Reluctant Father! pertence a Elizabeth Oldfield.
CAPÍTULO VI
Lily dobrou um pijaminha azul, colocou-o sobre a pilha de roupas passadas e apanhou outro. As roupinhas de Harry quase não lhe tomavam tempo algum, mas as suas enchiam um cesto de tamanho considerável. E, ainda, havia toalhas de mesa e guardanapos. O domingo era, geralmente, um dia bastante calmo no restaurante, e ela estava aproveitando a folga para pôr em dia as tarefas de lavanderia, enquanto Edith cuidava da cozinha.
Enquanto trabalhava, pensava em James e em como o beijara, três dias antes. Embora o beijo houvesse sido inspirado por um sentimento de gratidão, fora também instintivo. Uma necessidade básica a impelira. Por quê? Porque ainda o amava.
Dezoito meses antes, Lily havia se apaixonado por James e, apesar da maneira casual como ele a abandonara e de sua recusa em agir como um verdadeiro pai para Harry, ainda o amava. Ao longo desse tempo, ela acreditara ter superado o sentimento e teria rido se alguém insinuasse que ele existia. Mas, ainda assim, era essa a verdade.
Olhando o vapor que se erguia do ferro de passar, concluiu que só podia ser louca, ou masoquista. Deveria pensar com a cabeça, não com o coração. Decidiu que faria isso. Trataria de esquecer James. Não podia ser tão difícil.
Virou-se para Harry, que dormia profundamente no carrinho e refletiu que, se concentrasse sua atenção na traição de James para com o filho e se lembrasse de quanto ele era egoísta e...
Ora, ele também tinha qualidades, insistiu uma voz interior. Muitas. Por exemplo, ajudara Edith a dobrar Edgar Bones. No dia seguinte à reunião em que o preço pelo Paraíso Perdido fora elevado, o sul-africano levara um contrato já assinado por ele, como procurador do Club Sesel, e implorara que Edith acrescentasse sua assinatura.
Por coincidência, James encontrava-se no restaurante e Lily lhe pedira que examinasse o documento.
— Está tudo em ordem — ele havia assegurado, depois de ler o contrato.
Agora, enquanto esperava pelo dinheiro, Edith planejava com entusiasmo as cores de tapetes e cortinas para sua nova casa. Tais detalhes de decoração só seriam possíveis porque ela ia receber bem mais do que havia imaginado. Graças a James, a quem a nativa passara a tratar como a um deus que havia caído na terra por engano.
Quando terminou de passar a roupa, Lily desligou o ferro e levou o carrinho para a varanda, ao lado da porta da cozinha. Embora continuasse de olhos fechados, Harry começava a mover os bracinhos, o que indicava que logo despertaria.
— Vou levar minha roupa para o chalé — ela informou Edith —, mas voltarei em seguida para preparar o almoço de Harry.
— Está bem — a mais velha concordou.
Depois de guardar a roupa, Lily voltou à cozinha, preparou a papinha de Harry e, então, foi até a varanda, mas o carrinho não estava lá. Não ouvira o choro do filho, mas sabia que se ele se mostrasse agitado, Edith o levaria para um curto passeio.
— Edith? — chamou.
— Já vou — a outra respondeu de dentro do restaurante e logo apareceu na porta.
— Harry está com você, lá fora?
— Não. Ele está na Maison d'Horizon.
O que não deveria surpreendê-la, uma vez que, nos últimos dias, James levara o bebê para passear diversas vezes, passara horas brincando com ele e, quando o encontrava dormindo, contentava-se em observá-lo em silêncio. Embora não estivesse disposto a assumir um envolvimento a longo prazo, no momento, a novidade de ser pai parecia fasciná-lo.
E, apesar de se sentir gratificada por tal fascinação, pois também considerava o filho uma criatura fantástica, Lily ficava perturbada a cada vez que encontrava James. Sempre que o via, uma forte tensão tomava conta dela. Depois de cada encontro, descobria-se imaginando como a vida teria sido boa para os três se...
— James chegou quando você estava no chalé — Edith explicou. — Quando viu que Harry estava acordado, ofereceu-se para ficar com ele até a hora do almoço. Ia esperar para pedir permissão a você, mas eu disse a ele que não havia problema. Você não se importa, não é?
