CAPÍTULO I

Ao ouvir o ruído de uma cadeira ser arrastada sobre o chão de tábuas, Lily Evans suspirou. Em seguida, largou a mecha de cabelos ruivos que segurava entre os dedos e fez uma careta para o espelho. Seu corte de cabelo teria de esperar. O ruído indicava a chegada de um freguês inesperado que, infelizmente, ela teria de mandar embora.

Depois de guardar a tesoura, abriu a porta do banheiro das senhoras e espiou o restaurante aberto, coberto de sapé. Sim, um homem de cabelos escuros estava sentado a uma das mesas mais próximas à entrada, observando as águas azuis do oceano Índico.

— Está sem sorte, senhor! — Lily murmurou consigo mesma. — Chegou duas horas adiantado.

Ajeitou os cabelos com as mãos, alisou a mini-blusa e limpou uma mancha da bermuda. Seria papinha de nenê? Também secou o suor da testa. Afinal, o Paraíso Esquecido podia nem sequer lembrar o hotel Savoy, em Londres, mas ela não gostaria de parecer desleixada diante de um cliente.

Fechou a porta do banheiro e caminhou por entre as mesas, franzindo o cenho. Detestava a ideia de recusar um freguês e se perguntou por que deveria fazê-lo. Os horários de funcionamento do restaurante não precisavam ser tão rígidos. Além disso, que dificuldade haveria em ligar a cafeteira, ou abrir uma garrafa de cerveja, ou mesmo servir uma fatia de bolo? Nenhuma!

E, se o atendimento fosse simpático e eficiente, havia a possibilidade de o freguês se sentir inclinado a voltar em outra hora, para fazer uma refeição adequada. Seria muito bom ouvir o tilintar da caixa registradora.

— Bom dia, cavalheiro — cumprimentou com um sorriso largo. — O restaurante só abre ao meio-dia e, hoje, estaremos servindo uma de nossas especialidades: moqueca de peixe à moda crioula. Mesmo assim, terei prazer em lhe servir um café, ou uma cerveja, se o senhor...

Quando o homem se virou para fitá-la, o sorriso morreu nos lábios de Lily e a frase ficou interminada. Sentiu-se atordoada pelo choque. Estava diante de James Potter, magnata do mundo dos negócios, solteirão convicto e... o pai ausente de seu filho de nove meses de idade, que fora levado para um passeio pouco antes.

Em busca de equilíbrio, suas mãos seguraram com firmeza o encosto da cadeira mais próxima. Tempos atrás, Lily havia se deleitado ao estudar cada traço daquele homem. Ora, por que não reconhecera de pronto os cabelos escuros, os ombros largos, a postura calma e confiante? Porque já fazia muito tempo desde que Lily perdera qualquer esperança de que James se dispusesse a encontrá-la. Além disso, jamais lhe passara pela cabeça que ele fosse capaz de procurá-la no arquipélago de Seychelles!

Como ele havia descoberto onde encontrá-la? Por que James decidira fazer uma viagem tão longa, depois de dezoito meses do mais absoluto silêncio? Uma torrente de perguntas começou a se formar na mente de Lily. Provavelmente, por alguma razão, ele finalmente tomara consciência da paternidade, mas... o que teria em mente?

Estaria disposto a brincar com o bebê, a fim de ser perdoado pelo período de abandono? Ou só queria verificar se seu filho estava sendo bem cuidado? Talvez a ideia de uma criaturinha pequenina e rechonchuda houvesse despertado nele o desejo de ser um pai dedicado. Baixando os olhos verdes, Lily descartou tal possibilidade.

Soltou o encosto da cadeira e endireitou os ombros. Tanto fazia o motivo do súbito interesse de James, pois estava chegando tarde demais. Se ele esperava que ela fosse se atirar aos seus pés, com lágrimas de gratidão, estava redondamente enganado.

