2.
"A vida nunca foi o que pensei.
Nunca foi o que eu desejei."
A manhã seguinte foi um desfile de vizinhos sorridentes e interessados... Na vida dele. A tal senhora Floyd foi a primeira a aparecer. Chegou trazendo o marido e um bolo de frutas. Oliver preferia não receber visita alguma, mas seu estomago ficou imensamente feliz com o bolo. A falta de mobília impediu que Margareth e Phil ficassem mais do que o necessário, no entanto Wood teve que reconhecer que a mulher colocaria até os interrogadores da inquisição espanhola no chinelo. Em cinco minutos ela tinha conseguido saber mais da vida dele do que sua própria mãe. Colocou água para esquentar e foi procurar o pacote de chá preto e a garrafa de uísque.
Cortou um pedaço do bolo e mordiscou enquanto escrevia açúcar na lista de compras que tinha prendido à porta da geladeira. Encheu uma xícara até a metade de uísque e completou com chá preto, engoliu três comprimidos para dor mesmo que uma voz irritante no fundo de sua mente insistisse em dizer que ele não devia fazer aquilo. Não deu ouvidos porque quem ficava escutando e obedecendo vozes era louco e se ele não era louco então não ia ficar obedecendo voz alguma. Estava em sua terceira xícara e na metade do bolo quando uma nova leva de vizinhos chegou.
Ao meio dia já tinha recebido visita da rua inteira, menos de uma certa família. Mas ele também estava pouco se importando, não queria mesmo nenhuma visita de Weasley algum. Trancou a porta e depois de tomar mais três comprimidos e outra xícara de uísque com chá deitou para tirar um cochilo.
Quando voltou a abrir os olhos já era noite e sua cabeça latejava tanto quanto sua perna. Um gosto amargo dominava sua boca. Levantou com um pouco mais de dificuldade do que de costume e viu o mundo girar. Ficou parado se apoiando nas muletas com firmeza até estar seguro de que podia andar sem cair. A temperatura tinha caído bastante e o som da chuva batendo no telhado enchia a casa. Estava na hora de tomar um banho antes que ficasse muito tarde. Ligou o aquecedor a caminho do banheiro, sentou-se na tampa do vaso e encostou as muletas na parede. Tirou o moletom da Yard que estava usando desde o hospital e as duas camisas que tinha por baixo. Depois olhou para a calça como alguém olha uma cobra, suava frio só em lembrar como tinha sido difícil coloca-la e agora teria que tirar... Por que tinham liberado ele afinal? No hospital tudo era mais fácil, talvez devesse ter pego de presente uma daquelas camisolas, duvidava que alguém vizinho iria se convidar para entrar se ele atendesse a porta com a bunda de fora. Voltou a olhar para a calça e sentiu um desanimo enorme tomando conta de seu corpo.
Resolveu tomar mais uma dose do remédio antes do banho. Pegou novamente as muletas e foi até a cozinha, o ar da casa estava bem mais quente com o aquecedor ligado, mas a friagem de antes parecia ter se instalado em seus ossos assim como a dor. Revirou os olhos quando escutou as batidas na porta da frente, aquela gente não tinha vergonha? O relógio na parede da cozinha marcava 22:03. Decidiu que não ia abrir. Passou direto pela sala e entrou na cozinha, pegou a garrafa de uísque na pia e engoliu mais comprimidos. Quase engasgou quando alguém bateu no vidro da porta dos fundos. Olhou irritado na direção e sua noite piorou progressivamente, Percy Weasley acenou de volta. Pensou seriamente em fingir que não tinha visto, mas o ruivo levantou as mãos e mostrou que tinha uma travessa de comida. Foi o bastante para seu estomago traidor roncar de alegria.
Deixou que ele entrasse.
-Desculpe interromper seu jantar tão nutritivo de álcool e anti-inflamatórios.
-Boa noite para você também, Percy. –Oliver cruzou os braços e encostou na porta. –Não está meio tarde para você sair de casa debaixo de chuva e vir aqui me incomodar? Principalmente depois de ter dito que não iria fazer isso?
Percy desviou o olhar reprovador da garrafa de bebida e virou-se para ele, seu rosto estava vermelho apesar de seus olhos demonstrarem surpresa.
-Você não costumava ser tão amargo...
-As pessoas mudam.
-É, mudam.- ele entregou a travessa para Oliver e caminhou de volta a porta.- Bem, eu só vim me desculpar por ontem. E agora eu já fiz isso, então... –fez um sinal aleatório com a mão e saiu sem olhar para trás.
Oliver balançou a cabeça e se aproximou para trancar a porta, mas antes que tivesse a oportunidade, Percy estava de volta.
-Eu esqueci de entregar isso.- ele tirou um papel dobrado de dentro do bolso da calça e entregou a Oliver. Sua mão molhada de chuva estava gelada e causou arrepio no moreno.
Antes que ele tivesse a oportunidade de perguntar o que era aquilo, Percy já tinha sumido de vista, engolido pela escuridão da noite fria. Desdobrou o papel e sentiu uma pontada dolorosa de vergonha ao ver um desenho seu, com gesso enfeitado e tudo, e" Espero que você fique bom logo" numa letra infantil. Olhou na direção da casa de Percy e mesmo com a chuva viu a silhueta de Lucy numa das janelas do primeiro andar. Ela acenou animada quando o viu.
Oliver foi dormir com o coração pesado.
