupado com o quê? – Ironizou Aioros – Cobrando imposto de renda dos sem teto?

- Estou tentando ganhar dinheiro. – Respondeu Saga, abaixando-se de novo e voltando para as caixas.

- Bom, isso deve valer alguma coisa, mas eu ouvi falar que latinha amassada dá mais dinheiro. – Respondeu Aioros, analisando falsamente uma caixa vazia.

- Nada disso, seu quadrúpede desmiolado – Respondeu Saga, levantando-se de novo. – Saiba que dentro dessas caixas existe um texto perdido de Aristóteles. Um teatro grego. Eu preciso achar os papeis, mas é impossível achar alguma coisa no meio desse mar de papeis. Tem tanto papel nessas caixas que se o Green Peace entra aqui interdita essa sala.

- E o que você pretende fazer quando encontrar o teatro perdido de Aristóteles? – Perguntou Miro, curioso. – Vender?

- Claro que não. Vender é muito pouco. Vou montar a peça! Vou transformar esse lugar aqui num teatro e vender ingressos exclusivos para quem quiser ver de perto o texto perdido do filósofo! – Disse Saga, mais pra si do que para Miro.

- Saga, seus planos me impressionam. Que homem de visão. – Disse Aioros, abraçando de lado o amigo – Isso é um homem de visão, senhoras e senhores. Quando ele vai no oculista, o Saga é que dá receita pro médico.

- Mas... Aristóteles escreveu teatro? – Perguntou Miro, confuso.

- E lá importa o que ele escreveu? – Reclamou Saga, sacudindo os braços. – Alguém que não esteja emaconhado lê o que Aristóteles escreveu? Não! Isso é coisa de gente que quer pagar de culta. É a mesma pessoa que fala: "nossa, adorei aquele livro do Beethoven!". E ainda vai nas redes sociais, escreve uma frase que encontrou num papel de bala e diz: "Ai, é da Clarice Lispector".

Miro e Aioros, então, começam a revirar algumas caixas juntamente com Saga. Então Aioros começa a jogar todos os papeis pra cima, como se fossem cartinhas em programa de auditório.

- Ô Saga – Chamou Aioros. – Como chama esse tal texto perdido?

- Eu lá sei? – Respondeu o cavaleiro de gêmeos.

- HÃ?! – Espantou-se Aioros. – Como você quer encontrar um negócio que você nem sabe como é?

- Bom, é o que você faz todo dia no frio, não é? – Riu-se Saga, apontando para as "partes" de Aioros.

- Muito engraçado. Sério, como você vai achar o tal texto se você não conhece o nome? – Questionou Aioros.

- Eu não sei o nome mas sei a aparência. Já peguei muita mulher assim. Não sabia o nome, mas o que vale é o rostinho bonito. Bom... Eu sei que é um papel muito velho, amassado, amarelado, e tem um coração desenhado. – Respondeu Saga, ainda revirando papeis.

- Ah eu vi um papel desses, Saga! – Disse Afrodite, entrando novamente na sala. – Um com um coraçãozinho fofo? Ai gente eu achei tão bonitinho que eu resolvi embrulhar um presente que eu comprei com aquele papel! Ah, inclusive eu deixei ele aqui em algum lugar. Cadê? – Comentou Afrodite, com os olhares curiosos e também indignados com o absurdo – É que na hora que eu passei aqui mais cedo pra ver o que o Saga tava fazendo, peguei aquele montinho de folha, mas só usei a primeira pra embrulhar. Ah, tá aqui, achei!

Afrodite então pegou uma caixinha pequena e embrulhada com o que parecia mais um papiro do que um embrulho. E estava lá o coração desenhado.

- Eu ainda TE MATO! – Disse Saga, voando para cima de Afrodite, que não entendeu nada. Aioros parou o cavaleiro de gêmeos.

- Pode me matar à vontade, contanto que você não estrague meu penteado que eu fiz hoje – Disse Afrodite, dando de ombros.

- Eu estive procurando isso por HORAS! E você tava com ele o tempo todo! – Resmungava Saga.

- Saga, já diria Paulo Coelho, quem procura caixa. É só ver pelo estado em que se encontra essa sala, não é mesmo? – Comentou Afrodite, olhando em volta.

- Bom, o importante – Começou Saga, recolhendo o texto em suas próprias mãos – é que agora eu tenho o texto completo em mãos. Poderemos interpretar e ganhar muito dinheiro com isso! Ah... – Lembrou-se, olhando para Afrodite – E você, Dite, por causa dessa palhaçada que fez não vai participar do meu teatro!