E como ele se atrevia a aparecer sem avisar? Que direito tinha James de entrar no restaurante e apanhá-la de surpresa? E escolher justamente um momento em que ela estava suada e corada por ter acabado de esfregar o chão, vestindo roupas que só usava em casa e, pior, completamente fora de forma. Com um movimento furtivo, Lily encolheu a barriga. Claro que não tinha a menor intenção de impressioná-lo. De jeito nenhum! Mas, se estivesse melhor arrumada, certamente teria se sentido mais segura para enfrentar aquele encontro inesperado.

— Eu não... — começou a falar.

— O que você está fazendo aqui? — James interrompeu. Durante o voo dos Estados Unidos para a Europa e de lá para Seychelles, pensara em Lily Evans o tempo todo. Recordara o envolvimento que tivera com ela no passado, como vinha acontecendo com frequência irritante, nos últimos tempos. Tais lembranças sempre traziam a sensação de desconforto e arrependimento, mas, ver-se diante dela era como ser atingido por um forte golpe físico.

Lily deu-se conta de que havia se enganado. A pergunta formulada de olhos estreitos indicava que ele estava tão surpreso quanto ela. E, a julgar pela linha dura formada pelos lábios sensuais, ele também não estava exatamente feliz pelo encontro. James Potter não fora atacado por repentinos sentimentos nobres. Sua presença ali era mera coincidência, uma brincadeira do destino.

— Estou ajudando Edith na administração do Paraíso Esquecido — Lily respondeu, surpresa ao constatar que sua voz soava normal e controlada.

Então, lembrou-se de que fora capaz de agir com a mesma tranquilidade fingida, em outra ocasião no passado.

Aparentemente, a capacidade não a abandonara.

— Trabalha aqui? — James inquiriu.

— Sim. Faço de tudo um pouco. Hoje, por exemplo, a encarregada da limpeza tinha hora marcada com o dentista e eu limpei o restaurante.

James examinou-a da cabeça aos pés: os cabelos revoltos, a blusa molhada de suor, a bermuda amarrotada, os pés metidos em chinelos. Quando a conhecera, ela só vestia roupas sóbrias e sofisticadas, calçava sapatos de salto alto e usava os cabelos impecavelmente presos. Lily costumava ser a verdadeira imagem da elegância. As únicas vezes em que a vira desarrumada fora quando haviam ido para a cama juntos. E, em tais ocasiões, ela sempre lhe parecera muito desejável. Como agora. Franzindo o cenho, James lembrou-se de como fora bom fazer amor com ela, como tudo parecia perfeito, quando estavam juntos.

— Compreendo — ele falou, fazendo Lily se sentir ainda mais embaraçada pela aparência descuidada. — E quem é essa Edith?

— Era namorada do meu tio, Oscar. Ele morreu de câncer, há três meses.

— É esta a pousada de seu tio? Lembro-me de você ter me contado que ele era dono de uma pousada em Praslin, onde você costumava passar as férias, mas pensei que ele tinha vendido o lugar no ano passado.

— Foi o que Oscar pensou, também, mas o negócio foi desfeito no último minuto e só agora apareceu um novo interessado, embora a venda ainda esteja em fase de negociação. Edith é uma pessoa adorável, mas muito ingênua e inexperiente. Quando meu tio foi a Londres, no último inverno, havia acabado de descobrir que tinha os dias contados. Sabendo que Edith se veria perdida no momento de vender a pousada, pediu que eu a ajudasse.

— Por saber que você é super eficiente?

— Por saber que sou a única pessoa organizada na família — Lily respondeu, perguntando-se se o comentário de James fora sarcástico. Afinal, ela não fora nem um pouco eficiente, dezoito meses antes. — Concordei em ajudar à distância, mas quando um novo interessado apareceu, Edith telefonou, pedindo que eu viesse para cá. Estava desesperada por ajuda e eu precisava de uma mudança de ares.

