Capítulo I - Sacrifício

Havia concluído mais um dia de viagem até seu objetivo final: a cidade selo, e com um pouco de sorte poderiam terminá-la sem ter de passar outra noite congelante no Deserto de Sograt, mas o crepúsculo anunciava o final de outro dia de jornada. Seus olhos azuis logo não seriam capazes de enxergar em meio a escuridão do deserto. Pode ouvir claramente a voz do capitão sobressair-se em meio a caravana, montariam acampamento ali mesmo. Logo sacerdotes e magos lançariam seus encantos de proteção, bem como soldados fariam a ronda ao longo do perímetro. Tudo para pudesse completar sua missão em Morroc.

Partindo do Feudo das Valquírias em Prontera com a missão de averiguar as possíveis ameaças de um antigo culto, a caravana não continha mais de doze guerreiros: faltava-lhe crédito em suas suspeitas. Nem mesmos outros seres de natureza elevada como a sua própria tinham fé naquela missão, desacreditavam suas suspeitas, era algo impossível de ser concebido. Quatro dias de viagem pelas areias de Sograt haviam se transformado em oito dias de uma estranha jornada, como arcebispo tinha mais experiência com encantamentos como aquele, tinha certeza de que estavam sofrendo de algum tipo de maldição que lhes incapacitava atingir seu objetivo. Mas pouco podia fazer frente as decisões do homem que estava a frente do exército.

Logo as tendas estavam suspensas e os soldados retornavam da ronda, não mais que escorpiões e cactus haviam sido avistados, mesmo assim a velha estória sobre um ovo frito se arrastando sobre a areia fora relatada. Aquela era a quarta vez que ouvia aquilo, e não importava o quanto resultasse divertido ao comandante, quando em seu íntimo algo lhe anunciava o a rápida queda de luz e temperatura no deserto logo os homens se juntavam uns aos outros tentando espantar o frio, nada era visto até onde a vista poderia alcançar, mas despreparados como estavam, os soldados não puderam ver o inimigo que se arrastava logo abaixo de seus pés, oculto nas profundezas.

O ataque dos seres rastejantes fora rápido e havia causado a perda de quatro homens, templários que guardavam as entradas da área de proteção lançada pelos sacerdotes, as armadilhas não haviam sido ativadas, outros quatro soldados foram mortos durante a troca de turno. Seus gritos de horror finalmente anunciando a presença do inimigo. A criatura que se erguia das profundezas era feita de areia, em meio ao escuro se camuflava em seu ambiente natural aproximando-se com grande agilidade, para os olhos destreinados dos guerreiros, eram como as dunas de areias distantes que mudavam de lugar mediante a velocidade do vento, que arrastava a areia de um lado para o outro.

Levou pouco mais de duas horas até que os magos e sacerdotes restantes finalmente encontrassem o contra feitiço, forjada com areia e um espírito morto brincalhão e zombeteiro, a coisa que logo fora chamada de: Sand-Man revelou-se fraca aos ataque de fogo e em contato com este elemento explodiu, jogando areia vermelha por sobre todo o acampamento. Percebeu quando a sorte finalmente voltou a lhe sorrir quando conseguiu transferir parte da natureza da criatura ao selo especial que carregava consigo, mas aquela carta ainda carecia de estudos para que pudesse ser utilizada para um bem maior. Guardando-a consigo em segurança até que pudesse mostrá-la a seus superiores, se retornasse de sua jornada com vida.

A jornada continuou durante a madrugada, com o oito dos doze soldados mortos tornou-se de vital importância a chegada aos portões da Cidade de Morroc. O fogo mágico dos bruxos e sábios mostrava o caminho e espantava as criaturas do deserto, a chegada a cidade dos ladrões não demorou mais que uma hora, revelando aquilo que já havia percebido: o inimigo usava-se de ilusão. Diante de si via o fogo dos magos revelar as grandes muralhas do castelo que havia sido construído para selar o antigo imperador dos mortos, suas torres de arquitetura exótica, o brilho cintilante do ouro e da prata que ornamentavam as imponentes inscrições mágicas que compunham parte do selo.

