Reluctant Father! pertence a Elizabeth Oldfield.


CAPÍTULO VII

Lily correu de volta ao Paraíso Perdido, entrou no chalé, apanhou as chaves e saiu. Mal dera a partida no motor, quando James saltou para o banco do passageiro.

— Vamos! — ele ordenou. — Eu avisei que você não deveria deixar Harry sozinho com Hestia.

— Não o deixei com ela! Hestia apareceu e, quando conversávamos, o telefone tocou. Fui atender, ela se despediu e saiu. Deve ter apanhado Harry quando saía e eu estava de costas. Tudo aconteceu em segundos.

— Desculpe — James falou, pousando a mão no braço de Lily.

A crítica fora injusta e ele também estava muito aflito.

— Como ela pôde levar Harry no Toyota, se não tem cadeirinha de segurança? — Lily especulou, reprimindo as lágrimas.

— O carro tem cinto de segurança. Ela certamente o prendeu entre as malas. Tente se acalmar. Harry é um garotinho forte. Vai ficar bem.

— Estou rezando por isso.

— Quanto tempo faz que Hestia foi embora?

— Não mais que quinze minutos — Lily respondeu, pisando fundo no acelerador. — Ela queria falar com Jules.

Então, contou o que o rapaz lhe contara sobre a noite anterior.

James franziu o cenho.

— Ele disse que a namorada está grávida? Sem querer, deve ter detonado em Hestia a necessidade insana de ter um filho... mesmo que seja o filho de outra mulher.

— Ela falou em comprar uma casa na ilha, para ficar com Jules...

— Pelo que vi e ouvi, ele só iria morar com ela amarrado e amordaçado!

— Eu disse a ela que estava sonhando acordada e ela não gostou. — Lily lançou um olhar preocupado para James. — Pode ter levado Harry para se vingar de mim, por eu ter sugerido que Jules não está interessado nela.

— Bem, você não teve culpa de nada. Qualquer um tem o direito de expressar suas opiniões. Especialmente em se tratando de uma opinião sensata. Vamos encontrar Harry — ele afirmou, convicto. — Sabe a que horas parte o voo para Mahé?

— Não, mas pode já ter decolado.

Lily lutou com todas as forças para não se desfazer em lágrimas. Não poderia se dar a esse luxo. Embora a estrada estivesse tranquila, precisava estar atenta para ultrapassar um carro ocasional, bem como para desviar de possíveis animais.

— Se o avião houver decolado, pediremos à polícia de Praslin para telefonar às autoridades de Mahé — James declarou. — Afinal, ela deve se apresentar no aeroporto de lá duas horas antes do voo para a Inglaterra.

Lily assentiu em concordância.

— O que significa que poderão deter aquela maluca... sequestradora, antes do embarque.

— Mas... e se ela embarcar em outro avião, para outro lugar? Hestia pode viajar para qualquer país, em qualquer continente. Ou, então, pode deixar o aeroporto e desaparecer em Mahé... com Harry!

— Mahé não é uma cidade grande e não será nada difícil localizar uma mulher com uma criança, mas sem roupas ou alimentos adequados ao bebê. Especialmente uma mulher faladeira como ela.

— Tem razão — Lily admitiu.

— Hestia deve ter levado Harry por impulso, sem planejar nada. Ela não tem um passaporte para ele, mas terá de apresentar um para deixar Mahé. Portanto, será detida no departamento de imigração. Não terá a menor chance de...

James parou de falar, pois haviam entrado no estacionamento do aeroporto e, na pista, um avião já tinha os motores funcionando, enquanto funcionários da companhia aérea fechavam o compartimento de bagagem. O que significava que o avião estava prestes a decolar.

— Aquele é o avião que parte para Mahé? — inquiriu.

— Acho que sim, mas é melhor nos informarmos.

Lily mal estacionou ao lado do terminal, e os dois já se encontravam fora do jipe, rumo ao saguão. Lá, avistaram uma moça com o uniforme do aeroporto, parada junto a uma porta aberta para a pista, observando o avião. Correram até ela.

— Aquele é o avião para Mahé? — James perguntou.

— Sim, senhor.

— Pode fazer o favor de pedir ao pessoal do controle de tráfego aéreo, ou a quem quer que seja, que ordene ao piloto desligar os motores e permanecer exatamente onde está?

