O SOL SE ESCONDE NAS NUVENS E UMA BRUXINHA VOA ATÉ A LUA

Em Los Angeles, era final de outubro, meio do outono, e as árvores estavam naquele estado intermediário, entre a alegria do verão e a melancolia do inverno. As folhas iam de amarelo até um marrom-avermelhado e, por fim, caiam.

Não pela primeira vez, fiquei chateado por ter voltado. No hemisfério sul a primavera estaria a todo vapor e o verão chegaria logo em breve. O calor, as praias, a areia branca, o mar verde, o céu azul, sem um resquício de nuvens... Subitamente, senti saudades. Estava certamente perdendo a melhor época do ano.

Bufei, exasperado, e olhei para cima. Blá, pensei.

O céu estava cheio de nuvens e a luz do sol era turva e fraca.

Suspirei novamente. Poderia ter-me demorado um pouco mais. Uns três, quatro meses... ora, o que eram quatro meses? Me arrependi da minha decisão, mesmo que ela tenha sido tão pensada e repensada.

Agora só restava ter um pouco de paciência. Poderia voltar a viajar logo em breve, embora não fossem meus planos. Amy ficara tão feliz em me ver e ela era a única pessoa que eu tinha no mundo. Ela e o tio Fiske. O velho precisava de mim, não podia deixá-lo e eu sabia que ele já estava com um pé na cova. Sei que pode parecer horrível, mas o tio Fiske nunca teve a vida que a Grace tivera e parecia impossível imaginar ele viver mais que ela.

Afastei esse pensamento fúnebre da minha cabeça e me concentrei em minhas passadas ritmadas.

Estava decidido a caminhar no parque, arejar as ideias, ficar um pouco sozinho...

Afinal eu havia ficado quase um ano sem companhia e ter Amy falando todos os segundos desde a minha chegada não era a tarefa mais fácil. Certo, eu também estava com saudades e tudo mais, mas agora que ela havia ido pra faculdade, era a minha chance de ficar sozinho sem magoá-la. E se eu não tivesse dito que queria fazer um exercício, provavelmente ela faltaria a faculdade para conversarmos mais um pouco. Ela parecia não acreditar que teríamos bastante tempo para nos atualizarmos mutuamente. Bem que ela deve ter achado estranho eu querer fazer exercício depois de uma viagem de quase uma dia e uma noite sem dormir, apenas a base de conversa. E eu estava mesmo cansado o suficiente para dormir por dois dias seguidos, mas, primeiro, precisava achar uma desculpa convincente e, segundo, queria afastar aquele estado pós-voo, meio quadrado e embriagado que se ficava.

Como não me lembrava exatamente onde ficava o parque mais próximo, foi informado que se andasse mais uns novecentos metros à frente, veria os portões de ferro à direita. Continuei meu caminho e encontrei os portões facilmente - eram novos e elaborados e me surpreendi ao perceber que não me lembrava deles. Foi então que me lembrei de Amy ter falado que haviam feito um parque novo e que alguém gostava muito de ir lá... ora, de quem era que Amy havia falado? Não me lembrava.

Os murros de tijolos vermelhos eram facilmente vistos. Haviam muitas, muitas árvores. Algumas com quase nenhuma folha nos galhos, outras tingidas em tons de amarelo e laranja, e raras as que ainda se encontravam verdes, mesmo que de um verde-acinzentado, por causa da luz - ou, pensei com desgosto, pela falta dela.

Parecia algo precário e descuidado, ou desse, deliberadamente, essa ideia, já que tudo estava novo e reluzente.

A estreita pista de caminhadas quase não se era vista naquela opulência de árvores. Tomei fôlego e comecei, rapidamente aumentando meu ritmo.

Fez-se uma curva e me deparei com um apavorante e incrível maciço com aparência de castelo.

Parei.

