Reluctant Father! pertence a Elizabeth Oldfield.


CAPÍTULO V

James guardou a última sacola de compras no carro e se acomodou no banco do passageiro.

— Bem a tempo — comentou, apontando os pingos de chuva que começavam a cair.

— Parece que vamos ter um temporal — Lily previu. Enquanto faziam suas compras, nuvens escuras e pesadas haviam coberto o céu.

— Esta coisa resiste à chuva? — James inquiriu, lançando um olhar duvidoso para o carro.

Estavam no velho jipe amarelo e enferrujado do tio de Lily. Alguns dos pinos que prendiam a capota de lona às laterais encontravam-se quebrados, o que impedia que o veículo fosse adequadamente fechado.

— Não sei — Lily respondeu, colocando o automóvel em movimento. — Nunca dirigi na chuva, desde que cheguei aqui. Mas, se tivermos sorte, chegaremos antes da tempestade desabar.

— Harry gosta de andar de carro? — James perguntou, lançando um olhar para a cadeirinha de segurança, no banco traseiro.

Ao dar-se conta de que havia muito sobre o filho que ele ainda não sabia, James apertou com força o cabo da bengala que posicionara entre os joelhos. E, pensando que haveria muito que jamais viria a saber, seu rosto tornou-se pálido.

— Ele adora — Lily respondeu, pensando no filho que, por estar dormindo, ficara aos cuidados de Edith, no Paraíso Perdido. — Harry gosta do balanço provocado por buracos e lombadas. Por isso, para ele, passear no jipe é o máximo.

Sorriu enquanto falava em tom alegre. Embora a recusa de James, horas antes, em desempenhar um papel ativo na vida do filho, parecera uma grande catástrofe, ela conseguira recuperar a compostura. Possuía força e determinação. Não costumava ceder com tamanha facilidade e não se daria por vencida.

Afinal, Lily refletira, a situação com James era exatamente o que ela havia acreditado ser no início da semana. Portanto, estava de volta ao início. Nada mudara e ela não poderia mudar coisa alguma. A recusa dele em sequer conversar sobre o assunto deixava isso bem claro.

— Droga! — praguejou, ao mesmo tempo em que ligava o limpador de para-brisa.

Poucos minutos depois, a chuva torrencial caía ruidosamente sobre a capota de lona.

Lily franziu o cenho ao examinar a estrada estreita à sua frente. Em Grand Anse, as ruas asfaltadas apresentavam-se em boas condições, mas à medida que se afastavam da pequena comunidade, o asfalto ia desaparecendo, até o caminho se transformar em terra vermelha misturada a pedregulhos, com buracos de tamanhos variados. Alguns faziam lembrar o Grand Canyon.

— Vá devagar — James advertiu quando, ao desviar de um buraco, ela passou perigosamente perto de outro. — Quem pensa que é? Algum piloto de Fórmula Um?

Lily pisou de leve no freio. Estivera mesmo em velocidade um pouco alta e a estrada se tornava cada vez pior. Então, olhou pelo plástico que fazia as vezes de janela. Desde que chegara na ilha, o mar estivera azul e cristalino, mas naquela tarde, a água se mostrava cinza-chumbo, com grandes ondas a quebrar com violência na praia. A brisa se transformara em vento forte, que vergava as palmeiras.

Uma lufada fez o jipe balançar.

— Reduza a marcha — James instruiu.

Depois de um momento de hesitação, Lily engrenou a terceira marcha com um gesto irritado.

— Gostaria de saber por que os homens sempre se consideram melhores do que as mulheres ao volante — murmurou em tom ácido.

James exibiu um sorriso confiante e machista.

— Porque é a verdade.

Antes que Lily pudesse retrucar, o vento voltou a soprar forte, arrancando a lona dos pinos e deixando-os descobertos sob a chuva pesada.

James praguejou. Estendeu a mão, agarrou a ponta da lona e puxou-a, protegendo-se do mau tempo. Seguindo o seu exemplo, Lily atirou-se para o lado, agarrando sua parte.

— Consegui! — declarou, vitoriosa. Ele franziu o cenho.

— Dirigir com apenas uma das mãos não é aconselhável. Bastaria outra lufada como aquela, para o jipe se desgovernar e ir parar na praia.

Irritada, Lily empinou o queixo.

— Obrigada por me alertar sobre as possibilidades, mas estou muito segura do que estou fazendo. Nos dez anos, desde que tirei minha carteira de motorista, nunca sequer recebi uma multa por estacionamento proibido. Você, por outro lado... Meu Deus!

Outra lufada de vento os atingiu, mandando o jipe para a lateral da estrada. Lily puxou o volante com força, na tentativa de recuperar o controle sobre o veículo, mas um instante depois, as rodas dianteiras afundaram em um buraco imenso e o motor morreu.

