3.
"Tinha um plano, não pude segui-lo
Tinha um sonho, era vazio
Todo lugar parecia lugar nenhum
Tudo era tão tedioso"
O campo de futebol tinha esvaziado rapidamente depois do fim do jogo. Como se não bastasse terem perdido ainda tinha a chuva que vinha caindo sem parar desde a noite anterior. Gelando a animação de todos. Principalmente a dele, aquele tinha sido seu último ano, ele tinha certeza que conseguiria. Certeza que colocaria seu nome no hall da fama da Grifinória. E agora tudo estava perdido. Só sobrava ele e as poças lamacentas cada vez maiores no campo.
-Se estiver tentando se afogar, está fazendo isso errado.
-Se você veio rir, chegou tarde.
-Por que eu faria isso?
-Você sempre aparece quando estou humilhado. É algum tipo de superpoder seu?
O silêncio que se estendeu depois disso foi provavelmente o mais longo que alguém já experimentou na presença daquele Weasley em questão. Começou a pensar que talvez o outro tivesse ido embora quando escutou os passos se aproximarem e pararem próximo a sua cabeça. Abriu os olhos e viu Percy olhando-o de cima, tinha as faces vermelhas e o uniforme impecável como se nem a chuva ousasse toca-lo. Trazia um guarda-chuva vermelho aberto.
-Ou talvez você só consiga me notar quando todos os outros vão embora.
Oliver pensou ter escutado um soluço de choro no meio das palavras, mas afastou a possibilidade. Percy Weasley era orgulhoso demais para chorar na frente de qualquer um. Arregalou os olhos e girou para o lado quando notou o que o outro ia fazer. A lama atingiu seu rosto quando o guarda-chuva bateu na poça ao seu lado. Sentou rapidamente pronto para uma briga, mas quando olhou em volta o ruivo já estava longe. Quando finalmente resolveu voltar ao dormitório as luzes já estavam apagadas, fez questão de acender a luz do abajur e fazer o maior barulho possível, mas seus esforços foram ignorados. Percy estava coberto até o nariz e não deu o menor sinal de vida.
Oliver acordou sobressaltado com o barulho do despertador, chegou a rolar para fora do colchão e por pouco não mergulhou de cara no chão. Nunca se sentiu tão feliz por não ter uma cama. Aquele costumava ser um sonho recorrente quando era recém-formado de Hogwarts, todas as vezes que sentia o mínimo de remorso sonhava com aquele momento. Mas fazia anos desde a última vez e o retorno dele obviamente tinha muito a ver com os acontecimentos dos últimos dias.
Ao invés de tomar café resolveu tomar sol no quintal atrás de casa enquanto pensava se devia ou não se dar por vencido e ligar para Angelina e os caras da delegacia pedindo ajuda. Piscou por dois segundos e quando voltou a abrir os olhos Molly Weasley II estava lhe encarando por cima do muro de pedras rusticas que separava o quintal de trás das duas casas.
-Dia, senhor Wood.
-Oliver.-a voz saiu rouca, ainda sonolenta.
-Hum?
-Oliver, eu prefiro Oliver. Senhor Wood ainda é o meu pai.
-Oh!-ela sorriu.-Certo então... Oliver, já almoçou?
Seu estômago traidor achou que aquele era o momento certo de se pronunciar roncando tão alto quanto um trovão. Molly soltou uma gargalhada.
-Vou entender isso como 'Não'.
Dez minutos depois estava limpando os pés num capacho de boas vindas antes de pisar no chão imaculado da casa de Percy Weasley. Se por fora o lugar parecia uma mansão, por dentro... era.
Passaram por um hall de entrada espetacular, Oliver teve que parar um pouco e contar até dez para não voltar correndo para sua própria casa. Só aquele cômodo era do tamanho do apartamento onde ele tinha vivido os últimos 15 anos. O piso de madeira nobre e escura brilhava refletindo a luz do lustre de cristais que pendia do teto iluminando o hall e a escada que levava ao segundo andar. As paredes brancas davam um ar clássico aos detalhes em madeira, um carpete cor de areia cobria os degraus e fazia par com o tapete retangular que enfeitava parte do chão e protegia a madeira dos pés de um aparador rustico e duas poltronas convidativas. A parede em frente a escada era dominada por um grande espelho e Ollie só fechou a boca quando viu o próprio reflexo embasbacado nele.
Molly estava parada no fim do corredor no que claramente era uma ampla sala de jantar. Não que houvesse alguma surpresa ali, Weasleys não eram só famosos pela cor dos cabelos, mas também por serem numerosos. Ter uma mesa grande e muitas cadeiras era praticamente pré-requisito dos integrantes da família. A parede em frente a mesa tinha cinco pilastras separadas por quatro janelas inteiras, sendo duas delas na verdade portas de vidro que davam para o terreno de grama bem cuidada atrás da casa. Nada do ar de abandono que reinava no mato atrás da casa de Oliver. Ele ainda nem tinha saído do hall, mas já se sentia fora de lugar e tinha a impressão de que iria sujar todo o tapete quando o cruzasse seguindo Molly.
