Reluctant Father! pertence a Elizabeth Oldfield.


CAPÍTULO VIII

Jules estava atrasado. As mesas estavam arrumadas, os pratos frios haviam sido dispostos na longa mesa ao fundo do restaurante e os pratos quentes encontravam-se na cozinha, semiprontos. Lily consultou o relógio. Os turistas da excursão chegariam a qualquer momento. Onde estava o barman?

Aagência de turismo responsável pela excursão informara que o grupo daquele dia era bem maior que o habitual, pois um navio atracara em Baie St. Anne e vários passageiros haviam decidido fazer parte do grupo. Isso significava que, enquanto Edith cuidava da cozinha, Lily e Marquise trabalhariam como loucas no restaurante. Repor os pratos frios do bufê e retirar a louça suja das mesas já seria difícil, sem ainda terem de servir as bebidas.

Quando foi verificar se Harry ainda dormia profundamente no carrinho, o ônibus da excursão estacionou em frente ao restaurante.

— Acho que Jules perdeu a hora de novo — Lily comentou com Marquise, que já retirava a proteção das bandejas de salada.

A adolescente fez uma careta.

— Também acho, mas por que ele tinha de escolher justamente hoje para dormir até mais tarde?

Quando recebia os turistas na porta do restaurante, Lily ouviu uma voz masculina na cozinha.

— Já era tempo! — murmurou consigo mesma e correu até lá. — Ora, o que você… — começou a protestar, mas parou ao descobrir que a voz que ouvira pertencia a James.

Ele sorriu.

— Olá. Fui nadar e, quando me secava ao sol, senti o cheiro delicioso do curry. Então, vim persuadir Edith a guardar um prato para mim.

— E ela disse que você pode comer quantos pratos quiser? — Lily inquiriu.

— Claro! — Edith respondeu com uma gargalhada.

Persuadir a eternamente grata Edith a fazer-lhe a vontade seria fácil demais, Lily pensou. Ora, seria igualmente fácil para James persuadir qualquer mulher. Vestindo camisa de mangas curtas, aberta no peito, e short colado ao quadril, ele era um dos mais belos exemplares de sua espécie!

E, com todos aqueles atributos masculinos, certamente não encontraria a menor dificuldade em persuadi-la a ir para a cama com ele novamente.

Com um gesto nervoso, Lily afastou uma mecha de cabelos do rosto. Ao mesmo tempo em que não seria capaz de lamentar a intimidade que haviam partilhado, pois fora definitivamente maravilhosa, preferia evitar uma repetição daqueles momentos. Continuar fazendo amor com James partiria cada vez mais seu coração, além de torná-la ainda mais vulnerável.

Havia passado o dia todo, na véspera, perguntando-se se voltaria a partilhar a cama com ele. Porém, tal preocupação havia se revelado desnecessária, quando ele aparecera apenas para levar Harry para um passeio e jantar no Paraíso Perdido. James fora gentil e amigável, nada mais. A noite, Lily adormecera aliviada por ele ter concordado em permanecer seu amigo. Porém, sentira uma decepção irracional.

— Onde está o pirralhinho? — James perguntou.

— Está dormindo no carrinho, no fundo do restaurante, com Marquise como guarda-costas.

— Você verifica se ele está mesmo ali a cada trinta segundos?

— Não, a cada quinze.

— Foi o que pensei.

— Como está a sua perna?

— Totalmente recuperada — ele garantiu, dando uma palmadinha na coxa.

— Parece muito bem-disposto, hoje — Edith comentou.

— E estou.

Desde que saíra do hospital, James adquirira o hábito de passar suas noites bebendo uísque e olhando para o vazio. Agora, porém, ouvia discos de Cole Porter e estava lendo um livro de Somerset Maugham. Não teria escolhido nenhum dos dois, mas as obras encontradas no bangalô faziam as noites passarem com facilidade e o faziam despertar pela manhã com energia renovada.

