02 – Uma nova missão
Sede do MI6, Londres, Inglaterra.
Dias depois...
— Ah, olha você aí, James! – uma loira sorridente o saudava de sua escrivaninha. – Trouxe para mim alguma lembrança de Paris?
— Lamento, Srta. Moneypenny... – o recém-chegado se desculpou enquanto fechava a porta e pendurava o sobretudo em um gancho na parede. – Vou ficar devendo, não tive tempo de passar em uma lojinha de souvenires.
— Você nunca muda. – ela fez cara de aborrecimento. – Corteja toda garota que encontra em suas missões, mas não traz nada para mim.
James sorriu ante aquela figura adorável. Jane Moneypenny era a secretária particular de M. Era agente de campo, entretanto foi realocada para os serviços internos do MI6. Tinha por volta de trinta e um a trinta e dois anos, cabelos loiros com um corte long bob e se vestia de forma bastante sóbria, usando uma camisete branca e uma saia-lápis azul-marinho, além de um par de sapatos pretos. Tinha aproximadamente um metro e sessenta e cinco de altura e seus olhos castanhos o encaravam aguardando por uma resposta.
— Não se preocupe – ele respondeu. – Não me esquecerei de trazer um souvenir na minha próxima missão.
— Promete?
Ele sentiu seu telefone celular vibrar no bolso do paletó e, assim que o tirou, deu de cara com uma mensagem de texto:
"007, peça licença à Moneypenny e compareça à minha sala, sem atraso. M."
— Desculpe, o dever me chama. – mostrou a mensagem de texto recebida no telefone e seguiu para a outra porta. – Depois continuamos nossa conversa.
Moneypenny suspirou. Aquele homem moreno, alto e bem-apessoado, olhar penetrante e papo sedutor era daquele jeito, incomum... Mas incrivelmente irresistível. Ah, se tivesse uma chance com ele, sua eterna paixão platônica...
... Mas ela sempre ficava no vácuo.
Bem, paciência. Ela sabia esperar sua vez.
Adentrou a sala e foi direto até a mesa de M. Um homem de estatura mediana, em torno de 1,75 m, levemente calvo, feições mais duras por sua experiência no Exército Britânico e, posteriormente, no MI6. O Tenente-Coronel Gareth Mallory servira o Exército Britânico durante o conflito na Irlanda do Norte e depois se aposentara; assumira há algum tempo o posto de M. Ele virou sua cadeira e encarou longamente seu subordinado.
Nome, James Bond. Idade, trinta e cinco anos. Codinome, 007. Licença para matar, a serviço da Coroa Real Britânica. Exímio atirador, eficiente em obter informações. Entretanto, o homem de feições caucasianas e de pouco mais de 1,80 m de altura costumava ser um tanto inconsequente, pois costumava deixar um rastro de morte, de forma voluntária ou involuntária. Isso diminuíra com o passar do tempo, embora fosse necessário exigir cautela de um de seus melhores agentes.
Na sala, alguns instantes de silêncio, até que a voz seca de M se fez ouvir enquanto removia um pen drive do notebook.
— 007, neste pen drive está um dossiê completo das informações obtidas recentemente pelo nosso agente 004, que acabou sendo assassinado em São Paulo, Brasil. Oficialmente, o caso foi tratado como bala perdida, mas sabemos que se trata de uma "queima de arquivo".
— O que faz com que cheguem a essa conclusão? – Bond questionou enquanto olhava para o pen drive.
— A perícia tanto de São Paulo como daqui concluíram a mesma coisa, que foi um assassinato deliberado. Ocorreu durante uma tentativa de assalto em curso nas redondezas, entretanto o tiro foi dado a pouca distância, descaracterizando a possibilidade de bala perdida. Além disso, alguns documentos foram levados do local do crime.
— Documentos de que grau de importância?
— Não tinham um grau tão grande de importância, pois 004 já havia enviado grande parte do dossiê que está em sua mão agora.
— Bastante precavido. Vou ler o dossiê, mas em linhas gerais, há um suspeito?
