N/A: olá. tudo bem? eu já devia ter postado este capítulo mais cedo, porém eu esqueci-me de vir aqui postar, visto que eu posto noutro sitio e não me lembrei daqui.
Bem espero que gostem
Capítulo 12
Harry POV
Finalmente o treino acabou. A escola mal recomeçou e eu já pouco aguento as aulas. Estou tão cansado que mal me aguento em pé. Tenho treinos, quase todos os dias, cerca de duas horas por sessão. E só de saber que isto se deve ao mal-estar repentino do Oliver.
Ele voltou bem das férias que passou em casa, mas passados três dias já estava com vontade de explodir com as masmorras. Porque tenho quase a certeza que tudo isto tem a ver com a equipa de Quidditch dos Slytherin. O Oliver reservou o campo só para nós no segundo dia depois das férias, mas os Slytherin decidiram passar por cima de todos e vieram ocupar o campo. O resultado foi um olho negro para o nosso capitão. O outro não teve tanta sorte, ficou com um braço partido. Tenho de me lembrar para não entrar numa luta com o Oliver. Pode parecer muito pacífico, mas é uma fera quando o irritam.
Depois desse belíssimo episódio os treinos voltaram em força. O Oliver reservou o campo por duas semanas seguidas. Ainda bem que ontem foi o último treino. Tenho agora dois dias para descansar. Se bem que com a quantidade de matéria que tenho que ver mais irá parecer tortura do que propriamente descanso.
Para além de ter de aturar os treinos rigorosos, como se só isso não bastasse para me entreter durante muito tempo, agora vou ter a Hermione atrás de mim para me pôr a estudar. Não é que eu não goste de a ter por perto mas não me vai deixar um minuto sossegado enquanto não sei toda a matéria que já demos.
Como se não bastasse isso ainda tenho de adivinhar quem me deu o livro no Natal. E por falar em prendas ainda tenho de comprar algo para dar ao Hagrid. Eu não esperava nada da parte dele e fui surpreendido com um álbum de fotos dos meus pais. Foi dos melhores presentes que recebi até agora. Tenho de falar com o Ron e a Hermione para ver se me dão ideias.
Por agora tenho de me trocar e ir para o salão. Não deve tardar para começar o jantar. A altura do dia que passei a adorar pois significa o fim do treino e o fim das aulas. Vou poder esticar-me na minha cama e descansar o meu corpo. É uma pena que amanhã seja ainda sexta.
...
- Estou de rastos. Se não houvesse folga amanhã eu não iria. Estamos todos exaustos, o Oliver é o único que tem energia ainda de sobra. Gostaria de saber onde ele guarda tanta vontade de treinar. - digo ao chegar à beira dos meus amigos.
- Realmente o Oliver está a exagerar. Nem dá tempo para que os seus jogadores consigam estudar. - claro que só podia ter sido a Hermione a fazer este comentário.
- Oh rapariga, achas que os estudos é a coisa que preocupa o Harry neste momento? Ele quer é ter um momento de paz e sossego. Tudo o que tem feito desde que voltamos às aulas foi treinar. Deixa-o em paz estes momentos. – diz o Ron.
- Eu sinceramente só queria um pouco de paz e de sossego. Se esta discussão continuar vou ter de ir para outro lugar e estava mesmo com vontade de jantar nas calmas. – Sinceramente quando querem os dois podem continuar uma discussão estúpida por horas.
- Ok Harry, já não digo mais nada. Mas devias ao menos pegar em alguma…
- Hermione deixa-o em paz. Qual foi a parte que não percebeste? Ele não quer saber mais nada por agora. – diz o Ron já à beira do desespero.
- Bem chega de falar nisso. Agora precisava de falar com vocês sobre o outro assunto. Eu muito sinceramente não sei o que lhe darei de prenda de Natal. Sinto-me mal por ele ter comprado um presente para mim e eu não lhe ofereci nada porque não pensei que o iria receber. E ainda por cima logo aquele presente. Sem dúvida que foi dos melhores que até agora recebi.
O álbum de fotos foi um presente muito especial e também gostaria de retribuir da mesma forma ao Hagrid. Também existe a questão deste livro de Quidditch que estou a segurar neste momento, mas tenho de resolver uma coisa de cada vez. E nada melhor do que os meus amigos para me ajudarem nesta questão.
