Alguns dias se passaram e em todos eles, Camus saía para se encontrar com Milo. E a cada dia, ficava mais fácil apreciar sua companhia. Não tinham comentado o acontecido no quarto de Camus. O francês ficara com vergonha e pensava estar delirando e tendo ideias erradas, o grego não queria parecer desesperado pelo carinho do ruivo. Mas a verdade é que estava. A cada dia queria estar mais tempo com Camus. E estava feliz, via o interesse do burguês por ele crescer. Ele agora era mais aberto e já tinha sorrido mais algumas vezes... E tinha um sorriso tão lindo. Sempre que o ruivo sorria, Milo sentia-se ganhando um presente. Tinha vontade de mandar pintar um quadro com aquele sorriso tão raro.
Naquela manhã, o francesinho acordou mais cedo. Comeu rápido e já saía.
- Tão cedo de pé, filhote? – saiu de seu escritório.
- É, Milo disse que tem uma surpresa pra hoje. – Camus sorriu de lado. Resolveu deixar de lado aquele seu orgulho bobo. Afinal, trazendo-o para a fazenda, o pai só queria ajudá-lo desde o início. Correu ao genitor e o abraçou singelo. – Obrigado, pai.
O mais velho sorriu satisfeito de ver o filho feliz. Há muito o via triste e desanimado. Sabia que a vida estressante que o menino tinha era cansativa, mas sabia também que um dia ele lhe agradeceria pelos estudos. O importante é que ele estava bem agora. Mais corado – Camus sempre foi muito branco, mas quando chegou, o menino tinha a palidez doentia de um moribundo-, sem olheiras, mais radiante, mais bonito.
- Vai, filhote. – O pai afagou-lhe a orelha. – Não deixe Milo esperando.
O menor assentiu e correu passando antes na cozinha para pegar uma cesta de iguarias que mandara preparar. Seria legal fazer um lanche com Milo. Saiu da casa procurando o grego. Andou alguns minutos até o local combinado e esperou sentado numa tora de árvore que mais tarde serviria para alimentar alguma lareira em casa. Apoiou o queixo nas mãos, seu pé batia irrequieto no chão. Não demorou nem dois minutos que se sentara ali e sentiu braços vindos de trás de si a apertá-lo num abraço.
Respirou fundo em surpresa e sentiu-se puxado, caindo no colo de um Milo sorridente.
- Bom dia! – O grego quase cantarolou, rindo-se do olhar assustado e o rosto vermelho do francês em seus braços. – Que é isso?
- Bonjour, Milo. – Remexeu inquieto e ajoelhou-se entre as pernas do outro, olhando encantado os orbes límpidos e sinceros de do loiro. – Pedi a cozinheira pra fazer umas coisas pra gente. Mas...De que surpresa você estava falando? – O ruivo levantou-se, quebrando o contato visual que já estava deixando Milo embasbacado.
O grego se levantou também e começou a guiar Camus até onde suas surpresas o esperavam.
- Vamos andar a cavalo! – O loiro abriu a porta do estábulo e mostrou os belos cavalos ao francês. – Queria te mostrar um lugar. Vou pra lá quando estou triste ou quero pensar. É meio longe, então pra poupar tempo não vamos a pé.
Camus deu alguns passos para trás e mordeu os lábios. Não queria desapontar Milo, ele parecia tão feliz. Mas não poderia agradá-lo naquele momento. Deixou a cesta sobre uma caixa, seu corpo estava tão mole que tinha medo de soltá-la.
- Milo... Eu não sei montar. – O menor olhou para os próprios pés, esperando virar chacota.
- Tudo bem, eu te ensino. – Milo pegou a direita de Camus e o levou estábulo a dentro, mas o ruivinho ainda parecia tenso. – O que foi?
- É que... Meu pai até tentou me colocar numa aula de equitação quando eu era mais novo, mas eu tinha medo que o cavalo disparasse comigo. Eu... Sei lá, Milo... Eu não consigo.
O loiro olhou o rosto acanhado do outro, tocou-lhe o ombro virando-o de frente pra si.
- Olha... Eu sei montar bem. Se você quiser, podemos ir juntos no mesmo cavalo. E eu ainda pego o mais mansinho que tem aqui. Prometo que não deixo nada acontecer com você. – Milo segurou o queixo do outro, fazendo-o olhar para si e sorriu bastante atencioso. – O que me diz?
Camus atentou para as expressões e o jeito meigo do loiro e teve vontade de chorar, lembrando-se do dia em que o conheceu. Como pôde ter sido tão rude com alguém tão doce quanto Milo? Que estava inclusive lhe ajudando agora e em todos os momentos desde que chegara à fazenda. O grego só tinha recebido seu mau humor e nem por isso fora grosseiro consigo. Muito pelo contrário, sempre foi bom e agradável.
Milo olhava confuso os olhos brilhantes de Camus. Ele parecia triste, muito triste. Será que tinha tanto medo de cavalos assim?
- Me desculpa, Milo. – O ruivo afundou o rosto nas mãos, envergonhado. – Eu fui muito mau com você e você tem sido muito bom pra mim. – Esfregou as mãos nos olhos. Não ia chorar. Chorar já era exagero, embora tivesse vontade.
- Não se preocupe com isso. – O grego colocou as mãos do francês entre as suas. – Já passou. Você estava bravo e frustrado. Eu entendo, também fico assim à vezes. Nesses últimos dias você tem sido ótimo pra mim também. Gosto de ficar com você, Camus.
O burguês voltou a esconder o rosto, confuso. Do jeito que Milo falava e o olhava, só fazia enrolar seus pensamentos.
Com uma das mãos Milo abaixou as de Camus, deixando seu rosto livre e levou a outra à franja do ruivo, tirando-a da testa e ali encostando os lábios. Camus não sabia se aquilo podia ser chamado de beijo, mas de qualquer forma se sentia confortado.