Lily parou de falar, percebendo que começava a tagarelar, o que era uma tendência antiga, sempre que ficava nervosa. Disse a si mesma que não tinha motivo para ficar nervosa, pois era James o vilão naquela história.

— Então, decidiu tirar férias?

— Pode-se dizer que sim. E você? Está passando férias aqui, ou veio de Mahé, só para passar o dia?

Mahé era a maior das cento e poucas ilhas que formavam o arquipélago de Seychelles. Também era lá que se situava a capital, Victoria. Sossegada e praticamente virgem como as demais ilhas, Mahé contava com o maior número de hotéis, bem como grande variedade de atrações e atividades.

Sendo um esportista entusiasmado, James certamente desejaria velejar, esquiar e mergulhar. E, para isso, o melhor seria se hospedar em Mahé. Lily rezou para que isso fosse verdade, pois se quisesse recuperar o equilíbrio, precisaria de uma boa distância entre eles. E nada melhor que o calmo mar azul a separá-los, para reduzir as possíveis visitas de James a Praslin.

— Detesto desapontá-la, mas estou aqui mesmo, em Praslin — ele replicou em tom seco.

— No Club Sesel? — Lily perguntou, referindo-se ao melhor hotel da ilha, situado a três quilômetros do Paraíso Perdido.

Não ouvira o ronco de nenhum automóvel e, se James chegara a pé, só poderia ter vindo de lá. Ele sacudiu a cabeça.

— Não.

— Não? — ela repetiu, sentindo-se grata.

Os outros hotéis da ilha ficavam a, pelo menos, onze ou doze quilômetros dali, o que não era muito, mas melhor do que nada.

— Não estou hospedado em um hotel. Aluguei uma casa. Cheguei ontem, à noite.

— Onde fica a casa que alugou?

James usou o polegar e apontou por cima do ombro.

— Ali.

Os olhos de Lily voaram na mesma direção. Seguindo pelo gramado rente à praia, chegava-se a uma pequena colina, onde fora construído um luxuoso bangalô, cercado de árvores e arbustos, com espetacular vista para o mar, churrasqueira e um salão de ginástica que mais parecia uma academia. O lugar era considerado cinco estrelas no mercado imobiliário.

— Está falando da Maison d'Horizon? — Lily inquiriu em um fio de voz.

James assentiu.

— Decidi me dar um presente.

Lily desviou os olhos para o chalé de madeira onde estava instalada.

— Mas, então, somos vizinhos!

— Exatamente — ele confirmou, seco. Lily engoliu em seco.

— Quanto tempo pretende ficar? — perguntou.

— Dois meses. Não me culpe — ele acrescentou, notando-lhe os olhos arregalados. — A culpa é sua se decidi vir para Seychelles.

— Minha culpa?

— Eu me lembrei de você falando da vida calma e pacífica das ilhas e... — James desviou os olhos para o mar — estou precisando relaxar. Agora, que estou aqui, vejo que você não exagerou na descrição.

Ora, a presença dele na ilha não era mera coincidência! A própria Lily, com sua língua comprida, fora a culpada! Agora, estavam condenados a viver, ao menos por algum tempo, separados por alguns metros de areia e grama!

— O expediente de quatorze horas diárias finalmente cansou você? — perguntou, sabendo que ele não só jogava duro, mas também trabalhava duro.

— Não, embora eu estivesse mesmo exagerando no trabalho. Tive problemas de saúde e estou convalescendo — James explicou de maneira sucinta, deixando claro que não pretendia entrar em detalhes. — Poderia me servir algo para comer, além de café?

— O que disse? — Lily inquiriu, incrédula. Enquanto conversavam, ela se perguntava quando ele iria mencionar o bebê. James o ignorara até então, mas não poderia continuar a fazê-lo. Porém, ela não estava disposta a facilitar as coisas, entrando no assunto sobre o filho.