No silêncio que se seguiu, James ergueu uma sobrancelha.

— Muito segura — murmurou.

Lily tratou de ignorá-lo. Girou a chave na ignição e pisou fundo no acelerador. Embora as rodas girassem, o jipe não saiu do lugar e, segundos depois, o motor voltou a morrer. Ela tentou de novo, só para obter o mesmo resultado.

— Não está pensando que pode, simplesmente, ligar o jipe e sair desse buraco, está? — James inquiriu.

Lily lançou-lhe um olhar furioso. Poucos dias antes, acreditara ser incapaz de odiá-lo. Naquele momento, porém, seu ódio era quase palpável. Odiava James por ser tão calmo e por estar sempre certo. E, também, odiava-o por ter rejeitado Harry.

— O que você sugere? — indagou com voz gelada.

— Sugiro empurrarmos o jipe para fora do buraco.

— Empurrar? Mas está chovendo demais!

— E, quanto mais chover, mais fundo o buraco se tornará e mais difícil para nós sairmos dele — James declarou, certo mais uma vez. — Mas, talvez, você tenha uma solução melhor.

— Não — ela replicou, mal-humorada.

— Então, se você se posicionar ao lado da porta do motorista e cuidar do volante, empurrarei a traseira. — Estendendo a mão para o banco de trás, ele apanhou um guarda-chuva colorido que havia pertencido ao tio de Lily. — Algumas varetas estão quebradas, mas mesmo assim isto lhe dará alguma proteção contra a chuva. Ponha o câmbio em ponto morto e solte o freio de mão.

— Já fiz isso. Não sou completamente idiota.

— Possui um certificado que comprove isso?

Lily abriu a porta, saiu para a estrada e abriu o guarda-chuva, o que não foi fácil sob o castigo do vento. Quando finalmente conseguiu, descobriu que James estava posicionado atrás do jipe, com as duas mãos plantadas na lataria.

— Não vai ser muito difícil — ele constatou, depois de empurrar o jipe para um lado e para o outro. — Vou contar até três e, então, começarei a empurrar.

Lily assentiu e segurou o volante com firmeza. Prendendo o cabo do guarda-chuva debaixo do braço, preparou-se para ajudar James a empurrar o jipe com a outra mão. Por mais irritante que fosse, seu acompanhante estava demonstrando grande boa vontade e tal atitude significava molhar-se na chuva torrencial, além de correr o risco de forçar a perna ferida.

— Um, dois, três! — ele contou e empurrou.

As rodas dianteiras giraram para fora do buraco e o jipe se moveu para a frente. Lily agradecia mentalmente o sucesso, quando as rodas traseiras passaram rapidamente pelo buraco, fazendo parte da água se erguer em um arco perfeito, antes de se despejar sobre Lily.

— Ai!

A água lamacenta e gelada encharcou os cabelos e o vestido de Lily, transformando o último em um verdadeiro trapo. Ora, ela havia ficado o tempo todo debaixo do guarda-chuva e, assim mesmo, estava encharcada. Não era justo!

— Meu Deus! — James murmurou.

Piscando os olhos por trás dos pingos de lama que caíam de seus cabelos, Lily percebeu que James fora rápido o bastante para evitar o banho indesejado. E, também, notou que os lábios dele começavam a se curvar em um sorriso.

— Não foi engraçado — protestou.

— Realmente, não foi — ele concordou, embora estivesse encontrando dificuldade para controlar o riso.

Lily afastou os cabelos molhados dos olhos. Gotas marrons escorriam por seu rosto, descendo pelos ombros e desaparecendo sob o tecido do vestido arruinado. Quando ela deu um passo, as sandálias produziram um som engraçado.

— Já pensou em lutar na lama, profissionalmente? — James perguntou.

— Recentemente, não.

— Talvez deva pensar na possibilidade, em vez de abrir uma pousada.

O olhar que Lily lançou para ele poderia tê-lo matado.

— Talvez você deva manter a boca fechada.

— Sim, senhora — ele respondeu, sorrindo, antes de cuidar do freio de mão. Quando se virou para Lily novamente, o sorriso morreu em seus lábios. — Por acaso, estamos perto de alguma praia de nudismo?

— O que disse?

— Da próxima vez que decidir usar esse vestido, trate de usar um sutiã — ele reprovou em tom subitamente rude.

Lily olhou para baixo. Como seu único sutiã sem alças era dos tempos anteriores a Harry e, portanto, estava apertado demais, agora, ela decidira que o tecido do vestido era mais que decente. E era... quando seco. Molhado, tornava-se muito transparente, aderindo às curvas arredondadas de seus seios e exibindo sombras insinuantes dos mamilos escuros.