Sentia os lábios macios de Milo tocando sua pele sem se moverem, mas mesmo assim um delírio quente percorria-lhe os sentidos agora. A respiração do loiro contra sua cabeça, enquanto ele olhava o pomo-de-adão já proeminente do pescoço do jovem a sua frente.
Milo sentiu o menor tremer assim que lhe encostou a boca, teve medo de mover-se muito e assustá-lo, mas sentia-se muito bem ali com Camus. Deleitava-se com o perfume gostoso que emanava dos cabelos afogueados do francês. A pele alva dele parecia ter um efeito alucinante em seu corpo, como se a quase imperceptível camada de suor que cobria a testa do outro, devido ao calor e agora a confusão de emoções, fosse feita de algum tipo de poção que estava encantando e escravizando o coração descompassado de Milo. O loiro o abraçou, trazendo-o mais pra perto. Queria muito mais que a testa do rapaz em seus braços, que suspirou baixo apreciando o contato com o grego. Milo achou que devesse parar e afastou-se ouvindo os lamentos mudos de seu próprio corpo.
O ruivinho corou e mostrou um curvar leve de lábios, um sorriso acanhado. O grego voltou a falar.
- Estamos bem?
Camus fez que sim com a cabeça.
- Então vem. Vamos juntos no cavalo. Pode ser?
- Tudo bem. – Ainda estava um tanto assustado, mas não queria parecer muito medroso para Milo.
O garoto do campo sorriu e guiou o outro até o fundo do estábulo, onde tinha um animal muito bonito. Tinha porte altivo e pelos negros, sedosos e brilhantes.
- Essa é Yona. Uma égua de raça que teu pai comprou há uns meses. Ela está se acostumando ainda, não é Yona? – Milo acariciou as costas da égua. – Mas ela é muito dócil. E é rápida também. Não vamos ter problemas com ela.
Camus apenas olhava um pouco de longe. Não tinha nem ideia de que o pai comprava cavalos. Mas ele nunca gostara muito desses bichos. Dessa vez, faria um esforço por Milo. Via o loiro celar o animal, que não se movia enquanto o grego trabalhava. É... Parecia mansa.
- Vem, Camie. – O loiro chamou, ajoelhado e com as mãos juntas. – Apoia aqui pra facilitar tua subida.
Cauteloso, o ruivo se aproximou. Camie? Que intimidade era essa? Hm... Era bonitinho.
Apoiou então o pé nas mãos de Milo, que lhe deu um leve impulso, e foi mais fácil subir em Yona. O burguês perdeu o ar por um instante. Deus! Era alto ali. Era um cavalo... E estava vivo. Começava a se arrepender. Mas não teve muito tempo para praguejar mentalmente, pois logo o grego pegou a cesta e entregou-a em suas mãos. Sentiu Milo subir no animal também, mas com muito mais facilidade do que ele.
Rapidamente o loiro se ajeitou atrás do francês, fazendo seu peito colar às costas do menor. Camus tremeu com o movimento da égua ao sentir o novo peso sobre si. Por um instante o ruivinho pensou que cairiam, mas ao que parecia estava tudo sob controle. Os braços de Milo passavam agora por debaixo dos seus em um tipo de abraço, para pegar as rédeas do animal.
O loiro controlava o próprio êxtase, de estar tão colado ao rapaz que vinha tomando aos poucos toda sua atenção. Mas, naquele instante, o francês não compartilhava do frenesi de Milo, já que estava preocupado demais em controlar o medo.
Com um movimento de mãos e uma cutucada com os pés na barriga da égua, começaram a andar e o ruivo prendeu a respiração, completamente apavorado. Seu medo era tão palpável que fez Milo rir.
- Você está muito nervoso, relaxa... – O grego sussurrou-lhe rouco, relando um pouco mais o corpo no dele.
Camus suspirou fundo. Os dizeres de Milo pareceram surtir algum efeito. Relaxou um tanto e passou a apreciar a paisagem. Andavam fora da estrada de terra, galopando leve pela grama.
Mas não demorou muito até que seu corpo já estivesse rígido de nervoso mais uma vez. Não conseguia evitar, queria muito se mostrar mais corajoso para o grego, mas em cima de cavalos era meio complicado.
Edmond sempre lhe ensinara a contar até dez quando estivesse com medo ou nervoso. Costumava dar certo, mesmo quando imaginava monstros debaixo da cama aos seus sete anos.
Começou a contar mentalmente, respirando fundo entre um número e outro. Seu pequeno mantra pareceu distrair-lhe do medo, mas a face concentrada no que fazia chamou a atenção de Milo. O loiro tentava imaginar se fizera algo errado, pois o outro estava bastante calado.
O grego tentou puxar assunto algumas vezes, mas o menor tinha se tornado extremamente monossilábico e sério. Enquanto isso, Camus continuava a contar em silêncio repetidamente, sem nem notar a aflição interna do loiro.
Um grande tronco de árvore estava caído, atrapalhando a passagem. Fato que impeliu Milo a fazer Yona pular sob o tronco, assustando o concentrado ruivo, que nem tinha percebido o obstáculo ali, e o fizera gritar:
- Deux! (Dois!) – O ruivo suara frio e a respiração descompassara com o susto. Passou então a contar alto, buscando calar as palpitações nervosas que sentia. – Trois... Quatre ..Cinq...
- Ah, então é por isso que você está aí todo concentrado é? – O grego deu uma risadinha aliviada.
- Six ... Eu morro de medo de cavalos... Sept ... E se você rir de novo eu te bato... Huít.
- Achei bonitinho, Camie. Só isso. – Milo sorriu. Sentia-se melhor em saber que não fizera nada para magoar o outro. – Eu vou contar com você. Onde estávamos?
