05 – Contato com Londres

Enquanto Bond tentava arrancar algo do homem que imobilizara, Teresa instruía Bernardo para continuar onde estava. Com sua pistola 9 mm na mão e descalça, ela se moveu sorrateiramente pelo local, a fim de verificar se havia mais gente à espreita. Avistou, à entrada do prédio e no hall, mais quatro homens vestidos da mesma forma, mantendo os funcionários do IML sob a mira de suas armas. Rapidamente, retornou ao necrotério da mesma forma enquanto escondia sua arma sob seu blazer azul-marinho.

— James – ela cochichou. – Estamos cercados, há mais homens como esses na entrada do prédio... E mais um está vindo!

O britânico já imaginava que isso poderia ocorrer. De alguma forma, queriam vê-lo morto, assim como aos que estavam envolvidos naquela investigação. Precisava ser rápido, ou tanto ele, como Teresa e o médico-legista poderiam ser mortos.

Era pouco provável que Teresa ou o legista tivessem feito uma armadilha. E, se aquele corpo que viera reconhecer não era de 004, então de alguma forma ele poderia estar envolvido nisso.

"Era como se ele fizesse o trabalho de qualquer jeito, ao mesmo tempo em que dá muita atenção a outra atividade em paralelo. Demonstrava ansiedade com algo, preocupação... Mas não era com o dever a ser cumprido."

Ao se lembrar de como Jaime Matsumoto contara a respeito de Hobbes, tinha cada vez mais certeza de que seu então colega de MI6 forjara sua própria morte. O espião exemplar da inteligência britânica, pelo jeito, tinha outras prioridades acima da lealdade ao Reino Unido.

— Espero que pelo menos dê tempo de terminar de interrogar nosso amigo aqui, e...

James nem terminou de falar, apenas ouviu o homem que ele imobilizara se sufocando. Ao tirar a touca ninja dele, já era tarde demais. Uma espuma branca saiu de sua boca e, logo em seguida, ele morreu, frustrando suas pretensões.

Mais uma morte entraria para sua conta, mesmo que indiretamente. O homem mordera uma cápsula de cianeto, que provavelmente estava em um de seus dentes molares.

— Parece que ele não quis falar nada, não é? – a brasileira ironizou.

— Bom, paciência... Mas precisamos fugir daqui.

— Há uma porta nos fundos, que raramente é aberta. – Bernardo disse. – Posso acionar o botão de pânico para a polícia vir e com isso a porta destranca automaticamente. Não sei ao certo o que está acontecendo, mas ajudarei no que for possível.


— Estamos ao vivo do IML de são Paulo, onde houve momentos de pânico. O Instituto Médico Legal foi atacado, deixando um rastro de morte. Não se sabe o número exato de mortos desse massacre, ou se há sobreviventes, porém, a polícia está trabalhando para tentar obter pistas que levem aos suspeitos. Há três desaparecidos, dentre eles um estrangeiro...

Com a mão direita, pegou o controle remoto da TV e mudou de canal, onde também passava a mesma notícia. Zapeou vários outros canais e todos os noticiários relatavam o mesmo, a chacina de funcionários do IML e o desaparecimento de três pessoas. Até mesmo os noticiários em inglês repercutiam principalmente o desaparecimento do tal estrangeiro, cuja identidade não foi confirmada, apenas sua nacionalidade inglesa.

Tinha certeza de que esse estrangeiro em questão era Bond. Soubera que Teresa o levaria até o IML para fazer o reconhecimento do cadáver de Hobbes, então era certo que os dois desaparecidos eram o britânico e ela. O terceiro era o médico-legista Bernardo Oliveira.

Jaime, pensativo, se levantou da cama e foi até a janela do quarto do hospital onde estava desde que fora baleado. Seu braço esquerdo estava imobilizado, após a extração da bala que recebera daquele homem que queria o pen drive que repassara a Bond. Ajeitou os óculos enquanto olhava para o horizonte, em que céu azul e o cinza da selva de pedra paulistana pareciam se encontrar.

Ele sequer poderia ver aquela paisagem urbana, se não tivesse usado algum artifício. Contra ele, foram feitos dois disparos, entretanto, na penumbra, conseguira fazer com que um pouco de sangue cenográfico, escondido em sua camisa por dentro, manchasse seu peito e fizesse crer que ele fora morto. E, para completar a farsa, conseguira ficar um bom tempo fazendo apneia.

Mas o cara que tentara mata-lo o ajudara na farsa, chutando-o e o deixando inconsciente de verdade. Soava irônico o seu assassino salvando-lhe a vida, mas tinha que admitir que tivera uma sorte imensa. E, além disso, percebera outra coisa naquele homem, e isso ele precisava levar ao conhecimento do britânico.

Como se os seus pensamentos fossem lidos, Matsumoto ouviu seu smartphone vibrando sobre a mesa de cabeceira e viu um número diferente. Era um número de telefone internacional.

Seria...?

— Alô?

— Matsumoto, aqui é Bond. – seu interlocutor se identificou em português. – Primeiramente, como está?

