04 – Incidente no necrotério
São Paulo, Brasil.
Após tomar seu café da manhã, James retornou ao seu quarto e fez a checagem de rotina para se certificar de que ninguém havia entrado e bisbilhotado o local durante sua ausência. Checou todas as portas, janelas e vidraças, bem como se utilizou de seu smartphone para escanear possíveis impressões digitais que não pertencessem nem a ele e nem a pessoas com quem ele tivera contato. Checou mesas, seus objetos e sua pasta com o notebook. Tudo estava tal como ele deixara.
Sentou-se na poltrona da antessala, abriu o notebook e conectou o smartphone a ele com o cabo de dados. Usaria seu telefone como modem devido à conexão mais segura, pois precisava confrontar dados confidenciais. Conectou ao computador também o pen drive que recebera de Matsumoto com, segundo ele, informações complementares ao dossiê que M recebera de 004 e lhe repassara.
Olhou o relógio de pulso e percebeu que ainda tinha tempo para examinar o que precisava, até o brasileiro busca-lo para ir ao Instituto Médico Legal reconhecer o cadáver de 004. As informações do pen drive realmente completavam as do dossiê, mas via a possível ligação entre a morte de seu compatriota e essas informações um tanto forçada. Era para soar como um "ele sabia demais", porém via que o que Hobbes obtivera para o MI6 era um tanto incompleto.
Matsumoto fora esperto e deixara de fornecer informações bastante importantes, que faltaram nas observações do espião eficiente e exemplar do MI6... Como se ele se conformasse com o que obtivera e isso já fosse o suficiente para prestar relatório a M, não se dando ao trabalho de procurar descobrir mais.
E por que ele seria alvejado por saber tão pouco?
Fechou a janela com o dossiê e os dados do pen drive de Matsumoto e abriu outra, com uma tela inicial de login e senha. Inseriu um usuário e uma senha e, após alguns segundos, recebeu a mensagem de acesso negado. Sorriu com ironia, pois descobrira que M mudara a senha de seu usuário. Após alguns instantes digitando, conseguiu descobrir a senha d acesso desejado, com todas as informações privilegiadas relacionadas a todos que trabalhavam no MI6.
"Nada mal para um hacker ocasional, James...", pensou.
Hora de descobrir mais sobre seu colega de profissão, Charles Hobbes, o exemplar agente 004!
Londres, Inglaterra.
— M – uma voz avisou por telefone. – Hackearam novamente sua senha.
— O que o 007 está procurando desta vez, Q? – M perguntou enquanto se sentava à sua mesa e começava a observar seu notebook.
"Q" era o codinome usado pelo Major Boothroyd, chefe do Departamento Q (cuja letra é inicial da palavra inglesa "quartermaster", ou "mestre de armas"), um departamento de pesquisas e desenvolvimento do MI6. Eram ele e seu departamento que forneciam armas e apetrechos tecnológicos para seus agentes de campo no cumprimento das missões que lhes eram designadas.
— Ele está acessando os dados e relatórios do 004.
— O que mais ele iria querer saber? 004 foi assassinado por conta do dossiê.
— Aparentemente o 007 não acredita nessa versão. O que faremos com relação a isso?
— Por enquanto, observemos. – M disse. – 007 é do tipo que não confia cem por cento em ninguém, então relevemos esse comportamento. Pode ser que ele tenha descoberto mais do que possamos esperar... E, sinceramente, espero que isso seja mesmo verdade.
São Paulo, Brasil.
Conforme o horário combinado, James aguardava no hall do hotel por Matsumoto, enquanto mexia no smartphone de forma pensativa. Tudo o que checara pelo notebook mais cedo confirmava sua tese de que não existia um espião perfeito. O dossiê, o pen drive e o que descobrira a mais sobre 004 o faziam ter a certeza dessa sua tese.
Definitivamente, 004 era perfeito e eficiente demais com suas missões e suas investigações. Certinho demais para ser verdade. Sobretudo nas tarefas relacionadas ao contrabando de urânio para a Coreia do Norte, afirmando ter desbaratado com sucesso vários braços do grupo que fazia isso, e sem muita dificuldade.
Mas... Será que esses braços do grupo contrabandista haviam sido realmente eliminados? Assim que voltasse ao hotel, entraria em contato com o MI6. Entretanto, seu fluxo de pensamentos foi interrompido por uma voz feminina:
— Sr. Bond?