— O quê?

— Faça isso, imediatamente! É uma emergência.

— Tem esperança de pegar aquele avião? — a moça perguntou com um sorriso simpático. — Sinto muito, senhor, mas o voo está lotado. E eu jamais poderia pedir que...

— Tarde demais. O avião está partindo — Lily falou com um fio de voz, sentindo um aperto doloroso no peito. — Harry está naquele avião... Posso nunca mais voltar a ver meu filho.

— Não se preocupe. Eu o trarei de volta — James afirmou e, passando pela funcionária do aeroporto, atravessou a porta e se pôs a correr pela pista.

Usando a bengala como apoio extra, James agitou ou braço livre e gritou, mas estava atrás do avião.

— Não adianta! — Lily chamou da porta. — Ninguém está vendo você e, também, não podem ouvi-lo...

As palavras morreram no ar. James atirou a bengala no chão e, correndo ao lado do avião em movimento, gritava como louco para que o piloto parasse.

Lily ficou petrificada. Só podia ser uma grande força de vontade que permitia a James correr naquela velocidade. A pressão sobre a perna atrofiada era, com certeza, imensa. Ele poderia estar estragando todo o trabalho dos médicos, arriscando-se a sofrer danos permanentes ainda maiores do que aqueles ocasionados pelo acidente.

— O que aquele sujeito pensa que está fazendo? — perguntou um policial que havia se aproximado de Lily. — Só um louco corre desse jeito, debaixo de um sol de quarenta graus.

— Nosso filho foi raptado e ele está tentando impedir o avião de decolar — Lily informou-o. — Por acaso, viu uma morena, de roupa bege, com um garotinho nos braços, embarcar?

O policial assentiu.

— Sim. O bebê tentava agarrar-lhe o brinco e ela não estava gostando nada disso.

— Espero que ele lhe arranque as orelhas! O bebê é meu filho, Harry. Ela o pegou e...

— Seu companheiro conseguiu — o policial interrompeu.

Quando virou, Lily descobriu, surpresa, que o avião diminuíra a velocidade. Disparou pela pista, apanhando a bengala de James no caminho, e foi parar ao lado dele.

— Você está bem? — perguntou.

— Eu... acho que sim — ele respondeu, ofegante.

— Não pensei que você fosse conseguir, mas...

— Nem eu. Traga a escada! — James gritou para um homem uniformizado, que o obedeceu de pronto, ao ver o avião parado.

— Fiquei impressionado com a sua velocidade — disse o policial, que havia se juntado a eles. — Sua esposa deve estar satisfeita por ter se casado com um atleta como você.

Esposa? Lily esperou que James corrigisse o policial, mas ele estava ofegante demais para falar.

— Estou, sim — ela replicou, decidindo que aquele não era o melhor momento para discutir tamanha banalidade.

Então, a porta do avião foi aberta. Ao ver Hestia parada no topo dos degraus, com Harry nos braços, Lily foi invadida por uma onda de alívio. Agarrado a um dos brincos da loira, o garotinho parecia alegre e animado.

James passou um braço em torno dos ombros de Lily.

— Ele está são e salvo!

Lily fitou-o com olhos cheios de lágrimas.

— Graças a você — murmurou, antes de correr para tomar o filho nos braços.


— Vamos esclarecer essa história — James falou. — Você pegou Harry porque ele sorriu para você?

Hestia assentiu.

— Ele estava acordando e sorriu e ergueu os bracinhos, como se quisesse vir comigo... embora, agora que estou refletindo melhor, acho que estava apenas se espreguiçando.. Bem, ele pareceu gostar de mim, quando ninguém mais se importava.

— Então, decidiu raptá-lo?

— Não foi uma decisão consciente. Simplesmente, deixei-me levar pelo momento. Sinto muito — ela se desculpou, entre lágrimas. — Harry estava se divertindo no carro, dando gritinhos de alegria, cada vez, que passávamos sobre uma lombada. Mas, quando chegamos no avião...

— Harry chorou? — Lily perguntou, furiosa.

— Muito pelo contrário — disse a senhora francesa, que ocupara o banco ao lado de Hestia, no avião. — Ele parecia feliz e satisfeito.