Bem, na noite anterior, a leitura fora deixada de lado e James passara o tempo pensando em Lily. Ela fora a única mulher que ele pedira em casamento, a única com quem desejara se casar. E ela recusara sua proposta sem pensar.

A proposta repentina fora uma surpresa para ambos. O casamento nunca lhe parecera atraente. Agora, no entanto, quanto mais pensava a respeito, mais certo de sua decisão se sentia. Gostava de estar com Lily e com Harry. Agradava-o a ideia de viverem, os três, como uma família. Sentira-se satisfeito e orgulhoso quando o policial os tratara como tal, no aeroporto.

Quando concordara em serem apenas bons amigos, mentira, pois queria muito mais de Lily. Queria seu coração, sua alma, seu corpo…

— Pensei que fosse Jules — ela falou.

— Ele não chegou até agora?

— Não. E hoje teremos fregueses extras e precisamos dele para servir as bebidas.

— E se eu servir? — James se ofereceu.

— Você?

— Sou perfeitamente capaz de abrir uma garrafa de cerveja.

— Sim, mas…

— Mas o quê?

Mas sua perna poderia falsear quando você estivesse carregando uma bandeja, Lily pensou. Então, você cairia, os fregueses se apressariam em se levantar para ajudá-lo, com expressões de simpatia e piedade, e você se odiaria por isso.

— Você não sabe o preço de cada bebida — falou em voz alta.

— Consultarei a carta de vinhos e, se precisar de ajuda, perguntarei a você — ele decidiu. — Vamos!

Enquanto Lily distribuía os fregueses nas mesas, James se posicionou atrás do balcão. Em questão de segundos, fez um inventário mental das bebidas disponíveis, abriu a carta de vinhos sobre o balcão e, então, armou-se de caneta e bloco de pedidos.

— Alguém aceita um aperitivo? — ofereceu com um sorriso cordial, ao se aproximar das mesas.

A maioria dos homens pediu Seybrew, a cerveja local. As mulheres preferiram sucos e refrigerantes. Enquanto repunha os pratos frios, servia os quentes e, mais tarde, ajudava Marquise a servir a sobremesa, Lily mantinha-se atenta a James, que não parava de se movimentar de um lado para outro. Uma coisa era ouvi-lo dizer que, finalmente, aceitara sua deficiência. Outra bem diferente era colocar aquela aceitação em teste diante de aproximadamente trinta pessoas. Por favor, meu Deus, não permita que ele caia, rezou consigo mesma.

— Olhe, mamãe, olhe! — uma voz estridente se fez ouvir acima de todas as outras. — Você precisa ver isso!

O grito partiu de uma garotinha de uns seis anos de idade, bonitinha, com seus cabelos loiros e cacheados. Era a única criança no grupo. Pouco antes, ela havia gritado ao ver um macaquinho subindo em uma palmeira. Então, fizera outra pequena cena quando um besouro entrara voando no restaurante. Todos haviam parado de comer, virado para fitá-la e sorrido com indulgência.

Mais uma vez, a menina gritava e apontava, mas desta vez, sua atenção se focalizava em James, que servia a mesa ao lado.

— Mamãe, veja a perna daquele homem! — ela ordenou.

Lily sentiu o sangue gelar nas veias. O grupo todo estava em silêncio. James parecia tenso.

— Sim, querida — a mãe resmungou, sem jeito. —Agora, tome o seu sorvete.

— Mas é…

— Becky, fique quieta — rosnou o pai.

— Mas é uma perna nojenta! — a menina insistiu, para quem quisesse ouvir.

O estômago de Lily fez uma reviravolta. Todos os olhos estavam fixos em James, que havia se endireitado, bem no meio do restaurante. Os pais de Becky pareciam querer amordaçar a filha, mas Lily gostaria de estrangular a garotinha. Assim como gostaria de passar um braço protetor em torno de James e tirá-lo dali.

— Nojenta, mas mágica — ele falou com um sorriso.

A menina fitou-o nos olhos, então olhou para a perna atrofiada, antes de voltar a encará-lo.