— Sim, sou eu. – ele respondeu enquanto examinava de alto a baixo a recém-chegada.
— Meu nome é Teresa Moura – ela respondeu ainda em inglês. – Vim a pedido da ABIN, para acompanha-lo no reconhecimento do corpo no instituto médico legal. Por favor, me siga.
— Então vamos.
James se levantou e seguiu Teresa. Era morena, cabelos e olhos castanhos, pele bronzeada, como se houvesse voltado recentemente de férias no litoral. Cabelos ondulados, que balançavam de um lado a outro conforme caminhava. Tinha pouco menos de um metro e setenta de altura, corpo longilíneo e bem proporcional. Andava com um perfeito equilíbrio sobre o salto alto, de forma graciosa e isso chamava ainda mais a atenção do inglês, que a achava bastante atraente.
Assim como Jaime Matsumoto, ela também fazia parte do quadro da ABIN. A Agência Brasileira de Inteligência era vinculada ao governo, entretanto havia um setor que possuía um pouco mais de autonomia para agir em conjunto com a Polícia Federal. Seus agentes de campo tinham atribuições semelhantes aos "duplos-zeros" britânicos. Espionagem internacional – embora atualmente estivessem agindo mais dentro do país em face dos escândalos recentes na política – compartilhamento de informações vitais com os demais países, para lidarem com ameaças à paz mundial, haja vista a expansão do Estado Islâmico, confrontos que poderiam atingir outros países e até mesmo organizações que agiam por trás dos panos, como a SPECTRE.
Nesse sentido, não havia diferenças entre MI6, CIA ou ABIN. Todos os serviços de inteligência procuravam cooperar entre si, a fim de evitar uma nova Guerra Fria ou até mesmo uma nova Guerra Mundial.
E, claro, tudo por suas pátrias.
Os dois adentraram o carro, um Golf prata, e seguiram até o destino. O britânico, após alguns instantes em silêncio, indagou em português:
— Algum problema com Matsumoto?
— Ele foi baleado em frente ao condomínio onde mora. – Teresa respondeu, os olhos no trânsito.
— Foi assaltado?
— Quando fui vê-lo, ele ainda estava desacordado, então não tenho certeza. Mas tudo indica que não tenha sido assalto. Nada foi levado dele, nem mesmo a arma que ele usou para reagir.
— Qual o estado dele?
— Até então, estável. Não corre risco de morrer. Teve melhor sorte do que o outro estrangeiro... O que você veio reconhecer o corpo.
— Entendo. Assim que sairmos do necrotério, quero ter uma conversa com Matsumoto. Creio que será possível, visto que o estado dele não é grave.
— Acredito que será possível, sim. Talvez tenha algo mais a perguntar ao Jaime a respeito do pen drive que ele te passou ontem.
— Ele contou isso a você?
— Trabalhamos juntos nessa investigação. – Teresa respondeu, enquanto continuava com os olhos atentos ao trânsito.
— Estão se relacionando? – James indagou com um tom divertido.
— Minha relação com ele é estritamente profissional. – ela respondeu no mesmo tom do britânico. – Ele vai se casar daqui a três meses.
— Felicidades ao casal. E você?
— Solteira. Mas sem planos de namoro nem nada. Estou bem assim. – riu. – Não perca tempo tentando flertar comigo.
— Eu não teria chance?
— Não. Eu não sou uma mulher fácil, Sr. Bond.
— Não me importo se me chamar apenas de James. Se confiamos um no outro, acho justo não termos tanta formalidade.
— Então o tratarei assim, me sinto mais à vontade. Aqui geralmente nos tratamos uns aos outros pelo primeiro nome.
— Geralmente isso é usado entre amigos ou familiares, pessoas com quem temos intimidade. Acredito que essa é uma das razões para os brasileiros terem lá fora a fama que têm de receptivos. Vocês são bem peculiares.
— É um dos poucos gringos que vê além de carnaval, futebol, mulheres bonitas, corrupção, praia e floresta amazônica.
James riu:
— Posso entender isso como um elogio?
Logo os dois chegaram ao IML, com Teresa se identificando e identificando James como enviado pela Universal Exports com o intuito de reconhecer o cadáver de um inglês chamado Charles Hobbes. Um homem de meia-idade, cabelos curtos e grisalhos, olhos castanhos, pouco mais baixo que Bond, se prontificou a conduzi-los ao necrotério. Seu nome era Bernardo Oliveira, era um dos médicos-legistas.