— Vivo, o que é mais importante. Mas o que aconteceu no IML repercutiu na TV.

— Eles não têm como nos identificar logo de início. Os vídeos do circuito interno a partir do momento em que houve a invasão foram danificados ou perdidos. Enfim, a Teresa está dirigindo o carro e estamos levando o médico-legista para um lugar seguro. Ela já conversou com o superior de vocês e ele vai ser colocado no programa de proteção a testemunhas.

— Ótimo. E quanto ao cadáver de Hobbes?

— Não é o Hobbes. É outro homem.

— Outro homem foi o "bode expiatório".

— Acho que não necessariamente.

— Ele pode ter forjado a própria morte?

— Ao que tudo indica, sim. E quanto ao homem que atirou em você? Foi um assalto?

— Não. Ele queria aquele pen drive que te passei, e... Parece que estive frente a frente com o seu defunto.

— Como assim?

— O homem estava vestido de preto, com touca ninja... Mas ele falava português com sotaque. Um forte sotaque inglês.


"Parece que estive frente a frente com o seu defunto."

"Mas ele falava português com sotaque. Um forte sotaque inglês."

Em seu quarto no hotel, James voltava a ler todas as informações que tinha até então, após atualizar o dossiê sobre Toledo e que ganhava um novo personagem, Charles Hobbes, o agente 004 do MI6.

Ou agora seria considerado ex-agente?

Parou de digitar no notebook e olhou para o relógio de pulso. Três e meia da tarde, pelo horário de Brasília. Em seguida, olhou para o canto inferior direito da tela do computador, na barra de tarefas, na qual mantivera o fuso horário londrino. Em Londres eram cinco e meia da tarde.

Pegou o smartphone, desbloqueou a tela e discou um número. Aguardou a gravação da Universal Exports e digitou as opções, para depois dizer a senha em inglês:

— Desejo falar com o departamento externo.

Após o bipe, ouviu a voz de M:

— O que você aprontou desta vez, 007? Virou notícia no mundo inteiro!

— Bom ouvir a sua voz de novo, M. – ele disse com ironia. – Mas, só para constar, não sabem que sou eu, então tecnicamente não virei notícia.

— Seja direto, 007, e apresente-me as suas descobertas até agora.

— O dossiê de 004 estava incompleto, repleto de falhas.

— Isso não é novidade, eu já havia percebido antes de repassá-lo a você. Descobriu algo mais relevante?

— Se eu fosse você, sentaria em sua cadeira, pois descobri muitas coisas, para além dessas falhas.

— O que descobriu?

— Meu contato aqui no Brasil, Matsumoto, omitiu deliberadamente as informações para 004, disse que Hobbes não lhe inspirava confiança. Deu-me o pen drive com as informações dele e, ao retornar para o prédio onde mora, foi alvejado por alguém que queria as mesmas informações que recebi.

— Ele morreu?

— Não. Ele está vivo, vai ficar uns dias fora de combate.

— Compreendo. E sobre o reconhecimento do cadáver de 004?

— Aquele não era 004. O cadáver era de outro homem, que passou por uma cirurgia plástica para se parecer com ele. Segundo a base de dados do MI6, Hobbes não possuía tatuagens, e aquele cadáver tinha. E era uma tatuagem antiga, segundo o médico-legista.

— Alguém pode ter forjado a morte dele...

— ... Ou ele próprio pode ter forjado. – James afirmou categoricamente e em um tom extremamente sério. – Quando estive lá no necrotério, fomos atacados. Conseguimos fugir com a ajuda do médico-legista. Não queriam que fosse descoberta a farsa com aquele cadáver, ou o colocaram como isca para que alguém que viesse a investigar caísse na armadilha e dela não saísse.

— Mesmo assim, não temos provas de que 004 esteja vivo.

— Temos uma testemunha. Matsumoto não viu o rosto, mas disse que a voz do homem que atirou nele tem sotaque inglês bem carregado.

— Pode ser um americano.

— Mas não é. Ele disse que reconheceu um sotaque britânico, como o meu, mas bem mais forte. E lembro que Hobbes não tinha uma fluência perfeita em português. Não acho que seja coincidência.

— E quanto a Newton Toledo?

— Político que, na verdade, renunciou ao seu mandato como deputado federal por São Paulo. Atualmente sem partido, chegou a depor na Lava Jato na condição apenas de testemunha, pois ainda estão procurando provas que realmente o incriminem. A Inteligência brasileira descobriu também possíveis conexões com o contrabando internacional de urânio, através de conversas grampeadas e trocas de mensagens com contatos de fora do país. O dinheiro que ele ganha como atravessador e como possível beneficiário de propina é quase certo que seja lavado em compra de carros antigos para sua coleção. Dentro de dois dias haverá uma exposição de carros antigos no Jóquei Clube, e apuraram que há um modelo de carro em que ele está especialmente interessado para sua coleção.

— Que carro seria esse?

— Um Aston Martin DB5, ano 1964. – Bond respondeu com um tom de voz mais divertido. – Isso não soa familiar?