ALICE, A ESPERTA, NO PAÍS DAS MALANDRICES E REI ARTHUR, O EXAUSTO, DA ESTEIRA ROLANTE

A primeira coisa que eu vi foram dois olhos enormes e misteriosos olhando diretamente pra mim. Eles eram cor de caramelo, quente e doce, porém, na metade da íris eles se transformavam em um azul gélido e racional. Suas pupilas estavam contraídas e permitia ver bem as duas cores que se chocavam e pareciam travar uma luta permanente. Suas sobrancelhas emolduravam-nos e a esquerda estavam levemente levantada, um gesto de provocação que eu conhecia tão bem.

Depois o que eu vi foi um narizinho empinado e metido proporcional ao tamanho do rosto que eu sabia de quem ser, no meio de duas bochechas rosadas, mas muito brancas.

E, por último, eu adivinhei o que viria. E acertei. Uma boca bem delineada e cheia que fazia um biquinho divertido e provocante. E que eu amava.

Então seus olhos baixaram e ela colocou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha. E de repente, sem avisar, seus olhos levantaram-se e olharam novamente pros meus e meu coração perdeu uma batida quando sua boca se abriu em um sorriso largo e rasgado, que levava as duas extremidades ao meio das bochechas, fazendo covinhas. Aquilo pareceu sugar todo ar respirável que havia no ambiente e eu me senti sufocado.

Quase pulei da cadeira, buscando por ar, agitado e confuso, mas acabei esbarrando no assento da frente e minha agitação foi tamanha em um espaço tão pequeno que os passageiros a minha volta me olharam feio e soltaram vários muxoxos de indignação e reclamação. Pareciam dizer 'Será que esse homem nunca viajou de avião? Sinceramente...'

Ok, ok, eu NÃO estava olhando pra ela. Era tudo um sonho.

Só um sonho...

Outra vez.

Me assustei novamente, meus nervos em frangalhos depois do sonho e por estar com sono e cansado e em um espaço tão pequeno, mas era apenas a voz do comandante.

– Senhores passageiros, apertem os cintos, estamos pousando em Los Angeles. Temperatura, 21 graus célsius.

Quase não dava para acreditar que eu havia chegado. Tentei me esticar na poltrona, que não era muito confortável. Olhei meu relógio de pulso. 21:48. Bom, não era tão tarde quanto eu imaginava. Porque, quando se passa mais de um dia inteiro em um avião, parando em dois locais para a troca de aeronaves, com a sua bunda praticamente colada no assento OU na cadeira da sala de espera sem conseguir dormir ou se concentrar em quase nada, parece uma verdadeira eternidade.

Enquanto todos estavam com aquela cara meio achatada de quem acabava de acordar meio incomodado, eu parecia ser o único a estar feliz e serelepe pela chegada. Bom, eu e uma garotinha de uns oito anos. Meu cochilo fora breve, apenas nos últimos minutos do voo e eu não tinha conseguido descansar com aquele sonho...

– Alice, pode esperar, por favor!

– Mas, mamãe, nós finalmente chegamos! Eu quero sair logo! Vamos!

Ela foi tão rápida que saiu quase junto comigo, que era o primeiro.

Acontece que a minha animação foi tão grande quanto a daquela criança e sem querer demos um encontrão daqueles quando saíamos na mesma hora e ela só não caiu porque tinha mais gente atrás dela.

– Ai! Cuidado, ô grandão!

– Opa, desculpa, amiguinha.

Ela me olhou a principio com uma careta emburrada, mas depois seus olhos imensos e muito azuis se abriram num espasmos de surpresa.

– Ei! Eu te conheço! Você é o irmão da Amy!

Seus lábios vermelhos, entreabertos num sorriso, mostravam seus pequeninos dentes de marfim. Ela parecia um anjinho. Tinha um cabelo cheio de cachos largos que batia um pouco abaixo do seu ombro, bochechas bastante coradas e cara de sapeca.

Dei uma risada.

Encaminhamos para pegar as malas. Peguei um carrinho para mim e ela pegou outro para ela que era bem maior do que ela e tornava a cena hilária, enquanto esperávamos a esteira com as nossas malas. Estava curioso. Como ela me conhecia?

