III
Mairon foi em direção à voz, enquanto Thuringwethil sorrateiramente se afastava. Sabia que Lúthien era metade maia, e se meter com gente daquela monta não era para si.
Ao chegar mais perto, o maia ouviu a letra da canção mais claramente:
"Eu sei que vou te amar...
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente eu vou te amar"
"É a minha música!", pensou ele cheio de raiva. "Eles ousam roubar a minha música, pois sim!"
Mas ainda tinha mais, pois Beren, da fortaleza, respondeu assim:
"E cada verso meu será
Pra te dizer"
E então ambos cantaram juntos:
"Que sei que vou te amar
Por toda a minha vida..."
"E ainda fazem dueto!", pensou Mairon sinistramente. "Ora! E eu que ainda nem fiz dueto com Melkor! Mas tudo bem, depois que eu cuidar desse pessoal vou querer fazer."
Revelou-se então para a donzela, e ela parou de cantar. Observou-o com cautela, mas também com resolução. O cão era ninguém menos que Huan - não era qualquer cão afinal. Mas Mairon não temeu.
- O que fazem aqui na minha ilha?!
- Você é Sauron Gorthaur?
Um esgar de repulsa tomou o belo rosto do maia. Detestava aqueles nomes que os "de fora" lhe davam!
- Sou Mairon, o Admirável! Sua mãe nunca lhe ensinou sobre como me chamavam em Valinor?
- Oh, como é belo...!
- Eu? Belo? Pois sim! É melhor falar baixo, pois se seu noivo escuta... e também o meu amante é muito ciumento! É ninguém menos que o senhor Melkor, a quem fiz esta música. Por que roubou a minha música?!
- Porque é encantadora. E não digo que é belo com "essa" intenção. É que nunca imaginei que seres corrompidos pudessem ainda guardar a beleza de suas origens!
Mairon sorriu, lisongeado. Era belo, ele! Até mesmo Lúthien reconhecia. Mas em seguida a carranca sombria tomou a seu rosto.
- Achava que aqui só havia seres repugnantes como os orcs? Pois são servos, eles! Os da elite são belos, sim. Aliás... o senhor Melkor também é muito bonito! Agora mesmo vim eu do calor de seus braços e do ardor de seus beijos...
E um calor, um arrepio de desejo e devoção tomou conta do corpo do maia. Tal era a ligação que havia entre ele e o vala, que só de falar dele já se eriçava todo!
- Pois sim... meu senhor, eu preciso de um favor seu!
- Favor...? Pois se são inimigos! E invadiram a minha ilha e a minha fortaleza, as quais foram tomadas de Felagund numa luta justa!
- Não quero a sua ilha. Apenas me escute.
Mairon a olhou com atenção, porém com desconfiança. Não confiava nela, ele que quase sempre usava de uma forma humilde e respeitosa para engabelar a seus inimigos.
- Hoje estou de bom humor e por isso a escutarei. Fale!
- Meu pai pede um dote para Beren casar-se comigo...
- E que temos nós que ver com os esponsais de vocês? Acaso algum de nós vai lá pedir algo para vocês?
- É que meu pai repudia a meu noivo, por ser ele um dos edain.
- Também o repudiaria eu! Tantos senhores de renome para escolher, e você escolhe um mortal?
- Mas é a ele que meu coração ama. Não se sentiu nunca reprimido por amar àquele que toda Arda rejeita?
Era verdade. Mairon tinha de admitir em seu interior que nunca fora muito "aprovado" por amar a Melkor.
- Mas ele é vala!
- De qualquer forma, quando amamos não vemos estas coisas. Não é verdade?
- E que deseja você?
- Meu pai pede uma das silmarili como dote de casamento!
A expressão de espanto do maia foi tal, que Lúthien reparou prontamente, e soube a partir de então que na conversa não conseguiria nada dele.
- Ha! Até parece que a daríamos a uma elda somente porque o pai a exige! Pois diga a Thingol que ele está ficando caduco! Não a damos! Escolha outro noivo a quem seu pai aprove!
A face até então serena da elda de repente tomou também um ar sinistro.
- Pois então teremos de lutar.
Mairon riu.
- Você e que exército? Esse cãozinho aí? Ora me poupe!
E, virando as costas a ela, Mairon chamou a seus wargs e os enviou contra Huan. Pensou que seria serviço rápido, e que após aquilo a prenderia e a enviaria a Angband, para que ele e Melkor fizessem a ela alguma maldade, como fazê-la deformar-se até virar orc. Seria algo de que se gabar! E ensinaria uma lição àqueles eldar ousados.