Estavam em um escritório, no terminal. Quando o policial, acompanhado por outro mais jovem, fora verificar junto ao piloto o que realmente acontecera, ficara esclarecido que a decolagem não fora cancelada por causa de James, pois o piloto nem sequer o vira. A francesa idosa ouvira a admissão de Hestia sobre ter raptado o bebê e, prontamente, informara a cabine de comando.

E, quando os policiais informaram os passageiros curiosos de que a loira seria retirada do avião para interrogatório, a francesa insistira em acompanhá-los, alegando ser capaz de fornecer informações importantes. Assim, o avião partira sem as duas.

— Quando estávamos na fila de embarque, o garotinho não parava de se revirar nos braços dela, tentando agarrar tudo o que via pela frente — a senhora contou.

— Ele babou na minha blusa — Hestia complementou.

— E você não gostou? — James indagou, erguendo uma sobrancelha.

— Claro que não! Este conjunto foi desenhado por um estilista italiano e me custou uma fortuna!

— Não tinha se dado conta de que crianças podem dar muito trabalho? — Lily inquiriu.

A loira sacudiu a cabeça.

— Harry sempre foi tão bonzinho, tão bem-comportado, mas hoje, simplesmente não conseguia ficar quieto um segundo.

— Talvez ele não tenha gostado de ser raptado e tenha decidido fazer você pagar por isso — James sugeriu.

Hestia corou.

— É possível — admitiu.

— Você deveria ter pensado no que estava fazendo Lily passar! — ele repreendeu.

— Tem razão. Eu... eu sinto muito.

— Sente muito? — ele repetiu com uma risada sarcástica. — Pode imaginar como Lily se sentiu, quando se deu conta de que o filho dela havia desaparecido? Tem ideia do desespero, do terror que você provocou?

Hestia soluçou.

— Sim, e estou muito arrependida.

— Já raptou alguma criança, antes, em seu país? — inquiriu o policial mais jovem, ansioso para assumir o controle do interrogatório.

Afinal, semanas e semanas se passavam, sem que nada significativo acontecesse por ali. Aquele episódio representava uma excitante mudança de rotina.

— Ora, claro que não! — Hestia respondeu, horrorizada.

— Está dizendo a verdade? Podemos investigar se a senhora possui uma ficha criminal — o jovem ameaçou.

— Juro que estou dizendo a verdade. Nunca em minha vida estive metida em qualquer tipo de encrenca.

— Até agora — o policial mais velho acrescentou.

— Peguei Harry por impulso. Por favor, me perdoem! — ela implorou entre lágrimas e soluços.

— Quando comentei que é comum as crianças ficarem agitadas durante viagens — disse a francesa —, ela confessou que o garotinho não era filho dela, mas jurou que, assim que aterrissássemos em Mahé, ia telefonar para a verdadeira mãe e combinar uma maneira de devolvê-lo.

Hestia balançou a cabeça com vigor.

— É verdade. Eu pretendia pegar o primeiro avião de volta para Praslin.

— Ao que parece, ficou aliviada quando o avião parou e você viu a chance de se ver livre de Harry — James arriscou em tom seco.

— Eu diria que ela não faz o tipo maternal — a velha senhora concluiu.

Hestia franziu o cenho.

— Não faço, mesmo. Sou uma mulher de negócios.

— E o comportamento de Harry curou você da vontade de ter um filho? — Lily perguntou.

— Para sempre — a loira respondeu, secando as lágrimas que haviam borrado sua maquiagem.

— A senhora deu um susto horrível nos pais do bebê — o jovem policial acusou-a em tom ríspido.

— Pais? — Hestia repetiu, confusa.

— Sr. e Sra... — o rapaz falou, olhando para James.

— Potter — ele completou.

— Embora o Sr. e a Sra. Potter tenham recuperado o filho, terei de prendê-la e...

— Vai me... prender? — Hestia gaguejou.

— É mesmo necessário? — Lily inquiriu.

Esperava que Hestia protestasse contra o uso de "Sr. e Sra.", mas ao que parecia, estava preocupada demais com os próprios problemas. Quanto a James, ele parecia satisfeito em deixar as coisas como estavam.

— A prisão seria o procedimento normal — o jovem policial explicou —, mas tudo vai depender de vocês registrarem ou não uma queixa.