- Huít (Oito).
Milo acompanhou o outro na contagem pelo resto do caminho. Com Camus corrigindo insistentemente sua pronúncia. Fora até melhor, o ruivo se distraíra mais. Tanto que nem notou quando o animal parara e Milo desceu. Sentiu-se incomodado sem o loiro ali, tinham estado colados por tanto tempo.
- Vem, desce. – O grego tinha os braços estendidos na direção do outro. – Passa as pernas pra esse lado e pula. Eu te pego.
Milo tinha noção que, estressado com cavalos como o outro estava, talvez não fosse boa ideia deixá-lo descer sozinho pelo estribo.
O menor passou a perna para o lado oposto, ficando sentado de lado no animal. Mas daí a pular... Era um passo meio grande. Olhou o chão, tentando manter a calma.
- Pode vir, eu pego você. Prometo. – Milo chegou mais próximo, esticando um tanto mais os braços.
Camus não sabia bem o porquê, mas o loiro lhe passava confiança. Principalmente pelo olhar sincero que tinha. Torceu um sorriso de canto e tomou impulso, sendo pego por Milo, assim como fora prometido.
Aos poucos sua respiração normalizava, enquanto via Milo amarrar as rédeas de Yona numa árvore perto do rio, para que ela bebesse.
Acompanhou-o um tanto mais para dentro da mata. Tinha muitas árvores, o mato começava a ficar alto, não gostava disso. Milo passou por uma estreita fenda de pedra, escondida por uma árvore. Ok, isso já estava o assustando.
- Milo! Chega. – O francês emburrou e viu a cabeça de Milo voltar a aparecer na fenda, confuso e com aqueles malditos olhos azuis que lhe faziam tremer nas bases. – A gente anda dois séculos de cavalo, se enfia no meio do mato e agora vou ter que me espremer nessa... Gruta aí? Pra onde está me levando? Pro inferno?
O ruivo terminou fazendo bico e cruzando os braços.
- Ah, vamos! Não seja ranzinza. Você vai gostar, é muito bonito. É só a gente passar pela grutinha e pronto. Vem.
- Não tem graça. – Ele arqueou a sobrancelha. – Ta bom, vamos.
- Prometo que não tem monstros aqui. – Ele riu e voltou a entrar na gruta estreita.
- Hunf. – Camus o seguiu, equilibrando o corpo e o peso da cesta, para não escorregar nas pedras lisas e molhadas sob seus pés.
- Só aranhas do tamanho da sua cabeça. – Milo comentou, sacana, para assustar o outro.
- O quê?! - Estancou no lugar e começou a olhar em volta.
- Estou brincando com você! – Ele gargalhou de forma gostosa. – Não tem nada aqui pra te fazer mal. Jamais te traria aqui se fosse perigoso. – O loiro segurou a de Camus, acariciando os dedos dele com os seus e incentivando-lhe a continuar. Pegou a cesta com a mão livre para que o ruivo se sentisse mais seguro para caminhar.
O francês olhava doce as costas de Milo, que ia na frente para lhe dar proteção. Era diferente estar com ele. De alguma forma, Milo o fazia sentir-se mais... Vivo. Estava tão cansado de ser sozinho e atabalhoado de tarefas em Paris. Aqueles últimos dias estavam lhe fazendo muito bem, apesar de estar sempre se sentindo estranho perto do loiro.
Vez ou outra o grego olhava pra ele e sorria. Camus mal notou quando saíram da gruta. Até notou... Porque do escuro da gruta, caíra na claridade forte do dia e aquilo quase o cegou. Esfregou os olhos com uma das mãos e a outra apertou a de Milo instintivamente. Tinha olhos sensíveis.
- Olha, Camie.
O ruivo abriu lento os olhos e depois os arregalou com espanto, admirado, para felicitação de Milo, que acompanhava as reações dele a cada segundo. Queria muito agradar ao menor.
- Gostou? – O grego sorriu mais uma vez.
- Milo... É lindo! – O francesinho olhava a tudo extasiado e acabou por não perceber que levara a mão livre no braço do loiro, segurando-o em tom de agradecimento.
A gruta era um atalho para aquele lugar. Quase ninguém vinha ali, então tinha se tornado o esconderijo de Milo. Um lugar pra onde ele corria quando estava cansado ou tinha brigado com o pai. Tinha um lago calmo e cristalino, não muito fundo. Tinha vários peixinhos naquela época do ano. Para sua sorte, não era a mesma época dos sapos. Por alguma razão tinha certeza que o ruivinho ia ter um chilique se visse aquele lugar na época da procriação. Enchia de sapinhos pulando pra todo lado.
Ao redor do lago cresciam flores brancas, Milo gostava delas. Davam-lhe paz.
Mas Camus tinha realmente ficado apaixonado, fora pelo salgueiro chorão, que despontava para o céu bem próximo ao lago.
Na opinião de Camus, salgueiros chorões eram árvores incompreendidas, que as pessoas costumavam achar feias ou sem graça. Quando bem crescidos, sua copa descia em uma cascata tão grande que tapava a visão da base da árvore, fazendo uma redoma em torno do tronco. E era exatamente o que acontecia com este.
Oh, como gostava dos salgueiros. Pra ele, tinham beleza exótica, mas o que mais o atraia era a... Cumplicidade que proporcionavam. Tinha a sensação de que seus segredos estariam seguros sob um salgueiro.
- Camie? – Milo chamou baixinho, tentando tirar o garoto do transe sem assustá-lo.
Camus piscou e sorriu largo.
- Vem, Milo! – O ruivo puxou o outro pela mão, fazendo-o correr para acompanhá-lo. Afastou alguns grossos ramos do salgueiro para abrir passagem e puxou o grego para dentro da redoma da árvore.
