SONHOS DE UMA VENDEDORA DISTRAÍDA COM UM GRINGO ILUDIDO

" ...8 anos depois..."

Dan estava no aeroporto de São Paulo. Oito anos haviam se passado. Ele pegaria o voo para a Califórnia, a nova residência de Amy e talvez a sua também. Ele se encaminhava para a sala de espera quando passou na frente de uma loja de joias. Parou e deu uma olhada. Um anel pareceu saltar da sua vista. Ele viu o que já procurava há um tempo. Entrou na loja. Foi atendido rapidamente. Daniel Cahill havia se tornado um rapaz muito bonito. Alto, forte, de porte altivo, estava com a tez bronzeada por causa do sol tropical e fios grossos e lisos estavam queimados, tornando-os mais loiros.

"Esse com certeza não é daqui" a vendedora novata pensou, feliz, estudando o gringo "Que sorte a minha! Terceiro dia e finalmente aparece alguém interessante". Apressou-se para atendê-lo. Ela era morena e tinha cabelos cacheados e volumosos. Por um momento sua imaginação vagou e ela se pegou sonhando que aquele estrangeiro se apaixonasse por ela e a levasse junto com ele.

– Com licença – Dan falou em um português com um pouco de sotaque, em uma voz grossa e bonita. Lançou-lhe um olhar que a deixou sem fôlego. "Meu Deus! Que olhos!"

– Sim? – respondeu a novata tagarela, um pouco surpresa, que já estava preparada para testar seu inglês, esperando que ele se apaixonasse pela sua voz.

– Eu queria saber se tem aquele anel da vitrine do tamanho treze.

– Treze?

– É – do rosto de Dan aflorou um sorriso bobo. A morena ficou exultante de alegria, pensando que era para ela, mas ele, na realidade, pensava em outra garota. – É provável que não tenha. O dedo dela é bem fino.

A vendedora murchou.

– Ela quem? Sua namorada?

– Ah, não! Iris não é minha namorada! É só minha amiga, na verdade a melhor amiga da minha irmã e ela estava procurando um anel desse tipo. Encontrou um dia, só que só tinha a partir do tamanho vinte. Ficou enorme no dedo dela, sem falar que as palavras eram em inglês. Ela também é brasileira.

Ele riu, mas a vendedora não pareceu achar graça nenhuma. Não havia sido dessa vez, pensou decepcionada. Estava na cara que ele gostava dela, seja ela sua namorada, amiga ou amiga da sua irmã ou de não-sei-lá-quem.

– Só um instante, vou ver – e se encaminhou para o interior da loja.

Ficando sozinho, Daniel começou a pensar...

Voltar para a casa. Não exatamente para casa. Atualmente Dan não sabia aonde ficava sua casa. Talvez em lugar algum, talvez em lugar nenhum, talvez no mundo, viajando de um país para outro, visitando culturas, conhecendo pessoas, principalmente mulheres...

Amy estava morando agora na Califórnia, em Los Angeles, num apartamento, com Buddy e Saladin. Fazia faculdade de História, embora Dan achasse que ele tinha aprendido muito mais história viajando pelo mundo do que Amy, que passava o dia inteiro em uma sala fechada com ar-condicionado, escutando professores enfadonhos, fazendo trabalhos chatos e metendo a cara em livros tediosos.

Ele também tinha um apartamento em Los Angeles, mas deixava-o alugado porque nunca estava lá. Já fazia mais de oito meses que ele não via Amy, nem pisava na Califórnia.

Havia feito um tour pela América do Sul.

Fazia tempo, muito tempo...

Ele não continuou aquela frase, embora soubesse no íntimo o que ela significava de verdade.

Tempo que ele não via uma pessoa em especial...

Ele havia tentado a esquecer. Tinha mesmo, de verdade. Viu centenas de mulheres na sua viagem inteira e saiu com a maioria delas. Todas belíssimas, algumas inteligentes, outras espertas, uma parte bondosa, outra parte delicada, mas todas pareciam iguais e sem graça se comparadas a ela pelo simples motivo de que nenhuma delas era ela.