Lily aproximou-se de James e sussurrou:

— Se Hestia for presa, poderá permanecer na prisão por algum tempo. Não quero que isso aconteça. Afinal, ela não planejou raptar Harry e, na verdade, já estava decidida a devolvê-lo e...

— Você tem um coração mole demais. De minha parte, gostaria de ver esta maluca atrás das grades, mas sei que o processo poderia se arrastar por meses. — Virou-se para o policial. — Não temos a intenção de registrar queixa contra ela.

Os dois policiais trocaram um olhar relutante. Ambos haviam acalentado a esperança de serem chamados a testemunhar no tribunal, bem como de serem citados nos jornais.

— Sendo assim, o caso está encerrado — decretou o mais velho.

— Obrigada! Muito obrigada! — Hestia agradeceu em meio a mais uma crise de choro. — Vocês são muito bondosos e compreensivos. Estou profundamente arrependida do que fiz.

A francesa, que havia erguido as sobrancelhas ao ouvir o comentário teatral, voltou a atenção para a pista, onde outro avião se preparava para decolar.

— Se conseguirmos embarcar agora, para Mahé, é possível que ainda haja tempo de pegarmos nosso avião, lá — declarou, esperançosa.

Um dos policiais adiantou-se.

— Telefonarei para o aeroporto de Mahé, pedindo que deem prioridade às senhoras.

Assim que Hestia e a francesa encaminharam-se para a pista, Lily tomou Harry nos braços e, ao lado de James, foi para o estacionamento, onde deixara o jipe.

— Como está sua perna? — perguntou, ansiosa, ao perceber que James mancava mais que o normal.

— Dolorida e fraca, como se eu tivesse corrido uma maratona.

— E não foi o que você fez? O que acha de pararmos no hospital de Grand Anse?

— Não será necessário.

— Um médico poderia examiná-lo e...

James sacudiu a cabeça.

— Vou esperar até amanhã — insistiu.

— Fiquei surpresa quando vi você atirar a bengala e correr daquele jeito — Lily confessou, enquanto acomodava Harry na cadeirinha de segurança.

— Eu também — ele admitiu. — O avião ia devagar e achei que, se conseguisse me colocar à frente...

— Se o piloto não o visse, seria esmagado!

Ele riu.

— Acho que eu não ia gostar disso.

— Nem eu — Lily falou com um sorriso, antes de se atirar nos braços dele. — Tive tanto medo... por você, por Harry, por mim.

Percebendo que ela finalmente dava vazão às lágrimas que conseguira conter a custo, por tanto tempo, James abraçou-a com força. Afagou-lhe os cabelos e beijou-lhe a testa, murmurando palavras de conforto. Quando Harry se mostrou preocupado com a mãe, James acalmou o garotinho também.

Após alguns instantes, Lily secou as lágrimas.

— Está se sentindo melhor, agora? — James perguntou.

— Muito melhor — disse, e deu a partida no motor. — Pouco antes de você disparar na sua maratona, estava me dizendo que seria impossível Hestia deixar Mahé com Harry, por não ter o passaporte dele. Então, como num piscar de olhos, saiu correndo para recuperá-lo.

— Percebi o seu desespero e decidi que faria o possível para impedir que Harry deixasse esta ilha. Nunca pensei que fosse capaz de voltar a correr, mas... — virou-se para trás, onde Harry parecia prestar atenção à conversa — ...você e sua mãe me fizeram descobrir o contrário.

— Deve ter chegado perto de quebrar o recorde dos cem metros rasos! — Lily provocou e, então, ficou séria. — Espero que o esforço não traga maiores problemas para a sua perna.

— O que está feito, está feito. Vou precisar de um ou dois dias para saber se a corrida terá algum efeito maléfico. — James voltou a virar para o banco de trás. — Você é mesmo uma causa perdida, pirralhinho. É raptado, mas nem chora. Muito pelo contrário, parece se divertir!

Harry bateu palmas.

— Você deve se achar o máximo — Lily falou, olhando pelo espelho retrovisor —, mas Hestia não te aguentou!

