Reluctant Father! pertence a Elizabeth Oldfield.
CAPÍTULO IV
— Cuidado com as orelhas — Lily advertiu. Então, enfiou a blusa pela cabeça de Harry e ajeitou-lhe os bracinhos pelas mangas. Segurando-o pelas mãos, colocou-o de frente para o espelho.
— Veja só, que gatão! — elogiou com um sorriso.
O garotinho agitou-se e emitiu gritinhos de alegria, em sua roupinha que imitava o uniforme de um marinheiro.
— Como o sol está muito forte, vai ter de usar isto — Lily falou, encaixando o pequeno boné de beisebol na cabeça do filho.
Imediatamente, Harry ergueu a mãozinha para tirá-lo. Assim, Lily repetiu a ordem, ao mesmo tempo em que lhe entregava um carrinho de plástico a fim de distraí-lo. Deu certo.
Como era dia de excursão, depois do café da manhã, Lily havia arrumado as mesas, ajudado a lavar verduras e preparado uma imensa travessa de salada de frutas. Cumpridas suas tarefas, informara Edith de que precisava falar com James.
— Voltarei bem antes do meio-dia — afirmara.
— Mas, agora, vai trocar de roupa, não vai? Lily baixara os olhos para as roupas largas.
— Claro!
Edith soltara uma risada maliciosa.
— Foi o que pensei. Vocês dois parecem um tanto... íntimos.
— Nós nos conhecemos há muito tempo — Lily explicara em tom vago, antes de sair apressada, pois não se sentia disposta a dar maiores explicações no momento.
Examinou o próprio reflexo no espelho pela última vez. Por sentir que precisava de toda a confiança possível a fim de enfrentar aquele encontro, lavara e secara os cabelos, além de maquiar o rosto com cuidado especial. Também fora cuidadosa na escolha do vestido: um modelo decotado, de tecido branco bem leve, que lhe realçava o bronzeado, além de disfarçar a barriguinha saliente.
Pegou o filho e saiu com ele nos braços. O caminho até o bangalô era íngreme e irregular, o que dificultava o uso do carrinho.
— Quando conheceu seu pai, ontem à noite, você estava berrando como um desesperado, o que não foi a melhor das apresentações — falou ao garotinho, enquanto caminhava ao sol. — Hoje, trate de se comportar. Precisa ser um menino bonzinho, conquistar seu pai e fazê-lo amar você. Compreendeu?
Harry atirou-se para um arbusto, tentando arrancar as florzinhas coloridas. O movimento brusco quase o fez cair dos braços da mãe e perturbou a paz de dois passarinhos, que voaram assustados.
— Está se transformando em um destruidor — Lily resmungou.
Harry riu.
Depois de ajeitar o filho nos braços, Lily suspirou. Embora houvesse passado metade da noite ensaiando o que tinha a dizer a James, sentia-se mais insegura do que nunca. Depois das doze horas que ele tivera para digerir a ideia de ser pai, qual seria a recepção reservada a ela?
Iria James se mostrar interessado no filho... ou ressentido? Agiria com apatia, ou estaria disposto a assumir a responsabilidade da paternidade? Por mais que a ideia de manter contato constante com ele a afligisse, era exatamente o que Lily desejava. Pelo bem de Harry, claro.
— Será que seu pai está se exercitando? — perguntou a Harry, mas logo descobriu que a sala de ginástica encontrava-se deserta.
Deu a volta na casa e constatou que também não havia ninguém na cozinha, no escritório, ou na sala de estar. Voltando à frente do bangalô, Lily perguntou-se se James estaria dormindo, apesar de já passar das dez e meia. Talvez ele houvesse cansado de esperar e fora nadar no mar.
Só então percebeu que a porta da frente encontrava-se aberta. Tocou a campainha e esperou. Ninguém apareceu. Bateu na porta. Nada.
