Reluctant Father! pertence a Elizabeth Oldfield.
CAPÍTULO II
A cabeleireira sorriu para o bebê no carrinho.
— Mamãe não está linda como uma princesa? — perguntou.
Harry soltou uma risadinha animada e emitiu sons alegres.
Lily riu.
— Ele parece mais preocupado consigo mesmo, mas já estou me sentindo muito melhor — falou, voltando a examinar a própria imagem no espelho. — Obrigada.
A chegada inesperada de James, na véspera, tivera seu lado bom, Lily pensou, ao atravessar o saguão do Club Sesel. Tendo sido interrompida em sua intenção de cortar ela mesma a franja crescida, acabara decidindo visitar a cabeleireira. Em outras tentativas, havia se empolgado com a tesoura e depois, claro, se arrependera. Agora, porém, ao se olhar no espelho, sentia-se genuinamente orgulhosa da própria aparência, constatando que poderia até mesmo ser confundida com uma hóspede do hotel.
A porta da gerência se abriu, despertando-lhe a atenção. Um homem ia sair da sala, mas deu meia-volta e voltou a fechar a porta. Lily franziu o cenho. De cabelos loiros e bem cortados, vestindo um terno cinza impecável, o sujeito se parecia muito com Edgar Bones. Lily não sabia onde ele costumava se hospedar quando se encontrava na ilha. Nem fora informada de sua chegada, nos últimos dias.
Empurrando o carrinho através das portas do saguão e colocando os óculos escuros para se proteger do sol forte, Lily se perguntou se a presença de Edgar significaria que a compra seria finalmente selada. Torceu para estar certa em sua previsão.
— Ei, Lily! — uma voz estridente chamou.
Lily virou-se e deparou com a mulher de cabelos pretos e curtos, penteados com gel, que lhe acenava. Vestia um traje de banho de lamê dourado e se encontrava ao lado da piscina.
— Olá, Hestia — Lily cumprimentou-a e esperou que se aproximasse.
Durante as duas últimas semanas, Hestia Jones havia se tornado freguesa regular do Paraíso Perdido. Chegava em seu carro alugado, ao meio-dia, ou ao anoitecer, fazia uma refeição leve e, então, sentava-se no bar, onde passava horas lançando olhares sedutores para Jules Adônis. Jules era o barman nascido em Seychelles que, com seus traços bonitos, cabelos longos que exibiam mechas claras produzidas pelo sol e sorriso arrasador, fazia jus ao sobrenome. Quando Harry estava por perto, Hestia também brincava muito com ele.
Como falasse o tempo todo sem parar, como uma metralhadora, Hestia tornava-se extremamente cansativa depois dos primeiros cinco minutos de conversa, mas Lily sentia pena dela. Por trás das maneiras alegres e entusiasmadas, evidentemente forçadas, parecia haver uma alma infeliz e perdida.
— Só queria avisá-la que vou almoçar lá, hoje — Hestia informou. — Jules estará no bar?
— Deveria, mas já sabemos que ele costuma perder a hora e só acordar quando já é tarde demais... quando não se esquece de que é dia de trabalhar no almoço — Lily respondeu de bom humor.
— Ele é irresistível. Assim como este garotinho! — a loira falou, beliscando de leve a bochecha do bebê.
Harry soltou gritinhos alegres.
— Você tem filhos? — Lily perguntou.
— Não. Tenho uma butique e nunca tive tempo para pensar em formar uma família. Agora, estou sozinha. Meu divórcio foi homologado no mês passado. Esta é a primeira vez que tiro férias sem meu marido e será a primeira vez que voltarei para uma casa vazia. — Baixou os olhos para o dedo sem aliança. — É claro que posso me casar de novo e ter um filho. Estou entrando na casa dos quarenta e ainda não é tarde demais.
— Certamente — Lily concordou em tom de dúvida.
— Acho que Jules gosta de mim — Hestia confidenciou com uma risadinha maliciosa. — E devo confessar que gosto dele, também.
Lily sentiu uma pontada de preocupação. Apesar do corte de cabelo ousado e das roupas caras e modernas, Hestia parecia estar muito mais perto dos cinquenta do que dos quarenta anos. Jules tinha vinte e cinco.
Além disso, era um dom-juan despreocupado, que flertava com a maioria das mulheres que conhecia, o que parecia mero hábito. Lily acreditara que isso fosse óbvio, mas talvez Hestia não quisesse enxergar. Recém-divorciada, a outra poderia estar se sentindo muito solitária e ansiosa demais por atenção masculina.