— Graças a Deus! — James murmurou. Lily assentiu, retomando a expressão séria. Pelo resto da viagem, permaneceu em silêncio, agradecendo a Deus por seu filho não ter se comportado bem, por Hestia ter se dado conta do erro que cometera e, mais importante, por James estar ali para ajudá-la. Hestia parecera sincera ao dizer que havia decidido devolver Harry, mas, se o garotinho houvesse se comportado melhor...

Quando se aproximavam do Paraíso Perdido, avistaram Edith entrando no restaurante. A nativa acabara de voltar da casa da irmã.

Lily buzinou e comentou com James:

— Ainda bem que estamos chegando agora. Se Edith encontrasse o lugar deserto, ficaria muito preocupada.

— Por onde andaram? — perguntou, curiosa, quando eles saíram do jipe.

— Fomos buscar Harry — Lily respondeu.

— Hestia o raptou — James explicou.

Edith arregalou os olhos.

— Raptou?

— Sim, mas James correu na velocidade do vento, o avião parou e...

— Isso foi cortesia daquela senhora francesa — ele a corrigiu.

— E conseguimos ter Harry de volta.

— Que avião? Que senhora francesa? — Edith parecia completamente confusa.

— Vamos entrar e, então, contaremos a história desde o início — James sugeriu.

Edith continuou a fitá-lo.

— Você correu como o vento porque... é pai de Harry?

— Sim, eu sou, mas você já sabia.

Ela soltou uma de suas risadas gostosas.

— Sim, percebi já faz algum tempo. Ele é a sua cara e, além disso, você não ia babar desse jeito pelo filho de outro homem.

James sorriu.

— Eu babo?

— Muito! E, também, baba pela Lils, quando ela não está olhando.

— Verdade? — ele resmungou, antes de mudar de assunto. — A corrida me deu sede. Será que posso beber uma cerveja?

— É para já — Lily falou e, depois de entregar-lhe Harry, desapareceu na cozinha.

Se Edith havia percebido que James babava por ela, certamente também percebera que ela babava igualmente por ele. E, claro, não queria que a mais velha a delatasse.


Lily bocejou. Depois de um dia tão agitado, sentia-se exausta. Saiu do banho, secou-se em uma toalha felpuda e vestiu a camiseta enorme que usava como camisola. Embora ainda não fossem dez horas, não via a hora de se deitar.

Com cuidado, abriu a porta do quarto de Harry. O garotinho, depois de teimar em ficar acordado até quase nove horas, finalmente dormia profundamente. Olhando para ele, Lily sentiu um aperto no peito. Felizmente, seu filho estava são e salvo.

Quando se encaminhava para seu quarto, ouviu uma leve batida na porta. Suspirou, calculando que fosse Edith.

Depois do almoço movimentado, não haviam tido nenhum freguês no jantar. Enquanto Lily tentava fazer Harry dormir, Edith e Jules haviam se sentado no restaurante, falando de Hestia e dando graças a Deus por a morena já estar a caminho de casa.

Quando Lily fora informá-los de que Harry pegara no sono, Edith dissera:

— Aparentemente, não teremos mais nenhum freguês hoje e, por isso, Jules foi embora. Fiquei me perguntando se James apareceria para jantar, mas imaginei que a corrida no aeroporto deve tê-lo deixado exausto.

— Sim, ele deve estar descansando — Lily concordara. Quando se encaminhava para a porta, ela franziu o cenho. Já era muito tarde para servir algum jantar, mas provavelmente, alguém aparecera pedindo drinques e Edith estava precisando de sua ajuda. Embora não costumasse recusar nenhum cliente, naquela noite Lily o faria de bom grado.

Porém, quando abriu a porta, deparou com James.

— O que aconteceu? Sua perna está doendo? Quer que eu o leve para o hospital? — perguntou, alarmada.

— Não, obrigado. Minha perna está doendo, mas não muito. E veja isso — ele ergueu as duas mãos espalmadas. — Sem bengala. Decidi que, enquanto a usasse, precisaria dela. Por isso, estou fazendo um teste e me locomovendo sem ela.

— Agora? Poucas horas depois de correr a maratona? E veio no escuro? Você poderia ter caído! — Lily protestou.

— Trouxe uma lanterna e tomei bastante cuidado. Ainda assim, se cair, basta me levantar novamente. Estou aqui porque preciso lhe dizer uma coisa. — Os olhos de James baixaram para os trajes de Lily. — Mas, se estava indo se deitar...