Amanhecia na cidade do deserto e Morroc se revelava um ninho de ladrões, tão perigosa quanto a pequena pupa de um besouro ladrão. Os soldados feridos foram teleportados graças aos mecanismos avançados da corporação Kafra, e outros foram enviados em substituição, mas mesmo com o relato do capitão sobre os perigos enfrentados nenhum novo soldado fora enviado. Aproveitando-se da presença de um pequeno altar dedicado a Odin nas proximidades do castelo, juntou-se aos outros sacerdotes em uma oração pelas almas mortas na batalha daquela noite. Pode perceber a tristeza e a falta de fé dos jovens ao seu lado, a distância do templo original a milhares de quilômetros fazia com que a energia do grande deus quase não chegasse ali.

Elevou sua energia pacificadora criando ao seu redor um santuário de luz quente e dourada, renovando o brilho no olhar dos jovens sacerdotes e impressionando aqueles que passavam pela rua, surpreendendo os curiosos que pareciam nunca ter visto o verdadeiro poder que transcendia a experiência humana. E com a fé renovada dos fiéis que a seguiam continuaram seu caminho até o castelo no centro da cidade, desta vez acompanhados por atentos idosos e crianças entusiasmadas com aquela nova sensação de alegria e de esperança em uma vida melhor. Logo aquilo que era uma pequena comitiva tornou-se uma longa e numerosa procissão.

Caminhar até o castelo revelou um cenário de miséria e pobreza, Morroc era uma cidade de contrastes gritantes. De um lado mercadores ricos que evitavam os altos impostos devidos a capital, de outro o mercado negro que funcionava como último recurso para as pessoas que não tinham mais onde viver. Por onde assou a jovem renovou a esperança daqueles que nada tinham, e causou rebuliço interno naqueles que durante tanto tempo viveram no pecado da mesquinharia e da ambição desgovernada. Até mesmo os filhos da prostituição aproximaram-se de si em busca de redenção e cura para suas almas.

Já passavam das onze horas quando finalmente alcançou seu objetivo maior, o epicentro de todo o sacrifício feito até ali, o castelo imperial de Morroc, o marco do selo que prendia o antigo imperador do caos e da morte, o gigante Morroc. Muitos já haviam se esquecido do verdadeiro motivo de sua construção, mas ela estava ali para relembrá-los. Durante alguns minutos orou pelas almas mortas naqueles dias escuros, a procissão a acompanhou, muitos deles pediam perdão, outros pediam por misericórdia, e muitos outros mais pediam por bençãos e graças do grande deus. Ela podia ouvir a todos, e docilmente orava para que seus desejos mais íntimos e profundos, os verdadeiros desejos pudessem ser realizados.

Mas ela também pode sentir a presença escura e nefasta daqueles que seguiam ao antigo imperador, pode sentir parte de seus poderes, que eram usados para corromper a alma dos homens que viviam naquela cidade. Podia senti-lo intimamente, como se pudesse tocá-lo e ser tocada por ele de volta. Soube naquele mesmo momento que o selo estava para se romper. Ergueu-se frente a multidão e seguiu para dentro das câmaras inferiores do palácio, o silêncio sendo rompido apenas pelo ruido de seus passos entre as paredes e pilastras que sustentavam aquele santuário. Seu coração cavalgava como um corcel em disparada.

Doze longos e escuros andares em mármore branco passaram diante de si antes que finalmente chegasse ao grande portal, o aro de pedra marcado por antigas instruções, feitiçaria antiga, selos forjados pelo poder divino que deveria manter o mal do outro lado. Um estudioso jovem poderia não ver nada de diferente, mas ela pode, ela via aquela ruptura no lacre. Os jovens que a acompanhavam não tardaram a encontrá-la, aos pés do grande aro, rodeada por armas, velas, papéis, selos e sangue. Seu próprio sangue, seu sacrifício. Alguns gritaram tamanho horror, pois de dentro do aro podiam ver e sentir, até mesmo cheirar o monstro que a muito estivera oculto nas sombras do obvio. Morroc o imperador escuro, revelava sua presença.