— Não — Lily respondeu, após um breve momento de hesitação.
— Ele disse que bastaria você telefonar quando quisesse Harry de volta.
— Vou até lá para buscá-lo.
— Não tenha pressa de voltar. Não temos nenhuma reserva para o almoço e se algum freguês aparecer, Jules e eu damos conta. Pode aproveitar para fazer um pouco de exercício, enquanto estiver lá — Edith sugeriu.
Nos últimos dias, com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, Lily acabara se esquecendo dos exercícios. Bem, a verdade era que ela havia preferido não ficar sozinha com James, a fim de evitar ser assaltada de novo por aquele desejo insano que a impelia para ele.
Ou o contrário. Embora James se mantivesse distante, os longos olhares que lançava para Lily, bem como a tensão visível em seu corpo, indicavam que continuava a desejá-la.
— Preciso dar o almoço a Harry — ela argumentou.
— Pode fazer isso no bangalô e, então, exercitar-se. Nem precisa trocar de roupa.
Lily baixou os olhos para o short e a camiseta que usava.
— Tem razão.
— Então, até mais tarde — Edith despediu-se com um sorriso.
Lily assentiu. Tentar se manter longe do bangalô e de seu ocupante era uma atitude infantil. Queria usar a sala de ginástica e não havia motivo para não se exercitar. Se algum instinto traidor despertasse, ela trataria de abafá-lo. Afinal de contas, era capaz de se controlar. Quanto a James atacá-la, o perigo parecia remoto e valeria a pena arriscar.
— Até mais tarde — respondeu.
— Você poderia levar James para um passeio pela ilha, depois do almoço — Edith sugeriu, já se virando para sair. — Bem que está precisando tirar uma folga do Paraíso Perdido.
— Vou pensar nisso.
Quando voltou para a cozinha, Lily sorriu. A nativa parecia determinada a dar um empurrãozinho para que o casal se envolvesse. Deveria contar a ela que James era pai de Harry? Ou Edith já adivinhara? Talvez fosse por isso que se esforçasse tanto em seu papel de alcoviteira.
Com um suspiro, refletiu que deveria contar a verdade a Edith. O problema era que a verdade incluía o fato de James se recusar a assumir o papel de pai e não era nada fácil admitir isso para quem quer que fosse.
Enquanto colocava a comida de Harry na sacola do bebê, Lily admitiu que a ideia de alimentá-lo no bangalô era muito boa. Tomar contato com as atividades cotidianas do filho poderia aproximar James, o que só traria vantagens para o futuro de Harry.
Talvez não, refletiu, enquanto se encaminhava para a Maison d'Horizon. Seria mais sensato deixar de lado o que desejava e ser mais realista. A verdade era que, em Seychelles, James não tinha muito o que fazer. Assim como as anotações para o tal guia para idiotas, Harry também ocupava, o lugar de passatempo.
Quando voltasse para Boston, James retomaria seu posto na Potter-Black. Mais uma vez, seria absorvido pelo trabalho, com negociações, viagens e visitas a clientes, que lhe tomariam todo o tempo e energia. O filho deixaria de intrigá-lo. Por mais doloroso que fosse, Lily tinha de admitir que a atração que Harry provocava no pai era temporária.
— Sou eu — anunciou ao entrar pela porta da frente, que fora deixada aberta.
— Estamos aqui — James gritou da sala de estar. Descalço, vestindo short e camiseta, ele estava sentado no tapete, as pernas esticadas. Harry tentava engatinhar por sobre elas. Desde que chegara na ilha, James se tornara mais bronzeado e ganhara peso. Parecia em boa forma, além de extremamente viril e atraente.
— Sequestrador — Lily falou. Ele sorriu.
— Harry parecia querer companhia, assim como eu. Veja isso — falou e estalou os dedos.
Apoiado na perna do pai, Harry virou-se, ergueu a mãozinha e também estalou os dedos. Lily caiu na risada.
— Nunca o vi fazer isso antes!
— Acabei de ensiná-lo. Quantos garotos da idade dele você conhece, que são capazes de fazer o mesmo? — James perguntou como o mais orgulhoso dos pais.