– É? Como? – fiz uma careta irônica. Ela apenas devia estar me confundindo com alguém, crianças são meio pancadinhas da cabeça...

– Eu moro no prédio da Iris e ela e a Amy são melhores amigas. Já vi a sua foto no apartamento da Amy e ela me disse que você era o irmão dela. – Ela falava suave e claramente, articulando as palavras com perfeição. Que garota esperta! Eu estava realmente impressionado. A expressão de queixo caído nunca fez tanto sentido pra mim. Ela me olhou de cima a baixo, analisando-me criticamente.

– Que foi? – perguntei.

Ela fez uma cara de desdém.

– Iris estava certa.

A mínima menção de Iris me fez pular, mesmo estando em pé.

– Iris? No que ela tem razão?

– Bom (ela tem razão em quase tudo), mas me refiro especialmente a você.

Estufei meu peito e ergui meu nariz, esperando um elogio.

– E o que foi que ela disse sobre mim?

– Que você não era muito inteligente – disse a pequena, com naturalidade. Torci meu nariz. Tão típico de Iris... Eu já devia esperar aquilo. Achei melhor levar na esportiva. Não queria apanhar de uma pirralha que venerava a melhor amiga da minha irmã em um aeroporto. Meu plano ainda não era ser preso por assédio...

– Mas você ainda não me disse quem é.

A garotinha deu um sorriso enorme, toda orgulhosa.

– Eu me chamo Alice Sanders, igual a das histórias de Lewis Carrol. Tenho oito anos. Prazer.

Dei uma risada. Que engraçada ela! Bem, mas não podia negar, ela era igualzinha a Alice de Lewis Carrol. Os mesmos olhos grande e curiosos, os cabelos louros, cacheados e, amarrado neles como uma tiara, se encontrava uma fita azul. Por um momento, ela me lembrou outra pessoa: Iris. Não sei porque, mas, durante uns instantes, eu só conseguia ver em seu rosto o rosto de Iris.

– E eu sou Daniel Arthur Cahill (mesmo você já sabendo disso) igual ao rei Arthur das Távolas Redondas – eu disse, achando que se eu fizesse a associação com um rei o meu status melhoraria para ela.

– Não gosto dessa história – ela resmungou depois suspirou. – Bem que Iris disse que você não era dos mais inteligentes – disse, dando uma batidinha na testa.

– Por quê? – perguntei indignado, ainda achando que havia sido uma associação muito boa.

– Porque todos lhe chamam de Dan, não de Arthur, e ainda por cima você fez uma imitação barata da minha originalidade.

Desde quando crianças de oito anos haviam ficado tão exigentes?

– Agora estou começando a entender porque Iris gosta de você... – refleti, pensativo.

– Porque eu sou esperta igual a ela – falou, toda orgulhosa.

– Eu ia dizer irônica, mas esperta também serve – disse enquanto dava uma risada. Ela era uma graça apesar de azeda. O silêncio não perdurou mais de três segundos entre nós. Ela não era daquelas tímidas e caladas.

– Eu gosto da Iris. Você também gosta dela, não é? – Mesmo dirigindo meu olhar para a esteira, pude ver que a pequena Alice me observava com atenção.

– Sim, eu gosto de Iris – ponderei.

– Ela é muito bonita – Alice instigou.

– É, ela é muito bonita. Você também é muito bonita – eu a elogiei, apelando para a sua vaidade e achando que ela se esqueceria momentaneamente daquele assunto.

– Obrigada. Até que você não é assim tão burro. Estava tendo me distrair, né? Pensa que eu não percebi? Vai precisar fazer melhor.

Ri. Parecia um anjinho, mas de anjinho não tinha nada.

Peguei minha mala que passou naquele exato instante.

– Sei. E o que você quer saber exatamente?

Ela fez uma cara inocente.

Bom – ronronou –, você sentiu saudades dela, não sentiu? Quer dizer, ela é a melhor amiga da sua irmã, você devia vê-la bastante antes de viajar. Deve ter sentido falta dela, não é?