— Será que ele saiu? — perguntou a Harry, que riu com alegria, sem fazer ideia da importância daquele encontro em sua vida.
Lily entrou e chamou:
— James?
Não obteve resposta, mas ouviu o barulho de água. Certamente, ele estava tomando banho e não a ouvira chegar.
— Vamos avisá-lo de que estamos aqui — Lily falou ao filho.
Seguiu pelo corredor, até chegar à suíte decorada com luxo e bom gosto.
James estava no banheiro, de lado para a porta, barbeando-se. Aparentemente, acabara de tomar banho, pois os cabelos apresentavam-se molhados e gotas de água brilhavam sobre seus ombros. Concentrado no que fazia, não percebeu que tinha companhia.
Diante da visão do corpo bronzeado, coberto apenas pelo short, Lily sentiu o coração acelerar. Seu olhar fascinado tornou-se prisioneiro dos músculos bem desenhados, à medida que lembranças vivas de momentos de paixão invadiam-lhe a mente.
— Má! — Harry gritou, agitando os bracinhos.
Sobressaltado, James virou-se e os viu. No mesmo instante, sentiu um nó na garganta. Na véspera, quando vira o filho, não sentira qualquer laço entre eles, nenhuma ligação genética, ou impulso afetivo. Nada, exceto curiosidade.
Mais tarde, sentado na varanda, bebericando uma dose de uísque, concluíra que não possuía motivo para sentir qualquer coisa.
Afinal, não estivera presente quando do nascimento de Harry e, durante os primeiros nove meses de vida do menino, nem sequer soubera de sua existência. O que significava, calculou, que era tarde demais para sentir alguma coisa, pois o momento de estabelecer um vínculo emocional havia passado.
Agora, porém, descobria que não era tarde demais. As emoções agitavam-lhe o peito e, embora ele não fosse capaz de defini-las, elas o faziam ter vontade de gritar para o mundo que aquele garotinho lindo e saudável era seu filho.
— Desculpe-me por ter entrado — Lily falou, subitamente consciente de que invadira a casa e o espionara por algum tempo —, mas toquei a campainha, chamei e...
— Não ouvi você chegar. Pensei que ouviria. Foi por isso que deixei a porta aberta — James falou e sorriu para Harry. — Você parece bem mais feliz, hoje.
Por um longo momento, Harry fitou-o com ar solene. Então, estendeu os bracinhos para ele.
Lily ficou surpresa. Embora fosse amigável e carinhoso com pessoas que conhecia, seu filho costumava demonstrar desconfiança com relação a estranhos, especialmente, homens. Ora, seria possível que os laços de sangue fossem assim tão fortes? Bem, de uma maneira ou de outra, Harry parecia mais que ansioso para se ver nos braços do pai.
— Seu filho — ela declarou, estendendo-lhe a criança. James hesitou.
— Meu filho — murmurou com voz grave, antes de segurá-lo.
Enquanto observava os dois, Lily sentiu um nó formar-se em sua garganta. James olhava para Harry com a mesma emoção que ela sentira pelo filho, quando ele nascera.
Assim como ela, parecia fascinado pelo milagre da criação e pela ideia de que ajudara aquele ser humano a se tornar real.
— Você é um lindo garotinho — James murmurou com voz rouca e, quando ergueu os olhos, as lágrimas os tornavam muito brilhantes.
Uma onda de alívio e alegria tomou conta de Lily. O pai ausente não era indiferente, ou hostil. Aceitara o filho e já mostrava sinais de afeição pelo menino. O que era um bom começo. As sementes de um relacionamento profundo acabavam de ser plantadas.
— Também acho — ela concordou —, mas sou suspeita.
James devolveu-lhe o sorriso.
— Eu também — falou. — Mas estou sentindo uma dor horrível.
— Sua perna está doendo?
— Não. Harry agarrou os pelos do meu peito e está puxando ... acho que está tentando me matar!
Lily soltou uma gargalhada.