Ao mesmo tempo em que o rubor tomava conta de suas faces, Lily lançou um olhar para James. A chuva havia molhado as roupas dele, fazendo a camisa aderir ao peito musculoso e a calça jeans colar às coxas másculas. De repente, descobriu-se extremamente consciente dele como macho tentador e de si mesma como fêmea provocante. O tom tenso em que James se dirigira a ela, um minuto antes, indicara que ele fora atingido pela mesma noção.

— Se entrar no jipe, cuidarei da capota — ele anunciou e, assim que ela tomou seu lugar ao volante, deu a volta no veículo, prendendo todos os pinos. — Pé na estrada — ordenou ao retomar o banco do passageiro.

Lily deu a partida no motor e pôs o jipe em movimento.

— Como foi que bateu seu carro? — perguntou. — Tentou desviar de um animal, ou...

— Tentei desviar de Emmeline Vance — James interrompeu em tom ácido.

— O que quer dizer?

— Ela fez uma sugestão muito erótica e colocou a mão na minha coxa. Empurrei a mão dela para longe, mas ela insistiu no contato e, na tentativa de me livrar dela, perdi a concentração e, consequentemente, o controle do carro.

Lily fitou-o pelo canto do olho.

— Achou que não era o lugar, nem o momento certo?

— Nunca houve lugar ou momento certo com ela. Eu já lhe disse que foi um relacionamento breve. E foi assim porque logo me dei conta de que Emmeline estava tentando me usar e... porque nunca gostei muito daquela mulher.

— Então, por que se envolveu com ela? — Lily perguntou, lembrando-se do que lera e vira no jornal.

— Foi Emmeline quem disse isso à imprensa, longe de meus ouvidos, é claro. E estava mentindo, pois nunca me envolvi com ela. A fotografia dava uma impressão errada. Havíamos acabado de ser apresentados, quando apareceu um fotógrafo e, quando dei por mim, ela estava me abraçando!

— Foi apanhado de surpresa?

— Completamente, assim como fiquei surpreso quando ela me convidou para jantar, na noite seguinte. Sei que, nos dias de hoje, é normal as mulheres assumirem o controle da situação, mas Emmeline foi insistente demais.

— E você se sentiu lisonjeado?

— Nem tanto. Na verdade, eu estava precisando me distrair. Por isso, aceitei. Saímos algumas vezes, sempre a convite dela, mas por mais que eu tentasse mudar de assunto, ela sempre dirigia a conversa para quem eu conhecia na televisão, se poderia levá-la às festas do pessoal da tevê, se seria possível apresentá-la a este ou aquele diretor, ou produtor.

— Então, ela esperava que você a ajudasse com sua carreira de atriz?

— Foi a única razão pela qual Emmeline se interessou por mim — James admitiu com amargura.

— Deve ter se sentido atraída, também. Afinal, você é... — Lily parou de falar no momento em que se deu conta de que estava prestes a descrevê-lo com palavras mais que generosas, como elegante, atraente, carismático. — Emmeline deve ter ser sentido atraída por você — repetiu.

— Um pouco, talvez — ele admitiu —, mas a carreira vinha em primeiro lugar para ela. Emmeline não estava subindo os degraus para o sucesso com a rapidez que desejava e acreditou que meus conhecimentos a ajudariam. E, também, esperava que o fato de ser vista comigo proporcionasse alguma publicidade.

— No que estava certa, pois a fotografia de vocês dois, juntos, foi publicada em um jornal sobre economia.

— A foto também foi publicada em meia dúzia de revistas, juntamente com a afirmação de que tínhamos um envolvimento — James informou de cenho franzido. — Portanto, ela conseguiu o que queria, ao menos, em parte.

— E você a apresentou para alguém?

— Não. Acredito que as pessoas têm de conseguir o sucesso por seus próprios méritos. Além disso, não me agrada a ideia de ser usado. Expliquei tudo isso a ela e pus um ponto final na história. Foi então que Emmeline demonstrou suas habilidades dramáticas... que não são muitas. Passou do acesso de ira ao papel de vítima e, finalmente, de sedutora. Quando nada disso me impressionou, desistiu.

Lily desligou o limpador de para-brisa, pois a chuva cessara e as nuvens começavam a se afastar, dando lugar ao sol e ao céu azul.

— Se só saiu com ela umas poucas vezes, por que Emmeline estava em seu carro, no momento do acidente? — perguntou.

— Porque, uma manhã, meses depois do nosso último encontro, quando eu me preparava para visitar um cliente, ela entrou em meu escritório. Eu pensava que estava livre daquela mulher, mas havia me enganado.