Enquanto contemplava aquele pesadelo, o sol se pôs por entre as nuvens. Uma súbita e cortante rajada de vento arrancou as folhas das árvores, e nesse momento, uma jovem surgiu por detrás de um dos lados do castelo. O vento desmanchou os seus cabelos escuros e me lembrou uma gravura que eu um dia vira retratando uma feiticeira. A face alongada, pálida e delicada, o cabelo, escuro que parecia negro diante a falta de luz, esvoaçava em direção ao céu. Podia facilmente imaginá-la voando numa vassoura até a lua. Ela olhava de modo firme para frente, mas seus olhos estavam distantes, a mente concentrada, como se a pensar em algo.

Foi então que a reconheci mesmo depois de tantos meses.

– Iris?

Ora, era ela de quem Amy havia falado!

Ela olhou um pouco surpresa para mim.

– Dan?!

Parei a respiração por um segundo e esperei o vento, que soprava diretamente no meu rosto, trazer a sua voz até mim, só para podê-la ouvir melhor. Foi aí que vi que aquilo não era mais um sonho meu. Assim como a sua voz, o seu cheiro me acertou em cheio. Jasmim e bergamota. Mesmo certo do que aconteceria, ainda me surpreendi.

Seus olhos pareciam perdidos, como se ela tivesse sido acordada de um sono profundo e não soubesse mais se era o sonho que estava tendo ou se a realidade a havia atingido. O caos reinava naqueles belos olhos. Antes, estava imersa em uma realidade paralela, agora, acordada subitamente, parecia confusa. Seus olhos pareciam querer indagar diversas perguntas. A forma como ela me olhou, me fez lembrar a primeira vez que eu a vi. Me perguntei se aquilo não era outro sonho. Porém, eu soube que eu a havia pego desprevenida quando ela sorriu para mim, um sorriso rasgado que levou o canto dos lábios até o meio das faces e aquilo me surpreendeu e surpreendeu mais ainda o meu coração, que deu uma batida descompassada antes de acelerar.

– Você voltou – ela afirmou, um pouco, eu diria, sem fôlego.

Podia vê-la agora como realmente era - e não mais num súbito momento de fantasia. Alta, delgada, um rosto com feições delicadas, maçãs do rosto levemente rosadas e encovadas, sobrancelhas curvas e irônicas e os cabelos e olhos estavam bem mais escuros do que o costume pela falta de luminosidade. Sua pupila estava dilata o suficiente para encobrir o frio do azul e só deixava o doce castanho. Assemelhava-se a uma delicada gravura, pensei, linda e enternecedora.

– É o que parece, não é? – sorri. – E você?

– Eu... bom, eu estava passeando. Gosto daqui – falou calma e suave, voltando a postura que eu havia me acostumado a vê-la, controlada e indiferente. Aquilo me irritou, como normalmente me irritava e eu achei que não faria mal algum tentar provocá-la um pouco. Sorri enquanto me aproximava dela e ela não recuou, apenas pensei ter visto um vislumbre de apreensão nos seus olhos. Ignorei aquele sinal, já que as reações de Iris eram sempre muito dúbias e surpreendentes.

– Voltou faz tempo? – perguntou, desinteressada, enquanto mantinha sua respiração num ritmo constante e piscava os olhos grandes.

– Não, ontem à noite.

Ela assentiu. Que encontro mais esquisito! Não era como se tivéssemos passado meses sem nos ver. Parecia mais que fazia uma semana, alguns poucos dias. Perto o bastante, ergui a mão e toquei em seu rosto delicado, ainda também um pouco surpreso. Queria ter certeza de que era ela mesma e não apenas um fantasma. Meu coração acelerou assim que minha mão encostou no rosto dela, que estava frio, mas era real.

Ser ter previsto, ecoou em minha mente que ela não mudara nada.