– Hummm... vou te dizer que a minha viagem foi muito boa, mas fiquei bastante sozinho.

– Sei... – ela continuou olhando para mim, esperando que eu continuasse. Quando viu que isso não aconteceria, seguiu com outra bateria de perguntas. – Trouxe presentes?

– Para quem?

Aquela garota era esperta demais. Ela parecia esta apenas esperando eu tropeçar e contar algum podre, algo revelador e constrangedor ao mesmo tempo.

– Sei lá, para sua irmã, para algum amigo, para Iris...

– Trouxe.

– O quê? – ela deu pulinhos de ansiedade. Dei de ombros, fingindo indiferença.

– Não me lembro... Algumas coisas eu comprei faz tempo. Passei oito meses viajando.

– Bastante tempo, né? Um bom tempo para tentar esquecer alguém... – Ela olhou para ver como eu reagiria com aquela indireta. Tentei permanecer o mais neutro possível. Vi a partir daquele dia que eu teria de ter muito cuidado com ela.

– Bom, mas você se lembra de algum? – ela continuou, vendo que eu não esboçara nada.

– Bom, trouxe um CD de tango para o meu tio, uma caixinha de madeira para Amy, um anel para a Iris...

– Um anel?! Você vai pedi-la em casamento?! – ela falou sem ar. Pulei de susto. Ela exibia um sorriso radiante e seus olhos estavam ofuscantes de tanto brilho de entusiasmo.

– Não! – eu disse quase bravo e um pouco indignado demais. Devia ter sido mais indiferente, mas era difícil se manter inabalável quando ela pergunta se eu iria pedir a melhor amiga da minha irmã em casamento. Simplesmente não me imaginava casando. Respirei fundo, me acalmando. Não tinham motivos para eu ficar daquele jeito. – Um dia Iris achou um anel que ela procurava faz tempo, mas ficou muito grande no dedo dela. Nessa viagem achei um bem parecido e resolvi comprar.

– Ah... – ela murmurou, descontente e decepcionada. Eu quase ri da sua expressão abatida.

– O que foi, Alice? Você queria que eu pedisse ela em casamento mesmo eu sendo burro?

– Não sei... – Ela me mirou com aqueles olhos grandes. – Eu queria que Iris gostasse de alguém que gostasse dela. Queria que alguém a pedisse, pelo menos, em namoro.

– Por quê?

– Porque ela merece alguém. Oh, pobre Iris...

Não entendi muito bem o porquê daquele descontentamento, daquela pena de Iris. Até onde eu sabia ela era bem feliz sozinha. Não queria ninguém "atrapalhando" sua vida. Senti raiva dela, uma coisa que acontecia frequentemente comigo. Iris não merecia a pena daquela criança, não por isso. Ela escolhera ficar sozinha, ela e mais ninguém. Aparentemente, ela era boa demais para dividir sua presença ilustre com outra pessoa. Respirei fundo, tentando me acalmar, não tinha sentido ficar irritado com uma pessoa que nem estava lá!

Fiquei me perguntando o que Iris contaria para uma pirralha intrometida daquela que não contaria pra mim, não que eu fosse exatamente seu amigo, mas ela era amiga da minha irmã e nem a Amy havia me contado algo sobre Iris que desse aquela pena vista em Alice. Às vezes eu me sentia como se não conhecesse Iris. A verdade é que eu não conhecia maiores detalhes da sua vida íntima. Será que ela já havia tido desilusões amorosas? De algum modo, minha imaginação era bloqueada ao pensar em Iris iludida amorosamente. Não sei, ela era tão... comedida, discreta, cheia de auto-controle. Simplesmente não conseguia vê-la se acabando de chorar por uma pessoa.

– Pode pegar a minha mala, por favor? – ela me pediu, despertando-me das minhas divagações.

– Claro. Qual delas?

– A azul-clara que tem um laço azul-turquesa na alça.

Peguei-a e coloquei no carrinho da minha nova amiga. Até que para uma mala de criança de oito anos era bem pesadinha.

– Poxa! Você gosta de azul, hein?

– E você não? É a cor mais bonita. É a cor do céu, a cor do mar, a cor dos meus olhos...