— O que ela queria?

— Um produtor de tevê que eu conhecia vagamente estava reunindo elenco para uma nova novela. Emmeline fizera um teste, mas fora recusada para o papel. Jurou que se eu conversasse com o sujeito, ele mudaria de ideia. Eu disse a ela que estava enganada e que, de um modo ou de outro, eu não estava disposto a falar com ninguém para interceder em favor dela. Então, pedi desculpas e disse que precisava sair. Infelizmente, ela me seguiu até o estacionamento e entrou no meu carro sem ser convidada. Pedi que saísse, mas ela se recusou a obedecer.

— Você só pediu? — Lily inquiriu, incrédula.

— Havia mais gente no estacionamento e eu não queria fazer uma cena, atirando-a para fora do carro, o que ela bem merecia. A essa altura, eu já estava atrasado e parti, assim mesmo. Teria de fazer uma viagem de uma hora.

— Emmeline sabia disso?

— Sim. Nos primeiros quilômetros, fiquei esperando que exigisse que eu parasse para ela descer, mas acho que Emmeline acreditava que com uma hora de conversa me venceria pelo cansaço. Tratei de ignorá-la até chegar ao meu destino. Achei que assim, quando eu desaparecesse para atender meu cliente, ela também desapareceria. Poderia voltar de trem. Mas, quando voltei ao meu carro, lá estava ela, esperando.

— Você ficou furioso?

— E como! Quase perdi a cabeça. Como meu único objetivo era me livrar dela o quanto antes, excedi os limites de velocidade na viagem de volta a Boston. Depois de tentar todos os argumentos verbais para me persuadir a falar com o produtor da novela, Emmeline partiu para propostas indecentes. — James fez uma careta de nojo. — Ela se ofereceu para me prestar um serviço que, geralmente, deve ser oferecido a astros de rock, no banco traseiro de uma limusine. Quando eu disse "Não, obrigado", ela decidiu fazer as coisas do jeito dela. Foi quando o carro desgovernou.

— Emmeline deve ter se sentido muito mal por ter sido responsável pelo que aconteceu com você — Lily concluiu, tomando o caminho para a Maison d'Horizon.

James sacudiu a cabeça.

— Ela foi ao hospital e se desculpou, mas só estava preocupada com a carreira, como sempre. Implorou que eu não contasse a ninguém o verdadeiro motivo do acidente, pois até mesmo Emmeline foi capaz de perceber que se alguém soubesse do que ela havia feito, a publicidade não seria exatamente positiva. Assim que concordei, ela desapareceu e nunca mais tive notícias.

— Ela nem se interessou em saber como estava a sua perna?

— Não.

— Interesseira!

Ele sorriu diante do protesto feroz.

— Concordo. Obrigado por ter feito as vezes de chofer — falou, quando Lily estacionou em frente ao bangalô. — Vou descarregar minhas compras.

Ela saiu do jipe.

— Deixe-me ajudá-lo.

— Não acha boa ideia vestir alguma coisa sobre a roupa molhada? — James indagou, ao entrar na cozinha.

Lily baixou os olhos para o vestido ainda molhado e descobriu que a transparência continuava como antes.

— Estou incomodando você? — perguntou com ironia. Teve um impulso de cruzar os braços sobre o peito, mas perturbar o equilíbrio de James era uma vingança doce. Embora ele se esforçasse para ignorar a aparência de Lily, sua postura tensa o delatava.

— Um pouco — ele admitiu.

— Não sei por quê. Afinal, já me viu completamente nua.

— Já faz muito tempo — James murmurou e estendeu-lhe uma toalha.

Lily secou os cabelos e devolveu-a. Sabia que James esperava que ela a jogasse nos ombros e a fechasse na frente do corpo, mas recusava-se a satisfazer-lhe os desejos, enquanto ele se recusasse a satisfazer os dela... com relação a Harry, claro.

— Pretende trocar de roupa antes da reunião com Edgar Bones? — ele inquiriu em tom sombrio.

— Claro — ela respondeu com um sorriso e, então, hesitou. — Não gostaria de participar da reunião? Nem precisa dizer nada, a menos que queira, mas seria bom contar com uma presença masculina. Com você lá, talvez ele pense duas vezes antes de tentar algum outro golpe.

— Vamos fazer um acordo. Você esconde essa indecência e eu assumo o papel de observador na reunião.

— Feito — Lily concordou, escondendo os seios com a toalha.

James assentiu com ar de aprovação.

— Vou vestir roupas secas e, então, irei para o restaurante.

— Ficarei esperando para levá-lo no jipe.

— Acha que posso cair pelo caminho? — ele indagou de mau humor.

