MILAGRES ACONTECEM E ISSO NÃO QUER DIZER UM RATO MUTANTE

Estava em frente a porta no meu apartamento. Pude ouvir Buddy de lá de dentro vir até a porta. Destranquei-a e entrei. Não acendi as luzes, deixei a escuridão me envolver, fatigada com os flashes e lâmpadas fosforescentes da festa. Mas lá estava ele, como eu falara, me esperando em frente a porta. Sempre ficava tão feliz de chegar em casa não importava o tão bom fosse o lugar em que me encontrava. Talvez por tudo o que eu já havia passado ter um lugar seguro fosse tão importante para mim. O mais engraçado é que eu já havia me sentido segura assim, mas não por causa de um lugar e sim por uma pessoa.

A primeira coisa que fiz foi tirar aquelas escarpins que estavam me matando. Depois, despenquei no sofá. Sentia cada músculo do meu corpo moído. Buddy deitou ao meu lado.

Eu achava engraçado como tudo havia passado tão rápido. Olhei para o relógio no meu Iphone. 23:59 então o dia virou e passou a ser 00:00. Também era engraçado como às vezes a coincidência nos prega uma peça. Fazia quatro anos desde que eu vira ele pela última vez. Que nós havíamos nos dado adeus... Doía agora lembrar disso tanto quanto doeu há quatro anos. Para sempre. Era isso que ambos havíamos pensado embora nenhum dos dois tivesse tido coragem o suficiente para verbalizar.

Flashback on

Nunca daria certo – eu havia dito. Ele parecia relutante. Apesar das lágrimas que corriam nos meus olhos, eu era a decidida naquele momento. E tinha de ser.

Eu não acredito que estamos nos separando por causa de uma faculdade idiota! – ele havia dito.

Não é uma faculdade idiota, Ian. É a faculdade da minha mãe e é pra lá que eu vou. Será que você não entende que não é só isso? Olhe pra você! Agora olhe pra mim!

Eu vejo a mulher da minha vida.

Eu sinto muito. Adeus.

Adeus, Amy.

Mas ele não me seguiu ou me impediu de ir. Talvez nós precisássemos. Ele podia ser um príncipe, mas talvez não fosse de um príncipe que eu precisasse.

– Oi, amigo – sorri pra ele. Tive a leve impressão de ver Buddy me retribuir o sorriso.

Descansou sua cabeça no meu colo e eu fiz carinho nas suas costas.

– Buddy, por que as coisas não podem ser mais simples?

Ele levantou seu rosto ao encontro do meu e me lançou um olhar tão... racional e voltou a recostar na minha perna.

– Você sabe do que eu estou falando, não é?

Suspirei, cansada. Isso um dia iria acabar?

– Você sabe o que eu sinto...

Ele se aproximou em um sinal de solidariedade.

– Obrigada – sibilei. – Você me conforta. Hoje eu me lembrei dele.

Dessa vez Buddy levantou a cabeça. Eu sorri.

– Você gosta muito dele, não é?

Mas nem se ele pudesse, ele precisaria falar algo, eu sabia a resposta.

– Ele também gostava muito de você.

De alguma forma foi esquisito usar o passado. Ele - porque eu não ousaria pronunciar, se quer pensar o nome dele! - fazia parte do meu passado?

Buddy olhou fundo em meus olhos. Eu sabia o que ele estava tentando me dizer com aquilo, mas será que era verdade? Será que alguma vez ele sentiu o que eu senti por ele nos momentos mais sutis? Será que eu ainda fazia parte do presente dele como ele fazia parte do meu? Às vezes - e eu digo "às vezes" porque eu não aguentaria nem pensar em 'sempre' - eu achava que não.

Busquei conforto no pelo macio do meu cão. Mas, meu momento saudosista e melancólico foi bruscamente interrompido por um barulho vindo do banheiro. Pulei mecanicamente do sofá em alerta, mas Buddy permaneceu impassível, a não ser pelo movimento em busca do som com a orelha direita. Quase dei um tapa nele pra o coitadinho agir, fazer qualquer coisa para me salvar do que quer que estivesse em meu banheiro. Deveria ser um rato. Achei somente muito estranho meu cão de guarda não se mover um centímetro da sua pose relaxada.