— O que você quer dizer? — perguntou com ar desconfiado.

— Minha perna é capaz de sapatear sozinha.

— Como?

— Assim — ele falou, deixou a bandeja de lado e bateu com os dedos e o calcanhar, alternadamente, no chão.

Como estivesse calçando alpargatas, o movimento produziu um som musical no chão de tábuas.

Lily relaxou. James não precisava de sua proteção. Podia enfrentar a situação com invejável tranquilidade.

Becky riu.

— É mágica mesmo! — concluiu.

— Talvez você também tenha uma perna mágica — James sugeriu. — Quer tentar?

— Sim!

A menina pulou da cadeira e foi se juntar a ele, que continuou a repetir o movimento. Becky logo conseguiu imitar.

— É verdade! Tenho uma perna mágica como a sua! — festejou.

As pessoas riram e gritaram elogios. Outros pés começaram a bater no chão. Alguém assobiou.

— Vamos lá, Gene Kelly! — um homem gritou.

James continuou com a brincadeira por mais alguns minutos. Então, abaixou-se para sussurrar algo ao ouvido de sua parceira. Quando os dois se curvaram em uma reverência, o restaurante explodiu em aplausos animados.

Lily também bateu palmas, com um sorriso de gratidão. James conseguira transformar o que prometia ser um momento constrangedor na mais pura diversão.

— Você não só cuidou muito bem do bar, mas também proporcionou um espetáculo digno do melhor cabaré! — falou com um sorriso, meia hora depois, quando acenavam para o grupo que se afastava.

— Cheguei a pensar em cantar, mas não consegui me lembrar de nenhuma letra completa — ele declarou, fingindo seriedade.

— Bem, como as gorjetas foram bem maiores que o habitual, sugiro que dance para o próximo grupo.

— E arriscar ser descoberto por um caçador de talentos, receber uma oferta de um milhão de dólares para estrelar meu próprio show na Brodway? — James fez uma careta. — Não faz o meu estilo.

Lily suspirou profundamente.

— Algumas pessoas simplesmente não possuem espírito de aventura — resmungou.

— Algumas pessoas estão desesperadas para comer seu prato de curry — ele corrigiu, antes de desaparecer na cozinha.


Harry estava sentado na banheira, brincando com um patinho de borracha amarelo, enquanto Lily lavava seus cabelos.

Quando a campainha tocou, ela sentiu o pulso acelerar. James perguntara a que horas ela costumava dar banho no filho e, portanto, só poderia ser ele.

— Entre! — gritou e, segundos depois, James apareceu na porta do banheiro.

— Posso assistir? — perguntou.

Lily indicou o espaço a seu lado.

—Fique à vontade — disse.

Apoiando-se no ombro dela, ele se pôs de joelhos a seu lado.

— Obrigado — agradeceu, sem tirar a mão.

O contato suave pôs os nervos de Lily à flor da pele. Ela se tornou subitamente consciente de que estavam juntos no chalé, onde haviam feito amor. A lembrança funcionou como um afrodisíaco potente.

— O fundo da banheira é escorregadio e, às vezes, Harry cai — falou, afastando-se. — Pode segurá-lo, enquanto vou apanhar as roupas dele?

James retirou a mão de seu ombro para pousá-la nas costas do filho.

— Pode deixar.

Ao abrir a gaveta da cômoda e apanhar um pijama limpo, Lily se perguntou se James fora até ali só para ver o filho tomar banho, ou também para fazer amor com ela novamente. Tanto o sorriso viril, quanto o calor de sua mão revelavam segundas intenções.

Lily mordeu o lábio, pensativa. Não queria fazer amor com James. Ou melhor, queria muito, mas quanto maior a intimidade que partilhasse com ele, maior também seria o seu sofrimento quando ele partisse.

Quando voltou ao banheiro, James segurava Harry, tirando e pondo o garotinho na água. Agitando braços e pernas, o filho gritava de alegria.

— Este é um jogo de meninos — James declarou, ao vê-la.