— Jules tem namorada — Lily informou no tom mais gentil possível, não querendo magoar Hestia. — Na verdade, ele tem várias. Agora, preciso ir. Vejo você mais tarde.
— Até daqui a pouco — Hestia se despediu, mas seu sorriso era dirigido a Harry.
Lily empurrou o carrinho para a estrada de terra e, assim como acontecera durante a noite quando ela não conseguira dormir por pensar em James o tempo todo, seus pensamentos se fixaram nele novamente.
Na véspera, ao descobrir que ele fora embora do restaurante, a reação de Lily fora de alívio. Porém, ela não havia demorado a descobrir que ele continuava na ilha. Uma luz acesa na mansão, na noite anterior, além de uma porta batendo pela manhã, haviam sido provas conclusivas de sua permanência ali.
Irritou-se ao pensar que, embora jamais houvesse planejado se tornar mãe solteira, ela conseguira superar todos os traumas e se adaptar à sua nova vida. Chegara a fazer bons planos para o futuro, mas James aparecera e a deixara confusa.
— Eu pretendia enviar fotografias suas para o seu pai, quando você completasse um ano — falou com o bebê no carrinho. — Se ele não respondesse, eu mandaria outras, quando você fizesse dois anos. Se, mesmo assim, ele não se manifestasse, eu o levaria para os Estados Unidos, poria você em cima da mesa do escritório dele e diria: "Querido, este é o seu filho e herdeiro". O que, certamente, o obrigaria a nos dar alguma atenção!
Harry bateu palmas e riu.
— Não espero que ele seja um pai presente todos os dias — Lily continuou —, mas acredito que toda criança tem o direito de conhecer o pai e quero que ele demonstre alguma consideração, como se lembrar do seu aniversário e levá-lo em viagens de férias, quando você já estiver crescido.
— Dá-dá! — Harry replicou, animado.
— Eu tinha planejado dizer tudo isso a ele quando você estivesse com dois anos e começasse a perceber que todas as outras crianças têm pai. Acontece que seu pai decidiu aparecer agora.
O bebê enfiou o polegar na boca e sugou-o ruidosamente.
Bem, poderia ter existido alguma outra razão para James ter desaparecido do restaurante de maneira tão abrupta, Lily refletiu. Era possível que ele estivesse ansioso para voltar para a companhia de uma mulher, que havia deixado na cama. Afinal, como ela bem sabia, James era um macho de sangue quente, com todos os apetites de um homem saudável. Embora estivesse na ilha para convalescer, nada o impedia de estar acompanhado.
Enquanto alterava a posição do carrinho, para impedir que Harry tomasse sol demais, Lily se perguntou se James teria viajado para Seychelles com Emmeline Vance. Quanto mais pensava na atitude dele, na véspera, mais convencida ficava de que James estava escondendo alguma coisa. Seria o fato de estar ali com a atriz que a substituíra na vida dele com uma rapidez insultante?
Poucos meses antes, Lily vira a atriz americana em um filme, na televisão. Fez uma careta ao se lembrar dos cabelos negros e sedosos que mais pareciam comercial de xampu, o rosto de traços perfeitos e o corpo repleto de curvas generosas. Não pôde deixar de lembrar, com uma pontada de satisfação perversa, da total falta de talento e expressão de Emmeline.
Com expressão sombria, Lily admitiu que não a agradava a ideia de apresentar Harry e discutir questões tão pessoais diante de outra mulher. Por outro lado, pelo bem de seu filho, teria de estabelecer uma via de comunicação satisfatória com o pai dele, independente da presença de terceiros por perto.
Foi subitamente invadida por uma onda de tristeza. No passado, havia se considerado eficiente para julgar o caráter das pessoas. Acreditara que seu amante era um homem responsável e confiável, mas tudo não passara de ilusão.
— Como pude me enganar tanto? — resmungou e voltou a mergulhar no silêncio, sentindo-se bombardeada pelas recordações do passado...
Fora Henry Diggory, pai de Amos e, na época, presidente da companhia, quem chamara a atenção de Lily para a Potter-Black Corporation pela primeira vez.
— Esses dois vão longe — ele havia declarado em uma manhã, ao entrar na sala do filho e atirar uma revista sobre a mesa. — Leia o artigo de capa e veja como são ambiciosos, como se mantêm bem informados... e como dão duro no trabalho.
— Sim, papai — Amos respondera, antes de colocar a revista de lado, sem dar a menor atenção.
Lily lera o artigo, pois era a nova secretária de Amos e estava sempre disposta a ler todos os relatórios e memorandos que o jovem chefe deveria ler, mas não tinha disposição para analisar.