Embora James não houvesse pensado na perna ferida ao empurrar o jipe, pensava nela agora. Lily sabia que, segundo o ponto de vista dele, ela o estava tratando como a um inválido.

— Acho possível — respondeu. — O caminho é íngreme e irregular e, a esta altura, está molhado. Portanto, qualquer um pode cair.

— Dê-me cinco minutos — James pediu, após uma breve pausa.


Quando chegaram ao Paraíso Perdido, o Toyota prateado que Hestia alugara estava estacionado diante do restaurante. A morena, usando um vestido turquesa muito decotado, brincava com Harry, enquanto Edith dobrava guardanapos na mesa ao lado.

— O que aconteceu com você? — a nativa perguntou, surpresa.

Lily explicou como ficara tão molhada e perguntou:

— Harry não deu trabalho?

— Ele é um amor — a outra garantiu.

— Nem sentiu a sua falta — Hestia declarou. — Brincamos de cavalinho a tarde inteira. — Balançou o garotinho nos joelhos em demonstração. — Não foi, bebê?

Erguendo os olhos para Lily, Harry lançou-lhe um olhar cansado.

— Hestia chegou logo depois de você sair — Edith informou, também parecendo um tanto desgastada.

— Queria ficar longe do Club Sesel e das lamentações — a loira anunciou. — Todos lamentavam a tempestade e especulavam sobre os estragos que faria na estrada. E, também reclamavam da praia.

— O que há de errado com a praia? — Lily inquiriu.

— Os folhetos das agências de turismo não mencionam que a piscina do hotel é minúscula e que a praia, lá, é muito rasa e repleta de algas. Portanto, os hóspedes não têm onde nadar e não param de se queixar disso.

— Quer vir com a mamãe? — Lily perguntou a Harry, ansiosa para livrá-lo das garras de Hestia.

Inclinou-se para pegar o bebê, mas a morena apertou-o contra si.

— Estou contente em tê-lo comigo. Gostaria de ter um filhinho adorável como ele! — confessou, colando o rosto ao de Harry.

Ao ver o filho se contorcer, James deu um passo à frente.

— Ele vai ficar melhor no colo da mãe — afirmou com voz fria.

Hestia fez beicinho.

— Desmancha-prazeres — murmurou, antes de entregar o bebê para Lily.

Harry parecia agradecido, aconchegado ao peito da mãe, quando o telefone do bar tocou. Edith foi atender.

— Jules só virá à noite — a nativa informou ao desligar. — Estava planejando vir mais cedo para fazer um inventário do estoque, como eu disse a você — acrescentou, olhando para Hestia —, mas não poderá vir.

A morena voltou a fazer beicinho.

— Então, vou embora. — Levantou-se, despediu-se de todos e, com um olhar terno para Harry, falou: — Nos veremos de novo, bebê.

— Hestia deveria voltar para casa no próximo fim de semana, mas decidiu estender as férias por mais dez dias — Edith contou, assim que a visitante se foi. — Quer apostar como vai passar o tempo todo aqui? Bem, vou para a cozinha e adiantar o preparo do jantar, antes que Edgar Bones chegue.

— Pedi a James para participar da reunião e ele concordou — Lily informou. — Você se importa?

— Acho excelente ideia — Edith declarou e sorriu para James. — Obrigada.

Ele devolveu o sorriso.

— Espero que minha presença ajude.

— Mais dez dias com Hestia... pobre Jules — Lily comentou quando Edith desapareceu.

— E pobre Harry — James acrescentou, franzindo o cenho. — Quando você tentou pegá-lo, ela pareceu pronta a começar um cabo de guerra. — Acariciou a mãozinha do filho. — Não foi gostoso, foi, pirralhinho?

Harry fitou-o e soltou um de seus gritinhos deliciados.

— Sei quanto deve ser difícil — James continuou — mas, nos próximos dez dias, tente manter Hestia longe de Harry.

Lily ficou furiosa. O pai desinteressado estava dando ordens! Como se atrevia?

— Está tentando me dizer como devo cuidar de Harry? — inquiriu com frieza.

— Estou apenas sugerindo que mantenha Hestia longe dele. Você pode ter pena dessa mulher, mas eu não confio nela. Não me parece muito equilibrada. — Lançou um olhar na direção da cozinha. — Edith sabe que sou o pai de Harry?

— Ninguém sabe, exceto minha família — Lily respondeu e, vendo Harry bocejar longamente, falou: — Você parece exausto. Se eu o colocar no carrinho, vai dormir um pouco?

— Posso colocá-lo no carrinho e tomar conta dele enquanto você troca de roupa — James anunciou.

Após um momento de hesitação, Lily entregou-lhe o filho.

