03 – Em solo brasileiro
Aeroporto de Guarulhos, São Paulo, Brasil
Após onze horas e meia de voo, James aguardava sua bagagem passar pela esteira. Logo que apareceu, retirou-a e colocou em um dos carrinhos, jogando sobre ela seu sobretudo, o qual ele já não usava desde que saíra de Londres. Mesmo sendo um tempo chuvoso, a temperatura estava amena, na casa dos dezoito graus. Pelo fuso horário de Brasília, eram dez horas da noite; acertara seu relógio ainda dentro do avião.
A adaptação ao fuso horário brasileiro não seria difícil, eram apenas duas horas de atraso em relação ao fuso inglês, por conta do horário de verão. Nada que uma noite bem dormida não ajudasse... E realmente estava bem cansado da longa viagem que fizera.
Enquanto ia para a área onde estavam os táxis, recapitulava mentalmente tudo o que estudara a respeito do dossiê envolvendo Newton Toledo, urânio, Coreia do Norte e Charles Hobbes, o 004. Não sabia dizer ao certo a razão, mas tinha a sensação de que algo não estava se encaixando nesse quebra-cabeça como deveria. Principalmente o nome e o codinome envolvidos nessa história.
Entretanto, antes de aprofundar suas investigações, precisava encontrar seu contato, cujo sobrenome era Matsumoto.
Não se conheciam pessoalmente, mas recebera uma foto e os dados em seu smartphone, o que o ajudaria a reconhecer facilmente seu contato. E o pessoal do MI6 já enviara suas credenciais e sua foto. Certamente, isso era bem mais discreto do que um cartaz de boas-vindas.
Prosseguiu seu caminho, até reconhecer o homem com quem deveria falar. Um homem de trinta anos, um metro e setenta de altura, esguio, pele clara, cabelos negros lisos e curtos. Rosto arredondado, olhos negros e oblíquos, que denunciavam sua ascendência oriental. Porém, o homem em questão era brasileiro.
— Seja bem-vindo ao nosso país! – ele saudou em inglês e estendeu a mão para cumprimentar. – Meu nome é Jaime Matsumoto. Você é...
— ... Bond – o britânico respondeu e apertou a mão de Matsumoto. – James Bond.
— É a primeira vez que vem para cá?
— Já vim antes, mas ao Rio de Janeiro. Faz um bom tempo. Foi uma passagem um tanto agitada, por assim dizer. Não pude aproveitar as boas coisas de lá.
— Depois que solucionarmos nosso atual enigma, certamente você poderá aproveitar e andar por aqui. São Paulo também possui bons pontos turísticos. O hotel em que você ficará hospedado é um dos melhores, e acredito que lá poderemos conversar melhor a respeito do que o trouxe aqui.
— Por mim, tudo bem. – Bond entregou a bagagem para o motorista do táxi indicado pelo brasileiro. – Precaução nunca é demais.
Os dois homens adentraram o carro, no banco de trás. Jaime instruiu o motorista do roteiro que tomariam até o hotel. Durante o trajeto, conversavam sobre assuntos triviais, como a comparação entre os climas londrino e paulistano e a situação político-econômica dos dois países; basicamente, uma troca de conhecimentos.
Todo o trajeto foi percorrido de forma tranquila, sem qualquer incidente. As vias, naquele horário, estavam sem congestionamento, o que fez com que chegassem até o hotel no tempo estimado. Agradeceram ao motorista e James deu-lhe uma gorjeta em reais.
Na recepção, Bond se identificou, surpreendendo com uma boa fluência em português e o mínimo de sotaque britânico. Após pegar a chave, ele e o brasileiro se dirigiram ao quarto que lhe fora destinado e, após checarem se havia escutas ou microcâmeras, cada um se sentou em uma poltrona na antessala.
— Vamos aos negócios. – James disse em inglês. – Continuamos em inglês ou prefere que conversemos em português?
— Podemos seguir em inglês mesmo. – Jaime respondeu. – Além de deixa-lo mais à vontade, dificulta para algum bisbilhoteiro.
— Tudo bem. Jaime Matsumoto Vieira, agente da ABIN, a Agência Brasileira de Inteligência. A informação que recebi procede?
— Procede. Creio que procede, tal como James Bond, codinome 007, do Serviço Secreto Britânico, o MI6.
— Correto. – o britânico encarou o brasileiro. – Você chegou a ter algum contato com um homem chamado Charles Hobbes?
— Sim, tive. – Matsumoto ajeitou os óculos de grau. – Foi um contato breve. Ele se identificou como agente do Serviço Secreto Britânico e me solicitou algumas informações sobre Newton Toledo e o que você já sabe.
— Tudo?
