Reluctant Father! pertence a Elizabeth Oldfield.


CAPÍTULO III

O olhar de Lily se desviou da expressão chocada de Edith, sentada a uma extremidade da mesa, para o sorriso largo de Edgar Bones. A única maneira garantida de alguém se esquecer prontamente de seus próprios problemas, pensou, era se ver diante de um problema maior, de outra pessoa.

Como Harry havia dormido a noite inteira, enquanto ela permanecera acordada, a maior parte do tempo, tentando compreender as palavras de James, Lily se levantara tarde, naquela manhã. Depois de alimentar Harry enquanto tomava seu próprio desjejum, havia se ocupado da contabilidade do restaurante. Então, passara mais de uma hora brincando com o filho, até que os olhos do garotinho começassem a se fechar. Em seguida, fizera-o dormir e, quando considerava a ideia de fazer uma limpeza no bar, Edgar chegara.

O pedido dele por uma reunião imediata fizera Lily sentir profundo alívio. Finalmente, calculara, o dinheiro havia sido transferido. Porém, poucos minutos depois, seu alívio se dissipava.

— Você não pode fazer isso! — Edith protestou, dirigindo-se a Edgar, antes de voltar a encarar Lily. — Ele não pode fazer isso, pode?

Lily pousou a mão sobre a dela, desejando poder oferecer mais do que um mero gesto de conforto.

— Posso, sim — Edgar declarou. — Não possuo uma fábrica de dinheiro e seria idiota se pagasse mais.

— Eu não... — Edith começou a falar, apenas para ser interrompida.

— É pegar ou largar.

— O Paraíso Perdido é um lugar charmoso, além de ter excelente localização — Lily interferiu. — Os chalés precisam de reformas, mas...

Edgar se levantou.

— Voltarei amanhã.

Lily também se pôs de pé.

— O que está fazendo é antiético.

— Negócios são negócios.

— Isso não é negócio. É jogo sujo!

Ele passou um braço em torno da cintura de Lily.

— Ora, ora, querida Lily, não leve esse assunto para o plano pessoal — murmurou.

— Solte-me — ela ordenou com firmeza.

— Querida...

— Solte-me!

Ainda sorrindo, Edgar obedeceu.

— Gostaria de conhecê-la melhor — anunciou.

— E eu gostaria que você agisse com maior honestidade! Ele olhou por cima do ombro de Lily e falou:

— Você tem um visitante. Estarei aqui amanhã, às cinco e quinze, para ouvir a sua resposta.

Então, se foi.

Aflita, Lily se perguntou o que fazer. Prometera ao tio ajudar Edith, mas permitira que a mais velha caísse em uma armadilha perigosa.

De repente, lembrou-se da referência a um visitante e virou-se. Deparou com James que, apoiado na bengala, entrava no restaurante.

Lily massageou as têmporas, tentando afastar a dor de cabeça que se iniciara havia pouco. O dia não estava indo muito bem e, no momento, ela não se sentia disposta a confrontar James.

Porém, ao vê-lo alcançar os degraus, um instinto a impeliu a ajudar.

— Não preciso de enfermeira — ele reagiu com irritação, fazendo Lily recuar, sem dizer nada. — Quem era o sujeito com quem estava abraçadinha?

— Edgar Bones, mas...

— O interessado em comprar o Paraíso Perdido? Pensei que... — James parou de falar ao perceber Edith sentada a uma mesa no fundo do restaurante, de ombros vergados e olhos vermelhos. — Algo errado?

— Tudo! — ela respondeu, sem esconder as lágrimas.

— Quando Edgar apareceu, pensamos que tinha vindo fechar negócio — Lily explicou. — Mas, na verdade, ele veio nos dizer que, embora o dinheiro esteja disponível, ele não pretende pagar o preço estabelecido.

— Quanto ele está oferecendo? — James inquiriu.

— Metade.

— Uma redução e tanto.

— Chega a ser um insulto! — Lily protestou. — Antes de colocar a propriedade à venda, Oscar pediu que fosse avaliada. O preço estabelecido foi o que os avaliadores determinaram.

James sentou-se diante de Edith.

— Esse tal de Edgar já não tinha concordado em pagar o preço pedido?