Crianças eram novidade para ele. Nunca antes se dera conta de quanta alegria elas podem dar, nem como podem absorver um adulto... embora Harry fosse especial.
— Nenhum — Lily respondeu com um sorriso, partilhando o orgulho do filho. — Admite que ele é um gênio?
— Sem a menor sombra de dúvida.
— Como está na hora do almoço de Einstein, eu trouxe a comida. Quer alimentá-lo?
— Eu?
— Ele pode fazer um pouco de sujeira, mas não morde. E, caso morda, só tem dois dentes.
James franziu o cenho.
— Nunca dei de comer a uma criança.
— Tudo tem uma primeira vez.
Ele considerou a ideia por um momento. Então, assentiu.
— Um dia desses, quando entrei na despensa, vi um cadeirão que Harry poderá usar.
— Uau!
— Este lugar parece equipado para todo tipo de contingência — ele continuou. Então, entregou Harry para Lily e foi até a despensa.
Como nunca fora usado antes, o cadeirão estava envolto por um plástico grosso, que Lily usou para forrar o chão da cozinha.
— Para facilitar a limpeza, depois — explicou, enquanto amarrava um babador em torno do pescoço de Harry. Abriu os recipientes plásticos, retirou da sacola uma colher e estendeu-a para James. — É toda sua.
Sentando-se junto ao cadeirão, ele ofereceu uma colherada de papinha para Harry, que abriu a boca e comeu. Na terceira colherada, James sorriu.
— Já estou pegando o jeito da coisa. Não estou, pirralhinho?
O garotinho riu.
— Acha que ainda pode mudar de ideia com relação a um envolvimento maior com Harry, no futuro? — Lily perguntou, animada pelo prazer que ele demonstrava obter da companhia do filho.
— Não.
A resposta foi seca, direta e definitiva. Depois de permanecer algum tempo em silêncio, ela voltou a falar:
— Foi até o Paraíso Perdido de short?
— Sim. Por quê?
— Foi a primeira vez. Mesmo com a temperatura passando dos trinta graus, você sempre veste calça jeans.
— E daí?
— Usa calça para esconder a perna.
— A escolha das minhas roupas diz respeito somente a mim.
— Se começar a sair de short, as pessoas vão olhar. Mas, qual é o problema? Se ficarem impressionadas, então, elas é que têm uma deficiência, não você. Além do mais, uma perna atrofiada chama a atenção por três segundos. Não é grande coisa. Harry demonstrou alguma aflição, ainda há pouco?
— Claro que não — James respondeu com impaciência.
— Você também não deveria se incomodar — ela continuou. — Nem deveria considerar um problema o fato de usar uma bengala e mancar.
— Como um aleijado?
— Até certo ponto, é exatamente o que você é.
— Ora, obrigado pelo estímulo!
— Por outro lado, não está em uma cadeira de rodas, nem usa muletas.
James lançou-lhe um olhar gelado e hostil.
— Acha mesmo necessária esta conversa? — inquiriu.
Lily manteve-se impassível, recusando-se a se deixar intimidar. Era óbvio que James ainda não havia superado a mudança infeliz em sua vida e que precisava de ajuda. E ela estava disposta a ajudar, ou ao menos, tentar.
— Ao que parece, quando voltou a trabalhar cedo demais, você estava fingindo que já havia se recuperado, quando isso não era verdade. E, ao escolher uma ilha distante para se recuperar, acho que está se escondendo. Está se recusando a admitir sua... nova situação. Isso se chama negação.
— Parabéns pela perspicácia!
— Precisa aceitar que jamais voltará a fazer coisas que, antes, fazia tão bem, como por exemplo, esquiar, jogar tênis, correr. Um dia, você falou sobre voltar ao normal, mas isso — apontou a perna atrofiada — é a normalidade, agora.
— Se acha que vai conseguir alguma coisa com esse seu sermão barato, pode esquecer.
Lily respirou fundo. Não gostava de dizer aquilo mais do que ele gostava de ouvir. Porém, era necessário.
— Com o tempo, sua perna vai se fortalecer e você poderá praticar alguns esportes — insistiu.