— A imobiliária deveria ter providenciado mantimentos para os meus primeiros dias aqui, mas só vão mandar as compras mais tarde. Como não encontrei nada para comer quando cheguei, ontem à noite, estou faminto.

— Edith é quem cuida da cozinha e ela saiu — Lily replicou.

Embora James erguesse as sobrancelhas em uma expressão de súplica, Lily se manteve impassível. Não era mais a namoradinha apaixonada e ansiosa para satisfazer todos os desejos dele. Se ele tombasse de fome ali mesmo, azar!

— Não precisa ser nada complicado. Pão com manteiga basta. Ou uma fruta. Deve ter alguma fruta, na cozinha. Se tiver um pacote de batatas fritas murchas, eu aceito — ele acrescentou com um toque de desespero.

Lily sacudiu a cabeça.

— Sinto muito.

— Depois de passar dois dias viajando, não estou disposto a andar por aí, atrás de comida — James resmungou. — Nós dois sabemos que a despensa não pode estar completamente vazia. Portanto...

— Que tal ovos mexidos? — Lily sugeriu, irritada.

Tratá-lo mal não seria boa ideia, uma vez que Lily poderia precisar da boa vontade de James, no futuro. Assim, o melhor seria controlar o mau humor e manter o relacionamento em bases civilizadas, o que não seria a tarefa mais fácil do mundo.

— Excelente! — ele aceitou. — Não está pensando em me envenenar, está?

— E correr o risco de ter o restaurante fechado pelas autoridades de saúde? Não vale a pena — ela respondeu com sarcasmo.

— Está se esquecendo de uma coisa.

— De quê?

— Quando cheguei, você me cumprimentou com "Bom dia, cavalheiro". Portanto, agora, deveria dizer "Não vale a pena, cavalheiro" — James comentou, irônico. — Já ouviu falar que o cliente tem sempre razão? Ou não está interessada em ganhar o prêmio de funcionária padrão do ano?

— Não sou funcionária. Sou voluntária.

— Seja qual for a sua posição, sou um freguês, o que me dá direito a ser tratado com cortesia.

Lily estreitou os olhos. James a estava provocando. Em outra época, ela se divertira com o senso de humor afiado que ele possuía, mas não agora. Sua vontade era mandá-lo para o inferno, mas tratou de controlar os impulsos.

— Espere sentado — murmurou.

Os lábios de James se curvaram. Ele sempre admirara a audácia de Lily.

— Insolente, como sempre — comentou.

— Não tenha a menor dúvida disso — ela confirmou, antes de se afastar.

Enquanto preparava os ovos, na cozinha, Lily refletiu que havia se enganado ao pensar que, quando reencontrasse James, ele não lhe despertaria qualquer reação. A verdade era que os olhos castanhos-esverdeados, os traços viris e o físico atlético continuavam a perturbá-la.

Irritada, ordenou a si mesma que pusesse um fim àquele tipo de pensamento. James poderia obter nota dez em termos de atrativos físicos, mas no que dizia respeito a calor humano, respeito e consideração, zero.

Lembrando-se de que ele comentara algo sobre problemas de saúde, Lily se perguntou o que teria acontecido. Então, deu de ombros, decidindo que se ele não estava disposto a dar maiores detalhes, ela também não tinha disposição de perguntar.

Uma vez preparados os ovos e as torradas, Lily arrumou a bandeja e voltou à parte externa do restaurante. James voltara a observar o mar, adotando a postura tensa de alguém que tem muitos problemas a lhe ocupar a mente.

— Serviço rápido — ele comentou, ao vê-la.

— Vai enviar uma carta de recomendação à Secretaria de Turismo?

— Com cópias para o primeiro ministro e para o presidente de Seychelles. — Quando Lily terminou de arranjar a comida sobre a mesa, James inquiriu, sorrindo: — Vai completar o serviço com uma pequena reverência?

— Não abuse da minha paciência — Lily advertiu. — Sei que está se divertindo, mas até eu tenho meus limites.