— Sim — Lily respondeu —, mas quando mencionei nosso acordo anterior, ele disse que não assinou nenhum documento contendo o valor combinado.

— E isso é verdade?

— Não posso dizer com certeza, antes de consultar os advogados, mas Edgar é bastante esperto. Ele sabe que, mesmo tendo o direito de processá-lo, Edith não tem condições de tomar nenhuma atitude drástica.

— É verdade — Edith confirmou entre lágrimas.

— Perguntei a Edgar se ele ainda está interessado em comprar a propriedade — Lily explicou —, ou se essa é a sua maneira de sair do negócio. Ele respondeu que quer comprar, mas ao preço justo.

— Disse que o preço justo é cinquenta por cento, e sorriu enquanto falava! — Edith lembrou, indignada. — Também falou que eu deveria me sentir grata!

— Grata? — James repetiu.

— Edgar alega que ninguém mais se interessaria em comprar o Paraíso Perdido — Lily falou. — E advertiu Edith para que aceite a oferta, antes que ele decida que cinquenta por cento é demais.

— Ele nos deu vinte e quatro horas para decidir — Edith murmurou com olhar perdido. — Talvez eu deva aceitar e...

— Não! — James protestou com veemência.

— Pode ser pouco, mas é melhor do que nada. E eu preciso do dinheiro — ela declarou com um soluço, antes de se levantar. — Está na hora de cuidar das panelas.

Com isso, Edith desapareceu na cozinha.

— Esse sujeitinho está aplicando um golpe barato — James concluiu.

Lily assentiu.

— E eu deveria ter percebido as intenções dele desde o início — murmurou, sentindo-se culpada. — Agora, é evidente que a dificuldade para transferir o dinheiro era mentira e que, durante as últimas quatro semanas, Edgar tratou de se certificar de que era mesmo o único interessado.

— Lamento dizer que você está certa.

— Em vez de considerar o negócio praticamente fechado, eu deveria ter procurado os advogados e me inteirado de detalhes. Além disso, deveria ter exigido maiores informações sobre Edgar.

— Você não tem culpa se o sujeito é um oportunista — James declarou, passando um dedo pelo rosto de Lily. — Portanto, pare de se castigar pelo que aconteceu.

— Mas eu deveria ter sido menos ingênua! — ela insistiu, perturbada pelo contato suave.

— Em se tratando de um profissional, como está óbvio que ele é, seria impossível saber. Edgar colocou vocês em um beco sem saída. Só nos resta fazer o mesmo com ele.

— Como?

James se recostou na cadeira. A partir do momento em que se certificara de que Lily não tinha qualquer intimidade com o sul-africano, James fora tomado por uma profunda necessidade de tocá-la.

Porém, ao fazê-lo, havia se sujeitado a uma estranha agonia. Ainda assim, de maneira perversa, sentia o contato, bem como o impulso de confortá-la, como sendo a coisa mais natural do mundo.

— Quando ele voltar, amanhã, diga-lhe para pegar os cinquenta por cento e... por falta de expressão melhor, guardá-los. Isso vai acabar com o blefe.

— E se ele não estiver blefando? — Lily argumentou, preocupada. — Se Edith perder a oportunidade de vender, pode demorar muito tempo para aparecer outro comprador. Afinal, não é qualquer pessoa que se interessa em ser dono de uma pousada como esta.

— Só um maluco? — James sugeriu com um sorriso maroto.

Lily também sorriu.

— Talvez. Edgar nunca me pareceu muito normal!

— Ele não tem nada de maluco. Muito pelo contrário. E um patife de duas caras, aplicando um golpe sujo. Mas nem tudo está perdido, pois podemos forçá-lo a beber do próprio veneno.

Lily limitou-se a fitá-lo com expressão de gratidão. Por ter trabalhado com ele antes, sabia que poderia confiar no julgamento de James. Era mesmo muita sorte poder contar com ele em um momento como aquele.

— Por que Edith está tão desesperada pelo dinheiro? — ele perguntou.

— Porque comprou uma casa em Grand Anse e...

— Grand Anse é a vila à beira-mar pela qual passei, quando vim do aeroporto para cá?

— Sim.

— E Edith comprou a casa, contando com o dinheiro de Edgar?

— Exatamente.