Lily ajoelhou-se, pensando que a cena de pai e filho brincando juntos era mesmo tocante. Talvez, pensou, devesse dizer a ele que havia mudado de ideia e que aceitaria sua proposta de casamento. Afinal, a vida de Harry seria muito melhor se tivesse o pai ao seu lado todo o tempo e, quem sabe, o fato de James não amá-la não fosse realmente importante. Então, sacudiu a cabeça como se quisesse despertar de um sonho. Ora, a quem estava tentando enganar? Animado, Harry bateu com as duas mãozinhas na água, dando um verdadeiro banho no pai.

— Ora, ora! — ele exclamou.

Lily riu alto.

— Isso é o que se chama "aprendizado pela experiência".

— Para mim ou para ele?

— Os dois — ela respondeu, sorrindo.

Lily entregou uma toalha a James e, enquanto ela segurava o filho, ele se enxugou.

— Que tal secar Harry? — ela sugeriu.

— Boa ideia, mas você precisa me ensinar como fazer.

— Certo. Primeiro…

Poucos minutos depois, o bebê encontrava-se seco e perfumado, deitado em uma toalha no chão do banheiro. Agitava braços e pernas e sorria, como se tivesse a certeza de que o pai e a mãe estariam sempre a seu lado, como agora. Lily sentiu um aperto no peito ao pensar que o filho poderia estar redondamente enganado.

— Agora, ponha a fralda — instruiu.

— Eu? — James inquiriu, surpreso.

— Tem de fazer o serviço completo — ela explicou, estendendo-lhe a fralda descartável. —Essas gotas de suor que vejo em sua testa são de ansiedade?

— Pode apostar que sim — ele confirmou, prendeu a fralda e, um tanto desajeitado, vestiu o pijama em Harry. — Hora de dormir — decretou, ao ver o filho bocejar.

— Não antes de ele tomar a mamadeira.

Harry bocejou mais uma vez, antes de seus olhos se fecharem.

— Tarde demais — James concluiu.

— Tem razão. A brincadeira de enfiá-lo e tirá-lo da água deve ter deixado o pobrezinho exausto. Se ele acordar com fome, no meio da noite, vou…

— Fingir que não ouviu?

— Não. Vou levá-lo para que você lhe dê a mamadeira! — Lily replicou, carregando o bebê para o quarto.

Enquanto o acomodava no berço e cobria, o bebê nem se mexeu.

— Ele não vai acordar tão cedo — comentou ao voltar para a sala. Então, deu-se conta de que James havia tirado a camisa. — Sua camisa ficou molhada demais?

— Não.

— Então…

Ele estendeu a mão e segurou a dela.

— Achei que, se tirasse a roupa, você talvez ficasse excitada e se animasse a tirar a sua, também. — Com um sorriso, puxou-a para si. — E então? Está excitada?

Lily respirou fundo. A imagem de James seminu, na penumbra, trazia lembranças mais que eróticas.

— Um… um pouco — gaguejou.

O sorriso dele tornou-se mais largo.

— Mentirosa.

— Está bem. Muito!

— E está furiosa consigo mesma por ser tão vulnerável.

— Adivinhou!

— Não fique zangada, pois sinto o mesmo — ele confessou e inclinou-se para beijá-la nos lábios. — Venha comigo.

No quarto, despiram-se sem jamais deixar de beijar e tocar um ao outro.

— Pensei que fosse capaz de ficar longe de você, mas descobri que estava enganado — James admitiu com voz rouca, ao mesmo tempo em que suas mãos traçavam caminhos de fogo pelo corpo de Lily.

Ela estremeceu e gemeu baixinho.

— Você está tremendo — ele murmurou.

— Você também.

— Verdade, mas sou um inválido e, por isso, tenho permissão para tremer.

— Desculpas, desculpas…

— Não consegui enganá-la?

— Nem… nem um pouco — ela gaguejou.