— Não, ainda não — ela mentiu, pois sentia-se grata demais por ele ter recuperado Harry de Hestia. — Entre.

— Obrigado.

Na sala, Lily convidou-o a sentar-se no sofá, enquanto ela mesma se acomodava em uma poltrona.

— O que precisa me dizer?

— Preciso explicar por que, quando você perguntou se eu estava disposto a participar da vida de Harry, no futuro, eu disse que não era boa ideia.

Lily cerrou os dentes. Era de se esperar que o susto daquela tarde o fizesse pensar melhor no relacionamento com o filho, mas ela estava cansada demais para ouvir argumentos e desculpas.

— Desculpe, mas... — começou a protestar.

— Eu disse isso porque sou um... deficiente.

— Harry não vai se importar — Lily retrucou com impaciência.

— Talvez não, mas eu me importava. Pensei nele crescendo com um pai incapaz de ensiná-lo todos os esportes comuns, como um pai deve fazer e... bem, eu me senti muito mal. Achei que, se ficasse longe dele, eu o pouparia de tal infelicidade.

Lily sacudiu a cabeça.

— Jimmy, ele...

— Por favor, ouça o que tenho a dizer. Achei que, se não podia ser um pai adequado, perfeito, para Harry, então, simplesmente não poderia ser um pai para ele. Mas, nenhum pai é perfeito. O meu, com certeza, não é. Então, duas coisas aconteceram. Em primeiro lugar, o que você disse sobre eu ter de dar fim à autopiedade me fez pensar.

Lily fitou-o, incrédula.

— Verdade?

— No início, disse a mim mesmo que você estava errada, que não fazia ideia de como eu me sentia, mas, gradualmente, comecei a me perguntar se você não estaria certa. Lembra-se de que eu disse que você tinha o direito de expressar sua opinião para Hestia?

Ela assentiu.

— Uma opinião sensata.

— Exatamente. Dei-me conta de que você estava expressando uma opinião sensata sobre mim e sobre a maneira como eu estava lidando com a minha deficiência.

— E qual foi a segunda coisa que aconteceu?

— Hoje à tarde, eu corri. Pela primeira vez, desde o acidente, eu me esqueci da minha perna, esqueci da injustiça do que me aconteceu... e corri.

— Por desespero e pura força de vontade.

— Sim, mas consegui e posso conseguir muito mais. Posso caminhar sozinho, mesmo que manque um pouco. Esta noite, fiquei descansando e pensando. Aceito que jamais voltarei a ser ágil como era. Reconheço que, como você disse, sempre serei limitado, até certo ponto. Por outro lado, isso não me impede de ser um pai para Harry e eu quero ser um pai para ele. Quero estar por perto, à medida que ele for crescendo. Tudo bem?

A alegria fez Lily levantar-se da poltrona e ir se juntar a James, no sofá.

— Sim, Jimmy! Claro que sim!

— Obrigado. Antes, eu só pensava em tudo o que não podia fazer, mas agora... — tomou-lhe a mão e beijou-a. — Agora, sei que tudo é possível.

— E a vida voltou a lhe parecer boa?

James sorriu.

— A vida me parece muito boa — ele murmurou e inclinou-se para ela.

As palavras soaram como eco daquelas ditas mais de dezoito meses antes, quando haviam feito amor pela primeira vez. Lily hesitou. James estava prestes a beijá-la, mas os beijos costumavam levar a uma intimidade maior. Queria fazer amor com ele. Depois de um dia tão conturbado, precisava daquela proximidade, de conforto, mas...

— Gosto de você — James declarou, como se percebesse os medos dela e precisasse bani-los.

— Eu também — ela falou.

Com um sorriso, ele roçou os lábios nos dela.

No momento em que seus lábios se tocaram, Lily deixou a cautela de lado. Passou um braço em torno do pescoço de James, colou o corpo ao dele e retribuiu o beijo com ardor. Embora a voz da razão insistisse em que ela poderia se arrepender, suas emoções venceram a batalha.

O cansaço desapareceu, cedendo à pressão do desejo. Lily sentiu o corpo latejar de prazer.

— Você parece feita de seda — James murmurou, deslizando uma das mãos por sua coxa.