Edgar Bones só chegaria dentro de uma hora. Assim, depois de tirar o vestido enlameado, Lily tomou banho e lavou os cabelos. Quando os secava, embrulhada em uma toalha, lembrou-se de que a oferta de James para cuidar de Harry a surpreendera. Naquele momento, tivera o impulso de dizer a ele que se não pretendia participar da vida de Harry quando ele crescesse, então também não deveria se envolver com ele agora. Porém, Harry já se inclinava para os braços do pai. O traidor... O inocente...


Depois de secar os cabelos, escolheu uma blusa verde que combinaria com a calça branca. Ora, onde estava a calça branca? Pôs-se a procurá-la nas gavetas.

— Está procurando um sutiã? — uma voz profunda indagou.

Sobressaltada, Lily virou-se e deparou com James parado na porta, um ombro apoiado no batente. Os olhos dele pousaram sobre o conjunto de calcinha e sutiã que ela colocara sobre a cama.

— Vejo que encontrou um — ele acrescentou. — Ainda bem.

Lily encarou-o, furiosa. Embora houvesse entrado no bangalô e observado James barbear-se, não gostava de vê-lo entrar em seu chalé para observá-la.

— Não sabe como tocar a campainha? — inquiriu. — Em primeiro lugar, ponha o dedo no botão. Em segundo, aperte. Assim!

Ela ergueu o braço e pôs o dedo em riste, mas o movimento fez a toalha se soltar e cair a seus pés, deixando-a nua. Lily já se abaixava apressada para apanhá-la, quando James deu um passo à frente e a segurou pelos ombros.

— Eu toquei a campainha, mas você não atendeu — ele falou. — Quando entrei, ouvi um zumbido.

— Eu estava secando os cabelos.

— Foi por isso que não me ouviu. — James franziu o cenho. — Está fazendo isso de propósito?

— Fa-fazendo o quê? — Lily gaguejou, dolorosamente consciente de sua nudez.

— Tentando me excitar. — Os lábios dele se curvaram em um sorriso irônico. — Parabéns! Está conseguindo.

— A toalha caiu por acidente.

— Verdade?

— Claro! E eu gostaria de me vestir — ela declarou, na intenção de soar exigente, mas ouvindo a própria voz soar como uma súplica.

Se James estava excitado, Lily também. Se ele decidisse atirá-la na cama e fazer amor com ela, seria difícil resistir.

— Não há pressa. Como você mesma disse, já a vi nua, antes. E, como já faz muito tempo, preciso refrescar minha memória. — Os olhos cinzentos passearam com indolência pelo corpo de Lily. — Está mais madura e isso me agrada.

— Gostaria de me vestir — ela repetiu com voz rouca. Deixando os braços caírem ao lado do corpo, James recuou.

Ao tocá-la, ao examinar-lhe o corpo nu, ao se lembrar da sensação de estar dentro dela, estava se torturando.

— Estarei esperando na sala — declarou e saiu. Lily suspirou, aliviada.

— Por que está aqui? — perguntou em voz alta, enquanto começava a se vestir apressada.

— Vim avisar que Harry está dormindo e que Edgar Bones já chegou.

Lily consultou o relógio. Faltavam quinze minutos para as cinco horas. Acabou de se vestir e saiu do quarto.

— Edgar já chegou? — indagou em tom de protesto. Ainda tinha de pentear os cabelos, passar batom e colocar os brincos.

— Ele disse que foi liberado mais cedo — James explicou e franziu o cenho. — Liberado do quê? Ele tem outros negócios na ilha?

— Não que eu saiba.

— Bem, o sujeitinho está esperando, encharcado de colônia, vestindo um de seus ternos da moda.

— É de gabardine cinza-prateado?

James olhou para onde Lily se encontrava parada diante de um espelho, passando batom. No passado, gostava de observá-la em atividades tão femininas. E estava gostando agora, também.

— Sim — respondeu. — Por quê?

— Porque quando fui ao Club Sesel para cortar os cabelos, vi um homem vestindo terno de gabardine cinza e achei que poderia ser Edgar. Estava saindo do escritório da gerência, mas, de repente, virou-se e voltou para dentro.

— Para evitar encontrá-la?

— Pode ser.

James esfregou a mão no queixo, pensativo.

— Será que ele tem alguma ligação com o hotel? Com a gerência? Isso explicaria as roupas sempre formais. Mas se for assim, por que estaria interessado em comprar o Paraíso Perdido?

Enquanto colocava os brincos, Lily se aproximou de James.

Sua mente girava em disparada e ela se lembrou do comentário de Hestia sobre as queixas dos hóspedes do hotel.

— Porque, assim, os hóspedes teriam acesso à baía — sugeriu.

James assentiu em concordância.