— Trate de distraí-lo — sugeriu, ao mesmo tempo em que tirava o boné da cabeça de Harry e o estendia para ele.
— Acabou de acordar? — perguntou a James.
— Não. Estou de pé desde sete horas. — E passei a noite inteira em claro, pensou em silêncio, refletindo sobre as implicações de ter um filho. — Mas, quando estava tomando meu café, lembrei-me à encrenca em que Edith se meteu, com a venda do Paraíso Perdido — continuou. — Ocorreu-me que um guia para idiotas, sobre compra e venda de imóveis, poderia ser útil. Quem sabe, também, um guia para idiotas, sobre como administrar m pequeno negócio. Calma! — protestou, quando Harry começou a agitar o boné de um lado para outro. — Então, fui até o escritório para fazer algumas anotações e acabei me distraindo.
— Pretende escrever esses guias?
— Sim, mas, em primeiro lugar, farei um esquema geral para mostrar a um editor. Talvez não dê em nada, mas ao menos me dará o que fazer, enquanto estiver aqui.
— Nunca acreditei que você fosse conseguir ficar muito tempo sem fazer nada — Lily confessou com um sorriso maroto.
James deu de ombros.
— É melhor do que assistir ao Pernalonga na tevê a cabo. Aceita um café?
— Sim, por favor. Quer que eu fique com Harry, enquanto você se veste?
James assentiu, entregou-lhe o bebê e, depois de vestir uma calça jeans e uma camisa de mangas curtas, levou-a para a cozinha.
— Imagino que Harry vá querer brincar enquanto conversamos — ele falou, exibindo três bolas de tênis amarelas, dentro de um tubo de plástico. — Que tal?
— Perfeito — Lily concordou, sentando Harry no tapete e entregando-lhe as bolinhas. — São todas suas.
Harry apanhou uma delas e atirou-a na direção de James.
— Muito bem! — o pai encorajou, antes de chutá-la de volta.
O garotinho observou a bola passar por ele e, então, distraiu-se com o tubo de plástico.
— Típico da idade — Lily comentou.
— Ontem à noite, você mencionou uma carta — James falou, já preparando o café.
— Duas.
Cruzando os braços sobre o peito, ele voltou a encará-la. A expressão tranquila deu lugar ao olhar tenso e frio.
— É verdade que as enviou para mim? — inquiriu. — Ou, quando descobriu que estava grávida, decidiu não me contar porque achou que isso complicaria as coisas, pois eu havia apenas lhe prestado um favor?
— Não decidi nada disso! — Lily protestou com firmeza.
— Hoje em dia, muitas mulheres consideram os pais de seus filhos como descartáveis. Esperam que o companheiro as engravide para, então, dizer adeus.
— Não sou assim. Acredito que toda criança precisa de um pai que lhe dê amor e segurança, além de ajudá-la a crescer e se tornar um adulto confiante e equilibrado. E não costumo mentir!
James examinou-a com olhar desconfiado, antes de servir o café.
Era obrigado a admitir que seu cinismo e desconfiança se deviam ao seu velho e querido pai.
— Acredito em você — declarou.
— Não tem porque não acreditar.
— Minha acusação foi injusta e eu peço desculpas. Sei que sua integridade não lhe permitiria tomar uma atitude absurda como essa.
— Obrigada. Como já disse, enviei duas cartas. A primeira dizia que eu estava grávida. A segunda avisava você sobre o nascimento de Harry. Dei a primeira a Amos, para que entregasse a você quando fosse a Boston. Ele me garantiu que a havia entregado.
— Não me entregou coisa alguma. Contou a ele sobre o conteúdo da carta?
— Não, pois achei que o assunto só dizia respeito a mim e a você — Lily falou e franziu o cenho. — Talvez Amos tenha perdido a carta e não teve coragem de me contar.