E fora assim que ela descobrira que James Potter e Sirius Black, dois americanos formados em administração de empresas, antes esquiadores defendendo o seu país em competições mundiais e colecionando medalhas e troféus, haviam verificado que o esporte carecia de equipamento de melhor qualidade e decidiram satisfazer tal demanda.
Ao longo dos anos seguintes, a profecia do velho Diggory se tornara realidade. A Potter-Black havia crescido, passando a produzir equipamentos para outras modalidades de esportes e abrangendo outros ramos de negócios, como o imobiliário, uma companhia de balões a gás e um empreendimento orçado em um milhão de dólares na área de informática.
Após o derrame sofrido por Henry, a Diggory's iniciara o seu declínio. Sendo uma firma tradicional e um tanto antiquada, produtora de tacos para críquete, raquetes de tênis e sapatos para corridas, cujo nome era garantia de alta qualidade, seu futuro começou a parecer instável. Então, haviam recebido uma carta da Potter-Black, sugerindo reuniões para a discussão de uma possível fusão.
Apesar da insistência de Amos em que ele mesmo seria capaz de reverter o quadro pouco satisfatório da companhia, seu pai havia decretado que a Potter-Black deveria assumir o comando da companhia. Pouco tempo depois, James chegara à Inglaterra. Depois de uma semana estudando relatórios de balanço, nos escritórios londrinos, e examinando informações financeiras, todas fornecidas por Lily, James pedira a ela que o inteirasse dos detalhes sobre os planos de ação da companhia.
— Por que eu? — ela perguntara, pensando na irritação que Amos não havia disfarçado, minutos antes, em sua sala.
— Porque você é a pessoa mais eficiente que encontrei aqui — James respondera com um sorriso. — E porque gosto de você.
Lily não contivera uma risada. Desde o primeiro dia, haviam trabalhado muito bem juntos e, com isso, descoberto que partilhavam o mesmo senso de humor.
— Também gosto um pouquinho de você — confessara.
— Só um pouquinho? — ele protestara, fingindo-se zangado. — Preciso colocar meu charme em ação.
— Você tem charme? — Lily inquirira, erguendo as sobrancelhas.
— Você não percebeu?
— Talvez algum sinal, de vez em quando.
— O que significa que vou ter de começar do nada. Que assim seja!
Nos dias seguintes, Lily passou a gostar muito de James Potter. Ele sabia o que queria e, se necessário, assumia postura autoritária. Ao mesmo tempo, porém, era modesto, divertido e uma excelente companhia. Exalava vitalidade por todos os poros, além de ser extremamente sexy, fazendo Lily se esquecer de todos os homens que havia conhecido até então.
Quando, inesperadamente, James tivera de voltar para os Estados Unidos para resolver negócios urgentes, ela se sentira estranhamente perdida e pensara nele o tempo todo.
— Sentiu minha falta? — James perguntara ao retornar, uma semana depois.
— Sim — Lily respondera com sinceridade.
—Também senti sua falta. Calculo que vou precisar de um mês para me inteirar da situação da Diggory's e...
— Tanto assim?
James sorrira e confirmara:
— Tanto assim. Por isso, gostaria de saber se você dispõe de tempo, nos fins de semana, para me mostrar Londres.
— Será um prazer.
Assim, visitaram museus e galerias de arte, assistiram a espetáculos no Covent Garden, navegaram pelo Tamisa, até Greenwich, e partilharam jantares à luz de velas.
O relacionamento se tornou mais profundo. Longe do escritório, James segurava a mão de Lily todo o tempo e, quando a deixava em seu apartamento, em Putney, despedia-se com beijos apaixonados.
O tempo voou. Quando se deram conta, tinham apenas mais uma semana juntos.
— Como você decidiu dar início aos seus negócios? — Lily perguntou uma noite quando, depois de visitarem uma das fábricas da Diggory's, descansavam na saleta da suíte de James, no hotel.
— Tudo aconteceu por pura sorte — James respondeu, enquanto abria uma garrafa de vinho. — Sirius e eu tínhamos muitas ideias, mas nos faltava dinheiro e conhecimento técnico para colocá-las em prática. Então, um fabricante de artigos para esqui me viu na televisão.
— Você estava esquiando?
— Não, comentando.
— É comentarista? — ela inquiriu, surpresa.
— Era. Houve um tempo em que eu tinha um programa de esportes, na televisão, mas abandonei a atividade há algum tempo.
— Por quê?