Segurou a bainha da camiseta e puxou-a para cima, até tirá-la. Com olhos faiscantes de desejo, examinou-lhe o corpo cheio de curvas, antes de acariciar-lhe os seios.

— Gloriosa — sussurrou-lhe ao ouvido e enterrou o rosto em seus cabelos, beijando-lhe o pescoço. — Seu cheiro é tão bom quanto a sua aparência.

Lily sorriu.

— É sabonete para bebê.

— Além do seu perfume natural.

James continuou a acariciar-lhe os seios até arrancar dela gemidos de prazer. Então, suas mãos deslizaram pela pele macia do ventre, dos quadris, e alcançaram o triângulo dourado na junção de suas coxas.

— Preciso tomar alguma precaução? — ele perguntou.

— Não. Estou tomando pílula.

— Bom, embora eu tenha vindo preparado.

Lily pousou as mãos no peito de James e empurrou-o.

— Veio preparado? Tinha tanta certeza de que eu... sucumbiria?

Ele sorriu.

— Digamos que eu sabia que, se eu sucumbisse, você também sucumbiria. E as chances de eu não resistir eram muito altas, mas não queria cometer o mesmo erro duas vezes.

— Você é tão... arrogante!

— Não se trata de arrogância, mas sim de realismo. Você e eu sempre soubemos que voltaríamos a fazer amor. É inevitável. É o destino. — Deitou-a no sofá e beijou-a. — Não concorda?

— Sim, concordo — Lily falou com voz rouca.

Em seguida, pôs-se a desabotoar a camisa de James, a fim de sentir-lhe a pele em contato com a sua.

— Lily... — ele murmurou, ao mesmo tempo em que se punha de pé, a tomava nos braços e levava para o quarto.

Com mãos trêmulas, acabaram de se despir e atiraram-se na cama, onde trocaram carícias ternas e ousadas, determinados a proporcionar um ao outro o máximo prazer.

James precisou de todo o seu autocontrole para não apressar as coisas. Quando já estava prestes a explodir de desejo, certificou-se de que Lily estava pronta para recebê-lo e penetrou-a com paixão quase reverente.

Depois de tanto tempo sozinha, Lily não demorou a atingir o clímax, mas, nos poucos minutos que antecederam aquele momento, sentiu-se envolta por uma magia nunca antes experimentada. Perguntou-se se isso acontecia pela certeza inquestionável de seu amor por James.

Então, o mundo deixou de existir. Eram somente eles dois em meio ao fogo da paixão e do êxtase.


— Ah, como eu te queria! — James confessou, quando finalmente recuperou o fôlego, tendo Lily aconchegada em seus braços. Com um sorriso maroto, acrescentou: — Outro dia, quase a agarrei e atirei sobre a mesa do restaurante!

— Seria um verdadeiro escândalo — ela zombou.

— Ora, onde está o seu espírito de aventura? — Então, o sorriso de James desvaneceu. — Desde que a encontrei aqui, tenho sentido uma forte vontade de fazer amor com você, mas tinha medo de que minha perna deformada pudesse interferir e estragar tudo. Eu me sentia... esquisito.

— Esquisito, você? Nunca! Por acaso, pensou em sua perna agora, enquanto fazíamos amor?

— Nem uma vez.

— Eu também não. — Foi a vez de Lily exibir um sorriso maroto. — Estava ocupada demais, pensando em outras partes do seu corpo, que se encontram na mais perfeita forma!

James tomou-lhe a mão e guiou-a até a prova viva de sua masculinidade.

— Em forma mais que perfeita — comentou, malicioso.

Lily riu alto.

— Sou obrigada a concordar com a sua afirmação.

— E?

— Você é insaciável!

— Faz muito tempo que não faço amor com ninguém.

— Desde o acidente?

— Não. Desde a última vez em que fiz amor com você.

Ela o fitou com expressão de surpresa.

— São dezoito meses — concluiu.

— O que não é nada bom para a minha imagem de macho viril, não é mesmo?

— Tem razão.

— Acontece que não conheci nenhuma outra mulher que me despertasse o desejo como você consegue.

Lily sorriu, gostando muito do que estava ouvindo.

