O Deserto de Sograt é o melhor lugar para se encontrar pedras preciosas, lhe disseram. O melhor lugar para um caçador treinar suas habilidades, falaram os professores quando deixou a segurança da cidade. Atire em tudo o que se move, o mais rápido que puder. Este sim havia sido um bom conselho, Odin abençoe o homem da loja de armas de Morroc. A longa capa que usava lhe cobria o rosto deixando apenas os dois olhos de um brilhante tom azul-turquesa amostra, o kajal delineava de forma segura e precisa demonstravam a segurança e a firmeza com a qual manejava tudo em sua vida, inclusive seu arco. Ao seu redor a águia caçadora, marca registrada de sua classe tentava inutilmente encontrar a saída daquele labirinto.
Além das costumeiras gelecas coloridas e inofensivas como o drops, o deserto era habitado por cactus saltadores mais conhecidos como muka-muka, os pecos selvagens e até mesmo um ovo frito gigante armado com uma frigideira que atacava os seres desavisados e famintos que se aventuravam pelo deserto. Mas nada de valioso, exceto talvez um talher de prata, o qual não pegou. Sua breve estadia na cidade dos ladrões lhe trouxe esperança quando soube que as pirâmides escondiam tesouros fantásticos entre suas paredes labirintíticas, e de certo poporings, a geleca verde venenosa lhe rendia bem mais prazer que os fofinhos e frágeis drops laranjados. Mas ainda não havia encontrado nada de valor, algo que não era uma novidade.
Já havia decido tantos corredores que finalmente havia perdido a conta, além da poeira e de alguns eventuais gatunos praticando suas traquinagens nas paredes com desenhos bobos, nada lhe chamava muito a atenção na arquitetura do local. Os longos corredores vazios que tentavam lhe confundir a mente serpentearam antes de finalmente revelar um longo corredor e seu obstáculo. O pequeno cão de uma estranha cor arroxeada andava de um lado para o outro, parecia contente com algo, e latia de forma estridente abanando o rabo enquanto parecia esperar por seu dono que deveria estar depois da esquina, o corredor deveria ter no máximo dez metros até a próxima parede que revelava outro corredor que dobrava a direita. Começava a odiar corredores.
Quando sua águia piou de forma longa e estridente soube no mesmo momento que havia algo realmente errado com aquela cena, a águia caçadora era uma criatura da natureza, um monstro domesticado que auxiliava seu companheiro a fim de conquistar a experiência necessária para seguir sua vida após os 35 anos. Yuri já contava com 5 anos e estava consigo a pouco mais de um, tinha a experiência de seu treinamento em cativeiro e aquela que adquiriram juntas durante aquele longo ano de jornadas, conhecia aquele ruido longo e estridente, aquele cão não era um bichinho normal e provavelmente o que estava logo atrás daquele corredor também não era.
Com o anúncio de sua presença através do pio de Yuri o cão tomou consciência da presença das intrusas em seu território, aproximando-se lentamente farejando no ar a sua volta a natureza delas, parou quando finalmente fora iluminado por uma das tochas que iluminavam o longo corredor. Pode então notar a figura mumificada que estava a poucos metros de si, além de roxo a criatura peluda estava coberta de bandagens podres que se soltavam de sua carne em avançado processo de decomposição, alguns pedaços que estavam descobertos já não mostravam nada além dos ossos lascados pela perda de cálcio.
Prendeu a respiração quando a criatura reduziu ainda mais a distância entre eles, em seu rosto um olho negro e sem foco revelava sua cegueira, e onde deveria estar o outro havia uma atadura, suja de sangue e algo verde, que logo revelou-se ser resultado da decomposição do outro órgão. Nada além do buraco do globo ocular restou naquele lado. Quando finalmente conseguiu encontrar o rastro dos intrusos a criatura ganiu, e ela vislumbrou com assombro e certeza de que toda a pirâmide despertou com aquele chamado tão antinatural. Pode perceber isso com a aura bruxuleante que tomou conta das tochas e da bruma esverdeada que começou a cobrir o local.