— Não me agradava ser famoso. Como o programa era exibido no país inteiro, eu já estava me transformando em celebridade. Acontece que detesto ser abordado por estranhos na rua, ou ser perseguido por repórteres que só querem bisbilhotar minha vida particular. Esse industrial me contratou para promover seus produtos. Sirius e eu aproveitamos a oportunidade para expor nossas ideias. O fabricante gostou, nos deu um empréstimo e espaço em sua fábrica. Então — James estalou os dedos —, abracadabra!
— Não pode ter sido tão simples! — Lily protestou, incrédula.
— Não foi — ele admitiu com um sorriso maroto. — Sendo jovens e novos no mercado, custou-nos muito sangue, suor e lágrimas conseguir reconhecimento de nossa capacidade. Agora...
— Agora, sua vida é boa?
James estendeu a mão e afagou os cabelos de Lily.
— Neste exato momento, a vida é muito, muito boa — murmurou.
Lily sentiu o coração disparar ao reconhecer nos olhos dele o brilho do desejo. Provavelmente, tratava-se do reflexo do brilho exibido por seus próprios olhos.
Então, ele se reclinou no sofá.
— Seu chefe não tem inclinação para sangue, suor e lágrimas. Gosta de ver o nome gravado na melhor vaga do estacionamento da empresa, mas se ressente de ter que ir ao escritório todos os dias.
Lily hesitou, pois sua lealdade a impeliu a mentir em defesa de Amos. Porém, James saberia que estava mentindo.
— Desde que nasceu, Amos foi designado sucessor do pai. Trata-se de uma tradição familiar, mas ele não possui real interesse pelos negócios.
— Um interesse que você, mesmo sendo uma simples funcionária, tem de sobra. Você sabe de tudo o que acontece em todas as áreas da companhia. Foi por isso que pedi que você me acompanhasse no trabalho.
— Pediu? Para mim, soou como uma ordem.
Ele sorriu.
—Tem razão. Eu exigi, pois percebi de imediato que Amos seria inútil. Você praticamente o carrega nas costas! Espero que ele esteja lhe pagando um bom salário.
— Para ser sincera, meu salário é tão alto, que seria tolice sequer pensar em mudar de emprego.
— O quê, exatamente, se passa entre vocês? — James inquiriu, estudando-a com atenção. — É evidente que são muito próximos e Amos me deu a impressão...
— Que impressão?
— De que vocês têm um envolvimento pessoal.
Lily caiu na risada.
— Não! Você entendeu mal. Trabalho para Amos já faz bastante tempo e, embora seja alguns anos mais velho que eu, é como um irmão caçula para mim.
— Um irmão caçula egoísta e petulante — James comentou, sabendo que o outro havia, deliberadamente, se esforçado para lhe dar a impressão errada.
— Às vezes — Lily concordou —, mas Amos também é gentil, amável e divertido. O pai o domina, enquanto a mãe o mima demais. É filho único e, quando nasceu, os pais já tinham idade avançada.
— Pais e mães são capazes de criar todo tipo de problemas para os filhos — James comentou, pensativo. — Bem, então, você e Amos são apenas amigos. Bom.
— Por que isso é bom?
— Porque significa que você não tem nenhum relacionamento sério.
— Como pode ter tanta certeza?
— Durante todas essas semanas, você não mencionou ninguém, nem telefonou para alguém, enquanto viajávamos. Não tenho a menor dúvida de que não lhe faltam pretendentes, mas... Existe alguém?
— No momento, não.
Embora já tivesse vinte e sete anos, Lily havia se envolvido com seriedade apenas uma vez, mas o namoro terminara mais de um ano antes.
— Ótimo! Assim você não terá nenhuma objeção a fazer amor comigo.
Lily perdeu o fôlego.
— Fazer amor? — repetiu.
— É inevitável.
— Você acha?
— Tenho certeza. — James se aproximou, retirou o copo da mão trêmula de Lily e colocou-o sobre a mesa. — Essa foi a principal razão pela qual exigi que você me acompanhasse no trabalho.
— Então, premeditou tudo isso? Você é muito sutil!
— Sou mesmo! — ele concordou com um sorriso que fez o coração de Lily derreter. Então, segurando-lhe o rosto entre as mãos, fitou-a nos olhos. — Mas você também acha inevitável acabarmos juntos, na cama. Certo?
Ela engoliu em seco. Por que mentir?
— Certo.
— Você me quer e eu quero você. Quero tanto que já não consigo pensar em outra coisa. Não faz ideia de quanto estou sofrendo.
Lily sorriu.
— Está tentando despertar a minha piedade e me fazer dar fim ao seu sofrimento?
— Seria um ato de profunda generosidade — ele murmurou, sorrindo e, então, beijou-lhe os lábios.