— O que a faz ter tanta certeza disso? — James indagou com sarcasmo.
— Sei que você possui o tipo de determinação e dedicação que garantiriam a melhor recuperação possível, se tiver a motivação adequada.
Ele exibiu um sorriso cínico.
— E ser um aleijado ativo é uma boa motivação?
— É.
James fez uma careta.
— Obrigado pela lição de moral. Pode ficar tranquila, pois eu sei que existe uma porção de gente em condições muito piores que a minha e também sei que deveria estar agradecendo aos céus pela minha sorte.
— Você deveria, isso sim, encarar os fatos. É verdade que alguns aspectos de sua vida ficaram limitados e, por isso, você sofre e sente raiva e frustração. Mas está na hora de superar tudo isso. Já é tempo de exorcizar os seus demônios e levar a vida adiante.
— É tempo de você pôr um ponto final nessa conversa.
Embora falasse em voz baixa, a linha dura de seus lábios indicava que, se não estivesse alimentando o bebê, já teria berrado a sua fúria. Ou saído dali.
— Bravo! — aplaudiu, quando Harry comeu a última colherada. — Agora, vamos à sobremesa.
Lily franziu o cenho, percebendo que James focalizara a atenção no filho, a fim de escapar do assunto desagradável.
Harry aceitou a primeira colherada, fez uma careta, como se houvesse engolido uma vespa, e cuspiu tudo fora.
— Ele costuma gostar — Lily comentou, limpando os bocados de purê de manga que haviam aterrissado na bandeja do cadeirão.
—Vamos tentar de novo — James falou e, recolhendo com a colher o restara do purê em torno dos lábios de Harry, enfiou na boca do filho.
Dessa vez, Harry engoliu.
— Há muitas coisas que você ainda pode fazer — Lily voltou ao assunto inicial. — A vida é curta demais para...
— Chega! — James sibilou. — Deixe-me em paz. Se precisar de conselhos, procurarei um profissional.
Lily assentiu, demonstrando compreensão. Com a mudança do tom de voz do pai, o garotinho se encolhera e, agora, exibia expressão assustada. Ela não queria ver o filho aflito. Além disso, sua lição de moral parecia uma grande perda de tempo.
— Se fizer o favor de dar a mamadeira a Harry, poderei fazer um pouco de exercício — falou, resignada.
— Faça isso — James respondeu de boa vontade.
Quando saía, Lily hesitou.
— Edith sugeriu que eu o levasse para um passeio pela ilha, hoje à tarde — falou, sabendo que a mais velha faria questão de mencionar sua ideia, quando o encontrasse.
— Eu adoraria. A que horas quer sair?
— Duas e meia — ela respondeu, surpresa por ele ter aceitado o convite, depois de ter ficado tão irritado com a conversa.
— Se gosta de nadar, poderíamos acabar o dia em uma praia qualquer.
— Pedirei a Edith que nos recomende uma.
James tirou Harry dos braços de Lily e suspendeu-o no ar.
— Que garoto mais elegante! — disse.
O bebê, que usava uma roupinha parecida com o uniforme da Legião Estrangeira, exceto pelas cores vivas, riu alto, sacudindo bracinhos e perninhas.
Com James no banco do passageiro e Harry na cadeirinha de segurança, presa ao banco traseiro, Lily dirigiu pela estrada costeira, até Baie St. Anne, a capital de Praslin. Tratava-se de uma cidadezinha tranquila, com um porto natural.
Ali, passearam à beira-mar, viram pescadores trabalhando e subiram ao mirante para observar ilhas menores espalhadas no oceano.
Depois disso, seguiram por uma estrada que serpenteava pelas montanhas, atravessando vilarejos pitorescos, antes de voltar à costa. Beberam refrigerantes em uma barraquinha de praia e, então, seguindo a indicação de Edith, tomaram uma estrada de terra, repleta de lombadas e buracos, para felicidade de Harry, chegando a uma baía deserta.
Enquanto Lily passava filtro solar em Harry, James tirou a roupa que usava por cima do calção de banho e entrou no mar. Quando ela finalmente se despiu e, de maio preto e Harry nos braços, também entrou no mar, James já atravessara a baía a nado e voltara.