— Como você permitiu tamanha tolice? Pensei que fosse mais esperta, Lily! Afinal, a primeira tentativa de venda foi um fracasso.

— Não permiti coisa alguma! — Lily se defendeu, magoada pelo tom de crítica. — Edith fez o negócio sem me consultar, antes mesmo de eu chegar na ilha. Pelo que entendi, ela sempre gostou daquela casa e, assim que recebeu a oferta de Edgar, tratou de obter um empréstimo bancário.

James resmungou um palavrão.

— Edith é muito inocente — Lily continuou. — Aparentemente, acreditou que o dinheiro da venda do Paraíso Perdido se materializaria em uma ou duas semanas. É claro que já teve de pagar a primeira parcela do empréstimo, o que ocasionou um verdadeiro rombo em sua conta bancária. Ela não vai conseguir pagar as próximas prestações e, se colocar a casa à venda, provavelmente também vai demorar para encontrar comprador.

— Mesmo assim, você deve dizer a Edgar que a proposta de cinquenta por cento é inaceitável e que o Paraíso Perdido só será vendido pelo preço integral. Trata-se de um jogo e nada é garantido, mas...

— É o que você faria?

— Sim.

— Então, darei um jeito de convencer Edith.

James ergueu uma sobrancelha.

— Acha que ela vai concordar?

— Provavelmente — Lily respondeu com um sorriso.

— Pelo que estou percebendo, Edith depende de você para tudo, assim como Amos — ele comentou com uma careta. — A propósito, Edgar sempre se veste como se houvesse acabado de sair de uma loja?

— Sim. Ao menos, estava vestido assim todas as vezes em que o vi. — Lily baixou os olhos para a bermuda desfiada que estava usando. — Ele me faz sentir uma desleixada.

— Uma desleixada muito desejável.

O comentário trouxe à tona lembranças perturbadoras do passado e Lily tratou de mudar de assunto.

— O que o trouxe aqui?

— Vim para o almoço.

— Ah... — ela murmurou, sem conseguir esconder a decepção, pois chegara a acreditar que ele fora até ali para conhecer o filho.

— Vejo que não ficou muito entusiasmada. Sei que não sou santo e que tenho meus defeitos, mas não sou tão mau assim.

— Não?

— Não. Minha encomenda de mantimentos chegou e, agora, tenho o suficiente para me alimentar em casa, mas você mencionou que Edith é boa cozinheira e decidi experimentar.

Virando-se, James se pôs a ler o cardápio escrito a giz em um pequeno quadro negro ao lado do bar. Fora até ali porque sentira uma necessidade insuportável de ver Lily, mas nada o faria confessar tal segredo.

— Estou em dúvida entre o frango ao curry e o peixe ao molho de tomate. Qual dos dois recomenda? — perguntou.

— Os dois.

— Você não ajuda muito! Veja, seus fregueses estão chegando.

Lily virou-se e reconheceu o carro alugado de Hestia.

— Veja quem encontrei no caminho — a loira anunciou entre risinhos, arrastando Jules pelo braço. — Meu barman favorito!

O jovem se desvencilhou dela.

— Infelizmente, serei obrigado a abandonar a minha freguesa favorita e cuidar do bar — declarou, antes de desaparecer na cozinha, revirando os olhos.

— Até mais tarde — Hestia despediu-se, animada e, em vez de se dirigir à sua mesa habitual, bem próxima ao bar, aproximou-se de Lily, embora fixasse o olhar interessado em James. — Bom dia.

— Olá — ele replicou.

— Esta é Hestia Jones — Lily apresentou-a.

— Vai almoçar aqui? — a morena perguntou a James.

— Vou.

— Sozinho?

— Sim.

— Eu também — ela o informou com um sorriso colegial. Posso me sentar com você?

James virou-se para Lily com uma mensagem clara no olhar: "Livre-me dessa, pelo amor de Deus!"

Lily exibiu um sorriso largo. Embora ele não fosse o completo vilão que ela havia imaginado, James a conquistara, a levara para a cama e, então, lhe dera o fora.

— Tenho certeza de que vocês vão se dar muito bem — declarou.

Os dois pediram salada de lagosta, mas enquanto Hestia apenas petiscava, James devorou seu prato e pediu a conta. Ao entregar o dinheiro a Lily, lançou-lhe um olhar furioso.