— Não se sentiu tentado a discar um desses telefones para conhecer pessoas do sexo oposto? Nem pensou em publicar um anúncio em uma coluna de "encontros"? — perguntou com um brilho divertido no olhar.

— Solteiro, trinta e oito anos, não fumante, apartamento próprio e todos os dentes em perfeito estado procura loura esbelta para diversão? Não! — Apertou-a contra si. — Mas, também, não tenho a menor intenção de manter o celibato por um período tão longo novamente.

— Eu não tenho intenção de permitir que você mantenha o celibato por tanto tempo — ela afirmou, subitamente séria invadida por uma necessidade desesperada de tê-lo junto de si.

Seus lábios se encontraram e, sedentos de prazer, eles se embriagaram nas sensações que proporcionavam um ao outro. E voltaram a fazer amor com paixão renovada.


— Você não se incomoda com o fato de nosso filho ser ilegítimo? — James perguntou, mais tarde, quando descansavam lado a lado, na cama. — Sei que, hoje em dia, essa condição não é exatamente um estigma, mas…

— É claro que me importo… e muito.

— Eu também. Então, por que não consideramos a ideia de um futuro juntos?

Lily fitou-o com ar desconfiado.

— E o que isso significa?

— Casamento.

A surpresa fez com que ela se sentasse de um pulo.

— Está sugerindo que devemos passar a ser Sr. e Sra. Potter? — indagou.

— Sim, como o policial nos chamou, à tarde. Algum problema?

— Sim, um problema enorme. Para usar as suas palavras, você tem "verdadeiro pavor de se ver amarrado e não nasceu para a vida doméstica".

A expressão de James tornou-se sombria.

— E você tem excelente memória.

— Aquele foi um momento inesquecível.

Ele também se sentou.

— Digamos que eu tenha mudado de ideia e que, de repente, a vida doméstica me parece extremamente atraente.

— Digamos que o "de repente" é muito relevante e que você deveria pensar melhor.

— Não será necessário. Por favor, Lily, case-se comigo.

O coração de Lily ameaçou parar de bater. No passado, teria vendido a própria alma em troca daquelas palavras, teria sentido que seus maiores sonhos haviam se realizado. Agora, porém...

A intenção de James era dar seu nome a Harry, reconhecê-lo como seu filho, tornando-o respeitável. Tratava-se de uma intenção admirável e ela se sentia grata e até mesmo comovida por isso. No entanto, pouco antes, ele dissera que gostava dela, mas não mencionara amor. Lily mordeu o lábio, pensativa. Amar era mais profundo, mais forte e mais intenso do que gostar. O amor fazia uma grande diferença na vida de uma pessoa.

As evidências indicavam que, se viessem a se casar, certamente se dariam bem e a parte sexual seria fantástica. Além disso, Harry cresceria em uma família normal, o que também seria ótimo. Ainda assim...

Ainda assim, ela estaria sempre consciente de que o amor não fazia parte da equação de James. E tal consciência parecia destinada a corroer sua paz de espírito, até destruí-la por completo.

Ou não? A mente de Lily girava em disparada. Uma vez que James amava o filho, poderia vir a amá-la também, com o passar do tempo. Sendo assim, deveria correr o risco? Ah, como gostaria!

Mas ele poderia se apaixonar por outra mulher e decidir ficar com ela somente pelo senso de dever e responsabilidade, argumentou sua imaginação fértil. Seria capaz de suportar tal situação?

— Não — Lily respondeu.

— Prefere continuar sozinha, com Harry? — ele inquiriu.

— Sim, mas... Bem, gostaria que nós dois fôssemos amigos. Tudo bem?

— Tudo bem.

— E quero que vá visitar Harry sempre que tiver vontade.

— Obrigado — James agradeceu, levantou-se da cama e vestiu a roupa. — Boa noite.

Lily esforçou-se para sorrir. Acabara de recusar a proposta de casamento de um homem gentil e carinhoso, um poço de integridade… o homem que ela amava.

— Boa noite — replicou.


Harry foi resgatado das mãos da louca da Hestia. e Deby dessa vez ele não atrapalhou, kkkkk.

Mas agora que James resolveu que quer casar só que quem não quis foi a Lily. Afinal ela quer ouvir as três palavrinhas.

Espero que tenham gostado e até o próximo capítulo.