— Duvido. Meu palpite éde que ele adivinhou que a carta continha alguma informação importante para mim e, simplesmente, decidiu não entregá-la. Ele pode ter resistido à tentação de pagar um mercenário para me matar, mas nunca escondeu seu ódio por mim.
Lily assentiu em concordância.
— Amos se ressente do fato de que você, fazendo parte da Potter-Black, comprou a Diggory's e, com isso, expôs a ineficiência dele. Assim como se ressente do fato de você ser bem-sucedido em tudo o que faz.
— Para não mencionar quanto ficou irritado ao descobrir que você e eu nos entendíamos tão bem. Embora não fosse seu namorado, Amos era possessivo com relação a você e me via como um intruso. Foi por isso que, quando telefonei, ele não escondeu o prazer que tinha em me contar que você havia se mudado para o apartamento dele.
— Disse que telefonou para Amos, para saber de mim?
— Sim. Estava me sentindo mal pelo modo como... terminei o nosso relacionamento.
— Achou que foi abrupto demais? — Lily sugeriu.
— Sim, mas não acreditei que tivéssemos futuro e... — James parou de falar, como se sentisse incerteza quanto ao que pretendia dizer.
— Também não acreditei — Lily mentiu.
— Certo. Bem, de qualquer maneira, telefonei para saber como você estava passando.
— Por que não falou diretamente comigo?
— Você não estava no escritório e, por alguma razão, a telefonista transferiu a ligação para Amos. Ele deu a entender que vocês dois estavam juntos e que logo... formariam uma família.
Lily franziu o cenho.
— Se falou com ele no inverno, eu estava grávida.
— Isso mesmo. Depois da minha conversa com ele, lembrei-me do que você disse sobre ele ser como um irmão mais novo e disse a mim mesmo que Amos não fazia o seu tipo. Por outro lado, achei que o relacionamento poderia ter mudado e, pelas indiretas que ele havia dado antes, acreditei que Amos sempre estivera interessado em você. Então...— James parou de falar quando Harry soltou um de seus gritinhos. — O que houve, pirralhinho?
O tubo de plástico havia rolado para longe e o bebê esticava-se para tentar alcançá-lo, mas a perna dobrada à sua frente impedia qualquer progresso. Endireitando as costas, Harry estendeu os bracinhos e gritou a plenos pulmões:
— Dá!
Lily foi até lá e entregou o tubo ao filho, antes de recolher as bolinhas espalhadas.
— Ele está louco para engatinhar, mas ainda não descobriu como fazê-lo. Por isso, anda muito frustrado.
— Sei como ele se sente — James declarou em tom brusco. — Quando enviou a segunda carta?
— Em março, quando Harry completou um mês.
— Foi em março que sofri o acidente. Enviou a carta para o meu apartamento?
— Não tinha o seu endereço e, assim, mandei-a para o escritório.
— Provavelmente, minha secretária a colocou junto aos cartões estimando as minhas melhoras, que ela levou ao hospital. A verdade é que logo me cansei de abrir cartões contendo personagens sorridentes de desenho animado, com mensagens piegas e encorajadoras. Por isso, acabei jogando tudo fora, sem abrir a maior parte dos envelopes. Sei que não deveria ter feito isso, pois as pessoas só estavam tentando ser amáveis, mas...
— Estava sentindo pena de si mesmo?
— Acho que sim — ele respondeu, deixando evidente no olhar um misto de dor, resignação e cansaço. Então, virou-se para Harry, que tentava mastigar o tubo plástico. — Quando não respondi suas cartas, você deveria ter telefonado.
Lily assentiu.
— Pensei nisso várias vezes e, uma vez, cheguei a discar o número de seu escritório, mas...
— Mas o quê?
— Não queria persegui-lo, nem fazer o papel de vítima. James exibiu um sorriso amargo.
— Esse risco nunca existiu.
Os dois permaneceram em silêncio por um longo momento, observando o filho que brincava.