— Não. O que Hobbes pode ter passado a vocês foram relatos parciais. Havia algo em seu colega que não me inspirava confiança, então optei por não passar a ele tudo o que eu sabia. Dei informações superficiais e ainda não confirmei algumas hipóteses.
— Por que ele não lhe inspirava confiança?
— Porque o gestual dele me chamou a atenção. Não havia autocontrole total em seus gestos e em sua voz. Era como se ele fizesse o trabalho de qualquer jeito, ao mesmo tempo em que dá muita atenção a outra atividade em paralelo. Demonstrava ansiedade com algo, preocupação... Mas não era com o dever a ser cumprido. Ao contrário de você até agora, aquele homem parecia um tanto disperso. Cheguei a solicitar, junto ao MI6, o histórico dele como 004, mas não encontrei nada que o descrevesse como problemático.
"E o problemático sou eu", Bond ironizou mentalmente, se segurando para não revirar os olhos.
— Sabe – Jaime prosseguiu. – Eu não confio muito em fichas impecáveis. Não confio em pessoas certinhas, nem em espiões perfeitos. Eles sempre escondem algo mais assustador do que os ditos "problemáticos".
— Compreendo.
— Por outro lado, você me inspira confiança. Não julgo isso somente pelas informações a seu respeito, mas pelo o que vi até agora. Por isso – o brasileiro tirou de seu paletó um pen drive. – Passo informações complementares para o dossiê sobre o caso que estamos investigando.
— Obrigado. – James recebeu o pen drive. – Amanhã analisarei isso, estarei com a mente mais descansada. Que horas vamos ao necrotério fazer o reconhecimento?
— Amanhã às nove da manhã eu passo aqui. É um bom horário?
— Está de bom tamanho.
Os dois homens se despediram e Matsumoto se retirou. James olhou para o relógio de pulso, que marcava já passar das onze e meia da noite. Tomou um rápido banho e se deitou, deixando sob seu travesseiro a sua arma carregada, para qualquer eventualidade.
Não queria correr riscos desnecessários, pois ao que tudo indicava o dia seguinte seria bem cheio. Para tanto, ligou o alarme de seu telefone para tocar às sete da manhã. Teria tempo suficiente para uma análise preliminar do conteúdo daquele pen drive que recebeu.
Tanto ele como Jaime concordavam em um ponto: 004 pode não ter trabalhado somente para o MI6.
Não existiam espiões perfeitos. E James Bond era uma prova disso.
Ao pagar o táxi e se dirigir à portaria do condomínio onde morava, Jaime ouviu um som suspeito vindo de uma das árvores da calçada. Recuou alguns passos, procurando nas árvores alguma coisa. Um gato desceu de uma delas e, assustado, correu pela rua deserta.
Já passava da meia-noite e, a cada minuto que passava, seu corpo pedia por um descanso. Desde cedinho estivera à frente de todos os preparativos para receber Bond no país e, embora houvesse alguma tranquilidade, fora muita movimentação com reserva em hotel, transporte e tudo mais custeado pelo MI6. E, no tocante ao britânico recém-chegado, ele realmente parecia bem mais confiável que seu conterrâneo morto... Aliás, percebia naquele homem uma ponta de desconfiança com relação ao companheiro de MI6.
Perguntava-se se havia feito a coisa certa ao confiar as informações que tinha a respeito de Newton Toledo a James Bond. Embora fizesse essa pergunta a si mesmo, não sentia qualquer arrependimento de tê-lo feito. De alguma forma, aquele homem realmente o ajudaria.
Perto mais uma vez da portaria, sentiu um cano de uma arma sendo pressionado contra suas costas. Engoliu seco e procurou respirar fundo, a fim de poder lidar com aquela situação. Pela forma sutil com que fora abordado, não parecia ter sido abordado por um assaltante.
— O que você quer? – Jaime se arriscou a perguntar enquanto ficava estrategicamente de braços cruzados e, sutilmente, deslizava a mão esquerda até a arma em seu coldre abaixo do paletó. – Se for dinheiro, não tenho. A crise no nosso país está corroendo todo o meu salário.
— Tire a sua arma e a jogue no chão. – disse uma voz com sotaque estrangeiro.
— Ora essa, agora temos bandidos gringos por aqui? – ele ironizou.
— Tire a sua arma e jogue no chão, com o pen drive, ou... – o desconhecido pressionou com força o cano da arma.
— Está bem.
Com agilidade, Matsumoto se virou e, já sacando sua arma, disparou contra o homem totalmente vestido de preto, que usava uma touca ninja. Entretanto, o homem entre um metro e setenta e cinco e um metro e oitenta de altura conseguiu se esquivar do tiro e revidou, com dois disparos o atingindo e o fazendo cair inconsciente no chão.
Antes de partir, o homem chutou o corpo de Jaime e murmurou:
— Não posso deixar que isso se espalhe.