— O mar é limpo e profundo, aqui. Você disse que é a única praia boa para nadar, neste lado da ilha. Se os hóspedes do Club Sesel reclamam entre si da falta de lugar para nadar, certamente também se queixam às agências de turismo, quando voltam para casa.

— E avisam os amigos de que o lugar não é bom para passar férias.

— O hotel estava cheio, quando você esteve lá?

— Muito pelo contrário. E, segundo Jules, que é íntimo das garçonetes, sempre há chalés desocupados.

James sorriu.

— Então, se pretende manter o hotel aberto e lucrativo, Edgar precisa da baía... a qualquer preço.

— Mas não temos certeza de que ele tem ligação com o hotel — Lily lembrou.

Apoiando-se na bengala, James encaminhou-se para a porta.

— Vamos descobrir.


Com um sorriso falso nos lábios, Edgar conversava amenidades com Edith, no restaurante. Parecia feliz e satisfeito, como se sua oferta já houvesse sido aceita.

Lily cumprimentou-o e foi se certificar de que Harry ainda dormia profundamente. Então, voltou e descobriu que James já se apresentara.

— Edith e Lily me pediram para participar da reunião — explicou.

Quando se sentaram, o sul-africano enfiou um dedo no colarinho da camisa. Embora não soubesse nada sobre James, percebera nos olhos castanhos-esverdeados a astúcia que indicava que sua presença não era meramente casual.

— De onde você é? — Edgar perguntou, sem deixar de sorrir.

— Ele alugou a Maison d'Horizon — Edith respondeu. — Ele nos emprestou duas dúzias de copos e permitiu que Lily use a sala de ginástica e...

— Que bom! — o sul-africano interrompeu, impaciente para finalizar sua barganha. — E qual é a sua resposta à oferta que fiz ontem?

— A resposta é não — Lily adiantou-se. — Metade do preço é inaceitável. Portanto, se quiser desistir...

— Não — Edgar falou e, no mesmo instante, franziu o cenho, dando-se conta de que protestara depressa demais.

— Nesse caso, voltaremos a conversar sobre o valor inicial — Lily concluiu.

A expressão pensativa de Edgar deixou claro que o valor total estava fora de questão e que ele faria uma contra-oferta, mas precisava decidir a quantia.

De repente, o sorriso falso voltou a brilhar.

— Desculpe, mas não posso...

— Pagarei o preço inicial, mais dez por cento — James interferiu.

Edgar girou na cadeira, seus olhos parecendo prestes a saltarem das órbitas.

— O que disse? — inquiriu, atônito.

— Estou disposto a pagar o preço inicial pedido pelo Paraíso Perdido, mais dez por cento — James repetiu, dirigindo-se a Lily. — Está interessada?

— Eu... — ela hesitou, pois a intervenção também a apanhara de surpresa. Porém, quando fitou James nos olhos, viu neles o brilho da conspiração. — Ah, sim, estou muito interessada! — Então, virou-se para Edith. — O que acha?

A mais velha limitou-se a assentir.

— Está mesmo fazendo uma oferta pelo lugar? — Edgar perguntou, ainda incrédulo.

— Claro! — James confirmou. — E tenho a quantia disponível para pagar à vista.

O silêncio tomou conta do restaurante, quebrado apenas pelas ondas que rebentavam na praia.

— Pagarei o preço inicial, mais quinze por cento — Edgar finalmente consentiu.

— Vinte por cento — James aumentou o lance.

— Vinte e cinco.

James assentiu.

— A pousada é sua.

O sul-africano piscou repetidas vezes, confuso pela rapidez com que se dera a negociação. Chegara ali esperando fazer um excelente negócio, não acabar pagando mais que a oferta inicial.

— Eu... certo — gaguejou.

James virou-se para Lily.

— O valor é satisfatório? — perguntou.

— Sim, desde que Edith receba o dinheiro dentro de uma semana, no máximo — ela respondeu.

— Ela receberá o dinheiro, mas receio que demore um pouco mais que uma semana — Edgar falou, muito sem jeito, além de um tanto desesperado. — Preciso informar alguém sobre o aumento da quantia... Trata-se de mera formalidade e tenho certeza de que essa pessoa vai concordar, mas os vinte e cinco por cento adicionais terão de ser transferidos. Que tal duas semanas, a contar de sexta-feira?

— Parece razoável — Lily falou, sem demonstrar entusiasmo, antes de se virar para Edith, que tinha os olhos arregalados e os lábios curvados em um sorriso. — O que acha?

Mais uma vez, a nativa limitou-se a balançar a cabeça em concordância.

— Manterei meu dinheiro disponível — James voltou a interferir. — Portanto, se o seu pagamento não for efetuado até meia-noite...

