06 – O Aston Martin DB5

Campo de Marte, São Paulo, Brasil. Dia seguinte.

Adentraram a pista de pouso, seguindo até um avião cargueiro de porte mediano, cujo tipo não era comum aterrissar ali, mas o fez por uma questão de segurança. Pararam próximo à parte traseira da aeronave, que havia chegado duas horas atrás. Eram Teresa e James, que viram a porta traseira do cargueiro se abrir lentamente até tocar o chão. Em seguida, um carro descia devagar, dirigido com cautela. O motorista o estacionou em frente aos dois e saiu do veículo.

— Ora essa, Q – Bond disse. – Eu não imaginava que você viria pessoalmente.

O homem de estatura mediana, branco, cabelos grisalhos e olhos castanhos vestia um terno cinza-claro, camisa branca e gravata preta e calçava sapatos sociais igualmente pretos. Parecia bastante desconfortável com o calor que fazia às duas da tarde de um dia ensolarado na maior metrópole brasileira. Esse homem, que aparentava ter aproximadamente cinquenta e cinco anos, era o Major Boothroyd – ou melhor, Q.

— Fiz questão de vir, 007. – o chefe do Departamento Q do MI6 retrucou. – Preciso instruí-lo a respeito do carro que pediu a M.

— Compreendo. Mas antes, gostaria de apresentar a Srta. Teresa Moura, agente da Inteligência Brasileira.

Teresa e Q trocaram um aperto de mãos, e o mais velho comentou ao ver a brasileira com um vestido floral de alcinhas e sapatilha, e James de camisa polo vermelha, calça jeans e sapatênis:

— Minha nossa! O verão por aqui está mais quente do que eu pensava!

— É, está. – James concordou. – Mas, com relação ao carro, houve alguma mudança?

— Coisas bem sutis, 007. Ande em volta dele, e verá que por fora ele não possui nada demais.

Bond caminhou ao redor do veículo, observando cada detalhe. Conhecia muito bem aquele carro, que pedira para que M lhe enviasse, um Aston Martin DB5, ano 1964. Era um carro elegante, cuja pintura era prateada. Os para choques, retrovisores, grade dianteira e trincos das duas portas eram cromados. As rodas, que pareciam enraiadas, eram igualmente cromadas. Os dois retrovisores, redondos, em vez de se localizarem nas portas, ficavam um em cada lado do capô, praticamente à frente do para brisa. Os faróis dianteiros eram arredondados, logo abaixo deles vinham as lâmpadas de pisca-alerta, também arredondados e bem menores e os faróis traseiros eram dois faróis vermelhos menores em cada lado, além dos faróis alaranjados de pisca-alerta. Nas placas dianteira e traseira, a inscrição "BMT 216A".

Abriu a porta do lado direito e viu que aquele ainda era o lado do motorista, por conta da mão inglesa, onde o motorista ficava no banco à direita e o passageiro, à esquerda. Os bancos eram de couro e o volante era simples, tal como de qualquer carro da mesma época de fabricação.

Sentou-se no banco do motorista e examinou minuciosamente o interior do veículo. Procurou por botões no volante, não encontrando nenhum além da alavanca e da buzina. Conferiu o painel com o velocímetro e outros indicadores analógicos e também não descobriu nada além do que já conhecia naquela área. Examinou a caixa de marcha, abrindo uma tampa, que revelou vários botões e alavancas cromadas, os quais aparentemente não haviam sofrido qualquer alteração. Acionou um deles, que fez sair pelos faróis traseiros uma densa fumaça branca que tomou conta de onde estavam.

Aquilo era uma pequena mostra de que aquele não era qualquer carro. James conhecia bem o veículo, pois já o dirigira em outras ocasiões, embora preferisse um carro mais atual. Aquele Aston Martin DB5 era um protótipo de carro equipado para apoio aos agentes de campo, sobretudo na época da Guerra Fria. Apesar de relativo sucesso à época nos testes, o projeto fora deixado de lado pelo MI6, sendo retomado pelo Departamento Q décadas depois, ante as ameaças de terrorismo e alguns atentados que colocavam as vidas dos duplos-zeros em risco. Em caso de sucesso, passariam a equipar carros mais atuais, com tecnologia mais aprimorada.