- O melhor não seria dares alguma coisa de que ele precise? – sugere a Hermione. – Porque estar a dar algo que ele já tenha é mau. Assim não valorizava o que quer que lhe dês.
- Eu acho que ele era bem capaz de emoldurar qualquer coisa que o Harry lhe desse. Por isso é melhor não lhe dares comida porque se não ele fica demasiado emocionado e não a come.
- Ron não sejas parvo. Achas que ele ia guardar comida?
- Hermione vindo dele nada me surpreende. – diz o Ron encolhendo os ombros.
- Será que dava para pararem de dizer disparates. Assim não ajudam em nada. Eu queria saber o que lhe oferecer. O que ele faz depois com a prenda já não é da minha conta.
- Tens de o seguir para ver o que precisa. Se é para dar algo que ele possa usar mais tarde é a única maneira de saber, não é? – pergunta o Ron a tentar dar uma de inteligente. Claro que esta foi uma tentativa falhada.
- Oh Ron, estás doido? Achas que o vou seguir por todo o lado? Eu mal tenho tempo para alguma coisa entre estudar e ir às aulas. Achas que saía da sala e me punha a procurar por todo o castelo onde ele está?
- Tens sempre outra solução Harry. Podes sempre ir lá agradecer-lhe e perguntar o que ele gosta, como quem não tem o mínimo interesse em saber.
- Ron vai ver se chove lá fora. – pede a Hermione também já farta das maluquices do Ron.
- Hermione basta olhar para o teto do salão. Não preciso ir lá fora. - olha para cima com o olhar pensativo. - Para já não chove mas parece que vai chover mais tarde.
Quando penso que o Ron não me consegue surpreender ele vem com esta. Será que não percebeu que o comentário vinha condimentado com um pouco de ironia?
- Pronto não quero saber como está o tempo hoje. É assim tão difícil encontrar o presente ideal?
- Parece que sim Harry visto que andas à dias a pensar no assunto. - afirma a Hermione.
Não sei mais o que fazer. Não vou andar a espiar o Hagrid nem vou perguntar o que ele mais gosta. Vou ter de arranjar uma solução para isto. Gostaria de saber quem é que me deu este livro. Gosto mesmo de passar a mão nos relevos na capa. E descobri recentemente que consigo fazer com que os desenhos da capa saiam do livro como se estivessem a voar.
- Aquele Malfoy. Se eu o apanho nem sei o que lhe faço. Agora anda a espiar os outros. Certamente ainda não se conformou com o facto de não ter recebido o que desejou pelo natal. Agora anda a ver se tira os presentes às pessoas. Veio aqui à mesa do lado só para averiguar as coisas. Que nervos. - dito isto o Ron levanta-se da mesa e sai do salão.
Realmente desde o novo início das aulas que ele anda assim irritadiço ou então na lua porque não ouve ou não percebe o que se lhe diz. A Hermione olha para mim e encolhe os ombros com uma expressão que podia ser traduzida como: percebo tanto quanto tu estas mudanças de humor. De seguida também ela se levanta e vai para o dormitório.
O salão vai esvaziando aos poucos e eu continuo no mesmo sítio a fitar a porta. No fundo queria ir descansar, mas tinha um pressentimento que deveria ficar mais um pouco. Por isso aguardei que o salão ficasse vazio antes de rumar ao meu quarto. É estranho ter algum tempo em paz, mas ao mesmo tempo é sem dúvida maravilhoso. Dá para eu conseguir pensar em tudo o que quero sem ter alguma voz ou som a interromper-me. Se calhar este fim-de-semana vou para a torre de astronomia para arranjar o sossego que tanto necessito.
Com poucas pessoas a andar pelos corredores esta noite, consigo evitar aquelas raparigas que às vezes me perseguem por todo o lado. Estou quase a chegar à zona das escadas que não param quietas quando sou puxado de repente para dentro de um armário. Tento começar a protestar o meu sequestro quando alguém me mete a mão na boca e pede-me para não atrair as atenções. A voz não me é estranha e até me é familiar e surpreendentemente até reconheço o perfume que paira no ar. Qual não é o meu espanto ao ver os olhos cinzentos a olhar muito atentamente para mim.
- Posso saber para que é que foi isto Mlafoy? – pergunto quando ele tira a mão e percebe que não irei gritar.