E pela primeira vez Camus soltou sua mão. Mexendo dentro da cesta, que estava com Milo, o francês achou a toalha de piquenique e a estendia no chão, animado.
Já o grego olhava mais atento ao interior da copa do salgueiro. Era mais fresco, mais escuro, mais reservado... Deu ideias nada ingênuas ao loiro. Mas tentou afastá-las ao ver o sorriso acriançado do ruivinho, que procurava pedras para prender as pontas da toalha.
- Vem, Milo. Senta. – Camus, que tinha se livrado dos sapatos e estava sentado no tecido, estendeu a mão para o grego.
- Que toalha grande, hein? – Milo tomou a mão do ruivo e ajoelhou-se, retirando os sapatos. – Dá até pra tirar um cochilo depois. – O loiro disse, tirando uma risadinha descontraída do outro.
Não demorou muito até que os dois estivessem se enchendo com os quitutes da cesta. Muito riso, muita brincadeira e de repente Camus se deu conta de que não queria mais que aquilo acabasse.
Ele e Milo se davam tão bem. Agora ele contava alguma história sobre ovelhas e maçãs. Gesticulava abertamente, sorria mais abertamente ainda. O sorriso do loiro iluminava seu dia mais do que mil sóis. O ruivo suspirou com o próprio pensamento. Totalmente exagerado e descabido se avaliado no literal, mas... Era o que sentia agora. Um exagero de sensações, de sentimentos, de emoções. Mas não poderia ser diferente. Milo, por si só, já era a personificação do exagero, concluiu Camus... Rindo internamente. Um exagero de energia, de sorrisos, de histórias, de lealdade, companheirismo... Magnetismo, beleza, sensualidade.
- " Contenha-se, cérebro!" – O francês pensou, estapeando o próprio rosto e assustando a Milo. Não conseguia mais esconder de si mesmo que Milo não lhe saía da cabeça.
- Que foi isso? – O loiro o olhava entre espantado e desconfiado, largando um pedaço de torta de volta a seu prato.
- Não quero ir embora. – O ruivo soltou, sofrido, e largou-se deitado na toalha tapando o rosto com os braços. Não queria que Milo o visse daquele jeito.
Não queria mesmo ir embora. Não só pelo grego, mas voltar a estar sozinho e arrebatado de coisas que não queria fazer... Não era seu ideal de vida. Não mais. Não depois de Milo.
O loiro o observou carinhoso. O cabelo ruivo espalhado ao lado do corpo, os olhos tapados pelos braços, a boca fazia uma ligeira curva de desgosto, o peito subia e descia rápido. O burguesinho estava nervoso. Devia ser ruim ficar preso em casa, sem amigos, com mais compromissos do que sua pouca idade exigia.
Se permitiu então tocar o rosto do menor, que tremeu de leve com a surpresa do toque, mas voltou a se aquietar à medida que Milo dava voltas com o polegar em sua bochecha.
- Seu lugar não é aqui. – Falou, doía pensar que o ruivo tinha de partir, mas era o certo.
Camus tirou os braços do rosto de uma só vez, apoiando-se nos cotovelos para olhar melhor o rosto do outro. O semblante do francês estava revolto, o de Milo... Triste.
- Porque não? Eu podia muito bem ficar aqui. – Ele tinha um bico mimado no rosto. Adorável.
Milo quis sorrir com aquilo, mas o momento não permitia.
- Seu pai conta com você para os negócios. – Agora o loiro deslizava o indicador pelo rosto de Camus, tirando a franja dos olhos dele, seu olhar vagava distante. O de Camus também.
- E se eu quiser ficar com você? – Ele corou de leve e olhou pra baixo.
- Você vai ser alguém importante Camus. Não faz sentido ficar comigo. – Estava triste. Mas tinha de ser realista. O ruivo não iria querer nada com ele.
- Milo, você já é alguém importante. É inteligente, valoroso... Gentil. Tornou-se a pessoa mais importante pra mim. Do que me valem os negócios se o que eu preciso não está lá? – Camus estava abismado consigo mesmo. Seu rosto queimava como nunca, mas de algum lugar ele tirou coragem o suficiente pra dizer tudo aquilo.
Não tinha coragem de dizer muito mais, mas Milo o olhava surpreso demais. Talvez não estivesse pondo fé em suas palavras. Então, o ruivo ainda tentou se forçar a continuar.
- O que eu quero dizer é que... – Parou. Travou. Muita informação pra pouco tempo. Seu cérebro se recusava a aceitar.
O loiro sorriu, o peito em saltos. Entendia Camus. Entendia o que ele sentia, entendia sua vergonha e sua dificuldade em expressar. O grego encostou o nariz no de Camus, que o olhava atento.
- Eu sei, eu também. – Ele sussurrou baixinho, fazendo o ruivo arrepiar.
Observava de perto cada detalhe do rosto liso de Camus, que parecia absorto em seus próprios devaneios. A pele do francês estava ligeiramente fria. Talvez fruto do nervosismo. Sim, podia dizer que o outro estava nervoso visto que sua respiração estava descompassada, suas bochechas começavam a corar. O grego muito apreciou a cena.
Não se lembrava em que hora ele e o ruivo se aconchegaram mais um ao outro, mas não fazia muita questão de precisar esse tipo de detalhe. Havia algo que muito mais lhe chamava a atenção agora: Os lábios desenhados e entreabertos de Camus.
Já havia um tempo que Milo vinha os observando, a vontade de tomá-los num beijo só crescia. Os imaginava suaves e doces. O grego movia o rosto lenta e gentilmente, acariciando a face do outro com a sua própria e não demorou muito para que o francês acompanhasse seu ritmo. Aquele carinho havia se tornado quase uma dança de efeito hipnótico.