Quando o projeto com o carro foi retomado, James foi eleito para fazer os testes com o protótipo, por livre e espontânea pressão. Entretanto, saíra-se bem com o DB5 e o adotara em algumas missões, o que fez com que ele ficasse familiarizado com o veículo.

— 007! – Q esbravejou. – O que pensa que está fazendo?

— Procurando as "coisas bem sutis" que você disse.

— Eu apenas aprimorei o GPS no painel, para que seja conectado e rastreado pelo seu celular e fiz uma revisão completa no carro e nos apetrechos dele. Não poderia fazer mais incrementos, pois este carro está se passando por um item de coleção e a parte elétrica não pode ser sobrecarregada. Este carro é antigo, requer alguns cuidados a mais, por isso faça o que puder para não destruí-lo, como faz com os outros equipamentos. Espero que possamos voltar com ele inteiro a Londres.

— Vou tentar. E quanto ao aspecto mecânico? Alguma mudança no motor, ou algo do gênero?

— Nenhuma. Permanece com duzentos e oitenta cavalos de potência, chegando à velocidade máxima de duzentos e trinta e três quilômetros por hora. Ainda vai de zero a cem quilômetros por hora em 7.1 segundos. Para manter esse desempenho e o disfarce de carro de colecionador, sequer instalei um sistema de alarme, para se ter uma ideia. Quanto às demais "surpresinhas", estão sem qualquer alteração e, como pode ver, estão acima de qualquer suspeita.

— Que outras "surpresinhas" podem existir nesse carro? – Teresa indagou. – Confesso que estou começando a ficar curiosa.

— Você verá. – James respondeu enquanto sorria de forma divertida para Q. – Agora, vamos à próxima parte de nosso plano para a noite de hoje.


Olhou-se no espelho e estranhou seu próprio reflexo. Não parecia ele mesmo. Seus cabelos negros e curtos possibilitaram que fossem penteados lateralmente, com a ajuda de um bom gel fixador. Seu rosto parecia diferente, graças a um par de óculos de armação preta não muito grande e nem grossa, mas que fosse o suficiente para não prestar atenção ao restante de sua fisionomia e reconhece-lo.

Estava mais para Clark Kent do que para James Bond, pensou. E isso era bom, não seria tão facilmente reconhecido. Olhou novamente para o espelho a ajeitou a gravata-borboleta preta. Pegou o smoking preto e o vestiu, enquanto caminhava até a antessala da suíte em que estava hospedado, em outro hotel, e com outra identidade.

Bond agora era um ornitólogo chamado William Moore, que, nas horas vagas, apreciava viagens e carros antigos. Além disso, estava no Brasil durante uma lua de mel com sua esposa Patricia, que o aguardava, trajando um vestido vermelho de comprimento mídi, com bordado em lantejoulas da mesma cor. Uma faixa preta abaixo de seu busto marcava sua silhueta sinuosa e seu decote quase generoso. Usava também um maxi colar dourado, acompanhado de brincos também dourados. Para completar, usava um par de scarpins vermelhos e os cabelos castanhos estavam presos em uma elegante trança embutida. Chamavam a atenção o batom vermelho-escuro e a aliança no dedo anular da mão esquerda.

— Pronta para levarmos adiante a nossa farsa, Teresa? – James perguntou enquanto colocava uma aliança no dedo anular da mão esquerda, para depois dar uma piscadela marota para a agente brasileira.

— Nasci pronta, James. – ela retribuiu a piscadela. – Agora é bancarmos um casal recém-casado e seguirmos com a nossa missão.

Saíram da suíte e, em frente ao hotel, o manobrista chegava com o Aston Martin para entregar as chaves do carro a James, que agradeceu. Os dois entraram no veículo e, com o GPS ligado, se dirigiram ao endereço de destino. Iriam ao Jóquei Clube, para um coquetel que abriria a exposição dos carros, e eles chegariam mostrando que o DB5 estava em perfeitas condições e despertaria ainda mais o interesse do alvo que tinham em vista: Newton Toledo.

As placas do carro giraram e a inscrição "BMT 216A" deu lugar a placas pretas no padrão brasileiro, de São Paulo, com a inscrição "BMI-6007".

Tudo para agradar o "freguês"... E fazer o peixe morder a isca!