Caíram na cama, os lábios colados em um beijo apaixonado. Atordoada de desejo, Lily abandonou-se às carícias experientes de James, que a levavam rapidamente a um mundo mágico, onde nada mais existia, exceto eles dois e o fogo da paixão. Como se tivessem vida própria, suas mãos buscaram os pontos mais íntimos e sensíveis do corpo dele, a fim de retribuir-lhe o prazer que ele lhe proporcionava.

— Ainda tremendo — James constatou.

— Você ou eu?

— Ambos.

Encorajada pelo tom de voz enrouquecido, Lily tornou-se mais ousada em suas carícias e, ao sentir que James se aproximava mais e mais da perda total do controle, posicionou-se sobre ele.

— Seja boazinha comigo — James pediu, em um misto de divertimento e êxtase.

Ela começou a movimentar os quadris lentamente, em movimentos sensuais.

— Mas não boazinha demais?

— Exatamente.

Lily debruçou-se sobre ele, roçando os seios no peito musculoso. Então, voltou a erguer-se, cavalgando em um ritmo cada vez mais alucinante, sentindo o desejo crescer juntamente com o de James, até que ambos explodiram em clímax.


— A ligação foi de algum freguês querendo fazer reservas?

— Edith perguntou ao entrar no restaurante, na manhã seguinte.

— Não — Lily respondeu, recolocando o fone no gancho.

— Eu estava falando com a companhia aérea sobre o meu voo. Decidi voltar para casa no próximo sábado.

— Já? — a outra indagou, franzindo o cenho.

— Estou aqui há mais de seis semanas. Eu disse que ficaria até o Paraíso Perdido ser vendido e a negociação será encerrada dentro de dois dias, na sexta-feira, que também será o seu último dia no restaurante. Você não vai mais precisar de mim.

— Não vou precisar, mas esperava que você estivesse aqui no dia da minha mudança.

Lily exibiu um sorriso constrangido. Sabia que Edith acalentava tal esperança e sentiu-se mal por desapontá-la.

— Tenho certeza de que você e sua irmã ficarão muito bem e… Bem, preciso voltar para casa.

— E quanto a James?

— Manteremos contato e ele irá visitar Harry de vez em quando.

— O que ele acha da sua partida, tão cedo?

Lily franziu o cenho.

— Ele ainda não sabe. Eu pretendia contar, mas não tive oportunidade — mentiu e, então, mudou de assunto: — Estive pensando e acho que devemos colocar um anúncio no jornal local, avisando que o Paraíso Perdido está sendo vendido. Também poderíamos colocar uma placa na entrada, informando os fregueses e passantes que o restaurante estará fechado, a partir de segunda-feira e que, em breve, será reaberto sob nova direção. O que acha?

— Boa ideia.

Lily telefonou para a redação do jornal de Mahé e providenciou o anúncio. Então, apanhou um velho quadro-negro que costumava ser usado para exibir o cardápio do dia aos fregueses e, com giz, escreveu a informação sobre o fechamento do restaurante.

— Pode cuidar de Harry, enquanto vou colocar este quadro na entrada do restaurante? — pediu a Marquise, que já terminara a limpeza e, agora, brincava com o bebê.

A adolescente exibiu um sorriso luminoso, pois adorava crianças. Ouvira falar de uma família residente no outro lado da ilha, que estava precisando de uma babá e decidira se candidatar à vaga.

— Claro — respondeu.

Carregando o quadro-negro, Lily dirigiu-se à estrada. Embora se sentisse culpada por abandonar Edith, decidira que deveria deixar a ilha o quanto antes, pois precisava colocar a máxima distância entre si e James.

Na noite anterior, haviam feito amor e ela não tinha a menor dúvida de que, naquela noite, James apareceria no chalé e o mesmo aconteceria. Afinal, bastava que ele a beijasse, ou melhor, que tirasse a camisa, para deitar por terra qualquer resistência que ela houvesse conseguido reunir a duras penas.