— Seu troco, senhor — ela gritou, ao vê-lo sair.

— Fique com ele — James retrucou sem olhar para trás. Lily riu baixinho. Durante o almoço, Hestia falara sem parar, flertando com ele ostensivamente. Ao mesmo tempo, parecera não se dar conta de que o interesse era unilateral.

— Sujeito simpático — elogiou, sentando-se ao balcão do bar e segurando a mão de Jules. — Mas você é muito mais simpático.

Embora o barman guardasse silêncio, Lily poderia jurar que o ouvira gemer.


Depois de acomodar o monitor da babá eletrônica na areia, Lily se sentou de frente para o mar. A lua cheia e os milhões de estrelas, além da brisa agradável, tornavam a noite perfeita.

Cansada, abraçou as pernas e apoiou o queixo nos joelhos. Fora um dia cheio. Edgar Bones havia lançado sua bomba sobre Edith, Hestia passara o dia todo no Paraíso Perdido, brincando com Harry e, mais tarde, infernizando Jules, um grande grupo de turistas decidira jantar no restaurante e beber cerveja até tarde. Agora, Lily tentava se concentrar em descobrir a melhor maneira para informar James quem era o verdadeiro pai de seu filho.

Durante dezoito meses, acreditara ser ele um monstro sem coração, mas acabara descobrindo que James simplesmente não sabia sobre o bebê. Por quê?

Lily havia enviado duas cartas. A primeira, informando-o sobre sua gravidez, fora levada por Amos, em uma de suas visitas comerciais a Boston. A segunda, descrevendo o recém-nascido forte e saudável, fora endereçada para o escritório da Potter-Black, com um selo "confidencial" no envelope. Ela havia calculado que James não quisera ler as cartas de uma mulher por quem já não estava interessado.

A ausência de resposta havia lhe parecido um sinal claro de que ele não queria saber dela, ou do bebê. Agora, já não tinha tanta certeza.

E, ainda, tinha de descobrir que tipo de comentários Amos fizera, insinuando ser ele mesmo o pai da criança.

Lily se perguntou como James reagiria à revelação.

Ao mesmo tempo em que desejava ardentemente que pai e filho tivessem um relacionamento íntimo e constante, a ideia de ter de falar e se encontrar com James com frequência não era nada atraente. Se, um dia, ele decidisse, se casar, ela talvez tivesse de ser apresentada à felizarda! Ainda assim, Lily sabia que, pelo bem de Harry, seria capaz de exibir um sorriso brilhante e agir com civilidade.

Um ruído na água arrancou-a de seus pensamentos. Estreitando os olhos, Lily se deu conta de que alguém nadava, à luz do luar. Quando o nadador se aproximou da praia, ela o reconheceu. Era James.

Rapidamente, calculou que ele a vira e que não haveria tempo para fugir. Assim, permaneceu exatamente onde estava. Poucos minutos depois, Lily sentia o coração disparar. Saindo da água com apenas um diminuto calção de banho, com gotas prateadas escorrendo preguiçosamente pela pele bronzeada, James mais parecia um deus do mar.

— A água está ótima — ele comentou, ao se aproximar.

— Só esta praia é boa, deste lado da ilha. As demais são repletas de algas e corais — Lily explicou. — Só o vi há pouco. Faz tempo que está nadando?

— Mais ou menos meia hora. Fui até o outro lado das pedras.

— Sozinho, a esta hora? É perigoso! Poderia ser atacado por cãibras, ou ter se deparado com um tubarão!

— Se algo assim acontecesse, você se importaria?

— Claro — ela respondeu, embaraçada por ter demonstrado tamanha preocupação. — Afinal, você é um ser humano.

— Ora, obrigado!

— Também poderia ter sofrido de indigestão — Lily acrescentou com um sorriso maroto. — Praticamente, engoliu o seu almoço sem mastigar.

— Sobrevivi a isso, também — James declarou em tom seco, apanhando a toalha que deixara sob um arbusto. — Embora Hestia seja capaz de matar qualquer um de tédio. Não só fala como uma metralhadora, mas também é uma verdadeira devoradora de homens.

— Ficou com medo?

— Apavorado.

Lily soltou uma risada.

— Foi por isso que foi embora tão depressa?