– Sai, Buddy! – cochichei. Ele saiu, ainda que muito preguiçoso.

Procurei alguma coisa que fizesse algum efeito no meu visitante inesperado. Quando vi, meu escarpin de cetim, de 1500 dólares, bico arredondado e salto fino já estava estrategicamente armado em minha mão. Certo, não era a melhor arma para um rato, mas serviria no caso de um projétil e Buddy poderia fazer o resto do serviço.

Isso, naturalmente, era o que eu esperava. Não foi bem isso que aconteceu.

Antes de me virar para entrar no corredor, onde estava a porta do banheiro de visitas, ela se abriu e eu ouvi sons de passos.

Ferrou. Meu visitante com certeza não era um rato mutante; era muito pior. Vi uma sombra se mover na escuridão e vir na minha direção. Droga, droga, droga! Olhei para arma em minha mão. Certo, aquilo estava ridículo! Qual era o mal que eu poderia fazer com um escarpin caríssimo em mãos? A não ser que a minha vítima fosse uma aficionada por moda e meu objetivo fosse estragar o sapato - e eu sabia que não era -, o que mais eu poderia fazer?

Flexionei minhas mãos, me preparando para o ataque. Só esperava me lembrar de algum deles... Esta seria definitivamente a prova de fogo.

Ok, ok, eu precisava ficar calma. Respirei fundo. Ora, devia ser apenas um Vesper, faixa preta em uma arte mortífera, maléfico e alucinado, sedento por vingança e preocupado apenas com a minha destruição eterna; eu podia dar conta. Então por que que minhas pernas tremiam e eu ainda segurava firmemente e ridiculamente o escarpin na mão? Afinal, o que eu poderia fazer com ele? Furar o olho do meu inimigo com seu salto finíssimo? Até que não era uma má ideia...

Meu inimigo continuou avançando silenciosamente enquanto eu continuava parada em meu medo quase palpável e com o sapato em punhos.

Sua sombra foi tomando forma. Era alto e forte e estava... ora, com uma toalha enrolada na cintura?

– Amy? O que você pretende fazer com esse sapato salto 12 cm? Atirar em mim? Poxa! Que recebida calorosa!

Parei estarrecida. Eu conhecia aquela voz. Ora, depois de dezenove anos vivendo com ele, era impossível esquecê-la!

– Dan?! – inconscientemente um sorriso se espalhou pela minha face. – Você voltou para casa!

Larguei o escarpin e corri para dar um abraço do meu irmão caçula. Bem, caçula mesmo só na idade. Dan havia ficado enorme. Não gordo, mas alto e forte. Estava uns bons 15, se não 20 cm maior que eu. E pude perceber, pela firmeza de seus músculos, que ele não havia poupado exercícios nesses oito meses fora de casa. Pelo que me lembrava ele não estava tão musculoso nem tão alto antes da viagem, tomei quase um choque ao bater meu corpo no dele que estava tão duro quanto uma parede. Dan havia virado um homem em menos de um ano. Não podia entender como isso era possível. Será que não havia reparado antes como ele havia crescido? Ou será que como não o via há algum tempo havia me esquecido do seu porte? Ou será que esses oito meses fizeram realmente toda a diferença?

Não era, de jeito algum, mais aquele garoto vidrado em ninjas e colecionador de cards. Havia crescido e se tornado um belo rapaz - e as garotas é que o digam.

– Hey! Você cresceu! – ele murmurou entre o abraço.

– Acho que essa era minha fala, caçulinha – reclamei. De fato, Dan parecia meu irmão mais velho e eu não gostava disso, tirava toda a minha autoridade - não que um dia eu tivesse tido alguma...

Me separei do seu abraço e olhei para ele, esticando o braço para acender a luz da sala.

– Sério, olhe para você, cara! Está... enorme!

Dan deu um sorriso que foi de orelha a orelha. Parecia que aquilo o deixava feliz.

– Eu sei – ele encolhei os ombros. – Cresci bastante nesse tempo que fiquei fora.

E bota bastante nisso! Dan estava maior que eu há oito meses atrás, mas não tão maior como estava agora. No máximo estava uns cinco centímetros a mais, mas agora...