- Que outra maneira é que eu teria para falar contigo Potter? Estás sempre rodeado de pessoas que te guardam como se fosses escapar a qualquer instante e ainda há aquelas personagens a quem só falta começar a tirar a roupa à tua frente para chamar ainda mais a atenção. Por acaso hoje vi uma oportunidade e agarrei-a. Não deixo escapar nada que me possa ser útil. – diz o Malfoy completamente zangado por alguma coisa que tenha acontecido.
- E o que é assim tão importante que tens para falar comigo? Desde que chegaste de férias pareces que não me queres ver nem pintado de ouro.
- Isso foi antes. Agora eu percebo porque é que não recebi nada em troca. Estive eu à espera o tempo todo nas férias mas depois pensei que se calhar não sabias que irias receber algo então só me darias quando voltasse para teres tempo de arranjar. Mas as aulas começaram e tu nada. Deu-me uma enorme vontade de te lançar umas quantas maldições, contudo agora entendo porque não veio nada até agora. Como não sabias o que dar estiveste o tempo todo a tentar perceber o que poderia gostar. E eu aqui a achar que te tinhas esquecido de mim. Realmente só penso que as pessoas apenas gostam de receber e não de dar.
- Ah…
- Fiquei deveras muito chateado com tudo isto e afinal não tinhas culpa de nada. Se me conhecesses melhor era certo que saberias logo o que eu mais gostaria, mas sendo assim é melhor eu dar-te uma ajuda ou eu tenho de esperar uma eternidade. – disse um pouco amuado. – Bem este ano não me importaria nada de ter o livro de preparação de ingredientes para fazer poções, recomendado por Nicholas Famel claro. Ou então um kit da minha equipa favorita de Quidditch. Se calhar um equipamento para jogar Quidditch também não era nada mau. Nada é muito caro, então podes escolher o que preferes. Não acredito que eu tenha de te dizer qual o presente de natal que me deves dar.
Ele faz uma pausa no seu discurso como se a tentar decidir se devia incluir mais alguma coisa na sua lista porém apenas se despediu e saiu do armário referindo-se a mim que ao menos espera que o nosso próximo encontro não seja num armário. Permaneço no mesmo sítio e tentar encaixar os últimos momentos na minha cabeça. Porque é que ele disse aquilo? Porque é que ele estava à espera de algo da minha parte?
Saio do armário e pego na minha mochila que caiu quando eu fui arrastado para dentro do armário. O meu livro de Quidditch saiu de dentro da mochila e estava aberto no meio do corredor. A única coisa que não faço ideia as suas origens é deste livro. Quando a realidade me atinge finalmente eu nem acredito no quão burro fui. Estava tão óbvio. Com quem é que eu mais falei sobre este desporto? Quem pareceu que estava tão entusiasmado quanto eu? Apesar de ter sido o Ron o primeiro a mostrar-me o que era, foi com o Malfoy que aprofundei os meus conhecimentos das regras do desporto. Foi com ele que eu aprendi a adorar ainda mais.
Agora tudo faz sentido. O porquê de mal querer olhar para mim nos últimos tempos, esta conversa que me pareceu estranha no início, o livro sem remetente. Ele julgou que eu perceberia que vinha dele. E eu não correspondi às suas expectativas. Se não fosse ele ter ouvido a nossa conversa ao jantar eu dificilmente saberia de onde vinha o livro. Ao menos uma daas minhas preocupações já foi resolvida. Tenho de ir descansar para conseguir amanhã pensar sobre tudo isto que se passou.
…
O que eu aprendi durante a noite passada: sou mesmo parvo por não ter entendido quem me tinha dado o livro; o Malfoy quer continuar a conhecer-me, suponho que seja o que significa por me ter dado um presente; continuo sem presente para o Hagrid; arranjei uma embrulhada pois tenho de ver algo também para o Malfoy; não dá para contar nada disto aos meus amigos. Resumindo tenho de fazer isto sozinho e estou tramado.
Depois de muito refletir decido que apenas irei dar um livro sobre dragões ao Hagrid. Ele adora qualquer tipo de criatura perigosa e acho que é capaz de gostar de saber mais sobre o assunto. Agora só resta arranjar uma forma de ir comprar as coisas. Vou ter de arranjar forma de sair do castelo. Não é suposto os do primeiro ano terem autorização para saírem, mas irei conseguir.