O fato de ele não ter respondido as cartas certamente havia parecido uma sequência lógica para a maneira abrupta como havia encerrado seu relacionamento com Lily, James refletiu. Porém, dera-se conta de que estava se apaixonando por ela, pensando até mesmo em casamento... e fora tomado por uma necessidade desesperada de fugir. Afinal, sua experiência com casamento, ou melhor, com os casamentos de seu pai, havia produzido um efeito arrasador.
— Harry se parece comigo — comentou.
— Sempre me perguntei se você notaria a semelhança, quando o visse. E você percebeu.
— Sim, embora tenha sido difícil aceitar a verdade. Ontem à noite, fiquei surpreso ao descobrir que Harry não se parecia nem um pouco com Amos.
— Então, quando você me contou a idade dele... foi quando me dei conta de que Harry deveria ser meu filho. — James sacudiu a cabeça. — Foi um choque tão grande, que custei a acreditar.
— Quando descobri que estava grávida, também fiquei chocada.
— Posso imaginar. Faz ideia de quando aconteceu?
— Na manhã em que você partiu para os Estados Unidos.
Seus olhares fixaram-se um no outro.
— Quando você tirou a roupa e entrou no chuveiro, comigo — James lembrou-se. — Você me pediu para fazermos amor e eu estava tão excitado que nem pensei em...
— Cometemos um erro — Lily o interrompeu, pois não queria relembrar aqueles momentos eróticos.
— Quando descobriu que estava grávida, não pensou em... abortar?
— Não, mas quando não recebi nenhuma resposta sua às minhas cartas, fiquei imaginando se você tinha esperança de que o seu silêncio me levasse nessa direção.
— Eu jamais tentaria uma manobra tão baixa! — ele protestou, ofendido. — Você dizia que não se sentia pronta para casar, ao menos, por algum tempo.
— Mudei de ideia. É uma prerrogativa feminina — ela falou em tom casual.
Apesar de, dezoito meses antes, Lily ser uma mulher feliz com sua carreira profissional, jamais lamentara, nem por um momento sequer, o nascimento de Harry. Mesmo que a chegada do filho houvesse virado sua vida de pernas para o alto.
— Faço questão de lhe oferecer ajuda financeira — James declarou.
Como já imaginava que tal oferta seria feita, Lily tinha a resposta pronta:
— Obrigada. Aceitarei ajuda para as despesas com Harry, mas não quero nada para mim.
— Você deixou seu emprego para ficar com ele — James argumentou, com uma pontada de impaciência. — E essa ideia de administrar uma pousada pode não render muito dinheiro.
— Darei um jeito.
— Por que "dar um jeito", quando tenho dinheiro sobrando? Posso, perfeitamente...
— Não!
— Precisa ser tão teimosa?
— Quero ser o mais independente possível. É muito importante para mim — Lily insistiu.
— Não se sente inclinada a ser sustentada por um homem?
— Não, obrigada.
James ergueu as mãos em um gesto de rendição.
— A escolha é sua. Não faço ideia de quanto é necessário para alimentar e vestir uma criança. Acha que cinco mil dólares por mês, depositados na sua conta bancária, serão suficientes? Providenciarei a quantia retroativa à data em que Harry nasceu.
— Cinco mil é dinheiro demais! — Lily protestou.
— Posso pagar e é importante para mim — James anunciou em um tom que não deixava lugar para discussão.
Ela suspirou.
— Calcularei meu orçamento mensal e, então, voltaremos a discutir o assunto.
— Está bem. Você disse que não teve um caso com Amos. Quer dizer que nunca teve qualquer intimidade com ele?
— Nunca.
— Quando disse que tinha um filho, imaginei que vocês dois haviam tido um envolvimento passageiro.
— Achou que eu havia precisado de consolo, depois da sua partida? — Lily desafiou.