— Vi uma porção de peixinhos, enquanto nadava — ele disse, tomando Harry dos braços de Lily e mergulhando-o na água límpida e morna até a cintura. Então, empurrou-o de volta para a mãe. — Eles nadavam assim.
O garotinho riu e Lily girou-o e empurrou-o para James. Continuaram a empurrá-lo de um para outro, enquanto as risadas de Harry tornavam-se mais altas e deliciosas.
— Por que não vai nadar um pouco, enquanto cuido do pirralhinho? — James sugeriu, após alguns minutos.
— Boa ideia — Lily aceitou e mergulhou, afastando-se.
Embora James fosse boa companhia, a atitude dele com relação a ela havia se tornado um tanto formal e remota. O que indicava que ainda restava algum resquício de sua irritação com a conversa da manhã.
Depois de nadar, ela voltou a se juntar aos dois. Brincaram mais um pouco com Harry, que manifestava sua adoração pela água com gritinhos alegres. Mais tarde, sentaram-se na areia para se secarem.
Lily apanhou uma toalha da sacola.
— Está na hora de enxugar esse... — começou a falar. Harry havia conseguido virar-se sozinho e tentava, desajeitado, engatinhar de volta para o mar.
— Veja isso! — Lily exclamou. James riu.
— Eu disse que ele é um gênio!
— Tem razão.
O pai seguiu o garotinho e tomou-o nos braços antes que alcançasse a água.
— Você é um garotinho muito esperto — disse. — Sua mãe pensa assim e eu também.
Quando James sorriu para Lily, ela foi invadida por uma onda de calor e voltou a sentir uma profunda alegria pelo senso de família que os envolvia. Viu no brilho dos olhos de James que ele sentia o mesmo, mas a alegria durou um breve momento, pois ele logo desviou o olhar, franzindo o cenho e retomando sua atitude distante.
Lily fechou o livro de contabilidade e guardou-o na gaveta. Estava tudo em ordem.
— O que vou fazer agora? — perguntou ao filho, que, depois de engatinhar por todo o escritório, havia se sentado aos pés da mãe.
Era uma bela tarde de domingo, uma semana depois do passeio pela ilha. Encerradas as tarefas do almoço, Edith fora visitar a irmã. Jules voltara para casa. Lily completara as anotações de contabilidade.
— Você está exausto — concluiu, ao ver as pálpebras pesadas do filho. — Enquanto estiver tirando o seu cochilo, vou tomar sol e ler um livro. Ou, quem sabe, eu aproveite para limpar o bar. Sim, é isso mesmo o que vou fazer.
Depois de acomodar Harry no carrinho e deixá-lo a um canto do restaurante, apanhou os produtos de limpeza. Retirou as garrafas das prateleiras de vidro e começou a limpá-las.
O almoço daquele domingo fora mais movimentado que de costume. Quatro mesas haviam sido ocupadas: duas reservas de turistas, uma família local que fora comemorar o aniversário de um de seus membros e James, que decidira saborear o delicioso peixe ensopado de Edith.
Lily esfregou com força uma mancha resistente. Embora o encanto de James por Harry o mantivesse na condição de visitante diário, ele continuava frio e distante com ela. A conversa do domingo anterior deixara suas marcas. James se recusava a reconhecer a verdade das palavras de Lily e a perdoá-la por sua interferência, embora permitisse que ela continuasse usando a sala de ginástica.
Deu um passo para trás e observou o próprio reflexo na parede de espelho do bar. Nos últimos sete dias, havia se exercitado religiosamente e, segundo Edith, cuja opinião não era das mais confiáveis, perdera mais um quilo. Virou de lado para o espelho. Estaria mesmo mais magra? Sua barriga, mais lisa? Sim!
Depois de limpar as prateleiras de vidro e todas as garrafas, começou a arrumá-las nos seus lugares. Como não soubesse exatamente como estavam dispostas antes, decidiu deixar que Jules cuidasse disso quando chegasse, mais tarde.
Ao pensar em Jules, os lábios de Lily curvaram-se em um sorriso maroto. O jovem passara os últimos dez dias tentando escapar ao assédio cada vez mais ardente de Hestia. Evitara a morena sempre que possível, falara sobre suas numerosas namoradas e começara a fazer referências repetidas e esperançosas sobre o fato de que a divorciada logo deixaria Seychelles.