— Foi.

— Hestia realmente exagera no assédio aos homens, mas acabou de se divorciar e está muito solitária.

— Muito bem, compreendo o fato de ela estar atravessando uma fase difícil, mas eu me recuso a almoçar com ela novamente. Fui claro?

— Claríssimo! Sua perna dói? — Lily perguntou, mas logo notou a tensão tomar conta dele. — Desculpe. Acho que fiz uma pergunta idiota.

Depois de fitá-la por um momento, James respondeu:

— Sim, dói um bocado.

— E, mesmo assim, nadou por meia hora?

— Foi a primeira vez que consegui nadar por tanto tempo, desde o acidente.

— Costuma nadar, em casa?

James sentou-se ao lado dela.

— Meu médico recomendou a natação, mas...

— Você não obedece porque não tem piscina em casa e acha que a visão de sua perna vai fazer os outros banhistas saírem correndo e gritando — Lily completou.

— Precisa ser tão detalhista? — ele inquiriu, irritado.

— Sinto muito, mas não consigo evitar.

— Fui ao clube algumas vezes, mas percebi que as pessoas ficavam espiando e que aqueles que me reconheciam lançavam olhares piedosos, lamentando que uma tragédia tão grotesca fosse acontecer justamente com um esquiador de tanto sucesso.

— Então, você se sentiu constrangido e não voltou a nadar? Bobagem!

— Aprecio a sua franqueza.

— Mentira. Acha que estou me metendo onde não fui chamada e está furioso.

— Não estou furioso, mas gostaria de mudar de assunto. Está pensando em nadar?

— Não. Vim para cá porque estava sem sono e queria pensar.

— Edith está cuidando do bebê?

— Não. Eu trouxe a babá eletrônica — Lily explicou, apontando para o monitor a seu lado. — Se ele chorar, estarei no chalé em questão de segundos.

— Quando me falou sobre sua vinda para Seychelles, você disse que queria mudar de ares — James lembrou. — Estava tentando se afastar de Amos?

— Sim.

Depois de um dia como aquele, Lily não se sentia disposta a dar a notícia a James. Preferia esperar por um momento tranquilo, quando seria mais fácil escolher as palavras certas.

— Vocês dois tiveram uma briga? — ele inquiriu.

— Não exatamente. Ainda somos amigos, mas quando eu voltar, o que só vai acontecer depois que o Paraíso Perdido for vendido, conforme prometi a Edith, vou me mudar para o meu próprio apartamento.

— O caso de vocês está terminado?

— Nunca houve nada entre mim e Amos. James ergueu a cabeça de súbito, o olhar alerta.

— Não?

— Não. Amos se mostrou ansioso para me ter como colega de apartamento, com meu próprio quarto, quando engravidei. Mas, assim que Harry nasceu, o entusiasmo dele se dissipou.

— Amos não gostou de ser acordado no meio da noite?

— Ele detestou a experiência, assim como não gostou de ouvir o bebê chorar durante o dia, nem de ver a cozinha repleta de louça por lavar. Amos sempre cuidou muito bem da casa e quando Harry cresceu um pouquinho e começou a mexer nas coisas, babar e, às vezes, vomitar no carpete, Amos foi ficando mais e mais incomodado. Por isso, quando eu voltar para a Inglaterra, ficarei na casa de meu pai, em Cambridge, temporariamente.

— Temporariamente?

— Tenho algum dinheiro guardado e pretendo comprar uma casa em Devon, à beira-mar, e abrir uma pequena pousada. Assim, Harry poderá ficar comigo o tempo todo. Ele é a minha prioridade.

— Quer dizer que se demitiu da Diggory's?

— Pedi demissão há seis semanas, antes de vir para cá.

— Bem que desconfiei que você não estava exatamente de férias — James comentou com um sorriso.

— Depois que Harry nasceu, concordei em trabalhar meio período, por insistência de Amos, mas sempre detestei a ideia de deixar meu filho no berçário.

— Amos queria que você continuasse trabalhando porque reconhece a própria incompetência.

Lily assentiu.

— Não vai ser fácil para ele, cuidar dos negócios sozinho.

— Talvez ele decida deixar a companhia... para profundo alívio de todos.