A besta que se revelava nas sombras sorria diabolicamente para os presentes, dentes como presas se abriam largamente revelando um brilho amarelado e doentio, parecia feliz com os feitos realizados até então por seus seguidores, uma ruptura que poderia significar sua liberdade, uma ruptura que poderia significar a condenação da raça humana. Movidos pelo medo muitos correram em desespero para o lugar de onde vieram, a besta emitiu seu rugido, misto de prazer e de anunciação, estava retornando e logo estaria livre para executar sua vingança. A criatura sombria voltou a observar a jovem a sua frente, reconhecia aqueles símbolos tão antigos quanto ele, tratava-se de um arcebispo.

A quanto tempo vil criatura! — A voz da jovem era delicada e suave, como o canto de um pássaro em uma manhã de primavera. Mesmo surpreso com a coragem da jovem, ele não emitiu nenhuma resposta.

Séculos nos prepararam para este momento, o momento em que uma vez mais o bem triunfara sobre o mal, e tu retornaras para as profundezas de onde viestes. — O brilho que iluminou o olhar da jovem revelou a fera sua verdadeira natureza, mesmo por detrás da aparência frágil de uma donzela. Haviam realmente se encontrado naquela batalha, o arcebispo tratava-se de ninguém mais que o sacerdote de seu antigo inimigo. Mas a besta apenas sorriu como resposta.

Por um momento sentiu o medo tomar-lhe todo o corpo, apesar do poder, da fé e da certeza de que ao completar sua missão estaria livre para seguir com uma vida plena e completa, ainda era um ser humano e a fragilidade desta certeza a atingiu tão ruidosamente quanto o ranger dos dentes da criatura. O monstro sorria. Caminhando por sua pequena e apertada cela a criatura apenas observava imponente os esforços tolos da mulher a sua frente, recordando e usando de seus poucos poderes para fazer com que ela também se lembra-se de seu passado, do que havia sido, do que havia feito, da forma como havia morrido.

O homem que trajava uma bata sagrada suja de sangue, lutava torpemente contra o monte de músculos e órgãos que se erguia contra si, formado pelas entranhas dos guerreiros humanos que lutavam pela própria sobrevivência e que haviam perecido, seus restos mortais pareciam erguiam-se sem pensamento ou alma e continuavam a lutar. Seu poder era bem inferior ao de seus companheiros, sua função era curar as feridas de seus nobres amigos, jovens que detinham em seus braços poder para realizar a verdadeira mudança, que abriam feridas no vento e eram capazes de romper as águas. Ele ainda era apenas um aprendiz, que fora resgatado de uma luta ao tentar chegar ao monastério onde seria educado.

O homem sem origens e sem destino lhe havia estendido a mão, em troca de poucas moedas de ouro lhe guiou até seu ponto de partida em direção a vida de adoração que tanto ansiava ter. Um longo dia de viagem que havia lhe rendido histórias divertidas, outras dolorosas, lembranças de um passado que desejava poder esquecer. O jovem a sua frente de forma doce e gentil lhe sorriu frentes suas frustrações, nada pode ser esquecido ou simplesmente apagado, deve-se lutar a cada novo dia para encontrar formas de se construir um destino melhor com seus erros e acertos do passado. Homem este que partiu logo após deixá-lo em seu destino, apenas para reencontrar meses mais tarde em situação semelhante.

Sim! — Urrou a criatura tentando se comunicar. Seu dialeto era torpe e grosseiro, mas era possível perceber sua inteligência. — Eu, me lembro de você.