Mas não foi tão fácil. Um, dois, dez, vinte lobos, todos perderam a luta. Ao final até mesmo a Thuringwethil ele enviou, e ela foi de má vontade, perdendo a luta e se esgueirando para um canto, ainda viva mas muito ferida. Indignado, Mairon chamou a Draugluin, o lobo mais forte da sua fortaleza. A luta foi longa e feroz, mas Huan ao final também venceu.
- Pois...!
- Vejo que só resta você para nos enfrentar, Sauron.
- Vamos lá então! Dizem que Huan só será derrotado pelo lobo mais forte de toda Arda, e vejo que ele sou eu!
Repentinamente, Mairon tomou a forma de um lobo cujo corpo era enorme e muito forte. Seu hálito quase fez Lúthien desmaiar¹.
Ambos lutaram ferozmente, e Huan percebeu que Mairon não era chamado de "o mais poderoso intendente de Morgoth" à toa. Ele era muito forte, e estava quase vencendo a luta, quando Lúthien se recuperou de seu achaque e o atacou com a mágica que aprendera de Melian. Passou o véu que trazia sobre o rosto dele, e uma tontura lhe sobreveio. A partir daí, Huan só obteve vantagem. Mairon, desesperado, mudou para todas as formas que conhecia - morcego, serpente, monstro, homem, até mesmo mulher - mas nenhuma delas funcionou. Ao final, em sua costumeira forma humana masculina. Huan o tomava pelo pescoço e o ia privar do "fána", mas Lúthien o interrompeu.
- Espere, Huan!
Ela chegou perto, viu a Mairon. Seus olhos não eram mais cruéis, mas sim com um sofrimento perene. Era tão belo, como observara no começo... e amava a Melkor verdadeiramente. Quem sabe não haveria salvação para aquela alma?
- Mairon...
O maia se surpreendeu. Ela o chamava pelo nome original, o qual os de fora não proferiam!
- S-sim...
- Não quero matar você. Tem um olhar muito belo e precioso. Não é mau porque quer, mas por amor a seu senhor. Veja! Se me der as chaves de Tol in Gaurhoth e me ensinar as palavras mágicas que mantêm a ilha em seu poder, eu o liberto!
Ele hesitou. Dar a ilha assim a eles! Mas então lembrou das palavras de Melkor dizendo: "Venha morar comigo... pra que wargs?"
Mas a ilha era sua principal conquista militar!
Percebendo a hesitação dele, Lúthien resolveu ser mais enérgica:
- Se não me entregar, Huan o despojará do "fána" e tomará as chaves de qualquer modo! E sem "fána" seu adorado Melkor escarnecerá de seu espírito nu, não mais o amando ou respeitando, somente repudiando!
Ao ouvir do repúdio de Melkor, aquilo foi demais. Podia suportar tudo, menos a reprovação de seu amante e senhor. Ao sentir a mordida ainda mais forte e ameaçadora de Huan em seu pescoço, entregou as chaves e disse as palavras mágicas a ela. Estranhamente, ela lhe sorriu! Como se consigo simpatizasse.
- Obrigada!
E foi embora. Mas antes de ir, disse assim a Thuringwethil:
- Mensageira de Morgoth, permita-me tomar a sua forma por um instante.
E, ao mirá-la bem, tomou para si uma forma muito semelhante a dela. Tanto Mairon quanto Thuringwethil se surpreenderam, pois nenhum dos dois sabia que, apesar de metade maia, ela tinha poder de se metamorfosear como os demais maiar completos.
Num passo ligeiro, ela e Huan foram até os calabouços, com as chaves em punho. Em breve libertaram Beren e de lá saíram.
Por alguns instantes, Thuringwethil e Mairon ficaram olhando um ao outro, sangrando, fracos demais até para se por em pé. Mas assim que recuperaram um pouco das forças, a mensageira disse:
- Senhor...
Mas não pôde continuar o raciocínio. Mairon chorou alto, de humilhação. Nunca sofrera derrota tão ignominiosa!
E, soltando diversos xingamentos e ofensas contra Lúthien, Huan, Beren e todos os eldar e edain, ele tomou de sua forma de morcego e foi voando, vertendo sangue, até a floresta de Dorthonion.
Thuringwethil ali ficou, até sentir uma energia terrivelmente forte. Era Lúthien libertando a ilha dos feitiços de Mairon. Ela não teve outra escolha e sair voando, ainda machucada, pois a energia da ilha com a sua não mais era compatível. Os wargs, orcs e demais criaturas da ilha também foram embora, enquanto ela libertava a ilha completamente da sua influência anterior.
OoOoOoOoOoOoO
Melkor estava na sala do trono, com um pressentimento ruim.