Atordoada de prazer, Lily se deu conta de que desejara James desde o primeiro instante. Rendeu-se ao beijo com abandono, deixando-se seduzir por aqueles lábios sensuais e experientes. Quando deu por si, estava no quarto. Parte de suas roupas encontrava-se espalhadas pelo chão.
— Você é linda, Lily — James murmurou, admirando-lhe a nudez com olhar fascinado e faminto. — Linda — repetiu com voz rouca.
Lily deu um passo à frente e, com dedos trêmulos, começou a desabotoar a camisa de James.
— Minha vez — anunciou.
Ele sorriu e ajudou-a na tarefa de despi-lo.
Inteiramente nus, os corpos colados um ao outro, deixaram-se cair na cama, perdidos em carícias e beijos. Amante terno e sensível, James sabia, assim como nos negócios, exatamente o que queria e como alcançar seus objetivos. Por isso, proporcionou a Lily um êxtase tão intenso, que ela se surpreendeu com a reação de seu próprio corpo. Jamais experimentara prazer tão profundo.
O resto da semana passou depressa, entre visitas às fábricas, leitura de relatórios e momentos de intensa paixão.
— Precisamos conversar — James anunciou durante o café da manhã, no dia de sua partida.
Ele havia deixado o hotel de luxo que Lily reservara e se instalado no apartamento dela, muito mais humilde. Naquela manhã, haviam despertado muito cedo e feito amor com desespero. Quando o despertador tocara, haviam saído para uma corrida, um hábito que James fazia questão de manter.
Na volta, James entrara no banho enquanto Lily preparava o desjejum. Porém, ao entrar no banheiro e ver a água escorrendo pelo corpo atlético, ela não resistira à tentação. Livrando-se das roupas, juntara-se a ele no chuveiro, para mais uma sessão de amor e paixão.
— Conversar sobre o quê? — ela perguntou.
— Sobre nós.
O coração de Lily deu um salto. Era loucura, mas ela se perguntou se ele a pediria em casamento. Embora só se conhecessem havia dois meses, Lily sabia que o amava. E, também, suspeitava que James havia se apaixonado por ela. A palavra "amor" não fora mencionada, nem promessas haviam sido feitas. Ainda assim, era como se fossem almas gêmeas, pois se entendiam perfeitamente e sua vida sexual era mágica.
— Sobre nós? — repetiu com um sorriso.
James era o homem pelo qual ela havia esperado a vida toda.
— Nosso relacionamento é muito... quente, mas acho que devemos esfriar os ânimos — ele falou com certa hesitação. Ensaiara seu discurso diversas vezes, mas era difícil repeti-lo, embora o instinto de autopreservação lhe dissesse ser necessário. — Como você sabe, vou recomendar a Sirius a compra da Diggory's. Isso significa que vamos nos encontrar com frequência, no futuro. Sei que soa como cliché, mas realmente acredito que negócios e prazer não devem se misturar.
O coração de Lily quase parou, mas seu sorriso se manteve firme nos lábios.
— Concordo plenamente — declarou. James se pôs de pé.
— Também não acho boa ideia deixar que nosso relacionamento se torne mais sério. Preciso ser honesto com você. Tenho verdadeiro pavor de me sentir preso a alguém. Não nasci para a vida doméstica. Gosto de ser independente, livre para ir aonde quiser, quando quiser. Gosto de poder velejar, esquiar, ou viajar a negócios sem... — parou de falar de súbito. — Você concorda? — perguntou, como se só então houvesse registrado as palavras dela.
— Sim. E nunca sequer me ocorreu que nosso relacionamento pudesse se tornar sério.
— Não?
— Claro que não! — Lily confirmara com uma risada. — Nós nos damos muito bem e essas semanas foram deliciosas, mas não creio que devêssemos pensar em nada mais duradouro. Quando à vida doméstica, também não me sinto pronta para isso. Ao menos, não por um bom tempo.
James passou a mão pelos cabelos, demonstrando surpresa e alívio. Teria esperado que ela argumentasse em contrário, ou que explodisse em lágrimas? Ora, aquela era a primeira vez que Lily levava um fora, mas nada no mundo a faria chorar.
— Você disse que chamaria um táxi para me levar ao aeroporto — ele a lembrara.
— Agora mesmo.
Ah, como fora tola!, Lily refletira, depois da partida dele. Com sua beleza máscula, inteligência e polpuda conta bancária, James era o tipo de partido que dezenas de mulheres disputariam com unhas de dentes.