- Pois saiba que a mim pouco importa... e também pouco exporta! – Disse Afrodite, novamente dando de ombros.

- Mudando de assunto, Saga – Disse Miro, puxando o papel para si – Por que tem um coração desenhado nesses papeis?

- É uma história de amor – Respondeu Saga.

- Igual aquela dos Três Porquinhos? Onde tem o sapatinho, a vovozinha e um casalzinho apaixonado que afunda num navio e morrem congelados? – Perguntou Afrodite, sorrindo ingenuamente.

- Meu... Zeus... – Foi tudo que conseguiu esboçar Saga, inconformado com as ideias de Afrodite.

- Que mistura... Você consegue colocar todos os direitos autorais do mundo numa frase. As grandes empresas poderiam te processar só pela sua existência, Dite – Comentou Aioros. – Aliás, eu não misturo nada. A última vez que eu misturei alguma coisa foi numa festa. Achei que era flex, que aguentava álcool e gasolina, leia-se destilado e cerveja, acordei numa banheira com gelo.

- Roubaram algum dos seus dois pâncreas?! – Perguntou Afrodite, preocupado.

- Claro que não. Na verdade eu que acabei dormindo pelado no freezer. – Contou Aioros. – Dá pra imaginar o tamanho do estrago que eu não fiz na festa, não é mesmo?

- Chega desse papo furado – Interrompeu Saga – Quem topa me ajudar a montar o cenário? – Perguntou Saga, olhando para os amigos, que lentamente saíam assoviando. – Ora essa, ninguém vai me ajudar?

- Então, mas é que eu esqueci o ferro ligado – Desculpou-se Aioros, saindo.

- Eu deixei coisa na panela! – Saiu correndo Miro.

- E eu esqueci um picolé no freezer! – Esgoelou Afrodite, que também saiu correndo.

Nesse momento de desolação e abandono, Saga apenas abaixa a cabeça e começa a arrumar aquelas caixas de papelão que estavam espalhadas pelo Salão. De repente, a campainha tocou, fazendo com que Saga derrubasse todas as caixas que havia empilhado.

- Droga! Quem é que toca a campainha em pleno horário de almoço? – Disse Saga, rumando para a única e principal porta que dava acesso do exterior ao interior do Salão.

Quando a porta foi aberta, o dia ficou mais claro. As nuvens do céu se abriram, formando a paisagem mais azul que alguém já vira. Um rapaz louro, alto, de profundos olhos azuis estava ali parado. Seus cabelos eram curtos, repicados para cima, dourados como um brilhante campo de trigo que balança junto com o vento frio que vem do sul. Olhos azuis como duas piscinas perdidas no interior da Noruega. O sorriso branco feito com dentes que pareciam esculpidos num mármore de Carrara sem manchas. A beleza estonteante e desconcertante fez Saga tremer na base.

- Bo-boa tarde... Em... Em que posso ajudar? – Disse Saga, boquiaberto, sem conseguir tirar os olhos do visitante.

- Boa tarde! – Respondeu o louro numa simpatia e com um sorriso capaz de derreter o mais duro dos corações. – Meu nome é Eros. Eu sou filho de uma cabeleireira que mora aqui perto. Minha mãe faz o cabelo do senhor Afrodite, e ela pediu para eu deixar um recado. Ele está?

- E-e-e-e-e-e... – Engasgou-se Saga, até Eros dar um tapa leve em suas costas – Está. Eu vou chamá-lo. – Então Saga deixou o Salão, ainda boquiaberto.

- Sim? – Disse Afrodite, entrando no Salão, enquanto Eros mexia despreocupadamente em algumas caixas largadas por ali.

- Ah, boa tarde! O senhor é Afrodite? – Perguntou educadamente Eros, abrindo um sorriso. Afrodite nem se mexeu, mas Saga fingia cair das pernas logo atrás.

- Isso depende. Esse Afrodite que você está procurando, o nome dele você escreve com dois ou três S? – Afrodite parecia desconfiado.

- Oi? S? Afrodite tem S? – Eros parecia perdido, mas sem perder o sorriso e a simpatia desconcertantes.

- Não ligue para o meu amigo, ele é assim brincalhão assim mesmo! Brinca feito um cachorrinho que corre atrás do rabo! A diferença é que o cachorro tem o QI um pouco mais alto! – Interpelou Saga, sorrindo também. – Então, Eros, vi você mexendo nas caixas. Alguma coisa te interessou?