-É... Acho que vou tirar os sapatos, não quero suj...
A garota revirou os olhos.
-Que besteira, você sabe que mora uma menina de seis anos nessa casa? Todo ano as paredes tem que ser pintadas porque quando acabam as folhas qualquer superfície branca serve para desenhar.
Oliver sentiu o queixo cair de surpresa e não conseguiu conter uma risada ao imaginar a cara de Percy toda vez que chegava em casa e encontrava as paredes desenhadas.
-Se tirar os sapatos vai ficar com os pés frios e você tem que se manter aquecido agora durante a recuperação não é?
Fez que sim com a cabeça. Não sabia se ficava mais surpreso por estar diante de uma adolescente que se importava com o bem estar alheio ou porque diante do tom autoritário ele tinha obedecido sem pestanejar. Era obvio que aquela tinha muito do pai. Avançou lentamente sempre prestando atenção ao seu redor. Molly abriu duas portas de correr e eles entraram numa sala de estar ampla, mas aconchegante, a cor branca e o tom da madeira escuro também reinavam ali. Um arranjo enorme de lírios enfeitava a mesa de centro e ficava em frente a uma grande e convidativa lareira. Ela estava acesa, mas o ar da sala ainda não estava quente o bastante.
-Eu acendi antes de ir te convidar, esses dias tem feito bastante frio não é?
Molly comentou enquanto voltava a puxar as portas da sala, mantendo o ar quente ali com eles, como se tivesse lido seu pensamento. Sorriu e apontou para um sofá branco de aparência convidativa e cheio de almofadas com capas coloridas.
-Não precisa ir comigo para a cozinha, só vou colocar a lasanha no forno e voltar. Fique a vontade!
Enfiou a mão atrás de duas almofadas e tirou de lá um controle remoto. Apontou o objeto para uma televisão que Oliver nem tinha notado antes e ligou o aparelho, selecionou um canal de esportes e depois entregou o controle para ele. Que continuou parado perto do sofá sem saber bem o que fazer apenas assistindo a garota entrar em outro cômodo. Só naquele momento que chegou a uma conclusão que estava obvia desde que ela aparecera em sua casa.
-Você está sozinha?
Ouviu barulho de panelas batendo e uma porta fechando com força. Podia até imagina-la revirando os olhos enquanto gritava a resposta.
-Claro que não, você está aqui!
Foi a vez dele de revirar os olhos antes de se aproximar da passagem que dava para a cozinha. A garota estava de costas para ele, encostada na pia. A cozinha era espaçosa, seguia os tons de cores do resto da casa e extremamente bem iluminada graças as janelas inteiras que dominavam toda a parede esquerda. Via claramente sua casa dali e ela parecia mais triste e abandonada do que nunca. Viu um banco alto encostado perto de uma bancada e próximo a uma das janelas. Sentiu o rosto esquentar levemente, Lucy tinha sentado ali e acenado para ele na noite anterior. Voltou o olhar para a Weasley presente antes que mergulhasse na culpa.
-Você entendeu o que eu disse.
Molly continuou lavando o que parecia ser vários tipos de verduras e respondeu sem olhar na direção dele.
-Aos domingos meu pai tem levado a Lucy num templo budista.
De todas as respostas que poderia receber aquela não tinha passado nem perto de cruzar a mente de Oliver.
-O que?
Perguntou um pouco mais alto do que queria, sem nem ter chances de esconder sua surpresa com a revelação. Molly riu alto e olhou sobre o ombro.
-Mês passado foi uma igreja agnóstica. Esse mês é o templo budista e o que vem acho que eles vão assistir alguns encontros numa sinagoga.
Oliver tinha certeza que seu rosto ficaria preso em uma expressão de surpresa eterna depois daquilo. Molly riu novamente e dessa vez foi da cara dele.
-Informação demais? Desculpe.
-Não é que... Eu realmente não esperava por isso... Seu pai sempre pareceu...
-Ateu?-ela perguntou ainda rindo, não parecia ofendida.
Oliver fez que sim com a cabeça e observou enquanto ela fechava a água e cortava as verduras grosseiramente antes de coloca-las numa travessa.
-Ele continua sendo. Mas você conhece o resto da nossa família, a vó Molly principalmente detestou a ideia de nós sermos criadas sem religião. Mas meu pai sempre teimoso se recusou a 'impor' uma religião e decidiu que se era para nós termos alguma então tínhamos o direito de escolher.
-Se recusou a impor... Estamos falando do mesmo Percy?
Percebeu que tinha falado demais quando a garota parou o que fazia e virou o corpo em sua direção secando as mãos antes de responder. O rosto sério já sem nenhuma sombra do bom humor de antes.
-As pessoas mudam.
-Não sei sobre isso.- comentou olhando para o pé engessado e apertando levemente a muleta.
-Talvez porque você não tenha mudado o bastante.