Ficou a olhar a estrada, pensativa. Vinha adiando o momento de contar a James sobre a sua decisão de partir, pois temia que ele tentasse persuadi-la a mudar de ideia. E, dado o seu estado de espírito atual, não seria nada fácil resistir a ele. Sabia que, se ficasse, estaria se submetendo a um sofrimento ainda maior. Ainda assim, teria de contar a ele, mais cedo ou mais tarde.

Apoiou o quadro-negro no tronco de uma palmeira. Antes de partir, teria de combinar a quantia com que James contribuiria para a manutenção de Harry. Ajudaria se ela soubesse com que frequência ele pretendia visitar o filho. Seu coração apertou-se, pois isso significava saber quantas vezes por ano seria obrigada a vê-lo.

Assim que se visse livre da presença dele, seria capaz de recuperar a compostura e voltar a raciocinar com clareza e, assim, quando se encontrassem no futuro, ela poderia resistir à tentação representada por James. Garantiu a si mesma que conquistaria tal condição e que sua vulnerabilidade era um problema temporário.

Quando virou-se para retornar ao restaurante, Lily deparou com James, que se encaminhava para ela. Nos dois dias que passara sem a bengala, ele havia adquirido maior firmeza em seus passos e já começava a se tornar difícil perceber que ele mancava.

— O que pensa que está fazendo? — ele perguntou. Lily apontou para o quadro-negro.

— Pensei em avisar os fregueses sobre o fechamento do restaurante. Acha que é prematuro, que eu deveria deixar que soubessem na semana que vem?

— Não é prematuro. Se os fregueses souberem que essa éa última oportunidade que têm para saborear a comida deliciosa de Edith, certamente vão lotar o restaurante, no fim de semana. Quando perguntei o que você pensa que está fazendo, estava me referindo ao fato de estar planejando fugir sem me avisar.

— Edith lhe contou?

— Sim, e foi muito decente ao fazê-lo.

Lily empinou o queixo.

— Eu ia lhe contar.

— Quando?

— Na primeira oportunidade. Não pretendia fugir.

— Não? Não planejou manter a sua partida em segredo até o último minuto para, então, fazer as malas, dizer adeus e partir?

As faces dela coraram. Era verdade que tal ideia lhe ocorrera, mas ela a descartara de pronto.

— Claro que não! — declarou, deu meia-volta e se encaminhou para o restaurante.

— Precisamos decidir algumas coisas — James lembrou-a, seguindo-a de perto.

Lily assentiu.

— Como por exemplo quanto você vai mandar para Harry, mensalmente. Já calculei quanto costumo gastar com… — Forneceu detalhes de seu orçamento com o filho e sugeriu uma quantia. — Está bem, assim?

— Discutiremos isso mais tarde — ele respondeu com ar casual, guiando-a para dentro do restaurante, onde Marquise encontrava-se abaixada entre mesas, brincando de esconde-esconde com Harry, que ria às gargalhadas.

A menina ergueu os olhos e cumprimentou-os:

— Olá.

— Você poderia tomar conta de Harry por mais, digamos, meia hora? — James perguntou, retirando do bolso algumas notas e depositando-as sobre a mesa. — Pagarei pelo seu trabalho como babá.

Marquise sorriu ao ver o dinheiro.

— Posso ficar por quanto tempo quiser Por uma hora, duas ou o dia inteiro.

— Harry costuma almoçar por volta de meio-dia — Lily protestou.

— Posso dar o almoço a ele — a menina ofereceu.

James sacudiu a cabeça.

— Estaremos de volta antes disso. Se ele chorar, leve-o até nós, no bangalô — disse e, segurando a mão de Lily, levou-a para fora.

— Não precisa segurar minha mão! Não vou fugir!

— Não até sábado?

— No sábado, também não estarei fugindo. Simplesmente, chegou a minha hora de partir.

Ele lhe lançou um olhar cético.

— Tem certeza? — indagou, mas soltou-lhe a mão.

Quando chegaram à Maison d'Horizon, James conduziu-a até a sala de estar.