– Nossa! – foi apenas o que eu consegui falar. Olhei para ele desconfiada: – Você não andou tomando bomba, não é?

Ele riu. Me senti aliviada.

– A gente tem tanta coisa pra falar!

– É, eu sei.

– Quero saber de tudo! Dos lugares que você foi, das comidas que você comeu, das pessoas que conheceu, das coisas que viu, TUDO! – disse-lhe, enumerando com os dedos.

– Certo, certo – ele disse, entre risos. – Calma, Amy! Respira. Eu vou te contar tudo. Sabe, não me lembrava de você ser tão enérgica assim.

Corei.

– Ora, não é sempre que se tem o irmão fugitivo novamente em casa.

Ops! Havia falado o que não devia. Dan abaixou os olhos, envergonhado.

Acontece que Dan não havia viajado há oito meses atrás, ele praticamente havia fugido. Primeiro deu um susto a todos nós, afinal ele simplesmente desapareceu. Ninguém fazia a mínima ideia pra onde o garoto tinha ido. Não haviam o visto saindo para fora do país em qualquer avião, carro ou ônibus. Aí foi aquela loucura: será que os Vespers haviam o raptado? Será que ele estava em perigo? Chegamos até a cogitar que ele estivesse morto! Pois é, como eu disse, uma loucura! Sem notícias, sem avisos, sem ameaças... O tio Fiske só faltou ter um troço. Não sei como eu mesma aguentei de preocupação. Acionamos todos os agentes madrigais existentes da face da terra, acho talvez que foi a maior busca secreta por uma pessoa em bilhões de anos.

Então depois de uma semana inteira, recebemos o aviso de que ele estava vivo, estava bem e fora das garras dos Vespers. Como eu posso dizer...? Foi um alívio e tanto. Ele estava na América do Sul, no Peru, gozando de ótima saúde e nós aqui, mortos de preocupação. Eu quase voei pra lá só para matá-lo pessoalmente, já que os Vespers haviam deixado aquela peste vivinha da silva.

Depois de me recuperar emocionalmente e fisicamente - já que haviam sido noites e mais noites sem dormir - senti, finalmente, o alívio.

Note que não foi nem ele que nos avisou que estava bem. O safado havia pegado uma carona de jatinho com um amigo nosso, o coronel Buther. Dan não havia lhe falado nada a respeito de que não havia nos avisado da sua saída repentina, então por isso o coronel não nos comunicou antes. Segundo ele, reparou que Dan estava um pouco estranho e só depois de uma semana foi que o diabinho contou que não havia avisado a ninguém que havia ido embora de casa.

O que é que Dan pretendia, eu não sei. Se fingir de morto? Sumir do mapa? Ou depois ele manteria contato? Não sei. Apenas depois de três semanas é que ele mandou um e-mail - acho que não telefonou com medo das coisas que eu diria a ele ou de que o tio Fiske o mandasse voltar imediatamente. Dizia nele que estava bem, se desculpava por ter nos deixados preocupados, mas nos comunicava que ainda ficaria um tempo por lá ou o que lhe desse na telha. Prometeu que manteria contato e mandou beijos para todos.

A primeira ligação veio quase dois meses depois. Eu já estava recuperada da raiva e do choque e não gritei com ele nem o repreendi por tal absurdo. Talvez o problema fosse exatamente esse: Dan estava mimado demais. Porém, depois de um tempo, o motivo não parecia ser esse.

Mas por qual motivo? - vocês devem estar se perguntando. A verdade é que isso foi uma incógnita para mim por um bom tempo. Mas, conhecendo meu irmão do jeito que eu o conhecia, terminei por suspeitar do que fosse. Claro que nunca tive absoluta certeza, mas sim uma grande suspeita e acho que isso bastava.

Dan voltou a olhar para mim.

– Não pretendo ir embora novamente, pelo menos não por um bom tempo. Então acalme-se que vai ter bastante tempo junto do seu querido irmão. Mas, se eu te conheço bem, Amy, daqui a uma semana já vai estar brigando comigo.

Ele deu uma risada alta e eu acotovelei a sua costela, brincando.

– Não disse, já começou. Não precisou nem de uma semana! Você bateu o recorde, Amy!