- Bom, eu vi que são peças de teatro, e eu gosto muito te interpretação. Vocês vão montar uma peça? – Perguntou Eros, interessado.

- Olha não venha achando que isso aqui é Lego não pra gente ficar montando peça não! – Resmungou Afrodite para Eros.

- Calado! – Gritou Saga – Sim, vamos montar uma peça, um romance histórico, uma história de amor que remonta da Grécia antiga. Tão antiga que se a gente voltasse mais 5 anos seria uma peça de teatro de amor entre dois dinossauros. Você gostaria de fazer parte? Temos um papel sobrando.

- Mas é claro que tem papel sobrando! Dã! – Reclamou Afrodite – Olha quanto tem espalhado aí pelo chão.

- Pois bem, Eros – Disse Saga voltando-se ao louro, ignorando Afrodite – Tudo que você tem a fazer é decorar o texto.

- Dãã! – Era Afrodite novamente interrompendo – Como se ele fosse decorador, né? Viu, seu Eros, decora o texto, depois dá uma passadinha lá em casa e decora a sala, o quarto! Ai, Saga, você é muito ingênuo.

- Sai. Imediatamente. É a segunda vez que sou obrigado a expulsar você daqui. Vaza! – Esbravejou Saga, empurrando Afrodite para fora do Salão.

Nesse instante, enquanto Saga ocupava-se em arrastar Afrodite pra fora dali, entram Aioros e Miro. Ao mesmo tempo em que entram, pousam os olhos sobre o agora avulso Eros, e imediatamente ficam tão boquiabertos quanto Saga estava há poucos minutos.

- Saga – Disse Aioros puxando o cavaleiro de gêmeos, junto com Miro, para um canto – Cancela o encontro que eu tinha hoje à noite. Eu to me sentindo igual jogador de futebol que recebe milhões de dólares. Não sei se fico ou se eu mudo de time!

- Eu normalmente diria que o Aioros tá falando bobagem, mas realmente – Concordou Miro – tenho que admitir que esse cidadão é algo ímpar na história da humanidade. Por causa dele, nesse exato momento estão nascendo 230 mil bebês horríveis, feios, tadinhos. Culpa dele que roubou toda a beleza de umas quatro gerações.

- Como você se chama? – Perguntou Aioros ao desconhecido.

- Sou Eros! – Respondeu o moço, abrindo um sorriso e deixando todos ainda mais desconcertados. – Sou filho de uma cabeleireira que mora aqui perto.

- E vem cá, tem alguma coisa feia em você? – Continuou Aioros – Um dente que caiu, uma unha podre, um pelo encravado na coxa?

- Não, não tenho. – Disse Eros, sempre... sorrindo. – Por quê?

- Dados do IBGE. – Respondeu de pronto Aioros.

- Bom, agora que todo mundo se conhece – interrompeu Saga – Eros disse que topa participar da montagem to teatro. Vamos todos decorar o texto e preparar o cenário, pode ser?

- Sim! – Responderam todos.

- Eu vou atrás dos panos para o figurino – Prontificou-se Aioros, saindo.

- Eu vou buscar objetos para o cenário – Saiu Miro, correndo.

- Eu vou procurar o vôngole do Afrodite. – Disse Saga, ressabiado.

- E eu... vou ficar aqui sentado sendo bonito! – Sorriu Eros para si.

Como será essa peça de teatro? O que aguarda os cavaleiros de ouro? Conseguirão a fama, poder e mulheres? (Ou só o Eros mesmo que tá de bom tamanho). Não perca na segunda parte de: "O amor dói porque o Cupido usa flechas!"

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CONTINUA

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Essa é a Season Finale do seriado "Desocupados – Comédia de quem não tem o que fazer". Calma! Não é o fim do seriado nem um hiato eterno. É apenas para ajudar a separar futuramente os episódios de forma temporal, e para facilitar a forma dos leitores acompanharem a trama. Em breve a segunda parte desse episódio estará no ar, e em seguida haverá uma lista de episódios e sinopses que aconteceram até agora. Nos vemos lá!

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DESOCUPADOS

Lista de episódios

Episódio 01 (Series première) – A mandinga do tempo

Episódio 02 – Afrodite se quiser

Episódio 03 – De televisão e louco todo mundo tem um pouco

Episódio 04 – Sobre embrulhos e bolos

Episódio 05 (Season finale) – O amor dói porque o Cupido usa flechas