Com tantos devaneios e já se passou quase um dia inteiro. Decido dar um salto a cabana do Hagrid. Há muito que não lhe faço uma visita. Vou sozinho pois os outros dois devem estar na biblioteca. A Hermione praticamente vive lá depois de sair das aulas, o Ron coitado hoje não conseguiu escapar do estudo. Para a próxima tem de se esconder como eu fiz. Estou prestes a bater à porta quando ouço vozes na cabana.
- Não te esqueças Hagrid. Preciso que me compres sementes de mandráguas, um vaso de hera cuspideira, e o veneno para os caracóis. Andam a atacar as minhas plantas e se continuar não tenho como dar os ingredientes para poções que o professor Snape usa. E sabes que ele odeia não ter as coisas em reserva. – disse uma voz feminina vagamente familiar.
- Não se preocupe professora Sprout. Eu amanhã passo por Diagon Alley e comprarei tudo o que for necessário. Irei de manhã e estarei aqui a tempo do almoço. Pode contar comigo para isso. Eu precisava ir lá mesmo ao banco, por isso não é nenhum incómodo.
Ora aqui está uma boa ideia. Eu podia pedir ao Hagrid para ir com ele. E assim resolvia-se esse problema. Só o teria de o distrair na hora de ir à livraria. A professora sai da cabana e eu escondo-me para ela não me ver. Espero que se afaste o suficiente para eu poder entrar sem ser visto por ela. Quando já não a vejo decido bater à porta. O Hagrid abre em poucos segundos.
- Harry que bom voltar a ver-te. Está tudo bem contigo? Hoje não estás a treinar? Ultimamente só indo ao campo é que eu podia ver-te.
- Olá Hagrid. O Oliver deu-nos uma folga prolongada. Já estávamos a precisar.
- Pois calculo. Deve ser muito desgastante. Então senta-te e toma um chá comigo.
Indica-me uma poltrona ao pé da lareira. Como tudo nesta casa é demasiado grande para mim. Cabia à vontade duas pessoas aqui sentadas. O Hagrid tira as chávenas e um bule de uma prateleira alta e põe água a ferver na chaleira. Enquanto espera que a água ferva vai dando um jeito à casa. O Fang entra na cozinha e deita-se ao pé da lareira sem se incomodar com a minha presença.
- Tens de vir cá mais vezes Harry. Eu gosto de ter companhia mas não há assim tanta gente que queira vir aqui.
- Tenho de ver quando volto a ter um tempo. Se o Oliver continuar assim vamos cansados para o jogo e isso não convém. Mas eu hoje vim por algo mais do que a tua companhia. Precisava de ir a Diagon Alley comprar uns livros que recomendaram agora.
- Mas tu não podes sair do castelo Harry. – A água começa a ferver e ele deita umas ervas na chaleira antes de passar tudo para o bule.
- Ora é aí que tu entras. Eu sei que vais lá amanhã, por isso eu aproveitava a boleia.
- Sinto muito mas não posso fazer isso Harry, é contra as regras.
- Eu preciso mesmo desses livros Hagrid.
- Então dá-me uma lista e eu vou lá. Ou podes sempre mandar entregar.
- O problema é que preciso de ir a Gringotts primeiro. Não tenho comigo dinheiro que chegue.
- Lamento Harry mas não dá. – começa a encher as chávenas com o chá já pronto e entrega-me uma. – Se eu te levasse comigo teria de prestar contas depois com o Dumbledore. E eu não vou infringir as regras. E acabou-se o assunto.
Depois de acabado o chá o Hagrid despediu-se de mim e praticamente expulsou-me de casa. O caminho até ao meu dormitório foi feito sem pressa alguma. Eu tenho de arranjar maneira de ir amanhã com ele. Mas como?
Chegado ao meu quarto atiro-me para a cama, mais por vontade que por cansaço. Estou quase a desistir da ida amanhã com o Hagrid. Não vejo como posso fazê-lo mudar de ideias. A não ser que ele não me veja. Se ele não me vir à ida para lá não poderá fazer nada quando eu já lá estiver. E para isso preciso de um presentinho muito valioso que recebi. Vou buscar o manto e ponho debaixo da almofada. Assim eu saberei onde está e não precisarei de mexer muito nas minhas coisas quando o tirar mais tarde.
Ao jantar digo ao Ron que decidi dar um livro sobre dragões ao Hagrid e ele acha uma boa ideia. Até comenta que o Hagrid como vai sair amanhã por volta das sete horas da manhã, devido a compromissos, eu não o posso ver de manhã. E assim descubro a que horas ele sai daqui. Só tenho de me levantar cedo e sair sem ser visto. E assim que chegarmos ele não me vai impedir de ir às compras.