E durante esses oito meses ele não havia se esquecido dela. Haviam alguns dias em que ele lembrava do seu rosto delicado toda hora durante o dia inteiro, em outros ele passava semanas sem que ela lhe aparecesse na memória. Mas ela sempre voltava. Sempre. Ela com seu rosto delicado. Ela com aqueles olhos amendoado-azulados, com as bochechas rosadas, o sorriso meigo e os cabelos acobreados. Com aquele jeito de achar que as pessoas podem fazer um mundo melhor, que ela pode mudar o mundo, que um dia a maldade pode acabar. Com aquele sorriso que enrugava seu nariz levemente e mostrava seus dentes de marfim e fazia o mundo parecer, de repente e realmente, melhor. Ele às vezes realmente achava que ela poderia mudar o mundo.

Uma bruxinha que havia o enfeitiçado.

A vendedora voltou com o anel.

– Aqui está.

– Hã? – ele perguntou distraído.

– O anel tamanho treze. É o último.

Dan acordou das lembranças. Doces lembranças de uma doce pessoa... O ouro da grossa aliança cintilava e ele conseguia identificar algumas palavras. Ele pegou da mão da vendedora e tentou colocar no seu dedo. Quase não entrava no seu dedo mindinho. Ele deu uma risada.

– É perfeito. Vou levar. Quanto é?

– 1560,90 reais – a moça ficou esperando uma resposta do tipo "Que caro, não dá para fazer um desconto?" ou "Ah, tá muito caro, não tem um mais fininho, com menos ouro?" Mas ele não pechinchou nem pediu para ver outros modelos.

– Pode embalar para presente. A embalagem mais bonita que você tiver.

– Certo. – A moça riu. Um apaixonado, na certa. – Cartão?

– Sim.

– Temos essas cores de saquinhos.

Dan deu uma olhada. Todos eram de veludo. Ele ficou entre o rosa e o roxo. Acabou optando pelo roxo. Era mais misterioso e místico. Possuía um leve brilho e mudança de cor quando postos na luz. Era a cara dela.

Ela passou o cartão, colocou na embalagem e deu para Dan. Sabia que não deveria se meter na vida dos clientes, mas era sua primeira semana e ela era curiosa.

– Você gosta dela, não é?

Dan não respondeu.

– Certo, não precisa responder, eu já sei a resposta. Aqui está o seu presente e acho que ela vai amar. Boa sorte – ela disse dando uma piscadela para Dan. Ele respondeu com um sorriso.

– Obrigado.

A morena ficou analisando o homem que acabara de sair. Uma pena... tão bonito, tão jovem e já iludido amorosamente. Mas se fosse com ela, ah! Seria bem diferente! Ela faria aquele homem feliz!

– Ei, Edna, acorde! – disse a gerente, irritada com a atitude dispersa da menina. – Você tem de prestar mais atenção! Fica aí sonhando! Já se viu uma coisa dessas? Trate de trabalhar e deixe de ser tão curiosa. Você não é psicóloga para saber da vida dos seus clientes.

Edna rolou os olhos. Achava que sua gerente não tinha sentimentos. Será que ela nunca havia se apaixonado? Nunca havia sentido curiosidade? Nunca falava um pouco demais de vez em quando? Edna estava começando a achar que não.

– Vamos, se arrume. Aí vem outro cliente.

Edna olhou triste para a mulher esnobe que acabara de entrar na loja. Esse era com certeza o pior tipo...

No corredor largo, Dan guardava com cuidado o presente dentro da sua mochila.

Uma voz feminina anunciou primeiro em português, depois em inglês e em seguida em espanhol o seu voo. Ele se encaminhou para a sala de espera para daqui a pouco decolar em mais um avião, em mais uma viagem...


Hey, povo! Mais um capítulo, estou progredindo! Não sei se ainda vou colocar mais algum capítulo antes de quarta-feira, então desejo boa volta às aulas a todos! *_*