No entanto, aos trinta e seis anos permanecia solteiro. Portanto, era evidente que se tratava de um solteirão convicto. Quanto a serem almas gêmeas, tudo não passara de uma ilusão infantil.
Como prova disso, um mês depois, Lily havia se deparado com uma foto de James em um jornal americano. Estava ao lado de Emmeline Vance e o artigo dizia que a atriz havia admitido que existia algo mais que amizade entre os dois.
Lily jogara o jornal no lixo, recusando-se a se entregar ao sofrimento. James Potter seria apenas mais um passo no seu processo de aprendizado sobre a vida e, com o tempo, seria esquecido.
Duas semanas mais tarde, porém, o médico confirmou a suspeita de Lily: estava grávida...
Quando Lily chegou ao Paraíso Perdido, Harry dormia profundamente. Depois de deixar o carrinho na varanda, ela entrou na cozinha.
Edith preparava o almoço, enquanto Marquise, a adolescente tagarela que limpava o restaurante e ajudava a servir os fregueses, colocava flores frescas nos vasos.
— Gostei do seu novo corte de cabelo — Edith elogiou.
— Está muito elegante — Marquise concordou. Lily sorriu.
— Obrigada. No que posso ajudar?
— Pode ir até a mansão e apanhar os copos — Edith declarou. — E, enquanto estiver lá, pode aproveitar para pedalar um pouco.
— O grupo de excursão deve chegar a qualquer momento — Lily lembrou, relutante.
Embora soubesse que teria de confrontar James mais cedo ou mais tarde, não se sentia pronta para isso.
— Os turistas vão demorar, pelo menos, uma hora. E eles são o motivo de nossa necessidade de mais copos. Marquise e eu ficaremos de olho em Harry.
Desistindo de discutir, Lily foi até seu chalé, vestiu um macacão de ginástica e shorts. Enquanto isso, planejou seu discurso. Começaria sugerindo que James certamente gostaria de vê-lo. E trataria de aparentar calma e tranquilidade. Embora desejasse criticar-lhe a atitude ausente, não poderia correr o risco de transformá-lo em um inimigo, pelo bem de Harry.
Enquanto se dirigia à mansão, Lily admirou a paisagem. Lera em um guia turístico que, ao visitar Praslin pela primeira vez, no final do século dezenove, o general Charles Gordon, herói de Khatroum, acreditara ter descoberto o Jardim do Éden, mencionado na Bíblia. Sorrindo, Lily refletiu que não era difícil compreendê-lo.
Com suas montanhas cobertas de vegetação verdejante e flores coloridas, Praslin era, sem dúvida, a mais bela das ilhas. Assim como a mais segura, lembrou-se. Ali, os crimes eram muito raros e as pessoas nem sequer pensavam em trancar as portas de suas casas.
Ao atingir os degraus de pedra que levavam à entrada da mansão, o sorriso de Lily morreu em seus lábios. Talvez o confronto se tornasse mais fácil se ela houvesse levado Harry, permitindo que o garoto usasse seu charme, que não era nada desprezível. Quem sabe o melhor a fazer fosse dar meia-volta e voltar à tarde.
Tal atitude seria uma grande covardia, além de significar voltar para o restaurante sem os copos, mas...
Lily imobilizou-se. James caminhava na esteira. Ao vê-lo pela janela, perguntou-se se haveria alguém com ele. Emmeline Vance, por exemplo. Ao pensar na atriz de corpo esguio, Lily baixou os olhos para o ventre ligeiramente protuberante. Por nada no mundo enfrentaria um encontro como aquele!
Dando a volta na varanda, foi espiar pela porta. Não havia ninguém ali, além de James. Mais tranquila, observou-o com maior atenção e notou que seu passo era irregular e incerto. Aproximando-se um pouco mais, percebeu que, do joelho para baixo, a perna esquerda apresentava-se atrofiada e deformada. Cicatrizes feias cobriam-lhe a pele. Era como se o tornozelo de James houvesse sido esmagado e reconstruído novamente, mas de maneira imperfeita.
De repente, ele a viu e praguejou baixinho. Pensara estar sozinho. Precisava ficar sozinho, pois não queria ser observado, examinado. Mais que tudo, não queria despertar a piedade de ninguém.
Saiu da esteira e apanhou a bengala que deixara apoiada na parede.
— Desde quando você tem o hábito de ficar espiando os outros? — inquiriu, irritado.
— Eu não...
— Pedi que me avisasse antes de vir! — James lembrou-a com olhar frio.
— Pediu?
— Sim.
— Desculpe. Eu me esqueci.
— Sua memória deve ser péssima!