— Uma gorjeta generosa não faria você mudar de ideia?

— Eu não faria uma reverência, nem se você se ajoelhasse e implorasse... Pensando melhor, quer tentar?

— Não é o meu estilo.

— Foi o que pensei.

James percebeu que Lily havia colocado duas xícaras na mesa.

— Vai me fazer companhia?

Ela assentiu. Afinal, precisavam conversar sobre o bebê.

— Estou precisando de um descanso. Você se importa?

— De maneira alguma. Fique à vontade.

Lily serviu o café e, só depois de se sentar de frente para James, percebeu que ele estava mais magro, além de um tanto abatido. Bem, isso poderia ser resultado da longa viagem, ou do choque provocado pela constatação de estar prestes a se ver confrontado com o filho que havia ignorado até então.

— Você disse que o restaurante só abre ao meio-dia, mas vejo que tudo já foi perfeitamente organizado — ele comentou, olhando as mesas em volta.

— Fui acordada ao amanhecer e, assim, pude começar o dia bem cedo — Lily explicou, esperando que ele perguntasse quem a acordara.

— Às segundas-feiras costumam ser muito movimentadas?

— Não. Os dias de maior movimento são as terças, quintas e sábados, quando servimos almoço para grupos de aproximadamente vinte turistas, em excursão. Os outros dias são calmos. A estrada ainda é de terra e cheia de buracos...

— Percebi, quando estava no táxi — James a interrompeu, franzindo o cenho e pousando a mão na coxa.

— A perspectiva de um passeio tão difícil desanima os fregueses — Lily continuou. — Alguns hóspedes do Club Sesel, bem como campistas, se arriscam a almoços ocasionais, mas são as excursões que proporcionam o maior lucro do restaurante.

— O que essas excursões incluem?

— Uma caminhada pelas trilhas do Vallée de Mai, na mata que ocupa o coração de Praslin, almoço no Paraíso Perdido e algumas horas na praia de Anse Lazio, ao norte da ilha, onde os turistas podem nadar e mergulhar. É um lindo lugar. Você deveria ir até lá, um dia desses.

— Talvez eu vá. Seu tio estava contente com o movimento do restaurante?

— Sim. Oscar era um ex-hippie, que só queria ter o suficiente para viver. No dicionário local, não existe uma palavra para "estresse" e ele escolheu o lugar perfeito para passar o resto de seus dias.

— E quanto à pousada? Não há movimento de hóspedes?

— Oscar raramente se preocupava em anunciar a existência da pousada. Além disso, não dava importância aos reparos necessários. Por isso, aqueles que se aventuravam a se hospedar aqui, jamais pensavam em voltar, ou indicar o lugar para conhecidos. O restaurante é excelente porque Edith é ótima cozinheira, mas os chalés precisam de reformas generalizadas — Lily explicou, apontando para os três chalés agrupados em torno de um gramado oval.

— Estão todos desocupados? — James inquiriu.

— Estou instalada no mais próximo. Os outros estão desocupados desde que cheguei aqui e não recebemos nenhum pedido de reserva. Edith mora em um apartamento, no andar de cima do restaurante.

Tendo terminado de comer os ovos mexidos, James pousou os talheres no prato.

— Estava uma delícia — elogiou.

— Obrigada.

— Sou eu quem deve agradecer. Sinto-me mais humano, agora.

Afastando a cadeira da mesa, ele estendeu as pernas e se espreguiçou.

O movimento fez a camisa subir, deixando à mostra parte do abdômen firme e coberto de pelos negros. No mesmo instante, o coração de Lily disparou, pois ela se lembrou da sensação que a invadia quando deslizava as mãos por aquele corpo viril.

— Está aqui sozinha? — James perguntou, interrompendo-lhe os pensamentos perturbadores.