…
Ah, porque é que eu tinha de meter na cabeça que teria de ser hoje que tinha de me levantar cedo? Talvez porque se calhar é quando tenho uma oportunidade de ir fazer o que preciso. Num instante estou pronto a sair porta fora completamente vestido e com uma pequena mochila onde estava o manto da invisibilidade. Desci depressa as escadas e dei um salto à cozinha. A esta hora o salão ainda não está aberto e também não é a primeira vez que me aventuro na cozinha. Os elfos dão-me um bom pequeno-almoço e dão-me um saco com um pequeno lanche caso eu fique com fome antes do almoço.
Vou a correr pelos campos do castelo e assim que avisto a cabana paro e ponho a capa sobre os meus ombros. Tapo a cabeça mesmo antes do Hagrid sair pela porta. Como não sei como ele vai decido segui-lo, visto que é a única coisa que me resta. Vejo-o a aproximar-se da mota e apresso-me a ir para o carrinho que esta conectado à moto. E pouco depois estamos a andar pelos campos até que num ponto qualquer da viagem a moto levanta voo. O percurso não foi muito longo mas não tive muito tempo para apreciar a vista. Tinha de segurar muito bem no manto para este não cair.
Assim que aterramos o Hagrid estacionou a mota perto da entrada de Diagon Alley. Como não há muito movimento a esta hora decido tirar o manto e prego um valente susto no Hagrid.
- Harry o que é que estás aqui a fazer? Devias estar no castelo. – diz enquanto eu dobro o manto.
- Pois mas não estou. Estou aqui onde queria estar. E com a tua ajuda. – digo referindo-me à mota.
- Não devias ter feito isso. Se me descobrem vou ter problemas por tua causa. Devia levar-te de volta imediatamente.
- Ou então podias tratar do que aqui tens a fazer e eu também. Já aqui estamos. Se tivermos de sofrer as consequências então eu prefiro depois de fazer tudo o que preciso.
O Hagrid pareceu pensar no que disse. Já que aqui estamos podíamos fazer as nossas tarefas e resolver o que nos espera no fim.
- Ok pode ser. Mas vais ter de estar sempre debaixo da capa. Ninguém pode ver-te. Exceto quando formos ao banco, e é melhor ir agora antes da afluência de pessoas aqui. Precisas de aparecer no banco para nos darem acesso ao teu dinheiro. De resto posso ser eu a comprar. Basta escreveres e eu entrego na livraria e pago.
- Está bem. Vamos lá então.
Foi uma manhã bem interessante. Fomos ao banco e foi tudo muito rápido e depressa já estávamos cá fora. Eu escrevi o que queria num papel e o Hagrid não o viu e assim pude fazer lhe a surpresa de um dos livros embrulhados ser para ele. Como fiz questão de dizer de que cor os queria embrulhados foi fácil saber qual era o dele. Enquanto ele andava pela rua a tratar das suas coisas eu andava a ver as montras. Já saiu um novo modelo de vassoura melhor que o meu, mas isso é normal, está sempre a sair melhores.
Estava na aproximação ao Hagrid quando vi uma coisa numa montra. Chamou-me logo a atenção pela sua cor e da maneira como estava decorada. Achei que era o presente ideal para dar a uma certa pessoa. Não resisti e pedi ao Hagrid que lá fosse. Assim que chegou à minha beira começou logo a gozar comigo por eu ter comprado aquilo. Eu fui ficando mais corado à medida que ele falava, mas assim que imaginava como iria ficar o resultado final eu ficava maravilhado e tudo o resto não importava.
…
Quando chegamos à escola, por incrível que pareça, não houve problemas. O Ron e a Hermione andaram à minha procura, mas como nunca estavam ao mesmo tempo nos locais não sabiam onde estava. O Hagrid disse que passei a manhã com ele, a tratar de coisas para a escola e eles deixaram de fazer perguntas. Mas acho que mesmo assim não os convenci.
Antes de vir vaguear pela escola dei o livro ao Hagrid e ele agradeceu-me de tal maneira que quase me esmagava devido ao grande abraço que me deu. Disse que mal esperava para pôr em prática todos os ensinamentos do livro. Eu só espero que ele não esteja a pensar em criar um dragão. Não estou a ver onde o iria manter. Era bem capaz de arranjar problemas com a escola à conta disso.