Naquele instante todo o seu ser fora tomado por uma única certeza, aquele vendedor em Morroc estava errado, deveria correr o mais rápido que pudesse, se desejasse continuar a viver. E assim o fez, por mais vergonhoso que pudesse lhe parecer, era a única coisa que poderia fazer se desejasse continuar a viver. Com Yuri piando ao seu redor guiando-lhe pelos corredores no caminho de volta ela podia notar como o cenário ao seu redor mudava, apesar de que seu estômago lhe dizia para apenas fechar os olhos e continuar a fugir dali, seu interior lhe dizia para não desviar os olhos daquela maravilha mistica que se revelava para si.
Havia julgado mal os desenhos feitos na parede, acreditando tratar-se de traquinagens humanas. O que antes revelava a história de um antigo rei do deserto, que fora enterrado ainda vivo, junto a seus servos leais. Agora contava a história de uma jovem elfa, e sua companheira animal, que despertaram esses seres maléficos, e que seria morta. Enquanto o pânico lhe tomava de dentro para fora, chegava até seus ouvidos o piar de Yuri a sua frente, a águia estava cercada e esperava as ordens de sua caçadora para atacar o inimigo. Levou alguns segundos até que ela finalmente pudesse chegar ao local onde a águia estava, circulando em grande velocidade a fim de evitar o inimigo. O mesmo cão que deveria estar atrás delas.
Era chegado o momento de lutar, sabia que não poderia fugir dali, e não era apenas porque a parede lhe mostrava isso. Era algo maior, estava em sua natureza, seu instinto de caçadora. Levou a mão em direção ao arco que estava enganchado as suas costas e com um movimento preciso disparou a flecha antes mesmo de mirar o inimigo a sua frente. Era a rajada de flechas. Aquela simples habilidade desenvolvida ainda quando arqueira consistia em desfragmentar uma única flecha em um ataque de diversas agulhas feitas com a estrutura de madeira da própria flecha. Havia atribuído uma natureza pura e angelical aquela flecha em particular, o que causou ainda mais dano a criatura sua frente.
Ao seu redor e tão acostumada aquela habilidade, Yuri dançou ao redor das lascas que caiam em direção ao inimigo e finalmente mudou sua direção, seguia uma delas em particular, a lâmina sagrada que perfurou o animal causando-lhe profunda dor e conteve seu latido estridente, em seguida a águia cravou suas garras na carne morta do inimigo. Eram suas garras de aço. Mas diferente do que ela imaginava a criatura não se desfez em pó ou geleia diante daqueles ataques, pelo contrário arrastou a pata dianteira ao redor do ferimento feito pela águia e lambeu a pata sentido o gosto de seu próprio sangue enegrecido e provavelmente venenoso graças ao cheiro que liberava. Miasma.
Estava decidido só poderia resolver aquele problema com um selo, prenderia a energia da criatura em uma carta. Cartas eram selos mágicos que aprisionavam a energia de uma criatura, aquela energia poderia ser usada por seu utilizador em armas e equipamentos e lhes conferiam uma natureza mágica semelhante a energia da criatura aprisionada. Em outras palavras, assim como o corpo de um ser era a prisão de sua alma, uma carta nada mais era que um novo corpo para a alma de uma criatura monstro. A diferença era que monstros não tinham alma, mas um tipo de essência espiritual que se multiplicava sem um padrão conhecido. O selo das cartas fora criado a muito tempo, por um herói chamado Thanatos.
Thanatos a muito tempo fora um homem misterioso que caminhou sobre Midgard, naquela época o gigante Morroc, o qual todos acreditavam ter morrido, retornou de seu túmulo e desafiou o domínio dos deuses, levando a destruição e o terror ao mundo dos homens através de suas criações amaldiçoadas. Os próprios monstros que hoje ainda povoavam o mundo. E Thanatos surgiu como um herói, rasgando a longa fileira de inimigos junto ao seu grupo heróis que renovou a esperança de todos, mesmo que não pudessem salvar a vida de todos. Uma lágrima silenciosa escorreu de seus olhos azuis, o império de Payon, lar dos arqueiros e de alguns poucos elfos remanescentes, fora naquela época e Morroc proclamou-se Imperador.