Se ela estava sozinha? Finalmente, ele encontrara um meio de mencionar Harry. Aleluia! Mas, o que James imaginava que ela poderia ter feito? Abandonado o filho aos cuidados de alguém, para desfrutar do sol tropical? Francamente! Ora, ao evitar fazer uma pergunta direta, James estava jogando com ela. Muito bem, Lily também sabia jogar.

— Sozinha? — repetiu com ar inocente.

— Está acompanhada por um homem?

— Homem?

— Amos veio com você? — ele esclareceu com uma pontada de irritação.

— Amos? — Lily repetiu com uma risada. — Não! — James referia-se a Amos Diggory, presidente da fábrica de artigos esportivos que fora comprada no ano anterior pela Potter-Black Corporation. Lily trabalhara para Amos como secretária, assistente pessoal e, por último, gerente administrativa.

— Só Edith cuida da cozinha, ou você também ajuda nisso? Lily teve de pensar antes de responder, pois estivera distraída com a lembrança da lealdade e generosidade de Amos, como amigo, e na sua total incapacidade para os negócios. Fora a incompetência dele que levara a companhia ao declínio vertiginoso, criando a necessidade urgente da venda e, por consequência, inserindo James Potter na vida de Lily.

— Às vezes, ajudo em tarefas menores, como lavar verduras, mas Edith planeja o cardápio e prepara os pratos. Por que ela está demorando tanto? — Lily indagou, pensativa. — Edith foi visitar a irmã e levou...

Parou de falar ao se dar conta de que estivera prestes a dizer que Edith levara Harry no carrinho, para ser mimado e admirado. Aparentemente, todos os habitantes de Seychelles adoravam crianças. Porém, Lily estava decidida a não entrar no assunto.

Aqueles longos meses de silêncio haviam deixado claro que James considerara a gravidez como sendo culpa dela e o bebê, sua responsabilidade. Uma responsabilidade que Lily aceitara de bom grado. Agora, no entanto, era uma questão de princípios esperar que ele mencionasse a questão.

— Edith deve estar chegando a qualquer momento — falou.

— Quem quer que esteja interessado em comprar o restaurante deve acreditar ser possível arrebanhar clientes — James comentou.

Lily cerrou os punhos, frustrada. Por que ele se recusava a falar de Harry? No passado, James sempre fora muito direto em suas conversas e discussões. Às vezes, sua objetividade chegava a ser cruel, como ela mesma tivera a oportunidade de sentir na pele.

Estudando-o com atenção, Lily se perguntou se ele estaria envergonhado por não ter respondido suas cartas, nem ter entrado em contato, ou oferecido ajuda. Estaria James disposto a pedir desculpas e mergulhado em constrangimento?

— É o que parece — replicou, refletindo que ficaria profundamente satisfeita quando ele finalmente reunisse a coragem necessária para pedir perdão pelo comportamento desprezível que apresentara com relação ao filho.

— O interessado já trabalhou no ramo de hotelaria?

— Sim, na África do Sul.

— O que o trouxe para cá?

— Não faço ideia. Foi Edith quem conduziu as primeiras reuniões, e embora eu o tenha conhecido há duas semanas, tudo o que sei é que se chama Edgar Bones e que veio de Joanesburgo.

— Como ele é?

— Está na casa dos quarenta, tem boa aparência e é simpático. Edith costuma se referir a ele como "sr. Maravilha".

— Disse que ele ainda não fechou negócio com Edith? Lily assentiu.

— A venda deveria ter sido concluída há um mês, mas Edgar está encontrando dificuldades na transferência do dinheiro.

— Talvez ele tenha mudado de ideia.

— Acho que não. Ele garante que o dinheiro está a caminho e telefona com frequência para se certificar de que não há outro interessado na compra.

— E Edith diz a verdade?

— Sim.

— Não deveria.

— Talvez você tenha razão — Lily concordou, pensativa.

— É claro que tenho razão!