— Isso não vai acontecer. A pousada é minha — Edgar declarou com firmeza e, então, sorriu para Edith. — Amanhã de manhã, pedirei aos advogados que redijam um contrato, confirmando a venda do Paraíso Perdido pela quantia combinada. Ficarei agradecido se a senhora o assinar — lançou um olhar de canto de olho para James —, imediatamente, para que não surja nenhum problema.

De novo, Edith assentiu em silêncio.

— Bem pensado — James aprovou, cruzou as mãos atrás da cabeça e encarou o mais velho. — Uma pergunta. Disse que precisa informar alguém sobre a quantia adicional. Estaria se referindo à diretoria do Club Sesel?

Edgar empalideceu.

— Club Sesel?

— Ao que me parece, está comprando o Paraíso Perdido em nome da companhia que possui o hotel. Trabalha para eles?

— Sou diretor — o sul-africano admitiu.

— E o Club Sesel precisa comprar o Paraíso Perdido para ter acesso à baía? — Lily indagou.

— Exatamente — Edgar confirmou, lutando para manter a dignidade ferida.

— Pretendem fechar o restaurante? — Edith perguntou, tendo finalmente recuperado a voz.

— Não. Planejamos mantê-lo como uma opção mais informal ao restaurante do hotel, bem como para oferecer bebidas e lanches aos hóspedes, quando vierem nadar.

— Vão pavimentar a estrada? — James inquiriu.

— Estamos negociando esse detalhe com as autoridades competentes. — Ansioso para escapar ao interrogatório, Edgar levantou-se. — Bem, tenho muitos telefonemas a dar. Até logo.

Assim que ele se afastou, Edith caiu na risada.

— Eu não... sabia o que... estava acontecendo — conseguiu dizer entre gargalhadas. — Vocês viram a cara dele, quando James disse "mais dez por cento"? Pensei que fosse ter um ataque! Vocês fizeram tudo direitinho e ainda conseguiram todo esse dinheiro extra. Muito obrigada — murmurou, apertando a mão dos dois.

— A venda não está garantida, até que o contrato seja assinado pelas duas partes interessadas — James advertiu.

— Eu sei, mas, desta vez, nada vai acontecer. Tenho certeza —ela afirmou, convicta, antes de voltar sorridente para a cozinha, a fim de terminar o preparo do jantar.

— Foi muita sorte Edgar não ter desistido da compra — Lily falou. — Se ele recuasse, você ficaria em maus lençóis.

— Conheço lugares piores para se comprar. Se ele desistir...

— Isso não vai acontecer.

— Bem, se Edgar desistir, pagarei o valor mencionado, à vista.

— Está falando sério?

— Claro.

— O que você faria com uma pousada em Praslin?

James apanhou a bengala e se pôs de pé.

— Fecharia o restaurante, reformaria o edifício principal e os chalés e usaria o lugar como recanto de veraneio para mim, meus amigos e para os funcionários da Potter-Black.

Lily também se levantou.

— Obrigada pela ajuda. Foi sensacional! — declarou, colocou-se na ponta dos pés e beijou-o.

Ao sentir os lábios macios e familiares, Lily relaxou. Porém, ao dar-se conta da loucura que estava cometendo, começou a se afastar.

O braço de James enlaçou-lhe a cintura, impedindo-a de bater em retirada.

— Sensacional é você — ele murmurou.

Então, beijou-a com paixão, provocando arrepios de prazer que percorreram todo o corpo de Lily, que se colou a ele, desejando-o com ardor.

Não, disse a si mesma. O que desejava era o alívio e o prazer de fazer amor, pois muito tempo havia se passado desde a última vez. Ao mesmo tempo em que pensava assim, foi deslizando os braços para cima, a fim de abraçá-lo, deixando-se mergulhar na magia daquele beijo.

Subjugado pela força do desejo, James também deslizou a mão, mas foi para baixo, a fim de acariciar um seio macio e arredondado, que fez uma corrente elétrica percorrer seu braço e espalhar-se por suas entranhas.

De repente, descolou bruscamente os lábios dos dela.

— Ah, não!

— O que foi? — Lily indagou, atordoada.

— Nosso filho está chorando — ele a informou.

No mesmo instante, como se para confirmar tal informação, um grito se fez ouvir da varanda. Lily respirou fundo e ajeitou a blusa.

— Mais uma vez, ele escolheu o momento perfeito — declarou.

James franziu o cenho.

— Estou começando a detestar as escolhas de Harry — murmurou, apanhou a bengala e retornou ao bangalô.


Desculpem a demora.

Quero agradecer aos reviews de L. Black, Marina e Deby e às pessoas que estão acompanhando.

Espero que tenham gostado. Até o próximo.