O loiro pousou o lábio inferior sobre a bochecha do ruivo e pôs-se a fazer aquele lábio caminhar. E Camus perdia o fôlego à medida que Milo se aproximava se seu pescoço. E podia senti-lo chegando, sua pele arrepiada denunciava sua ansiedade e traçava o caminho que os lábios de Milo vinham fazendo. Só passando. E era isso que mais afligia o burguês. Que diabos Milo estava esperando pra fazer alguma coisa? A respiração quente do grego muito próxima de sua pele, enquanto Milo desenhava os contornos de sua orelha com dentes e lábios. Estava deixando-o maluco! Maluco!
Encostou a testa no ombro de Milo e grunhiu baixo, essa ansiedade em saber se Milo de fato o queria ou estava brincando com ele... Estava deixando o francesinho cansado.
Segurou um dos ombros de Milo e afastou-se apenas o suficiente para olhá-lo confuso. O que muito divertiu o grego. Aquela expressão frustrada, que esperava uma resposta era bem o que ele queria ver. Não que quisesse magoá-lo, só... Perturbá-lo um pouquinho. Não faria nada muito decisivo a não ser que tivesse um sinal de que era o que ele queria. Essa mania de Camus de ficar em cima do muro tinha que acabar.
O grego sorriu safado, mas com falsa inocência, já o ruivo se largou deitado na toalha de novo. Bufando.
- Que foi? – Ele riu desentendido da cara frustrada do menor.
- Que foi... Que foi... – Imitou-o fazendo careta - Que está fazendo?
Milo sorriu mais uma vez.
- Que você quer que eu faça? – O sorriso aumentou e passou a fitar o ruivo de maneira sedutora demais.
A expressão de Camus mudou rapidamente para uma de espanto, estava totalmente envergonhado.
Ladino! Sem vergonha! Aquele Milo não tinha jeito. Agora o francês estava todo corado, por culpa dele, claro!
- Seu sem vergonha. Vou embora, é o que quer?
Ele fez menção de se erguer, mas o loiro curvou-se, pressionando Camus com seu corpo, apenas uma das mãos foi necessária para prender os pulsos do burguês acima da cabeça. Imobilizara-o, os rostos mais próximos do que o francês queria naquele momento. Poxa, agora ele estava tentando se fazer de difícil e Milo vinha com essa?! Não dava pra ajudar? Encarou-o bravo e virou o rosto para o lado e fechando a expressão. Era a única coisa que podia fazer agora.
- Está bem, me desculpe. – Estalou um beijo na face virada do mais novo. – Fique mais um pouco, sim?
Milo soltou os pulsos do outro, mas se manteve deitado sobre o corpo dele. O burguesinho olhou-o de novo, encontrando dessa vez um olhar pidão e doce. Gostava disso. Aliviou a expressão, vendo o loiro se acalmar também e sorrir mais tranquilo.
O grego era carinhoso, sabia acolher, mas dadas as circunstâncias dos dois... Homens, de classes sociais e ambientes completamente destoantes um do outro... Talvez ele ainda precisasse ter um sinal mais claro de que era aceito. Oras, Milo sempre foi tão gentil, não custava fazer um esforço pra sanar suas inseguranças. Camus enlaçou, de forma suave, o pescoço do mais velho e lhe deu um selinho rápido. Um pressionar leve de lábios, mas tão perfeito, que pareciam ter sido feitos para se encaixar. O vento pareceu parar, os pássaros silenciaram, toda a natureza se aquietou e o tempo pareceu congelar um instante. Tão de repente quanto iniciou, o beijo cessou.
E Milo levou um susto... E arregalou os olhos... E esqueceu-se de respirar... E, pela primeira vez em sua vida, o grego falante... Perdeu a fala.
Camus havia mesmo feito aquilo? Não estava acreditando. Um sorrisinho de contentamento brotou em seu rosto. Estava feliz por ser correspondido. Sim, tinha inseguranças. Era só um rapaz e não uma máquina de sedução, como gostava de fazer parecer. Embora que... Sabia seduzir, tinha seu charme. E orgulhava-se disso.
O ruivinho, por outro lado, estava assustado. O jeito surpreso com que Milo o olhava era tanto, que começara a achar que se precipitou ao beijar o loiro.
Oh, por Deus. Isso não era ele. Isso não era nada do que ele costumava fazer.
Tinha que se explicar, tinha que ajeitar as coisas, sair dali, sumir...
Mas não houve tempo para nada disso. Mal o francês terminou de surtar em pensamentos auto destrutivos e Milo tratou de livrá-lo de qualquer tipo de pensamento. Voltou a colar seus lábios e o menor pareceu se aquietar.
O beijo começou suave, dando tempo para o outro assimilar a ideia de ter os lábios colados aos de um homem. Dessa vez, Milo controlava bem o que acontecia, estava seguro e tratou de passar isso a Camus. Sem deixar de notar as reações do mais novo, o grego aprofundou o beijo se aproveitando do espaço entreaberto pelos lábios do outro. Logo a língua do loiro já pedia passagem e não teve problemas em chegar à boca do ruivo, arrancando um gemido abafado de surpresa. Suaves, doces, macios... Viciantes eram os lábios, a boca de Camus.
O rapazote francês ainda tinha alguns poucos lapsos de lucidez, onde se pegava nervoso e com medo de parecer infantil aos olhos de Milo. Mas nada disso durava muito em sua mente, os lábios carnudos do grego brigando com os seus prendiam muito mais a sua atenção. Era a primeira vez que Camus beijava alguém. E na primeira tudo sempre é mais assustador. Mas ali, com Milo... Não estava assustado.
Era como dançar. Não sabia bem onde devia dar o próximo passo, mas as coisas simplesmente corriam certas e tudo saía fluído e harmonioso. Do pescoço do maior, as mãos do burguês passaram a segurar os ombros de Milo. E o camponês tinha ombros largos, já fortes. O ruivo apertou os músculos tensos do outro, arrepiando-se com o toque.