— Você tem razão e já pedi desculpas — Lily falou com voz firme. — Não precisa ser tão agressivo. — Então, baixou os olhos. — O que aconteceu com sua perna?
— A visão lhe faz mal?
— Não.
— Duvido — James zombou com amargura.
— Está falando com alguém que passou muitas horas da adolescência nos cinemas, se assustando com alienígenas, criaturas mutantes e mortos-vivos. Se você tivesse serpentes em vez de cabelos, ou vertesse uma gosma verde pelos poros, eu certamente faria uma careta. Mas, uma perna atrofiada? Isso não é nada!
James não conseguiu conter uma risada e sua raiva se dissipou.
— Sofri um acidente de automóvel — explicou, enquanto vestia a calça jeans.
Lily sentiu uma pontada de ternura. Dezoito meses antes, James fora um atleta em sua melhor forma. Possuía um corpo perfeito. Agora... Só então, deu-se conta do que ele estivera tentando esconder.
— Era do acidente que estava falando, quando disse que teve problemas de saúde? — perguntou.
— Sim. Passei algum tempo no hospital.
— Quanto tempo?
— Quase cinco meses. Minha perna foi esmagada e não foi fácil recuperá-la. A certa altura, os médicos chegaram a falar em amputá-la.
— Ah, não!
— Foi exatamente a reação que tive.
— Deve ter sido um acidente muito grave.
— Sim, dos piores — James confirmou e Lily reconheceu uma sombra de tormento em seus olhos cinzentos. — O carro saiu da estrada, atravessou um riacho e bateu contra uma grande rocha. A lataria ficou totalmente destruída. Minha perna ficou presa nas ferragens e meu pé, praticamente dobrado ao meio, sob um pedal. Estávamos a uma boa distância da cidade mais próxima. Por isso, apesar de o motorista do automóvel que vinha logo atrás ter telefonado imediatamente para o serviço de resgate, o socorro demorou um pouco a chegar. Então, ainda tiveram de cerrar as ferragens com todo cuidado para me tirarem de lá. — James contou, enquanto secava o suor com uma toalha.
— Você estava dirigindo?
— Sim.
— Alguém mais se feriu?
— Emmeline ficou abalada, mas não sofreu nem um arranhão. E, felizmente, nenhum outro veículo foi envolvido. Emmeline é Emmeline Vance...
— A atriz — Lily completou, desejando que ele acabasse logo de se secar e vestisse uma camisa, pois a visão do peito largo e dos ombros fortes estava provocando reações indesejáveis em seu corpo. — Eu sei. Vi uma fotografia de vocês dois juntos, no jornal. Por outro lado, não li nada sobre você ter sofrido um acidente, nem ouvi nenhum comentário na Diggory's. Amos não disse nada, assim como Arthur Weasley.
Arthur Weasley era o americano de meia-idade que fora enviado para gerenciar a companhia. Embora James houvesse garantido que ele e Lily voltariam a se encontrar, isso nunca acontecera. Ela jamais soubera se ele optara por se manter distante, ou se estava envolvido em outras negociações. Arthur Weasley assumira o controle da Diggory's e, apesar de manter o legado do nome respeitado no mercado, passara a revitalizar as vendas e superar a concorrência.
— Eu não queria que a imprensa tomasse conhecimento do acidente. Por isso, pedi à minha família e amigos que guardassem segredo. Arthur sabe de tudo, assim como o pessoal de Boston, mas imagino que não tenha contado nada a Amos. Sei muito bem que os dois estão muito longe de serem amigos. Amos não conseguiu superar a mágoa provocada pela decisão do pai de entregar o controle da companhia para outra pessoa. — Mantendo o tom casual, Lily mudou de assunto.
— Emmeline está com você, agora?
— Não — James respondeu de cenho franzido. — Foi um relacionamento breve.
— Como o nosso.
Fez-se um momento de silêncio, antes que ele replicasse:
— Acho que sim.
— Trouxe uma nova namorada para cá?
— Quem você pensa que eu sou? Don Juan? Não, estou sozinho. Imagino que você tenha vindo buscar os copos e... — Parou de falar e deixou os olhos passearem pelo corpo de Lily. Além de ter quase destruído sua perna, o acidente parecera ter abalado sua libido, também. Agora, porém, seus hormônios estavam em ebulição. — Para fazer exercícios?
— Bem... sim.