— É possível. Amos mencionou o desejo de fazer um curso de decoração, embora o pai vá ficar furioso se não houver mais nenhum Diggory na Diggory's — Lily concluiu com um sorriso maroto.

— Seu pai vai gostar de ter você por perto, ao menos, por algum tempo — James falou, lembrando-se de que Lily lhe contara sobre o pai viúvo, que morava sozinho.

— Ah, vai, embora vá se esquecer de que estou ali, pela metade do tempo — ela corrigiu com um sorriso carinhoso. — Papai é o típico professor distraído.

— Ele voltou a se casar?

— Não! Ele e mamãe eram muito devotados um ao outro. Agora, papai é devotado à memória dela. Acho que sempre será.

Apesar de já fazer dez anos que a mãe de Lily havia morrido, o pai jamais manifestara o menor desejo de se unir a outra mulher.

— Seu pai é diferente do meu — James falou com expressão tensa. — Meu pai teve três esposas, sendo minha mãe a primeira, e uma coleção de namoradas nos intervalos. Quando eu o visitava, na infância, nunca sabia quem viria me receber na porta.

— Eu não sabia — Lily murmurou, surpresa.

— Quando ficamos juntos, não costumávamos falar sobre nossas famílias. Conversávamos sobre trabalho e fazíamos amor. Era demais!

— Era, pelo pouco tempo que durou — Lily replicou em tom seco.

— Deveria ter durado mais — James murmurou, afagando-lhe a mão. — Eu gostaria que tivesse durado.

— Ora, não me venha com esse tipo de conversa!

— Não acredita? Pois, deveria — ele declarou e se inclinou para beijá-la.

O toque dos lábios de James provocou uma corrente elétrica que percorreu todo o corpo de Lily, fazendo cada partícula de seu ser tomar vida. Ela estremeceu, sentindo o reconhecimento instantâneo de seus corpos. Ergueu as mãos na intenção de empurrá-lo, mas naquele exato momento o beijo tornou-se mais intenso.

O sangue ferveu em suas veias e suas mãos imobilizaram-se. Dezoito meses antes, James fora capaz de excitá-la com facilidade surpreendente. Agora, estava obtendo o mesmo efeito. Lily nunca mais fizera amor, desde sua última vez com ele. Apesar de atordoada e frustrada por descobrir que ainda desejava aquele homem, viu-se obrigada a admitir para si mesma que ainda o amava.

— Você também não acha que deveríamos ter ficado juntos por mais tempo? — ele perguntou, quando finalmente interrompeu o beijo.

Por nada no mundo Lily confessaria quanto sofrera pelo término precoce daquele relacionamento.

— Você só pode estar brincando! — exclamou. James fitou-a em silêncio. Então, com gestos delicados, forçou-a a deitar-se na areia, inclinou-se sobre ela e voltou a beijá-la. Como se tivessem vida própria, as mãos de Lily deslizaram pelos ombros dele, até pousarem em sua nuca. Embora soubesse que sua submissão contradizia o que acabara de dizer, além de não fazer o menor sentido, ela se descobriu incapaz de reagir.

Ao sentir a mão dele sobre um de seus seios, estremeceu, ao mesmo tempo em que uma onda de calor tomava conta de suas entranhas, tornando o desejo quase insuportável.

— Não estive imaginando coisas — James declarou ao descolar os lábios dos dela.

— O que disse? — Lily indagou, abrindo os olhos.

— Cheguei a me perguntar se não estaria exagerando em minhas lembranças da química entre nós dois. A resposta é não.

— Não?

— Não. Trata-se de uma química poderosa, que ainda exerce seu efeito, como antes. É como se...

— Mááá!

Ao ouvir o grito metálico que soou a poucos metros de onde estavam, Lily deu um pulo. James virou-se.

— Que diabos...

— É Harry — ela falou apressada, pondo-se de pé. — Ele está chorando.

O que estivera fazendo, afinal? Enquanto limpava a areia da bermuda, Lily concluiu que fora um misto de solidão, desejo contido e... sim, amor, o que a levara a um comportamento tão absurdo. Mas, como era mesmo o ditado? "Gato escaldado tem medo de água fria". Ora, seria possível que ela não houvesse aprendido nada de seus erros anteriores? Não havia jurado que seu ex-amante seria mantido a distância e que seu relacionamento se manteria em terreno neutro?