Milo também nunca foi de perder tempo, uma vez que teve a aceitação de seu ruivinho estava mais relaxado para agradar Camus como fosse possível. Sabia que ele era inexperiente e ia com calma. O ruivo era agitado e roçava as coxas entre as pernas de Milo, inquieto e buscando uma posição para beijá-lo, mas só o loiro sabia o efeito que todo aquele atrito estava causando em seu corpo.
Uma de suas mãos segurava a cintura do ruivo, tentando aquietá-lo no lugar para evitar uma ereção não prevista que fosse assustar o novato. A outra suspendeu-lhe o queixo, deixando à mostra o pescoço que o grego lambeu com vontade, fazendo o outro trincar os dentes em surpresa.
Camus era cheiroso e sua pele era extremamente aveludada. Milo não conseguiu conter um gemido, sufocado pelo pescoço do menor, ao provar do gosto suave do mais novo.
Não queria se preocupar com status ou o tempo. Por hora não pensaria em mais nada...
O ruivo voltou a buscar os lábios de Milo, mordendo o inferior com vontade. Toda aquela sensação de liberdade querendo estourar o seu peito.
As mãos do loiro se ocupavam de tirar o colete do francês, deixando-o apenas com a camisa de abotoar. O mundo pareceu parar dentro da redoma do salgueiro...
Aquele parisiense iria deixa-lo ensandecido. O grego sentia-o tremer em suas mãos e sua expectativa aumentava. Quando vira o pequeno chegar, não imaginara que ele o faria experimentar essa gama imensa de novas confusões. Não chegara a pensar que seria ele a ludibriar seu coração.
Cheirou o perfume daqueles fios cor de fogo junto ao pescoço fino, descasando um por um dos botões da camisa do mais novo, que o olhava tímido e desejoso.
Cravando de beijos o abdome pálido, Milo se deleitava com a visão prazerosa do torso nu do francês reagindo, com arrepios, aos seus lábios.
O ruivo passou a tocar-lhe ansioso o peito musculoso e os ombros largos, deslizando as mãos em sua extensão e retirando a camisa de Milo. Naquele instante, o francês pareceu levar um soco no estômago tão sem ar que ficou.
Já conhecia aqueles grupos musculares bem talhados, já os conhecia até molhados, mas... Agora era diferente. O êxtase lhe percorria por inteiro ao saber que podia tocá-los, que iria sentir o loiro se apertando contra ele em abraços... E imagine! Sem camisa! Agora o loiro seria um pouco mais seu.
E nada mais importava a nenhum dos dois novos amantes: O medo, a insegurança, a dúvida...
Para Milo, já não havia jeito. Uma ereção túrgida gritava em suas calças e não havia como esconder.
O grego largou a boca do pescoço do menor, sussurrando-lhe junto aos lábios.
- Veja o que fez comigo, ruivo. – Tomou a mão lânguida de Camus e pousou-a junto ao membro, que pulsava nervoso nas calças.
O ruivinho arregalou os olhos e corou, bastante sem jeito. Não sabia como reagir. Tinha o falo latejante do maior na mão.
- D-Desculpe. – Baixou os olhos, envergonhado. Será que fizera algo errado? Não tinha nenhuma experiência no assunto.
O loiro riu.
- Bobinho, não tem que se desculpar. – Beijou-o mais uma vez. Dessa vez cálido e manso, arrancando um suspiro manhoso do menor.
Milo tremia em ansiedade de ter Camus por inteiro.
Camus jogou a camisa de Milo longe, junto à sua. O loiro já cuidava de beijá-lo de novo enquanto descia-lhe as calças, buscando distrair o pequeno para que não se assustasse muito. Da boca ao pescoço e descendo o tórax a mordiscar-lhe a pele. O grego tratou da calça do menor enquanto apertava as coxas firmes do ruivo. Camus estava um tanto nas nuvens e não sabia no que prestar atenção, se nas mãos habilidosas de Milo ou em sua boca a lamber seu abdome.
Quando menos esperava, o francês se surpreendeu em ter o membro vorazmente abocanhado pelo loiro. Arregalou os olhos. Não se lembrava jamais de ter sentido coisa igual. Seu coração ribombava forte dentro do peito, de ansiedade, de desejo, prazer, loucura... Amor. Olhava o rosto bonito de Milo, os olhos azuis escurecidos de tesão. Não conseguia se imaginar sem ver aquele rosto de novo.
Esqueceu-se da angústia ao sentir as peripécias que o grego fazia com a língua em sua glande. Não conseguiu engolir um gemido rouco preso na garganta.
O loiro também gemia, abafado pelo seu pênis. Sua boca era quente e parecia insaciável. Milo queria lhe engolir ou o que? Com certeza queria tirar a alma do francês pelo falo.
O ruivo latejava forte na boca do grego. Milo sabia o que fazia e estava levando Camus ao delírio.
- Milo... – Respirava ofegante e entrecortado. Não sabia quanto mais aguentaria. – Eu...
O loiro sabia da condição do outro, que já há algum tempo rebolava ensandecido e incomodado. Da base ao ápice do membro do francês, Milo lambia cheio de excitação e uma perícia maliciosa. Dedicava seu carinho de corpo e alma. Queria vê-lo feliz, queria que se sentisse amado, mostrar ao seu ruivo o quanto ele lhe era caro. O quanto o queria bem.
O menor, sem aguentar, despejou-se na boca do grego, que sugou-lhe com mais vontade. Camus arfava baixo, uma fina camada de suor brotava de seus poros.
Estava leve.
Se Milo não tivesse vindo engatinhando manhoso pra cima dele, prensando-o com o corpo enquanto o beijava, poderia flutuar.