— Newton Toledo. Verá no dossiê a foto dele, e adianto que ele é um ex-deputado que está envolvido em um escândalo naquele país, está sendo investigado na operação denominada "Lava-jato", pois seu nome está envolvido com a corrupção e, por essa razão, perdeu o mandato. 004 descobriu que ele também pode estar ligado a uma máfia que possui conexão com contrabando de urânio para o arsenal do regime fechado da Coreia do Norte.
— Esse não parece ter o típico espírito pacífico de um brasileiro.
— Não. – M concordou. – E é preciso confirmar as suspeitas, por isso você irá ao Brasil. A princípio, irá em nome da Universal Exports com o objetivo de cuidar do traslado do corpo de Charles Hobbes. Pegue com Moneypenny a passagem, pois o seu voo partirá dentro de três horas.
Sem mais nada a se tratar, Bond se retirou e pegou a passagem com a secretária, em nome da Universal Exports. Essa era, na verdade, uma companhia de importação e exportação fictícia, a qual servia para encobrir as atividades do MI6 onde quer que fosse, sem levantar suspeitas.
Afinal, discrição era tudo.
— Atenção, senhores passageiros do voo 3030, com destino a São Paulo, Brasil. Favor se dirigir ao portão sete.
Olhou o horário no relógio de pulso, enquanto o check-in era feito. Até agora tudo estava tranquilo, graças a Q, que conseguira bolar um meio de burlar os detectores de metais por onde passava, principalmente com a arma que portava em seu coldre sob seu paletó e seu sobretudo. Estava acima de qualquer suspeita, era um passageiro qualquer que ia embarcar numa viagem até o outro lado do Atlântico.
Após adentrar a sala de embarque, para aguardar o momento de se dirigir ao avião no horário marcado, observou o lado de fora através da vidraça. Via o céu nublado, como era de praxe em Londres nos dias de inverno, em que a temperatura dificilmente ultrapassava os dez graus e volta e meia havia uma fina garoa caindo. Tirou o smartphone do bolso do sobretudo e, ao invés de usar o sinal de wi-fi, optou pelos dados móveis e uma forte criptografia permitindo que acessasse com segurança um arquivo com o resumo do dossiê que recebera de M.
Quanto mais cedo soubesse a respeito do motivo de sua saída de Londres para São Paulo, mais rápido poderia agir no tocante à suspeita de um elo entre contrabandistas de urânio e Coreia do Norte e se havia de fato alguma ligação com a morte de 004. Afinal, para todos os efeitos, uma das razões para a sua ida ao Brasil era cuidar do traslado do corpo de um colega da Universal Exports.
Pegou sua bagagem de mão e se dirigiu ao portão sete. Junto com outros passageiros, James subiu no ônibus, que tomou a direção do avião que os aguardava. Ouvia as conversas entre os demais, reconhecendo vários sotaques, tanto os britânicos, como os americanos, espanhóis, latino-americanos, e várias conversas em português. Atento, soube diferenciar quem falava português de Portugal e português do Brasil. Não era a mesma coisa, embora a escrita fosse semelhante. A forma de conversar e se expressar era peculiar e ele ouvia apenas sobre assuntos triviais, nada suspeito, apenas divertido. Não sabia ao certo se seriam brasileiros que moravam em Londres ou se eram turistas brasileiros que estavam retornando ao país de origem após a estadia, mas isso não importava. O que importava a ele era a possibilidade de encontrar alguma pista sobre o que começaria a investigar.
Ao subir na aeronave, acomodou-se em seu lugar, próximo à janela, enquanto ouvia as instruções de sempre do comandante do avião e das comissárias de bordo, tanto em inglês como em espanhol. As comissárias eram até bonitas, mas não lhe despertavam muito interesse, pareciam do tipo sem graça. Por essa razão, nem se deu ao trabalho de tentar flertar com nenhuma delas.
Nisso, as turbinas do avião começaram a girar enquanto a aeronave se deslocava para a pista de decolagem. Pela janela, James olhou para a cinzenta paisagem londrina, que aos poucos ficava para trás, rumo ao quente verão brasileiro.
O avião decolou, deixando para trás o solo britânico e, mais uma vez, James seguia a uma missão, sem ter certeza de que voltaria vivo... Ou se teria o mesmo destino do agente 004.
Ele, o agente 007, de preferência, gostaria de retornar vivo de mais essa aventura.