Hestia, que pegaria o avião naquele domingo, mostrara-se impermeável às tentativas de Jules de ser deixado em paz. Também parecera nem sequer cogitar que o rapaz poderia não estar interessado em uma mulher vinte anos mais velha.
Na noite de sábado, conforme Jules contara no almoço de domingo, quando voltava para casa a pé, Hestia parara o carro ao lado dele, na estrada.
— Ela ficou de tocaia para me surpreender sozinho — Jules contara a Lily, com uma careta de horror.
— Vou lhe dar uma carona — Hestia dissera e, quando Jules recusara com delicadeza, desligara o Toyota e saíra do carro. — Isto é para você — havia declarado, mostrando uma passagem de avião. — Assim, você poderá voltar comigo para a Inglaterra. Não precisa se preocupar em procurar emprego. Poderá me ajudar na butique. E, depois de algum tempo — acrescentara com um risinho infantil —, poderemos nos casar.
— A mulher ficou maluca! — Jules dissera, sacudindo a cabeça. — Eu disse a ela que casamento é a última coisa em que pretendo pensar e que não havia a menor chance de eu ir com ela para a Inglaterra. Ela quis saber por que e começou a me parecer muito agitada. Então, eu lhe disse que Doris, uma de minhas namoradas, está grávida.
— É verdade? — Lily perguntara, uma vez que, em se tratando de Jules, era mesmo uma possibilidade.
— Não, mas eu precisava dizer alguma coisa. Bem, Hestia declarou que era ela quem deveria estar esperando um filho meu, entrou no carro e se foi. — Jules estremeceu. — Quanto antes essa maluca deixar a ilha, melhor. Vou me sentir bem mais seguro.
Lily colocou mais uma garrafa na prateleira. Hestia realmente exagerara em sua perseguição a Jules, além de ser por demais egocêntrica, mas quando estivesse fazendo as malas para partir, certamente sentiria o peso da solidão. E da tristeza. Em meio a um suspiro solidário, ouviu o som de passos na entrada do restaurante. Virou-se e deparou com Hestia.
A morena vestia um conjunto de saia e blusa bege, com meias de seda pretas e sapatos altos. Estava cuidadosamente maquiada e penteada. Era óbvio que suas malas estavam prontas, no porta-malas, e que ela se encontrava a caminho do aeroporto de Praslin, de onde voaria para Mahé. Dali, pegaria o avião para a Inglaterra.
— Jules está? — Hestia perguntou, sem se dar ao trabalho de cumprimentar Lily.
— Ele saiu há mais ou menos uma hora.
Teria Hestia decidido aparecer para se desculpar com o rapaz pelo comportamento da noite anterior? Ou pretendia fazer ainda um último apelo para que Jules a acompanhasse na viagem?
— Ontem à noite, sugeri a ele que fosse comigo para a Inglaterra, mas falei muito em cima da hora. Só depois me dei conta de que ele não poderia simplesmente partir e deixar vocês sem alguém para substituí-lo. Além disso, ele certamente tem outros... compromissos a resolver.
— Jules não quer deixar Praslin — Lily falou com voz gentil.
— Não? Bem, eu poderia comprar uma casa aqui... Sim, é isso mesmo o que vou fazer! Comprarei uma casa e abrirei uma butique e...
— Está sonhando acordada — Lily insistiu.
A morena fez beicinho.
— Não estou! Você não quer que Jules e eu... — parou de falar quando o telefone tocou.
— Com licença — Lily falou, antes de atender. — Alô?
— Eu gostaria de falar com Oscar — disse uma voz masculina com forte sotaque estrangeiro. — Meu nome é Wilhelm. Sou um velho amigo dele.
— Infelizmente, Oscar faleceu há alguns meses.
Houve um momento de silêncio.
— Que notícia triste... Com quem estou falando?
— Meu nome é Lily. Sou sobrinha de Oscar.
— Ora, então, você sabe que ele era um sujeito espetacular. Oscar e eu tivemos muitos bons momentos, juntos. Lembro-me de quando viajamos para...