"Está tudo sob controle", repetia ele de si para si. "Uma donzela não será páreo para Mairon. Se bem que ela é filha de Melian... mas enfim! Ele é forte".
Mas o pressentimento não deixava sua alma. Ele o fazia querer ver a Mairon, abraçá-lo e beijá-lo, tê-lo ali, somente para ter certeza de que estava tudo bem.
"Pois se estava comigo ainda há pouco!", pensou afinal.
Mas aquela pontinha de desconfiança não o deixava...
Até a hora em que um dos arautos anunciou a entrada de Thuringwethil e Draugluin na sala do trono.
- Draugluin também vem? Ora, que estranho! Mas mande-os entrar!
Assim eles entraram. Havia algo de estranho naqueles dois, que nem Melkor sabia explicar. De qualquer forma, dirigiu-se primeiro a ela, enquanto Draugluin ia até um canto da sala.
- Como está a ilha de Tol in Gaurhoth?
- Melhor não poderia estar...
Aquela resposta deixou o vala ressabiado. A mensageira não costumava falar daquele modo!
- E Lúthien? E Beren? Que lhes ocorreu? E Mairon?
A mensageira ficou em silêncio. Então ocorreu a Melkor observar-lhes diretamente o espírito, para saber que pensavam. E descobriu que não eram eles!
- São invasores!
Com um gesto, desfez os disfarces deles e os revelou. Eram Lúthien e Beren.
- Que fazem aqui? Você, fedelha de Melian, que quer em minha corte?
Novamente a donzela se pôs de forma muito humilde, sabendo que nem em força, nem em poder poderia se bater com o Sinistro Inimigo do Mundo.
- Meu senhor, eu preciso de um favor seu!
- Favor? E quem sou eu pra ficar concedendo favores a uma mulher cuja mãe fez um cinturão em suas terras para nenhum dos meus lá adentrar! Peça ajuda a ela, não a mim!
- A ajuda que preciso somente pode ser dada por si, meu senhor.
Assim como aquele tom comovera a Mairon, também comovia a si. Mas menos por pena e mais por curiosidade.
- Diga. Qual seria a ajuda que somente eu poderia dar?
- Meu pai quer um dote de casamento que somente o senhor pode me dar. É uma das silmarili!
Melkor riu alto.
- Ora! E vem a mim pedindo uma das silmarili, algo que os filhos de Feanor cobiçam loucamente e jamais ousaram me pedir ou de mim tomar! Guardas! Prendam-na nas masmorras por semelhante ousadia!
Assim foi feito. Vários guardas vieram por todos os lados e a aprisionaram, mas do meio dos ruídos de passos, a voz dela, no começo fraca e depois mais alta, se fez ouvir:
"Eu sei que vou te amar...
Por toda a minha vida eu vou te amar"
- Esperem! - bradou Melkor - Esta é a música que Mairon fez para mim!
- Sim - respondeu ela - Pois a achei tão bela, que tomei licença de a utilizar.
- Então você o ouviu cantar?
- Sim. Por favor, meu senhor, deixe-me cantar a si como um menestrel!
Melkor não sabia bem porque, mas teve vontade de ouvi-la cantar a música de Mairon. E por isso a autorizou a fazê-lo. Ela logo o fez.
"Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
A cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente eu vou te amar"
A voz dela era como a de um rouxinol, e Melkor pensou que gostaria de aprisioná-la! Sim, para que ela cantasse em seu casamento com Mairon.
"Sim, ela cantaria. E seria nossa prisioneira nas masmorras, e também pariria orcs, e depois eu faria com que os orcs, wargs e trolls a violassem pela ousadia de vir aqui querer a minha silmaril! E o noivo dela assistiria a tudo, pois eles não se casariam mas eu sim. Eu sim! Com Mairon, pois ele vai casar comigo, querendo ou não! Pois finalmente terei eu um consorte, alguém para chamar de meu..."
Enquanto pensava nessas coisas, Lúthien cantava mais e mais, ascendia ao teto da sala e sua voz se derramava como uma chuva de primavera. E quando deu por si, Melkor estava sonolento. Lúthien passou seu véu no rosto dele e ele caiu completamente no sono, caindo com estrépito no chão. Todos os membros da corte também estavam dormindo.
Então, rapidamente, Beren tomou de Angrist e retirou uma silmaril da coroa dele. Ela não ardia em sua mão, significando assim que era de boa índole.
Porém ao ver a pedra brilhando em sua mão, pensou em retirar as outras duas. E essa foi a sua perdição. Pois ao tentar fazê-lo, uma lasca da coroa voou ao rosto de Melkor e o acordou.