Abraçou forte o maior, retribuindo o beijo carinhoso. Sua mente estava à mil. Nunca tivera experiências como aquela. Mas e agora? Como agradaria a Milo?
Eram dois homens, não tinham... Aparelhos compatíveis. E queria muito deixar o loiro feliz. Talvez devesse imitar o grego.
Deslizou as mãos até as calças de Milo, descendo-as o suficiente para expor seu membro pulsante. Descolando seus lábios dos de Milo, deitou o maior na toalha e, meio receoso, tratou de sugar o grego arrancando-lhe uma exclamação surpresa.
O loiro sentia o ventre formigar, enquanto olhava e sentia o trabalho do menor entre suas pernas. Algumas madeixas avermelhadas caindo lindamente desleixadas em seu rosto e aquele boquinha bem desenhada a ficar cada vez mais vermelha, enquanto o mais novo lambia-lhe com uma destreza inocente de aluno. E para a surpresa do loiro, Camus era um excelente aluno nisso também... Oh, Deus! Se o ruivo continuasse com aquilo não ia se aguentar. Puxou-o cuidadoso pelos ombros. Camus ficou confuso.
Será que fizera algo errado?
- Vem aqui, Menino. – Milo mordeu o queixo do parisiense e o colocou deitado novamente, inclinando-se sobre ele.
- Fiz errado? – Os olhos ambares transbordavam de dúvida e um pouco de desapontamento.
- Claro que não. O que é que essa sua cabeça ruiva não aprende de primeira, hein? – Ele fez cócegas no menor, que riu contente.
Os olhos de Camus ainda estavam interrogativos. Ainda queria saber o que é que faria. O loiro continuou.
- Tenho outra ideia pra agora. – Fez uma trilha de beijos do queixo aos ouvidos de Camus, onde sussurrou. – Vai ver... Vou te levar para o céu.
A voz do loiro saiu rouca e lasciva, todo o corpo do francesinho retesou-se e um gemido fraco lhe escapou da garganta.
Sentia Milo ainda túrgido entre suas pernas enquanto a boca do grego mordia a sua com fome.
O beijo cessou por alguns instantes e o ruivo olhou duvidoso enquanto o maior chupava dois de seus próprios dedos e o observava com um olhar potente.
Milo voltou a beijar o ruivo, para tentar distraí-lo um pouco, evitar que ficasse nervoso. Aqueles mesmos dedos trataram de afastar uma de suas nádegas, circundando a entrada virgem do menor que sentia o corpo todo responder.
Camus pulou de um salto. Que diabos Milo achava que estava fazendo? O francês era inocente, mas já tinha entendido onde tudo aquilo ia dar. E simplesmente achou a ideia absurda! Que coisa mais estranha, aquilo não era lugar pra... se fazer essas coisas.
- Milo! Enlouqueceu? – O rosto do ruivo estava corado.
Ele tinha voltado a ficar ereto com as carícias do loiro, é verdade. Mas nunca ouvira falar daquilo, parecia muito estranho.
- Você vai gostar. Eu juro. – O maior o olhou carinhoso e paciente, fazendo carinho nas coxas claras do ruivo. – Confie em mim.
Milo tinha aquele olhar... Aquele que fazia o parisiense se esquecer de qualquer coisa importante que estivesse pensando. Camus abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada. "Confie em mim"? E ele pedia daquele jeito, com aquele olhar que tinha um poder abusado sobre si?
Como não iria confiar quando tinha aquele par de joias azuladas lhe encarando de forma tão doce e... Apaixonada?
Mordeu o lábio inferior e fez que sim com a cabeça. O loiro sorriu e tomou seus lábios novamente, num beijo calmo, quente,... gostoso.
O ruivo gostava tanto daquela boca voluptuosa e daqueles lábios carnudos. Sentia tudo sumir quando Milo o beijava. O francês só saiu do transe ao voltar a sentir um dígito se apertar entre suas nádegas e chegar a lhe penetrar, fechou os olhos com força. Era muito incômodo.
Logo o loiro começou a acaricia-lo por dentro, fazia esquecer um pouco.. Mas ainda doía. Milo abandonou os lábios do ruivo para voltar a buscar o falo do menor, que jogou a cabeça pra trás sentindo a boca decidida do maior abraçando seu membro de novo.
O incômodo sumia e não demorou para que o mais novo sentisse um repentino calor lhe subir pelo corpo e se surpreender ao perceber que sentia tesão com o que Milo estava lá naquele canto tão... Inimaginável para ele, em termos sexuais.
Um segundo dedo invadiu o corpo do parisiense, que já não estava achando ruim e agora gemia enlouquecido. A boca de Milo sugava-lhe com avidez e seus dedos entravam e saíam e Camus tinha nítida sensação de que podia morrer de tesão.
O mais novo suspirou ao sentir os dedos e a boca do loiro lhe deixarem. O grego tocou a testa do menor com a sua e olhou fundo em seus olhos. Um pedido mudo de confiança, uma permissão igualmente muda e Milo esgueirou-se entre as pernas do outro roçando o membro já dolorido no orifício apertado de Camus.
Com cuidado, para evitar machucá-lo mais do que o necessário, Milo penetrou-o um tanto.
Camus trincou os dentes e crispou os dedos na toalha.
Dor.
Apertou-se num abraço contra o corpo do grego. Só mesmo com Milo para aceitar uma loucura dessas. Ofegou ao sentir a dor ceder e o loiro, sempre gentil e carinhoso, começar a se mover num ritmo ainda calmo.