— Outra questão que precisamos discutir são as suas visitas — Lily declarou, ao se sentar no sofá. — Com que frequência…

— Não quero visitas — ele interrompeu, franzindo o cenho. — Quero viver com você.

— Viver comigo? — ela repetiu. — Quer dizer… em caráter permanente?

— Claro! Você disse que não quer se casar comigo, mas… que tal vivermos juntos? Nós nos entendemos bem e o sexo é fantástico. Mas, além da boa companhia e da paixão… Ora, Lily, eu te amo!

Embora as palavras provocassem uma torrente de emoções em Lily, ela se recusou a se deixar enganar.

— Desde quando? — perguntou. — Desde que se apaixonou por Harry?

— Muito antes disso, quando nos conhecemos, em Londres.

Lily sacudiu a cabeça.

— Não é o que mostra a nossa história. Se estou bem lembrada, você terminou nosso relacionamento.

— E você ficou magoada?

— Sim, muito — ela respondeu, decidindo que havia chegado o momento de ser inteiramente honesta. — Pode ter parecido que não, mas eu estava apenas fingindo.

James sentou-se na outra ponta do sofá.

— Tive essa impressão, mas não havia como me certificar. Acabei com tudo porque, embora só nos conhecêssemos há algumas semanas, nosso envolvimento já era profundo… muito profundo. E isso me assustou.

— Então, você fugiu — Lily concluiu.

— Sim. E errei. Uma vez, eu lhe falei de meu pai, seus casamentos e divórcios. Enquanto crescia, vi de perto a confusão que ele criava em seus relacionamentos, a dor que causava para suas esposas e filhos.

— Você tem irmãos? — Lily inquiriu, surpresa.

— Um irmão e duas irmãs, todos mais novos, por parte de pai. Toda vez que nos encontramos acabamos falando de papai e de como ele nos enganou.

— Enganou?

— Exatamente. Meu pai é um sujeito simpático e espirituoso, de boas maneiras e boa aparência. Dá a impressão que se interessa pelas pessoas e que gosta delas, mas a única pessoa que realmente importa é ele mesmo.

— Ele não se importava com você e seus irmãos?

— Não dava a mínima. Assim como a maioria dos garotos, eu idolatrava meu pai. Quando era jovem, tinha certeza de que ele também me amava, mas papai só me via, ou a qualquer de seus filhos, quando nossas mães insistiam. E elas tinham de fazer muita pressão. Demorei a perceber isso e, quando me dei conta da verdade… Ah, como sofri! No entanto, quando papai vivia com minha mãe e se queixava de que ela limitava a vida dele, que se sentia sufocado, e depois, quando acusava suas outras esposas de fazerem o mesmo… Bem, acho que eu acreditava.

— E, por isso, você acabou se tornando avesso ao casamento?

— Sim e não. Por um lado, toda vez que via casais felizes, eu os invejava. Acredito que o casamento deve ser para sempre e possuo valores antiquados, como fidelidade e responsabilidade para com esposa e filhos. Por outro lado, sempre tive medo de ser sufocado. Acho que, no fundo, tinha medo de me tornar tão irresponsável quanto meu pai.

— Então, em vez de correr o risco, preferiu ficar sozinho?

— Sim, mas viver sozinho traz um profundo sentimento de solidão. Cheguei à conclusão de que o verdadeiro motivo pelo qual eu me dedicava tanto ao trabalho era que precisava preencher as longas horas que tinha de ficar sozinho.

— Nunca viveu com ninguém? — Lily perguntou.

— Uma vez, há alguns anos, mas ela começou a insistir para que nos casássemos e eu acabei fugindo. Depois disso, jurei que nunca mais viveria com ninguém.

— E, agora, mudou de ideia?

— Sim. Quando pus um fim ao nosso relacionamento e voltei para os Estados Unidos, fiquei perdido, sentindo muito a sua falta. Foi por isso que aceitei os convites de Emmeline. Acreditei que, saindo com ela, eu pararia de pensar em você.

— E não parou?