James franziu o cenho. Embora a reação de Lily ao término do relacionamento entre eles houvesse parecido bastante tranquila e casual, James sempre se perguntara se ela não estivera fingindo. Mas, talvez, fosse apenas seu desejo que ela houvesse fingido. Talvez ele estivesse apenas enganando a si mesmo.
— Achei possível — respondeu.
— Pois não foi nada disso. Além do mais, não costumo me envolver em casos passageiros.
— Para ser sincero, achei que isso não seria do seu feitio. E, só para sua informação, esse tipo de relacionamento não faz o meu gênero, também. Amos tentou alguma coisa com você?
— Não. Como você mesmo disse, ele não faz o meu tipo. E eu não faço o tipo dele.
— Mesmo assim, ele sugeriu que você se mudasse para o apartamento dele.
— Sim, mas além de estar me ajudando, Amos estava ajudando a si mesmo. Há anos, o pai dele vem tentando forçá-lo a se casar com a filha de um vizinho, um juiz muito influente — Lily explicou. — Henry é um esnobe e um casamento assim lhe traria muitas vantagens. Passou a convidar a garota para todos os jantares em sua casa e fez o possível para atirá-la nos braços do filho, mas Amos não está interessado nela.
— Conhece a moça? — James indagou.
— Uma vez, quando ela foi buscar Amos no escritório para levá-lo a uma festa, fomos apresentadas. Ela me pareceu simpática, embora um tanto sem graça. A minha mudança para o apartamento de Amos deu a ele a oportunidade de insinuar que possuía outro relacionamento. E, se insinuasse que eu estava esperando um filho dele, certamente se livraria de vez da garota e da pressão do pai.
— Então, admite que Amos fez para outras pessoas o mesmo tipo de insinuações que fez para mim?
— É comum homens e mulheres dividirem apartamentos, sem estarem envolvidos. Quando me mudei para lá, imaginei que todos veriam a situação como realmente era. Afinal, eu pagava aluguel para Amos e tinha meu próprio quarto, além de uma vida social à parte. Mas, à medida que o tempo foi passando, o pessoal do escritório começou a fazer comentários estranhos que me levaram a pensar no que Amos andava dizendo. Na ocasião, não dei muita importância à questão, mas agora... — Lily suspirou. — Estou desconfiada de que ele espalhou o boato de que Harry era filho dele, mas pediu às pessoas que mantivessem a informação em segredo.
— Ninguém jamais fez algum comentário direto com você?
— Não. Tudo não passava de insinuações vagas.
— O sujeito não tem uma namorada?
— Nunca teve, desde que o conheci.
James ergueu as sobrancelhas.
— Acha que ele é gay?
— É possível — Lily admitiu. — Mas, se for, disfarça muito bem.
— Por ter medo da reação do pai?
— Sim. E a intenção de esconder alguma tendência desse tipo pode ter sido outra razão para ele ter me instalado em seu apartamento.
— Seria bom se ele conseguisse deixar a firma e escapar da influência de Henry.
— Concordo. Amos precisa crescer e se tornar dono de si. Ele...
Lily parou de falar. Harry tossiu e, quando ela se virou para ele, o garotinho estava muito vermelho.
— Ele engoliu alguma coisa — declarou, ajoelhando-se ao lado do filho em um movimento relâmpago. — Ah, meu Deus! Ele está engasgado!
Na tentativa de retirar o que quer que Harry tivesse na garganta, ela enfiou um dedo na boca do menino, mas ele se contorceu, e impediu que ela atingisse seu objetivo. Harry voltou a tossir, tornando-se cada vez mais vermelho, mas mantendo os lábios firmemente pressionados.
— Por favor, Harry, por favor! — Lily implorou, desesperada, mas foi em vão.
Sem dizer nada, James levantou-se, aproximou-se dos dois e deu um tapa nas costas de Harry. O menino voltou a tossir e, dessa vez, um pedaço de papel, parte do rótulo do tubo plástico, aterrissou no carpete.