Agora tenho de arranjar forma de dar o outro livro ao Draco. Espero que ele goste senão foi um esforço para nada. E quem sabe não possamos falar sobre outras coisas. Gostaria de saber como ele é por detrás de toda a sua postura rígida que tem em frente a todos. Para isso tenho de o encontrar algures neste castelo e de preferência sozinho. Se for acompanhado, quer eu ou ele, não vai dar para falarmos.
Para isso preciso de encontrar uma sala vazia num piso onde não ande muita gente para não parecer suspeito. Definitivamente não pode ser o terceiro piso, esse é proibido. Mas se calhar o ideal é este piso onde estou, o quinto piso. Não costuma haver muitas aulas cá em cima. Só sobem tão alto quem tem aulas de astronomia ou adivinhação. A torre de astronomia está fora de questão. Pois é um local calmo e sereno, se não estiverem lá meia dúzia de casais a namorar. O ideal é uma das salas ao fundo deste corredor. Só tenho de encontrar a que se encontra mais abandonada.
Contudo todas elas estão com carteiras e cadeiras tão impecáveis que eu nunca pensei que viesse tanta gente cá para cima. Só me resta tentar a última porta, a última esperança de encontrar algo aqui em cima. Abro a porta e não vejo nada. Só uma grande janela que está parcialmente tapada. Decido entrar e ver o que se passa. No meio da sala está um grande móvel tapado com um lençol. Ao aproximar-me reparo que o móvel é demasiado estrito para poder guardar alguma coisa e portanto decido destapá-lo para ver o que realmente é.
Trata-se de um grande espelho. E muito antigo pelo que posso constatar. Decido que vou-me aproximar para o observar melhor. À medida que estou mais perto começam a aparecer duas pessoas para além de mim no espelho. Como olho para trás de mim vejo que não estão comigo e apenas no espelho. Quando observo melhor as figuras reparo que me são familiares, de certo modo. Pareciam-se com as fotos do álbum que o Hagrid me deu no Natal. Nem acredito que estou a ver os meus pais. E eles estão a interagir com o meu reflexo no espelho. A minha mãe põe-me a mão no ombro enquanto o meu pai põe-me a mão na cabeça. A imagem dos dois a rirem-se para mim é tão boa que nem dou pelo tempo passar.
…
Depois de pousar o embrulho naquela sala decido ir à procura do Malfoy. Quero ver a reação dele ao presente o mais depressa possível. Escondo-me debaixo da capa de invisibilidade e começo a minha busca. Não demoro muito a encontra-lo, estava apenas um piso abaixo, mas o pior vai ser descartar a companhia dele. Decido derrubar um dos tinteiros que o Goyle traz na mão e tirar o Draco dali. Na confusão certamente não iriam reparar.
- Ah Goyle vê só o que fizeste. – disse o Draco ao ser alvo de um tinteiro cheio. Bem não queria que ele ficasse cheio de tinta mas se isso o afastar deles também serve. - Agora vou ter de ir trocar de roupa. Se alguém me vir assim estás feito comigo. Logo agora isto tinha de acontecer. E vejam lá se limpam a bagunça que ele fez.
O Draco vira-lhes as costas e começa a andar na direção das escadas. Quando vira no corredor eu empurro-o para dentro de uma sala e tiro o manto antes de ir atrás dele.
- Mas o que…
- É para veres que também não gostei quando fui empurrado para dentro do armário. A justiça tarda mas não falha. Foi pena ter de te sujar com tinta para te afastar daqueles dois.
- Então a culpa foi tua? Nem sei o que te faça Potter.
- Eu sei o que podes fazer. Vai lá trocar de roupa e vem ter comigo ao quinto piso. Tenho uma coisa para ti.
- Sabes às vezes nem pareces que és um feiticeiro Harry. – tirou a varinha do manto e com um movimento ficou completamente limpo e arranjado. – Isso foi um pretexto para sair de lá. Por vezes eles são um pouco idiotas.
- Um pouco só? Deves estar a delirar. Eles são-no sempre.
- Isso é porque não os conheces. Mas porque não pode ser aqui?
- Porque eu deixei lá e além disso isto é um lugar muito concorrido. Lá em cima encontrei um lugar calmo e não seremos interrompidos em ocasião alguma. É no fundo do corredor a última porta. Até já.