– Estava com saudades – falei com sinceridade. Então, ela deixou aquela expressão vazia e me apanhou de surpresa, levantando os olhos para mim, repentinamente recíprocos e cheios de preocupação, e dando um meio sorriso que fazia aparecer as covinhas que ela tinha nos cantos da bochecha. Por um momento, me perdi. Esqueci de tudo. Parei até de respirar. E não era apenas pela beleza encontrada lá. Não, era por muito, muito, mais. Iris possuía um encanto, uma força, um estranho fascínio, difícil de esquecer. E era o fascínio que aquele rosto emanava, mais do que a sua beleza, que me impressionava.

– Impressionante – murmurei, deslumbrado. Ela pareceu intrigada. Continuei olhando pra ela, afinal fazia tanto tempo...

Estava imerso, pensando em como a minha mente havia guardado com tanto cuidado e exatidão a imagem daquela garota. Como, por exemplo, a maciez de sua pele, ou o tom exato do rosa de suas bochechas, ou como seus cabelos ondulantes dançavam no vento e a sensação se ser perlustrado por seus olhos doces enquanto meu coração disparava e um calor percorria meu corpo. E agora, a forma como ela franzia a testa e uma mínima ruga em V aparecia no meio das suas sobrancelhas irônicas. Quis poder arrancar com as pontas dos meus dedos aquele diminuta ruga dali para vê-la sorrir novamente.

Mas nada, nada, se comparava a vê-la assim, pessoalmente, tão perto, e nem importava o grau de exatidão que eu me lembrava dela. Sentir sua pele, seu frio, ouvir sua voz, ver seus olhos, contemplar seus cabelos... não, não se podia comparar com as minhas falhas lembranças.

"Ela nada mudara..."

– Você continua linda – completei.

Ela levantou levemente uma sobrancelha, irônica.

– Incrível – e fez uma pausa, me imitando. – Você continua o mesmo. – E tirou minha mão do seu rosto. Dei uma risada. Aquela era Iris que eu conhecia.

– As pessoas não mudam, não é isso que dizem? – dei de ombros.

– Infelizmente...

– Por quê? – perguntei-lhe, curioso. Para mim, Iris era um mistério. – Você queria?

Ela esperou, contemplou um medalhão que sempre carregava no pescoço, e enfim respondeu:

– Não sei. – E novamente sua resposta me decepcionou. Era nunca era totalmente clara, nunca falava o que eu esperava. Aquilo me deixava confuso.

– Vai ficar muito tempo? – ela perguntou em um súbito lapso de tempo. Meneei com a cabeça.

– Ainda não sei, mas pretendo. – E acrescentei: – Depende do futuro, dos acontecimentos, do que o destino me reserva.

Ela pareceu não ter gostado daquele comentário e mudou de assunto rapidamente.

– Amy deve ter ficado muito feliz.

Sorri ao lembrar da cômica cena da noite passada.

– Acho que sim.

Permanecemos mais algum tempo em silêncio. Havia esfriado e senti que ela queria se livrar de mim, mas não sabia como. Ela tremeu com um vento frio que soprou. Então dei uma ideia:

– Você deveria voltar, está esfriando.

Ela lançou-me um olhar, que podia ser de um quase agradecimento. Depois deu uma olhadela no relógio masculino em seu pulso e de novo ela me surpreendeu, falando de súbito:

– Acho que tenho mesmo de voltar – como se a motivação tivesse vindo dela e não de mim. Ela me deu um rápido olhar. Seus olhos misteriosos cintilavam. – Até logo.

E saiu andando em um passo apressado. Não sei porque, mas aquilo me soou com um desafio. O seu tom de voz, o seu olhar penetrante e enigmático.

– Espero que nos encontremos – disse, como uma confirmação. Ela não respondeu. Fiquei pensando se ela não teria me escutado. Iris parecia … estranha. Mas que encontro mais estranho!

Será que ela ficara feliz ao me ver?

Os olhos que eu havia encarado a poucos segundos voltaram a minha memória e me assustei ao perceber que pareciam querer ocultar o quão estavam assustados e dolorosos. Será que algo de ruim acontecera na sua vida? Ela pareceu tão distante e apreensiva, como se quisesse esconder algo. Tão pálida, como se tivesse visto um fantasma.