POSSO ESTAR ATRASADA PARA A FESTA, MAS O MEU PERSONAL STYLISH É O MEU CACHORRO

8 anos depois...

Amy terminava de passar o delineador preto na pálpebra superior. Já havia passado outro traço de delineador mais grosso em um tom de lilás, que Iris disse que "realçaria a cor verde dos seus olhos", e agora só faltava passar o rímel. Nada muito elaborado. Já havia passado um corretivo e um pouco de blush. Colocaria um batom? Ou um gloss? Sempre ficava em dúvida. Preferia o efeito do gloss, mas o batom durava mais. Decidiu pelo batom, afinal era bem mais discreto. Um clarinho.

Já havia prendido a metade direita do cabelo com uns grampos e deixara o lado esquerdo solto, com a franja a repousar perto do seu olho. Teria que se lembrar de não colocá-la atrás da orelha.

Agora só faltava escolher a roupa. Ainda estava de roupão e pantufas.

Sempre se culpava por não escolher a roupa antes, mas sempre se esquecia desse fato e quando via já era tarde demais e ela tinha novamente deixado a roupa por último. Atravessou o quarto correndo, indo para o closet.

Buddy seguia com os olhos o movimento e a agitação da dona. Estava deitado perto de sua cama tentando dormir, mas aquela euforia não o deixava. Pensou porque as humanas ficam tão eufóricas prestes a sair para um evento.

Qual vestido colocaria? Estava em frente ao armário sem decidir qual roupa vestiria. Mordeu o lábio inferior - gesto que o tempo havia preservado - e Buddy soube por ele que ela estava realmente nervosa. Levantou-se vagarosamente e foi ao auxílio da dona, ela precisava dele.

Ela já havia usado o vestido vermelho semana passada - ele era o preferido de Buddy.

Ele escolheu o novo, que ela nunca havia usado. Roçou em sua perna e apontou com o focinho úmido para ele.

– Agora não, Buddy. Estou atrasada – Amy falou, angustiada. Buddy revirou os olhos. Por que, às vezes, sua dona era tão lerda?

Ele mordeu seu roupão de seda, puxando-a, mas sem deixar marca ou rasgar - audácia que havia aprendido com o tempo e feito com que Amy não reclamasse mais dele por acabar com suas roupas. Depois puxou, novamente com a boca, o vestido.

– Que foi Buddy? – ela suspirou. Então olhou para ele e entendeu. – Oh, Buddy! Você é um gênio para roupas sabia? Melhor do que muito personal stylish por aí. – Buddy ficou grato. Havia ajudado Amy e ela ainda tinha parado sua correria para dar um pouco de atenção a ele, lhe fazendo carinho.

Ela tirou o vestido. Era realmente muito bonito. Era alaranjado e na parte de cima tinha algo parecido com um corpete e em cima do tecido alaranjado havia uma renda preta de flores. O comprimento batia acima do seu joelho, nem muito curto, nem muito comprido. A cintura era marcada por um laço preto discreto. Havia sido Iris que escolhera o vestido e quase a obrigara a comprar. Disse que havia ficado lindo nela e estava "simplesmente de graça". Colocou o vestido o mais rápido que pôde e foi escolher o seu salto.

– Buddy, vou precisar da sua ajuda. Qual você acha apropriada?

Ele analisou as opções e por fim acabou pegando um escarpin vermelho-ferrugem de cetim.

– Tem certeza? – ela perguntou. – Não acha muito ousado? – Seu amigo apenas fez que não com a cabeça. Eles se entendiam do jeito deles. Estranho...

Amy foi andando e colocando o escarpin no pé ao mesmo tempo. Pegou a clunch laranja e pensou no que colocaria dentro. Celular, carteira de identidade... Mais alguma coisa? Ah, claro! As chaves! Ela sempre se esquecia de algo.

– Buddy, tome conta da casa. Volto de madrugada. Mamãe ama vocês! – ela gritou, saindo do apartamento.

Droga! Estava atrasada. Iris lhe daria uma bela de uma bronca. De novo. Ela bateu a mão na cabeça se repreendendo silenciosamente. Pegou o elevador e saiu na garagem, apertando o botão de destravar o carro. Viu seu Chrysler piscar e entrou dentro dele. Sabia que devia pegar um táxi, muito mais fácil, o único problema era encontrar um a essa hora em Los Angeles.

Ligou o motor e saiu cantando pneus. Ao chegar no portão, buzinou incessantemente para Kyle abrir o portão. Ele era jovem, por isso não o chamava de sr. Kyle, apenas uns cinco anos mais velho que ela. Ele colocou a cabeça para fora e deu o seu sorriso habitual, de orelha à orelha.

– Está atrasada, srta. Amy? – ele perguntou. Amy pensou se as vezes que ela tinha pedido para ele lhe chamar de Amy, eram tantas quantas as vezes em que ele já tinha visto ela sair atrasada e buzinado para ele abrir o portão desesperadamente.

– Sim, Kyle. Mais uma vez.

"A srta. Amy não toma jeito" ele pensou, olhando para a garota bem arrumada, pronta para mais uma das festas que ela costumava ir.

– Quer que eu peça um táxi?

– Não dá tempo. Já estou atrasada mais de meia hora.

– Preocupada com a bronca da srta. Iris?

– Muito – ele a ouviu gritar enquanto saia cantando pneus assim que o portão foi aberto mais uma vez. Ele gostava da srta. Iris. Bem-humorada, simpática, inteligente, bondosa e bonita...

Se lembrou mais uma vez da moça com longos cabelos castanho-acobreados ondulados e olhos amendoados. Uma visão belíssima era ela. Um pouco branca demais talvez, embora tivesse sempre as maças do rosto coradas em um leve tom de rosa. Não era de lá, Los Angeles, muito menos dos Estados Unidos. Brasileira, parece, embora tivesse um sotaque impecável. Ela que havia lhe dito esse fato, se não fosse por isso ele nunca desconfiaria. Claro que ela não tinha um tipo americano, mas podia ser filha de um estrangeiro ou coisa parecida.

Acordou dos seus sonhos com as buzinas irritantes do sr. Black.

– Sonhando acordado, é Kyle?

– Sim, senhor. Com uma garota!

– Espero que não seja aquela brasileira. Elas são perigosas. São bonitas demais...

Kyle não deu importância ao comentário um tanto quanto preconceituoso do sr. Black. Embora o prédio tivesse mais de trinta andares, a visão da delicada Iris não passava despercebida a ninguém. A garota sabia chamar atenção; tinha atitude. Mas ela não era perigosa de jeito nenhum. Nem pensar! Logo a srta. Iris, tão delicada, tão leve, tão bondosa. Não, perigo era uma palavra que não existia no mundo da delicada Iris.

Pobre Kyle, tão iludido...