— Ele não me parece nem um pouco feliz — James comentou ao ouvir um segundo grito. — Está com fome?

— Acho que não. Harry se vira de barriga para baixo, mas ainda não aprendeu a desvirar. Então, acorda, descobre que não tem como se mover e chora. Provavelmente, é o que está acontecendo agora. Preciso entrar — Lily explicou, apanhando a babá eletrônica.

— Vou com você até o chalé. Harry não poderia ter escolhido momento mais perfeito.

— Como? — Lily inquiriu, fitando-o pelo canto do olho.

— Com seu choro potente, seu bebê nos impediu de ir adiante, de...

— Já entendi — ela o interrompeu.

Assim como entendia que James também se arrependera do breve interlúdio. Assim como ela, fora tomado pela atração física, mas agora se sentia aliviado por ter tido uma chance de escapar.

— Ele me parece bastante zangado — James comentou, quando chegaram ao chalé.

Com um sorriso maroto, Lily assentiu em concordância. Durante os poucos minutos que haviam transcorrido até então, os gritos de Harry haviam aumentado em frequência e volume.

— Boa noite — ela se despediu e entrou.

Com passos rápidos, atravessou a sala escura e entrou no quartinho minúsculo, onde a luz suave de um abajur iluminava o berço de pinho. Dentro dele, o bebê, de bruços, agitava braços e pernas em uma tentativa inútil de se libertar da posição incômoda.

— Está tudo bem, pipoquinha — Lily murmurou com voz carinhosa. — Mamãe está aqui.

Quando o retirou do berço, Harry emitiu um último soluço e se acalmou. Por alguns momentos, ela se limitou a desfrutar da deliciosa sensação de ter o filho nos braços. Então, depois de beijar-lhe a testa, inclinou-se para devolvê-lo ao berço.

— Agora, trate de dormir de novo — sussurrou, embora o garotinho emitisse um protesto indignado.

Estava embalando Harry para fazê-lo dormir, quando se deu conta da presença de James, parado na porta. A constatação inesperada agitou-lhe as emoções.

— O que você quer? — inquiriu em tom rude.

— Entrei para lhe dizer que se quiser fazer exercícios amanhã de manhã, apareça...

As palavras morreram em seus lábios. Embora não entendesse nada sobre bebês, James esperara encontrar uma criança muito pequena e indefesa. Aquele, porém, era um garoto forte e saudável, já capaz de manter as costas eretas. Além disso, Amos Diggory tinha cabelos loiros, enquanto o garotinho era moreno... como ele.

— Que idade ele tem? — perguntou a queima-roupa. Com o coração aos saltos, Lily constatou que não teria a chance de esperar pelo momento adequado para fazer a grande revelação da melhor maneira possível, conforme havia planejado.

— Nove meses.

James fitou-a por um longo momento. Então, olhou para o bebê e voltou a encará-la. Sua mente mergulhou em um caos de ideias e emoções.

— Meu Deus! — murmurou, afinal. — Ele é meu filho.

Lily engoliu em seco.

— Sim.

Ele voltou a olhar para Harry. Só depois do que pareceu uma eternidade, voltou a falar:

—Por que não me contou? Tenho um filho, mas durante nove meses você o escondeu de mim. Nem sequer tentou me informar de que sou o pai. Como pôde fazer isso?

O tom de voz rude e furioso assustou Harry, que começou a chorar.

— Calma, pipoquinha, calma — Lily apressou-se em murmurar, aconchegando o filho contra o peito. — Informei você, sim! — sussurrou, igualmente furiosa. — Escrevi duas cartas. Lembra-se?

— Nunca recebi carta nenhuma.

— Não as rasgou?

— Não.

— Tem certeza? — ela desafiou.

— Absoluta.

— Bem, eu as enviei para você — Lily insistiu, embalando Harry, que parecia se recusar a parar de chorar. — Mandei a primeira...

— Esqueça — James interrompeu. — Não conseguiremos conversar agora. Vá até a mansão, amanhã e leve o bebê.


Revelação bombástica. James descobriu que é pai e quer explicações de Lily.

Queria agradecer ao review de Shaene.

Espero que vocês estejam gostando da história e até o próximo capítulo.