Milo era paciente e fazia tudo para que o outro sentisse prazer também. Exigia muito de seu autocontrole ir com tanta calma. Camus era simplesmente delicioso e o loiro nunca pensou que sexo fosse tão bom. A respiração falha de seu francês junto a seu pescoço, aquela pele alva perfumada e a expressão de quem começava a se surpreender de excitação só deixavam o grego ainda mais enlouquecido. Sentia seu membro ser comprimido pelo interior quente do parisiense.
Camus rebolava inquieto à procura de mais contato com Milo. Qualquer tipo de desconforto sendo habilidosamente substituído por um prazer indescritível. Seus sentidos se avivam e parecia que podia perceber tudo. O cheiro da grama invadindo suas narinas, o farfalhar das folhas da árvore, cada centímetro de Milo lhe tocando e fazendo nascer em si um desejo enorme. O grego tinha lhe dito que o levaria para o céu, mas o ruivo tinha certeza que o céu já tinha sido deixado para trás há muito tempo. Era muito melhor do que o céu.
Deslizava as mãos subindo as coxas firmes de Milo, se agarrando nas nádegas roliças do grego. Deus, como Milo era gostoso! Mordia seu pescoço, enquanto a mão do grego passou a se ocupar em estimular seu pênis.
O grego massageava Camus, deleitando-se com a visão de seu ruivo tão entregue e embargado de prazer. Encobertos pelo amistoso carvalho, seus corpos se moviam num ritmo cadenciado, as respirações e os gemidos se mesclavam e tudo o que queriam era se largarem um nos braços do outro pra sempre.
Camus entrou em êxtase ao ter o segundo orgasmo de sua vida e no mesmo dia, gemendo e arranhando as costas do loiro, sentiu alívio imenso seguido da sensação de estar deliciosamente drogado. Milo também chegou ao ápice de seu momento, derramando-se em um estouro de prazer no ruivo.
O grego tombou o corpo sobre o de Camus, sendo prontamente abrigado num abraço. Olhou para o ruivo, ambos ofegando, os rostos corados, e tomou-o num beijo. Dessa vez, um beijo sofrido e de consolo. Odiaria se separar daquele rapaz.
Milo deitou na toalha ao lado do parisiense e puxou-o até que ele apoiasse a cabeça em seu peito. O francês abraçou o loiro, compartilhando de seu sentimento de saudade.
Ficaram ali, abraçados por algum tempo, em silêncio.
Quietos naquele lugar, que seria para sempre o lugar só deles dois. Acobertados por aquele salgueiro, que guardaria com eles as memórias, os segredos e as descobertas daquele sentimento gostoso e quente que preenchia o peito dos pequenos amantes.
X.X.X.X.X.X.X.X.X.X.X.X.X
Camus, que agora estava aconchegado pelos lençóis em seu quarto, acordou pensativo.
O dia raiou em paradoxo. A felicidade pairava sobre sua cabeça ao recordar as lembranças do dia anterior. Nunca se recusara tanto a sair de um piquenique.
Em contrapartida, a saudade já se apossava dele. Iria embora hoje.
O café da manhã desceu forçado. Seu pai notava que estava aéreo, rindo para o croissant e às vezes lançava olhares longos e calados para a jarra de leite.
Ajudou Edmond a descer com as malas, o pai juntava alguns documentos no escritório.
Olhava para os cantos, buscava Milo com o olhar. Onde será que estava seu loiro? De repente se sentiu puxado.
Milo lhe arrastava para trás da casa, sob a sombra de uma árvore. Bateu Camus de encontro à parede. Arfava.
O ruivo olhava com aqueles orbes grandes e ingênuos, observava o loiro com carinho. Já estava com saudades mesmo.
- Eu te amo, Camus. – Ele disse assim. A seco. Com medo.O peito em saltos.
- Je t'aime aussi, Milo. – Respondeu e deslizou a mão pelo rosto macio do loiro.
Milo não entendeu.
Estava na França há pouco tempo e não era tudo que entendia. Aquela língua que odiava, mas que agora estava aprendendo a amar.
- Isso quer dizer o que? – Inclinou-se incomodado. Uma coisa dita num momento desses tinha que ser entendida.
- Quer dizer que também te amo. Quer dizer que meu coração é seu, grego abusado. – Deu-lhe um selinho demorado.
- E o meu é seu, francesinho metido.
Sorriu. Sabia que era dele. Sabia que ele era seu.
Os lábios se atraíram como se fossem ímãs, como se tivessem nascido para estar juntos. O beijo era simplesmente inevitável. Queria beijá-lo sempre.
O ar faltou e eles se olharam de forma mais que a distância fosse separá-los por um tempo, o que tinha se construído ali era algo para durar para sempre.
Ouviram o nome de Camus.
- Você tem que ir... – Milo segurou sua mão.
- Tenho. – Sussurrou doce e apertou a mão do loiro entre as suas. - Mas... Agora que meu pai vai ampliar as terras, vai precisar passar mais tempo aqui... Acho que vou ser obrigado a voltar vezes. – Falou em tom de brincadeira. Estava é torcendo muito para voltar logo para os braços do loiro.
Milo sorriu e lhe deu mais um beijo. Tinha que aproveitar aquela boca gostosa, agora que teria de esperar algum tempo para vê-lo.
O ruivo foi chamado de novo e Milo teve de empurrá-lo, pois o mais novo parecia ter colado a boca na dele.
Um risinho cúmplice e um selinho meigo acompanhado de um abraço antes de Camus correr para o carro novamente.
O grego sorriu e acenou.
Sabia que o veria de novo. Sentia isso. Por mais que lhe doesse a saudade da espera, iria encontra-lo. Um pouco do seu coração ia com Camus, um pouco de Camus ficara com ele. Amá-lo-ia então... Como se nada mais existisse, como se nada pudesse atingi-los, como se fossem um só. Amá-lo-ia até o próximo verão, até que voltasse para seus braços de novo. Amá-lo-ia para sempre.