E sem esperar uma resposta da parte dele saio da sala e dirijo-me para o piso de cima. Sempre que dou um passo até parece que estou a caminho de um exame. Sinto-me cada vez mais nervoso à medida que me aproximo da porta. Nem tenho razão para tal. Assim que entro fico ansiosamente a olhar para porta. O meu coração bate tão alto e tão depressa que parece que eu acabei de fazer uma maratona. E o tempo anda tão devagar que só me apetece sair daqui e arrastar o Draco para que venha mais depressa. Estou tão atarantado que mal dou pela porta se abrir e ele finalmente entrar.
- Porque é que demoraste tanto?
- Eu só esperei dez segundos desde que saíste da porta. Não demorei muito mais.
- A mim pareceu muito mais. Bem aqui está a tua prenda.
Entrego-lhe o embrulho e fico à espera que ele o abra. Espero que goste pois dei-me ao trabalho de ir até lá comprá-lo. A cara de espectativa dele faz com que tenha valido a pena ir lá.
- Oh, por esta não estava nada à espera. - o livro que lhe dei é sobre poções e sobre Quidditch. Mais propriamente sobre o que se pode ou não tomar antes de um jogo. - Eu deite uma lista de coisas e sai-me algo diferente. Gostei do presente. E muito. Combina duas coisas que eu mais gosto.
- Ainda bem que gostas. Ao menos o meu esforço valeu a pena. Eu queria escolher algo que gostasses mas que também desse para tema de conversa entre nós os dois. Eu não gosto propriamente de poções, mas se for combinado com Quidditch posso fazer um esforço.
Ele sorri para mim como nunca tinha visto. É o sorriso mais belo que já vi na vida. E ele fica lindo assim. Tão lindo que só me apetece tocar-lhe. Aproximo-me dele e bagunço-lhe o cabelo.
- Hei, despenteaste-me. - Ai ele corado fica mesmo fofo. - Não faças isso outra vez.
Antes que ele começasse a arranjar o cabelo eu peguei-lhe na mão e impedi-o.
- Deixa-me ser eu a fazer isso.
Se eu achava que ele não podia ficar mais corado enganei-me. E eu também não fiquei muito atrás. Mal lhe encostei a mão na cabeça e ele já fechou os olhos na espera pelo meu toque. É tão fofo em cada gesto que não sei como não o abracei em vez de lhe pentear o cabelo. Como costuma usar o cabelo para trás eu resolvo mudar de penteado. Fiz-lhe uma franja para o lado direito e arranjei o resto do cabelo.
Antes de acabar resolvo dar-lhe o segundo presente que tinha planeado dar-lhe. Eu mal o vi na montra e imaginei logo como lhe ficaria. O que comprei foi um gancho de cabelo em prata com esmeraldas. Eu sei que é mais para raparigas mas achei que a visão dele com o gancho seria tão bela que valeria a pena. Juntei a mecha de cabelos e coloquei o gancho. Apesar de não estar à espera que eu colocasse algo deixou-se ficar quietinho até eu acabar.
Quando dou por terminada a minha obra de arte afastei-me um pouco e fiquei a admirá-lo. Realmente aquilo ficou-lhe mesmo bem. Entretanto ele abre os olhos e fita-me. O gancho fica tão bem no cabelo dele que parece que foi feito de propósito só para ele usar.
- Assim estás melhor. Estás lindo.
Sinto a minha cara a aquecer mas não o posso evitar. Ele sorri de forma tímida para mim. E eu podia ficar sempre aqui e sorrir e a olhar para ele.
- Agora gostaria de ver como eu fiquei. Preciso de saber se estou digno ou não que os outros me vejam.
Só a ideia de mostrar a outras pessoas esta visão tão bela dá-me voltas ao estomago, mas não digo nada. Apenas o conduzo até ao espelho que tinha encontrado. Ele fica a olhar para o seu reflexo e depois sorri para mim. Àquela distância sei que não vê nada para além de nós dois e, como gostaria de lhe mostrar os meus pais, encaminho-o para mais perto do espelho.
Todavia o que vejo agora no espelho não são os meus pais. Eu vejo-me a mim mais velho rodeado dos meus amigos, também eles mais velhos, e de mais pessoas que não conheço. Alguns são mesmo mais novos que eu e andam a tentar subir nas pernas dos mais velhos. Um está inclusivamente no meu colo. Parece que estamos a tirar uma fotografia para mais tarde recordar.