— Muito bem! — James elogiou.
Ainda aflita, Lily tomou o filho nos braços e apertou-o contra si.
— Ah, Jimmy, obrigada! — agradeceu, aliviada. — Pensei que ele fosse se asfixiar e...
— E entrou em pânico.
— Sim. Costumo me manter calma na maioria das situações, mas quando se trata de Harry...
— As mães costumam exagerar em sua preocupação com os filhos. Faz parte da natureza humana — James declarou e beliscou a bochecha de Harry. — Você deixou o papai preocupado, também, rapazinho. Portanto, nada mais de engolir pedacinhos de papel. Compreendeu?
Quando Harry soltou uma de suas risadinhas, Lily foi invadida pela deliciosa sensação de, os três juntos, formarem uma família. Pousou a mão sobre a de James.
— Obrigada por ter me socorrido. Ele levou a mão dela aos lábios.
— Às ordens.
O contato dos lábios quentes com sua pele, bem como a profundeza daqueles olhos castanhos-esverdeados, fez o coração de Lily acelerar suas batidas.
Retirando a mão, ela consultou o relógio.
— O tempo voa — concluiu com um sorriso. — Obrigada pelo café e por ter salvo Harry da asfixia. Agora, preciso voltar ao restaurante para servir os turistas.
— Tem o telefone de alguma companhia de táxi? — James perguntou, enquanto a acompanhava até a porta. — Preciso comprar comida e papel para datilografar.
— Para trabalhar no seu guia para idiotas?
— Exatamente. Só sei datilografar com dois dedos, mas minha caligrafia é quase ilegível. Deve se lembrar de que, às vezes, eu mesmo encontro dificuldade em entender o que escrevi.
Lily sorriu.
— Sim, eu me lembro. Temos o número de um ponto de táxis, no restaurante. Não pensou em alugar um carro?
— Sim, mas a locadora não tinha nenhum carro automático para oferecer e, com minha perna nestas condições, seria impossível usar a embreagem para mudar as marchas.
Lily franziu o cenho. Aquele era um problema causado pela perna ferida de James, no qual ela não havia pensado. Certamente, existiam outros.
— Vou até Grand Anse para comprar mantimentos, à tarde. Se quiser, posso levá-lo — ofereceu. — Sairei assim que o grupo de excursão deixar o restaurante, por volta das duas horas. Assim, estarei de volta às cinco e quinze, para conversar com Edgar Bones.
James assentiu em concordância.
— Está bem.
— Obrigada por ter se oferecido para arcar com as despesas de Harry. — Lily hesitou, escolhendo as palavras. — Está disposto a ser um pai presente, à medida em que ele for crescendo? Pretende vê-lo com frequência?
O semblante de James se fechou, escondendo suas emoções.
— Não creio que seja uma boa ideia — ele disse. Lily ficou confusa. Afinal, os dois pareciam ter se dado tão bem.
— Mas você gosta dele?
— Sim.
— Levá-lo em viagens de férias ocasionais não o prenderia. É claro que o fato de você viver do outro lado do Atlântico torna as coisas um pouco complicadas, mas...
— Não daria certo — James interrompeu. — Não seria o melhor para ele.
— Por quê?
— Porque não.
— A ideia de cuidar de uma criança não o agrada? Seria só de vez em quando e...
— Esqueça.
Lily reprimiu as lágrimas. Talvez as probabilidades sempre houvessem estado contra James se interessar pelo filho a longo prazo. Afinal, ele prezava sua liberdade acima de tudo. Porém, ouvi-lo negar tal interesse, quase negar a própria existência de Harry, era doloroso demais.
Apertando o bebê contra si, Lily exibiu um sorriso gelado.
— A escolha é sua — declarou.
Aí está mais um capítulo de Reluctant Father! Espero que vocês estejam gostando. Gostaria de agradecer aos reviews que recebi e até o próximo capítulo.