— De jeito nenhum. Eu havia decidido nunca mais voltar a vê-la, mas não conseguia tirar você da cabeça. Eu disse que telefonei porque me sentia mal pelo modo como havia terminado nosso relacionamento, mas também queria descobrir se você tinha um novo namorado, ou não.

— Por quê?

— Porque, àquela altura, se você estivesse disponível, eu estava disposto a voltar para a Inglaterra e propor um recomeço para nós. Mas, então, Amos insinuou que vocês estavam juntos e, por isso, desisti de procurá-la. Durante os meses que fiquei no hospital, passei muito tempo pensando em quanto eu te amava, que poderíamos ter tido uma boa vida juntos, e como eu havia posto tudo a perder.

— Você me amava? Por que usou o verbo no passado?

— No meu modo de ver, se você estava envolvida com Amos, eu estava perdendo o meu tempo. Disse a mim mesmo que já tinha esquecido você, mas estava me enganando. Acho que, inconscientemente, escolhi Seychelles como lugar para convalescer porque as ilhas tinham uma ligação com você.

— Mas não calculou que me encontraria aqui?

— Nunca. E quando a encontrei, fiquei muito perturbado. Eu acreditava que você tinha um filho de Amos, mas… Nossa! Foi um golpe descobrir que Harry era meu filho. O fato é que eu te amo e, talvez, com o tempo, você aprenda a me amar, também.

Lily sorriu. A medida em que ele falava e se explicava, a felicidade fora crescendo dentro dela. A princípio, fora um sentimento cauteloso, mas que acabara tomando conta de todo o seu ser.

— Acha possível? — indagou.

— Sim, acho. Lily, você não faria amor comigo se não gostasse de mim, pelo menos um pouco. Se passarmos a viver juntos…

— Não, obrigada.

— Não quer viver nos Estados Unidos? Tudo bem. Viveremos na Inglaterra. Viveremos aqui. — James ergueu as mãos em um gesto de rendição desesperada. — Viveremos em qualquer lugar que você queira.

— Não quero viver com você.

— Acha que posso me tornar um péssimo marido, como meu pai? Lily, posso garantir que…

— Não penso isso. Sei que você se importa de verdade com as pessoas, com Harry, comigo.

— Então, por que… — ele começou a perguntar, evidentemente confuso.

— Não quero viver com você, James. Quero me casar com você porque eu também te amo.

Um sorriso curvou os lábios dele.

— Verdade?

— Eu te amo desde a primeira vez em que o vi.

— Graças a Deus! — ele murmurou, antes de beijá-la. Quando finalmente descolou os lábios dos dela, franziu o cenho e perguntou: — Por que recusou o meu pedido de casamento?

— Porque você não havia mencionado a palavra vital: amor.

— Você não me deu tempo! — ele protestou. — Como você mesma disse, fiz a proposta por impulso. Concordo que foi um tanto… repentina, mas pensei que você soubesse que eu a amava. Além disso, estava me preparando para fazer uma declaração de amor eterno, quando você disse não. Sei que deveria ter insistido, mas você parecia tão segura de si e eu me senti rejeitado e… Ora, Lily, eu te amo e sempre te amarei — declarou em tom solene, antes de voltar a beijá-la.

— Que tal voltarmos ao restaurante para dizer a Harry que, daqui por diante, ele terá um papai e uma mamãe em período integral e que, ainda por cima, será filho legítimo? — Lily sugeriu, quando recuperou o fôlego.

— Assim que tivermos comemorado.

— Com champanhe?

James sorriu.

— O champanhe vem depois.

— O que você tem em mente? — ela perguntou com um sorriso maroto.

— Algo muito mais excitante, que costuma nos fazer tremer. — Ele se pôs de pé, puxou-a para si e abraçou-a. — O que acha?

— Acho você irresistível.


James e Lily finalmente se entenderam. Infelizmente a fic está acabando.

Aninha E. Potter que bom que você gostou da fic. Ainda tem mais um capítulo.

Até o próximo.