Surpreendentemente ao meu lado está o Draco. Mais velho, mais alto, mais bonito. Com o cabelo mais comprido e a usar o mesmo gancho que agora lhe dei. Estamos todos felizes e a sorrir. Eu olho para o Draco e o meu reflexo faz o mesmo e ri-se para o outro do espelho. Eles têm uma troca de olhares e colocam um braço ao redor do corpo do outro. Parecem muito íntimos. Eu olho para o Draco e instintivamente damos as mãos e sorrimos. Só queria guardar este momento para sempre.
- Nem acredito que estou a olhar para o Espelho dos Invisíveis. Como é que o encontraste?
- Apenas entrei na sala e na altura estava tapado. Mas o que ele faz ao certo?
- Creio que já sabes o que faz. Deixa-me dar-te uma pista. O homem mais feliz da Terra olharia para o espelho e ver-se-ia somente a si mesmo exatamente como é.
- Então mostra-nos o que queremos. Tudo o que queremos.
- Sim. E não. Mostra-nos, nada mais, nada menos do que os nossos mais profundos e desesperados desejos. É que às vezes nem sabemos o que queremos. Mas este espelho não nos dá nem conhecimento nem verdade. Soube até que houve homens que definharam diante dele. E que até enlouqueceram. Todavia de nada serve ficarmo-nos pelos sonhos e esquecermo-nos de viver. Mesmo sabendo disso, eu um dia quis conhecer este espelho. E agora pude encontra-lo.
- Era bom que isto fosse verdade. Nós dois a conviver como amigos e sem esconder de tudo e todos.
- Por muito que compreenda o que queres dizer eu não vou mudar a maneira com que trato os teus amigos Harry. Foi por causa deles que em primeiro lugar não quiseste ser meu amigo. Eu sei que os tratei mal, mas tenta compreender o meu lado. Eu fui assim ensinado, a não ligar aos outros a menos que isso me possa beneficiar. Sei que podes pensar que é isso que eu vejo quando estou contigo, que estou a tentar tirar algum proveito de ti. Mas isso não é assim. Eu sempre tive curiosidade em saber quem eras. Nem o facto de não seres puro-sangue me interessa. Interessas-me por seres tu e não o rapaz que sobreviveu. Quando te vi no jogo de Quidditch fiquei contente por teres conseguido o que muitos não conseguiram. Podes ainda ter alguns ressentimentos contra mim mas tens de entender que dificilmente isto irá mudar. Eu só sei ser assim e enerva-me estar a beira deles. Será muito complicado conseguirmos ser amigos à frente de todos.
Neste momento percebo o que me quer dizer. O que é viver rodeado por todos, mas ser completamente só. O ter de viver segundo as regras de outros. É complicado tentar dar um passo sem ser revisto tudo o que nos pode acontecer se o fizermos. Quando esse passo nos é negado temos de acatar com a negação. Eu senti um pouco isso quando vivia com os meus tios. Certamente vou voltar a sentir quando tiver de retornar para lá. Porém há coisas que não se esquecem facilmente. Ele maltratar os meus amigos é algo que não posso desprezar. Um dia serei capaz de pôr por detrás das costas, mas ainda não.
- Sei que é difícil, eu também não aceito bem os teus amigos. Nesse caso estamos empatados. O caminho que devemos escolher é seguir em frente. Perante os outros nada vai mudar, para já, mas podemos tentar falar e encontrarmo-nos em segredo para nos conhecermos e quem sabe um dia tornamo-nos amigos.
- Ok eu aceito. Ainda farei mudar a ideia que tens de mim. E espero vir a conhecer-te melhor. Obrigada pelo presente. Adorei o livro. Quando o acabar eu empresto-te para depois termos mais um tema de conversa. Ah e eu adorei o gancho.
Oh ele fica mesmo fofo quando cora. Aproximo-me dele e acaricio-lhe na cara. Ele sorri para mim mais uma vez, ao mesmo tempo que aperta a minha mão, e eu começo a gostar demasiado do sorriso dele que quase não tenho coragem de sair da sala para enfrentar o resto do mundo.
- Fica-te mesmo bem. Melhor do que tinha imaginado.
E assim ficamos nós na sala mais um tempo. Ou a olharmos um para o outro ou a ver os nossos reflexos felizes no espelho, mas enquanto estivemos lá não largamos a mão do outro nem por um segundo.