Perdi em meus pensamentos ao lembrar-me dos olhos de outro alguém. Não eram exatamente azuis. Era uma mistura, mas eram uma mistura adorada, uma mistura perfeita, uma mistura fantástica.

Acordei dos meus sonhos acordados. Alice continuava falando algo.

– Pode pegar aquela outra? – ela apontou para uma mala grande, cheia de monogramas. – É da minha mãe.

– Claro.

Coloquei - com certo esforço - a mala dentro do carrinho.

– Obrigada.

– E seus pais? – lhe perguntei, preocupado. Ela pareceu achar graça da minha preocupação.

– Mamãe deve estar vindo. Deve estar pegando seu casaco ou procurando sua bolsa. – Alice revirou os olhos. – Ela é muito desastrada, sempre perde algo.

– Sei. – E eu podia dizer aquilo...

– Alice! – disse uma voz suave vinda de uma mulher alta atrás de nós. No momento em que ouvi soar aquele nome pensei ter ouvido algo estranho, mas que não me dei conta, devia ser o cansaço que me fizera imaginar coisas. Virei-me e me deparei com uma mulher belíssima, com seus trinta e poucos anos, bem arrumada, com um casaco acima do joelho e salto alto. Era branca e possuía um cabelo castanho ondulado. Tinha um rosto plácido onde descansavam doces olhos castanhos. E apesar das roupas que usava, era uma pessoa simples e modesta. Alice lembrava a mãe, mas não tanto. Alice tinha algo, algo fantástico e magnético, que sua mãe não tinha.

– Estava lhe procurando, Alice! Não lhe disse que não era para sair assim, correndo? Vamos, seu pai deve estar nos esperando.

– Mamãe, esse é o Dan, irmão da Amy, amiga da Iris.

Ela abriu um sorriso e seus olhos brilharam para mim e pude ver nela um pouco do que via na pequena Alice. Talvez as duas fossem muito parecidas, embora o brilho da mãe estivesse apagado por algum motivo por mim desconhecido.

– Muito prazer, Daniel. – Nós apertamos nossas mãos. – Iris é a melhor vizinha que eu já tive. Ela é maravilhosa. Sempre fica com Alice quando eu e meu marido temos que sair e Amanda não pode ficar com ela. Às vezes Amy também faz companhia para elas, não é, filha?

– Sim, é muuuuuuito divertido! – Alice falou empolgada.

Ela olhou para seu relógio fino de pulso.

– Agora vamos, filha. Nós estamos atrasadas.

Alice fez uma cara de "'Nós'? Apenas você, não, mamãe?"

– Olhe lá quem chegou!

Ela apontou para um homem alto, loiro e forte que dava um amplo e saudoso tchau para elas do lado de fora da sala de desembarque. Vestia um terno preto e uma gravata azul, da cor dos seus olhos. Alice tinha os olhos do pai. Parecia que ele tinha acabado de sair do trabalho.

– Tchau, Daniel. Foi um prazer.

– Tchau, sra. Sanders. Tchau, Alice.

– Au revoir, Dan! – Alice retribuiu com doçura. E se eu conhecesse melhor a pequena Alice, diria que por trás daquelas três palavras havia um desafio.

Eles se encontraram com muita festa lá fora. O sr. Sanders deu um beijo na sra. Sanders primeiro enquanto Alice ficou olhando-os com certo nojo. Em seguida, depois do casal se separar, ele pegou a pequena no colo e se abraçaram todos juntos. Pareciam uma família feliz.

Fiquei olhando e pensando... no fundo senti uma pontinha de inveja. Naquele momento eu não entendi direito. Só depois, depois de muita coisa, muita coisa que poderia ter sido evitada, que eu comecei a compreender...

Ooooooi! Olááááá! Oiêêêê! Helloooooo! Hehehe eu dando a louca!

Devo dizer que gostei muito de escrever esse capítulo! Espero que não esteja muito ruim a história... E por favoooor deixem reviews mesmo que você odiem, mesmo que esteja uma porcaria, mesmo que critiquem...! Isso me motiva de uma forma imensa!

Beijos!