Levantou o rosto e se viu encarando os olhos da adolescente. E mesmo tendo passado anos sob o olhar implacável da professora MacGonnagal, nunca se sentiu tão julgado quanto naquele momento. Sentiu o rosto inteiro esquentar, sabia que até suas orelhas deviam estar vermelhas. Apesar da fome começou a se arrepender de ter ido ali.
-Por que você me convidou para o almoço?
-Porque a Lucy ficou chateada ontem. Quando o papai voltou ele parecia irritado e ela ficou achando que ele brigou com você. Pra provar que estava tudo bem ele prometeu te convidar para o almoço hoje.
Ele ficou em silêncio absorvendo o que ela havia dito. O embaraço deu lugar ao pesar. Gostaria de culpar a dor pela forma que tinha tratado Percy, mas sabia que tinha sido grosso porque queria. Pensou em voltar para a sala e sentar um pouco no sofá como ela havia convidado a fazer antes, mas antes que pudesse se recolher e esconder do olhar acusador, Molly voltou a falar.
-Olha, ontem nossos tios ficaram enchendo a cabeça dela de histórias de quando você estudava em Hogwarts e quando eles disseram que você e o papai eram do mesmo ano e dividiam um dormitório... Vamos dizer que isso foi o bastante para ela concluir que vocês dois só podiam ser melhores amigos.
Oliver arregalou os olhos surpreso. Molly revirou os dela e a expressão séria deu lugar a uma de resignação.
-Eu conheço o meu pai muito bem e apesar de ter te visto apenas uma vez, sei que esse sonho da Lucy está muito longe da verdade.
-Você é muito esperta. –comentou com admiração.
-Obrigada, puxei aos meus pais. –ela piscou antes de voltar a se virar e terminar o que fazia.
Oliver aproveitou o momento para voltar para a sala. Sim estava fugindo de uma adolescente. Mas em sua defesa era uma adolescente extremamente inteligente e de olhar frio e penetrante. Reconheceu o programa que estava passando, mas não se interessou, era uma reprisa da semana anterior. Tinha assistido quando ainda estava no hospital. Olhou em volta reparando nos detalhes e seus olhos pararam nos porta-retratos em cima da lareira e espalhados pelas paredes. Espiou por cima do ombro e viu que Molly ainda estava ocupada. Por que não?
Se aproximou da lareira. A primeira foto era Percy com a família no dia que eles dois tinham se formado em Hogwarts. Lembrava de ter ficado surpreso porque até Bill e Charlie tinham aparecido para prestigiar o irmão. A segunda foto era parecida, Percy numa beca de formatura cercado pela família, mas nessa todos estavam um pouco mais velhos, Percy estava abraçado a uma jovem loira de olhos castanhos e o prédio atrás deles não era Hogwarts. Ao lado dessa foto tinha uma de Percy e a mesma loira vestidos de noivos na porta de uma igreja, Weasleys e outras pessoas que Oliver não reconhecia sorriam animados. Wood engoliu em seco.
Pelo visto estava errado. Percy era casado e feliz. Não divorciado como ele imaginara. Continuou passando os olhos pelas fotos.
O casal sorridente com colares havaianos na praia. Percy abraçando a mulher grávida. Ele sentado na beira da cama com um sorriso enorme no rosto e ela reclinada em alguns travesseiros, com olhar cansado e um bebê careca e de rosto vermelho no colo. A seguir uma foto de uma menininha ruiva num vestido de boneca sentada no colo da mulher loira. Então para surpresa de Oliver bem ao lado dessa foto tinha uma de Percy e uma mulher de cabelos castanhos se beijando na porta do cartório central. Reconheceu o lugar porque sempre passava por ele no caminho de seu antigo apartamento.
Oliver franziu a testa. Não. Não podia ser.
A foto a seguir era Percy com a mesma morena sentada em seu colo, a mulher exibia uma barriga modesta, mas estava evidentemente grávida. Mas a maior diferença entre a foto anterior e aquela era que a mulher tinha um lenço cobrindo a cabeça e a aparência de estar bem doente. A última foto em cima da lareira era Percy sentado num sofá bem velho, seu rosto estava cansado e exibia olheiras enormes, seus lábios estavam contorcidos em um sorriso fraco e ele segurava um bebê ruivo embrulhado numa manta colorida. Estava sozinho.
Oliver apertou a muleta com força enquanto encaixava as peças daquele quebra-cabeça.
-Aquela é a Audrey, mãe da Lucy. A loira nas outras fotos é a minha mãe, Penelope. Ela está viva. A Audrey não. –a voz de Molly soou de algum ponto atrás dele.
Foi salvo de ter que responder alguma coisa quando a voz animada de Lucy ecoou pela casa.
-CHEGAMOOOOOOOOOOS!
Nota a Autora:
Demorei só 2 anos para postar esse cptlo. Desculpem! Ele já estava pronto e eu nem sei porque não atualizei. Acho que não gostei muito dele na época que escrevi.