Ao mesmo tempo em que falava, James bateu com a mão na mesa, derrubando uma faca. Lily esperou que ele se levantasse e, com os movimentos atléticos e ágeis de que ela se lembrava tão bem, recolhesse o talher do chão. Porém, ele ficou onde estava. Com uma pontada de irritação, ela apanhou a faca e colocou de volta na mesa.

— Sua faca — falou por entre os dentes.

— Você é muito gentil.

— Faz parte do serviço.

Os lábios de James se curvaram em um sorriso divertido.

— E você resistiu ao impulso de me cortar em pedacinhos. O sorriso de Lily foi sarcástico.

— Por pouco.

— Você está... diferente — ele comentou, examinando-a da cabeça aos pés.

Mais uma vez, Lily encolheu a barriga. Desde que chegara na ilha, um mês antes, vinha se exercitando todos os dias, mas ainda não havia recuperado a antiga forma.

— Ganhei alguns quilos que estou tentando perder, mas isso não deveria ser uma surpresa, não acha?

— Diz isso por estar vivendo praticamente dentro de um restaurante?

"Digo isso porque tive um bebê", Lily teve vontade de gritar.

— Seus seios estão maiores — James murmurou, antes de fixar o olhar no dela.

O coração de Lily, disparou diante da constatação de que ela ainda era atraente aos olhos de James. Por um lado, sentiu-se satisfeita e lisonjeada. Porém, não poderia se esquecer de que fora justamente aquela atração que havia criado tantos problemas no passado. Dali por diante, seu relacionamento com James deveria ser totalmente impessoal.

Estava prestes a dizer que não apreciava aquele tipo de comentário, quando o viu franzir o cenho. Aparentemente, James já se arrependera da observação que fizera e, provavelmente, não o agradava o fato de ainda sentir algum tipo de atração.

— Phyllis e eu nos distraímos com a conversa e nem percebemos o tempo passar — alguém anunciou, provocando um sobressalto em ambos.

Uma mulher na casa dos cinquenta anos, de pele morena e rosto muito bonito apareceu na porta da cozinha. Usava os cabelos negros e lustrosos presos no alto da cabeça e um vestido florido.

— Olá, Edith — Lily cumprimentou-a, olhando em volta. Onde estaria Harry?, perguntou-se.

— Sua majestade está descansando na varanda — a outra informou, como se houvesse lido seus pensamentos. Então, encarou o visitante. — Bom dia.

— Bom dia — James respondeu.

— Lily abriu o restaurante mais cedo e lhe serviu algo para comer? Deve ser um cliente muito especial — Edith comentou com um sorriso.

Ligeiramente embaraçada, Lily se perguntou se deveria revelar a identidade de James. Limitara-se a dizer que o pai de Harry vivia em outro país e, como em Seychelles os relacionamentos entre homens e mulheres costumavam ser casuais e passageiros, a informação fora aceita sem perguntas. O nome de James nunca fora mencionado.

— Este é o sr. Potter — falou. — Ele alugou a Maison d'Horizon.

Edith soltou uma risada bem-humorada.

— Ah, você é mesmo especial! — declarou com seu forte sotaque, antes de se virar para Lily. — Já perguntou a ele se...

— Não e nem vou perguntar — Lily a interrompeu depressa.

— Ora, querida, Bernard não se importava e tenho certeza de que o sr. Potter...

— James, por favor — ele pediu com um sorriso. Edith retribuiu o sorriso. Era evidente que havia simpatizado instantaneamente com ele.

— Tenho certeza de que James não vai se importar — completou.

— Eu me importo — Lily retrucou, tentando enviar com o olhar uma mensagem para que a outra se calasse.

— Do que estão falando? — James inquiriu.

— De alguns pequenos favores — Edith esclareceu. — Bernard é o francês que alugou a Maison d'Horizon antes de você. Tem mais de setenta anos e veio para cá a fim de tirar férias da esposa, que não lhe dá sossego, e para desenhar retratos dos pássaros das ilhas. Era tão gentil. Lily cerrou os dentes, pois sabia o que viria a seguir.