A jovem sentiu quando sua energia fora quebrada pelo medo, não podia mais ouvir ao seu senhor, sentia-se em fim, só com a criatura que habitava o escuro. Mais que isso, não conseguia sentir a conexão com aquela parte de si que fora o que a levara até ali, aquela parte do passado que alguns atribuíam aos efeitos da reencarnação, mas que ela mesma não sabia explicar. O imperador sorriu ao perceber a notável diferença na energia da criança que estava a sua frente e daquela que fora instantes atrás, o homem que havia conhecido estava escondido, acuado, assustado e ele sorria com isso, pois era a prova viva que necessitava para obter a certeza de sua vitória.

Mas a jovem também pareceu perceber aquela situação, havia recebido aquela missão a muito tempo, desde muito antes de seguir em direção ao campo de treinamento, era ainda uma pequena criança. Seu destino era levar uma mensagem aquele que uma vez havia salvado aquele mundo, sabia que algum dia encararia os olhos do destruidor de civilizações. E ela, não tinha medo.

Não! — Sua voz doce e pura novamente chegou até a criatura aprisionada, e assim como aquilo que estava a sua frente, aquilo que estava dentro de si também pode sentir sua força se renovar.

Você não o conhece. Não sabe seu sacrifício, sua luta, sua dor e seu sofrimento para ter chegado até aqui diante de você, da coragem que teve de reunir ao longo de séculos para estar aqui hoje, fazendo este último sacrifício para evitar que toda aquela situação se repetisse novamente.

E ela pode sentir o homem dentro de si chorar, enviava a ele toda sua ternura, sua compaixão, seu amor e sua amizade. Estavam juntos por algum motivo o qual nunca havia compreendido, mas agora conseguia ver com clareza, estavam juntos pois ele precisava dela, assim como ela dele. Eles eram um.

Mas, isso não será suficiente para deter-me. — A criatura sorriu ao perceber a chegada de seus seguidores, dentre eles o capitão responsável pela morte dos inocentes daquela jornada.

Mas essa não era a nossa missão. — Ela pode perceber a lâmina fria que por um momento se deteve em sua garganta.

E qual seria a missão de uma jovem tola e de um sacerdote fraco como vocês? — Quis saber a criatura que já se agarrava as grades de sua prisão a espera de enfim saborear a morte de mais um inocente.

Enviar uma mensagem a ele.

Enfim ela usou seu último recurso, viu seu corpo e sua alma enfim separados pela adaga de prata que o guarda usava, mas eles ainda pairavam naquela sala envoltos a uma luz branca e quente, as duas almas que compartilhavam o mesmo corpo observavam os homens presentes na sala, alguns até mesmo fugiram tamanho pavor da aura de paz e de bondade. Juntos eles enfim concluíram suas respectivas missões, a dele de evitar por mais algum tempo o retorno do imperador, que com o poder da luz emanada pelo sacrifício novamente fugiu para o escuro. E a dela, de enviar uma mensagem ao antigo herói que uma vez havia salvado Rune-Midgard.

Em meio ao suor frio devido ao sonho que estava tendo ele despertou em seu quarto escuro de forma exacerbada, apenas para perceber instantes mais tarde que não estava só. A poderosa energia que emanava de uma terra distante e a muito tempo esquecida o chamava de volta, mas desta vez era diferente, desta vez não poderia ir sozinho.

Desta vez precisava de ajuda.

Precisava deles.


Desde já pedindo desculpas pelas edições que devem ter deixado o pessoal meio doido, mas eu consegui terminar o texto da forma que eu queria, sem a necessidade de fichas para conferir nada, como eu tinha imaginado que precisaria inicialmente. Lembrando que como hoje é quarta-feira as atualizações são feitas hoje e agora só semana que vem, ou seja, devo deixar algumas pessoas meio doidas novamente por causa das atualizações de capítulo meio confusas, desde já adiantando um segundo pedido de desculpas. Espero que gostem e por favor, mesmo quem não for participar das fichas e estiver lendo, façam comentários, positivos, negativos, construtivos, e afins, sei que minha gramática é horrorosa, mas vocês sempre podem falar dela mais um pouquinho também, pois só assim poderei melhorar.