— Adeus — Hestia despediu-se.
Pousando a mão sobre o fone, Lily replicou:
— Adeus. Faça uma boa viagem.
A morena nem sequer olhou para trás.
— Visitei Oscar uma vez, no Paraíso Perdido — Wilhelm continuou. — Como vão os negócios?
— A pousada está sendo vendida — Lily respondeu, voltando a se concentrar no telefonema.
— É o fim de uma era. Quando estive aí, com Oscar, nós... Embora os ruídos na linha indicassem que a ligação era internacional, ele continuou falando do amigo por mais cinco minutos.
Quando finalmente desligou o telefone, Lily decidiu dar uma olhada em Harry, pois o garotinho estava quieto havia muito tempo. Aproximou-se do carrinho e parou, de olhos arregalados, o sangue gelando nas veias. O carrinho estava vazio! O que acontecera a Harry? Onde ele estava?
Ordenou a si mesma que mantivesse a calma. Provavelmente, James a vira ocupada ao telefone, apanhara Harry e o levara para ver o mar, os papagaios... qualquer coisa. Sim, fora isso o que acontecera. James já fizera isso antes... embora jamais sem a sua permissão.
Foi até a varanda e olhou em volta. Onde estariam pai e filho?
— James? — chamou em voz alta. — Jimmy?
Como não obtivesse resposta, foi até a praia. Estava deserta. Então, dirigiu-se ao bangalô. Embora continuasse repetindo que não havia motivo para se assustar, uma necessidade de estar perto do filho, de se certificar de que ele estava são e salvo a fez correr.
Deu a volta na casa, constatando que a sala de ginástica, a sala de estar e a cozinha encontravam-se vazias. Ao passar pela janela do escritório, viu James inclinado sobre uma máquina de escrever portátil, datilografando com um só dedo.
Lily franziu o cenho. Não viu Harry em lugar algum.
Ainda correndo, voltou à porta da cozinha e entrou sem bater. Ao se ver na porta do escritório, foi logo perguntando:
— Onde está Harry? Não acha que deveria falar comigo, antes de levá-lo com você?
James parou de datilografar e virou-se para fitá-la.
— Não vi Harry, hoje.
— Não estou achando a menor graça nessa brincadeira! Aliás, quero que saiba que não vejo graça nenhuma em você dar tanta atenção ao seu filho, agora, se não pretende fazer parte da vida dele no futuro. Na verdade, acho sua atitude lamentável!
James pareceu prestes a reagir ao ataque inesperado, mas limitou-se a dizer:
— Não estou brincando. Harry não está comigo.
Lily empalideceu, ao mesmo tempo em que um tremor intenso tomava conta de seu corpo.
— Mas... o carrinho está vazio... Harry não está onde o deixei.
— Talvez Edith o tenha levado para um passeio — ele sugeriu.
— Não. Ela foi visitar a irmã. Saiu logo depois do almoço e, desde então, estou sozinha. Deixei o carrinho em um canto do restaurante, enquanto limpava o bar e... Alguém deve ter entrado sorrateiramente, quando eu estava de costas e... levado Harry.
James pôs-se de pé, dando-se conta de que estava diante de uma verdadeira emergência.
— Não ouviu nenhum barulho? Nenhum carro se aproximou? Você não viu ninguém? — inquiriu, nervoso.
— Hestia passou por lá, mas...
— Ela o levou.
Lily sacudiu a cabeça.
— Hestia estava a caminho do aeroporto, para tomar o avião para Mahé. Não levaria um bebê...
— Levaria, sim. Ela deixou claro quanto gostaria de ter um filho e é louca o bastante para fazer qualquer coisa — James insistiu e, pegando Lily pelo braço, levou-a para fora da casa. — Vamos ao aeroporto. Corra na frente e vá manobrando o jipe. Alcançarei você em um instante. Depressa!
Um capítulo cheio pra vocês. James brincando com Harry, mas sem querer se envolver e Hestia sequestrando Harry no final. O que será que vai acontecer agora?
Deby: Harry está sempre atrapalhando. Mas quem sabe da próxima vez ele não interrompa... kkkk
Espero que tenham gostado do capítulo.
Até o próximo.