— Fique à vontade. Vou procurar os copos. Apoiando-se na bengala, James desapareceu por uma porta. Lily tirou o short e começou a pedalar, perguntando-se se ele usara a bengala na véspera, para ir ao restaurante. Então, franziu o cenho. Se não houvera outro veículo envolvido, como o acidente acontecido? Nos passeios que haviam feito juntos e nas visitas às fábricas, haviam se revezado ao volante e James provara ser um motorista habilidoso e consciente, mesmo tendo de dirigir no lado esquerdo da pista.
Pedalando mais depressa, Lily admitiu para si mesma que, por mais que desejasse odiá-lo, não conseguia. James era inteligente, divertido e incrivelmente sexy. Aliás, essas haviam sido as razões pelas quais ela se apaixonara por ele. E, agora, sentia profunda simpatia.
— Não encontrei uma caixa — ele anunciou, ao voltar com os copos em uma sacola de plástico —, mas acho que estão seguros, aqui. Eu os embrulhei em panos de prato e...
Ao dar o passo seguinte, a perna de James cedeu sob o peso de seu corpo e ele tombou para a frente. Com um movimento rápido, Lily pulou da bicicleta, postou-se diante dele e espalmou as duas mãos em seus ombros.
— Cuidado! — exclamou, enquanto tentava lhe devolver o equilíbrio.
Seus olhares se encontraram e, no mesmo instante, ambos tomaram consciência da proximidade de seus corpos. Rapidamente, Lily deu um passo para trás, apanhando a sacola de plástico das mãos dele.
— Você está bem? — perguntou.
— Sim. Devo ter tropeçado em alguma coisa.
— Provavelmente — Lily concordou, embora não acreditasse em tal possibilidade. — Vou buscar a sua bengala.
— Não é necessário — James retrucou em tom rude.
— Tudo bem, mas não precisa ser grosseiro!
— Desculpe. Tem razão. Acho que preciso da bengala. Deixei-a na porta da cozinha.
Lily deu-se conta de que o homem que, antes, se sentira tão à vontade consigo mesmo e com o mundo havia perdido o seu referencial. Embora não admitisse, James ainda não superara o trauma causado pelo acidente.
— Devem estar sentindo a sua falta, no trabalho — comentou, ao voltar com a bengala.
— Não muita. Dois de meus assistentes assumiram o meu trabalho, enquanto eu estava no hospital, e provaram sua capacidade e eficiência. Estão no controle de novo. Cheguei a voltar para o escritório, mas era cedo demais e, agora, meu médico insiste em que devo relaxar e me concentrar em fortalecer minha perna, durante uns dois meses. Então, voltarei ao normal e poderei retomar a vida que tinha antes.
Lily estudou-o por um longo momento. A quem ele estava tentando enganar? James jamais retomaria a vida ativa de antes.
— Já terminou seus exercícios? — ele perguntou.
Ela consultou o relógio e descobriu que já era quase meio-dia.
— Não, mas preciso ir. Hoje é dia de recebermos o grupo de excursão e preciso ajudar a servir. — Lily hesitou. Planejara conversar com James sobre Harry, mas a surpresa provocada pela perna ferida afastara o assunto de sua mente. — Além disso — acrescentou com calma aparente — preciso alimentar o bebê.
James franziu o cenho.
— Que bebê?
— Harry... meu filho.
O silêncio se arrastou por um longo momento.
— Amos fez comentários, mas achei que, mais uma vez, estava fantasiando — ele comentou, devagar.
Raras vezes em sua vida, James sentira ciúme. Agora, porém, o sentimento parecia estar abrindo um buraco em seu peito. Como fora tolo ao terminar seu relacionamento com Lily!
— Amos? — ela repetiu, confusa.
— Conversei com ele por telefone, no final do ano. Liguei para saber como você estava passando...
— Ele não me contou.
— Disse que você havia se mudado para o apartamento dele.
Lily assentiu.
— O proprietário do apartamento que eu alugava decidiu, de repente, vender o imóvel. Como Amos tinha espaço sobrando, sugeriu que eu me mudasse para lá.
— Havia espaço suficiente para você e... Harry?
— Sim.
— Harry... o filho dele — James murmurou, pensativo. — Você precisa ir.
Lily fitou-o, atordoada e confusa. Harry... filho de Amos? Do que ele estava falando, afinal?
— Ir? — repetiu.
— Sim, precisa alimentar o bebê e ajudar a servir os turistas.
— Ah, sim... Certo.
Como se não enxergasse o que fazia, Lily vestiu o short e apanhou a sacola com os copos.
— Até mais — James despediu-se.
— Até mais — Lily replicou, antes de sair.
Aqui está mais um capítulo. Espero que vocês gostem.
Guest: Não foi nesse capítulo que o James descobriu sobre o Harry, mas espero que você tenha gostado.