— Escute, eu... — começou a protestar, mas a mais velha não se deixou intimidar.

— Bernard costumava vir ao restaurante na maioria das noites, e quando soube da nossa dificuldade em conseguir copos, passou a fornecê-los para nós. Não sei quem é o responsável pelos suprimentos do bangalô, mas sei que compram muitos copos. E, também, por causa da idade, Bernard não usava os aparelhos da sala de ginástica e...

— James é fanático por exercícios e, com certeza, pretende usar os aparelhos — Lily falou, apressada.

— Mesmo assim — Edith continuou —, não vai se exercitar o dia todo, vai? Lils está decidida a perder alguns quilos, embora eu ache isso bobagem, pois na minha opinião ela está ótima.

James voltou a estudar Lily da cabeça aos pés.

— Também acho — murmurou.

— Bernard permitia que ela usasse os aparelhos sempre que desejasse e...

— Você gostaria de tomar os copos emprestados de novo e Lily gostaria de usar a sala de ginástica — James concluiu em tom ligeiramente tenso.

Escolhera Seychelles para sua recuperação porque as ilhas ficavam bem longe de casa. Pretendia se manter anônimo, ficar sozinho. Jamais lhe ocorrera encontrar alguém conhecido por ali, muito menos, Lily.

Edith sorriu.

— Você se importa?

— Claro que não.

— Pronto! — a nativa exclamou, virando-se para Lily. — Vou preparar o almoço. Até mais tarde.

— Até logo — James respondeu.

— Edith não falou por mal — Lily começou, assim que a outra desapareceu na cozinha. — Não será necessário...

— Não há problema algum. Avise-me quando quiser ir apanhar os copos. Podemos combinar um horário para você usar a sala de ginástica todos os dias.

Lily se sentiu constrangida, pois James hesitara antes de concordar e ela não queria depender dele para nada. Ainda assim, estava ansiosa para perder os quilos que ganhara.

— Obrigada — limitou-se a dizer.

— Aqueles aparelhos devem ter custado uma verdadeira fortuna — ele comentou. — Só vi uma bicicleta computadorizada igual àquela em uma academia caríssima, em Aspen. Era...

Enquanto ele falava, Lily bebeu o resto de seu café. Estava magoada por James não ter sequer perguntado do filho. Seria possível que não se importasse nem um pouco, que não sentisse a menor curiosidade? Ou compaixão?

A mágoa logo se transformou em raiva e, batendo com a xícara na mesa, Lily se pôs de pé. Quisesse ou não, James seria confrontado com o filho de uma vez por todas.

— Voltarei em um minuto — declarou, antes de se afastar.

Atravessou a cozinha, onde Edith se ocupava das panelas, e foi até a varanda. No carrinho, Harry dormia profundamente. Lily sentiu um aperto no peito. Amava o filho com todas as forças.

Só então se deu conta de que a semelhança entre Harry e James era ainda maior do que ela havia percebido antes. Ambos tinham os mesmos cabelos escuros e sobrancelhas grossas, bem como as mesas linhas determinadas no queixo. Porém, pensou consigo mesma, ela trataria de garantir que seu filho crescesse com um coração bem mais generoso que o do pai.

Com um gesto decidido, soltou o freio do carrinho e começou a empurrá-lo. Querendo ou não, James seria apresentado ao filho imediatamente.

Ao atravessar a porta que separava a cozinha do restaurante, imobilizou-se. A mesa estava vazia. Um maço de notas fora colocado sobre um pires, mas James se fora.

Certamente, a perspectiva de ser confrontado com o filho fora assustadora demais. Por isso, fugira. Fugiria da ilha, também?

Lily sacudiu a cabeça irritada, pensando que tal solução seria a melhor para ela.