De posse de uma ficha impressa, ele se aproximou das gavetas onde ficavam os cadáveres e puxou uma, para em seguida chamar os dois agentes. Logo que o cadáver foi descoberto, James meneou a cabeça negativamente.
— Não conhece esse homem? – o legista indagou.
— Não é ele. – o britânico respondeu em português enquanto encarava o cadáver de um homem alto, branco, cabelos castanho-claros bem curtos e com uma perfuração de um tiro no peito, além de tatuagem no braço esquerdo. – Ele portava algum documento de identificação?
— Sim, nós escaneamos o passaporte dele, que tem a foto desse homem. Até imprimi a ficha.
Bernardo entregou a ele a folha impressa, na qual estava a foto do tal homem. Pensativo, leu cada linha com os dados. Tudo batia com os dados que conseguira com o usuário e senha de M. Tinha em sua memória e em seu smartphone todas as informações de quem era o homem que supostamente estaria morto.
Nome completo, Charles Hobbes. Idade, trinta e nove anos. Nascido em Liverpool, Inglaterra. As características físicas eram as mesmas, exceto por um detalhe: segundo os registros do MI6, ele não possuía tatuagem, tampouco marcas de cirurgia no rosto, próximo à região onde começava o cabelo, como informado pela ficha do necrotério. E, nesse caso, tais marcas pareciam de cirurgia plástica.
— O senhor poderia solicitar um exame de DNA? Gostaria de ter certeza de que este não é o homem que procuro para fazer o traslado a Londres.
— Bem... – Bernardo hesitou, mas foi interrompido.
Teresa logo se identificou:
— Teresa Moura, do serviço de inteligência. Por favor, providencie para nós o material genético deste homem. Estamos investigando o desaparecimento de Charles Hobbes e queremos evitar um incidente diplomático entre o Brasil e o Reino Unido.
Antes que o legista respondesse qualquer coisa, ouviu-se o barulho de pessoas correndo e James, mais atentamente, ouviu algo como o som de armas sendo preparadas para atirar. Sinalizou para Teresa procurar um lugar seguro para se proteger e ao médico-legista. Enquanto isso, sacou sua arma e encaixou nela o silenciador.
Não queria mais estardalhaço do que já estava esperando haver. Quanto menos chamar atenção para si, melhor, pois precisava continuar as investigações. Não era hora para criar um caos.
Dois homens vestidos de preto e com toucas ninja entraram no necrotério, disparando dezenas de tiros de metralhadora para todos os lados, atingindo as paredes, as gavetas e todo e qualquer objeto na linha de tiro. Logo que cessaram as rajadas de tiros, James ouviu os dois homens caminhando pelo ambiente de forma a fazer o mínimo de barulho possível. Entretanto, isso não escapava aos seus ouvidos treinados, enquanto segurava mais firmemente sua Walther PPK.
Embaixo de um balcão, percebeu que um dos invasores se aproximava de onde ele estava. Não seria fácil surpreender com um tiro letal, pois usava um colete à prova de balas. O jeito era pegá-lo desprevenido e evitar alguma reação. Só precisava que o sujeito se aproximasse um pouco mais.
Vamos, chegue mais perto... Mais perto... Só precisava de mais uns passos. Provavelmente esse homem não iria saber nada, mas não custava muito tentar, desde que custasse apenas uma ou duas balas.
Primeiro atiraria, para depois perguntar. Isso irritava M, mas era necessário nesse caso, ou ele é quem levaria um tiro e não queria isso. E precisava arranjar um meio de confirmar a teoria que acabara de se formar em sua mente naquele momento.
O invasor se aproximou, ficando em uma posição favorável. James não perdeu tempo e disparou o primeiro tiro, que atingiu a perna. E, antes que o homem revidasse, ele saiu de sob o balcão e desferiu um forte chute contra suas costas, derrubando-o no chão e, com a queda, a metralhadora foi para fora de seu alcance.
Ouviu dois pipocos e o baque de um corpo caindo no chão, enquanto imobilizava o homem, que gemia de dor por conta do tiro e do golpe que recebera. Percebendo que Teresa conseguira dar conta do outro homem, pôde se concentrar em sua tarefa de tentar arrancar alguma informação:
— Muito bem – encostou o cano da arma na nuca do homem imobilizado. – Onde está Charles Hobbes?