- Hun... Mairon, vai casar comigo, querendo ou não!
Mas quando viu a cena de Beren com a silmaril na mão, acordou completamente.
- Ladrão! Dê-me aqui isso agora, miserável!
Mas Lúthien e Beren já corriam desabaladamente em direção à saída.
- GUARDAS! Atrás deles!
Mas os guardas também dormiam.
- Acordem! Acordem, peguem esses dois! Vou fazê-los em pedacinhos!
Com a gritaria logo todos acordaram. Melkor enviou Carcharoth, a qual perseguiu o casal e conheceria seu destino a partir daí.
Atordoado, o vala sentou em seu trono e raciocinou.
- Dois imbecis entram aqui, a fedelha de Melian canta uma musiquinha e -zás- me levam a silmaril embora! Que dirão todos da segurança de Angband?! Ficarei desmoralizado para todo o sempre!
Um dos arautos, porém, interrompeu o curso ainda confuso de seus pensamentos.
- Senhor, Thuringwethil se encontra à entrada.
- Dessa vez é a verdadeira?
- Não sei dizer, meu senhor.
- Ora, faça-a entrar! De qualquer modo que tragédia maior poderia acontecer ainda hoje?
Mas havia tragédia maior. Assim que entrou, muito ferida (e após Melkor verificar se era realmente o espírito dela), a mensageira narrou tudo o que aconteceu.
- Ela foi à ilha, pediu a silmaril a Mairon mas ele não consentiu, claro. Depois vários wargs lutaram com Huan, até mesmo Draugluin, e foram mortos.
- Como...? Além da silmaril, perdemos os wargs?
- Sim, ao menos os de maior monta. Depois Mairon lutou com Huan e perdeu.
- Ele... ele foi morto?
- Por alguma razão que não compreendo, nem ele nem eu fomos mortos. Mas Mairon foi obrigado a entregar as chaves de Tol in Gaurhoth para Lúthien.
- Como...? Perdemos a ilha também?
- Sim.
O vala lembrou que quando entraram os "falsos" Thuringwethil e Draugluin, eram na verdade Lúthien e Beren. Isso só podia significar que Beren havia sido libertado - à revelia de Mairon, claro.
- E Mairon?
- Ele foi gravemente ferido, mas escapou ainda com vida.
- Escapou? Pra onde?
- Não sei.
- Mas como é que não sabe?! Será que está todo mundo aparvalhado nessa fortaleza hoje?!
- Desculpe.
Melkor a observou e viu que exigia muito dela, pois estava ferida em demasia. Mas sua mente, ainda confusa, de repente percebeu que Mairon estava lá fora, gravemente ferido, e não viera para Angband.
- Por que ele não veio com você?
- Porque na realidade ele estava transtornado com sua ignominiosa derrota. Saiu ofendendo aos eldar e edain, voando, o sangue jorrando de sua ferida...
- Ora, basta! Temos de encontrá-lo! Mairon, por que não veio pra cá?!
Terrivelmente preocupado, Melkor chamou a vários intendentes e mandou-os todos à procura do maia. Pois a silmaril ele podia até perder; a ilha e a fortaleza dos wargs também; mas Mairon? Não; ele, além de direcionar a todo o seu poder, era o grande amor de sua vida.
E de repente ele percebeu o tempo que perdera se negando a amá-lo no passado. Que pena! Pois se não mais se vissem, não poderia mais aproveitar aquele amor que apenas começava a desfrutar plenamente!
- Ora, mas que bobagem, é claro que vou encontrá-lo! Ele é maia, sabe se virar! Vão buscá-lo, não retornem até encontrar!
Mas o tempo passava e nada do paradeiro dele ser definido. Nervoso, o vala enviou a Thuringwethil, ferida mesmo, em busca dele.
- Vá e o encontre! Você sabe melhor que os outros onde ele pode se esconder!
A mensageira assentiu e tomou a sua forma de morcego para partir. Mas então ela viu no rosto de seu senhor algo que nunca vira antes.
Ela viu lágrimas.
E dos lábios dele um sussurro baixo, meio cantado, saiu o final da música que Mairon lhe fizera:
"Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu...
Por toda a minha vida..."
FIM
OoOoOoOoOoOoO
¹No Silmarillion tá assim mesmo! Mairon, escova esses dentes! kkkkkkkkkkkkkkkkkk!
A fic acaba meio "no ar" mas a continuação já está escrita. É a fic "A demanda de Mairon". Depois dela vem "Maternidade", onde enfim os dois Dark Lords se casam e têm o Moriel.
Amei fazer essa fic! Amei principalmente o final, com o Melkor finalmente concluindo a música.
Beijos a todos e todas!
