Parou o carro em frente à entrada, sob os olhares de quem estava chegando no mesmo horário. Desceu do veículo e, num gesto de cavalheirismo, deu a volta e abriu a porta do passageiro, chamando a atenção pelas posições invertidas de motorista e passageiro. Ajudou Teresa a descer do carro e, quando ia dar as chaves para o manobrista, ouviu:
— Belíssimo carro, senhor...
— ... William Moore. – James completou em português com sotaque britânico bem carregado, se identificando como o personagem que passava a encarnar. – E o senhor é...?
— Newton Toledo. – o homem baixo, calvo, com uma barriga um pouco evidente, se identificou enquanto desviava seus olhos negros para Teresa. – E a dama que o acompanha?
— Patricia Moore, minha esposa. – Bond continuava falando português, mas carregando no sotaque. – Estamos em lua de mel, casamos há dez dias... E estamos muito felizes.
Olhou para a brasileira e perguntou:
— Não é mesmo, minha querida?
— Com toda certeza, William. – Teresa sorriu e entrelaçou os dedos com os de seu "marido".
O casal, acompanhado pelo ex-deputado, adentrou o restaurante do Jockey Club, reservado exclusivamente para aquele evento. O local estava decorado de forma impecável, com predominância das cores marfim e dourada. Newton seguiu apresentando algumas pessoas de seu círculo de amizades e de influências, bem como alguns colecionadores de carros antigos, dentre os vários convidados, a maioria da mais alta estirpe da sociedade paulistana. Além dos restaurantes renomados, além daquele onde estava ocorrendo o evento, também havia, logicamente, o hipódromo, onde ocorriam em várias ocasiões as corridas de cavalos, frequentadas pela alta sociedade e onde se circulava muito dinheiro para as apostas. Nada muito diferente dos jóqueis-clubes de Londres e demais localidades europeias, os quais já frequentara.
James ajeitou os óculos de disfarce enquanto arranhava no seu "portinglês" fajuto. Falava de ornitologia, dando a desculpa de que aproveitava a lua de mel no país de origem de sua "esposa", a fim de estudar melhor as espécies de pássaros nativas das cinco regiões brasileiras. Também conversou com eles a respeito de carros antigos e que possuía mais um veículo, de uma coleção ainda no início, um Lotus Esprit, e que pretendia adquirir algum outro modelo interessante que encontrasse.
Enquanto fingia prestar atenção nos demais participantes da conversa, James ajeitava seus óculos, aparentando estar desconfortável com o acessório. Entretanto, aquele movimento era apenas para ativar a visão de raios x das lentes. Percebeu que, além dos seguranças, havia mais alguns "convidados" armados. Pistolas embaixo de paletós, de camisas, de calças, vestidos... E ao ver as armas nos corpos femininos, se deteve um pouco mais, admirando as curvas das mulheres, até que recebeu uma discreta cutucada de Teresa.
― William! – ela encarnou a esposa que flagrara uma indiscrição do marido.
O britânico virou-se para ela, percebendo que a brasileira levava presa à perna sua arma. E seus óculos revelavam mais detalhes, o que ela percebeu e pigarreou, fazendo com que ele ajeitasse novamente o acessório no rosto e a visão de raios x fosse desativada. Enquanto fazia isso, seu olhar se deteve em outra mulher que acabava de chegar. Era alta, cabelos platinados, curtos, que iam até logo abaixo das orelhas, pele bem branca, maquiagem marcante, que realçava os lábios bem vermelhos. Trajava um vestido branco longo, com um decote vertiginoso, que a fazia esbanjar sensualidade.
E essa recém-chegada tinha algo de misterioso. James teve uma sensação de déjà-vu ao ver aquele rosto. Ele a havia visto em algum lugar, porém não se recordava de onde poderia ter tido algum contato com ela. Eram tantas missões que ele havia cumprido desde que se tornara um duplo-zero que era realmente difícil se lembrar de todas as pessoas com as quais tivera contato.
O olhar de Teresa seguiu o olhar do britânico e percebeu a mesma mulher. Era ousada pra abusar do decotão quase indo ao umbigo e com um longo branco que marcava bem suas curvas. Ela não possuía feições latinas, antes aparentavam ser bem europeias. Percebeu que ela encarava Bond como se o tivesse visto antes.
Não se surpreendia com isso, sua fama o precedia. Tal como Jaime, ela também estava inteirada de quem era James Bond antes mesmo que tivesse contato com ele. Por isso, não era novidade alguma vê-lo estar mais atento a mulheres.
Alguém tinha que fazê-lo manter o foco em seu dever, então ela o faria!
― William – chamou-o após um leve pigarrear e apontou para o bar. – Vamos provar algo?
Ele concordou e seguiu até o bar. Teresa pediu um pouco de vinho, porém James precisou evitar fazer seu pedido costumeiro – Vodca-Martini – por duas razões. A primeira, é que ele voltaria dirigindo e estava cônscio de que a legislação brasileira não tolerava o fato de ingerir álcool antes de dirigir. A segunda é que ele não poderia se denunciar. Se 004 forjara a própria morte e não trabalhava para o MI6, ele poderia estar ali. Não vira Hobbes, mas tinha a sensação de que estava perto de descobri-lo. E não queria ser descoberto por alguém que o conhecia e sabia de suas particularidades.
Sua Vodca-Martini batida, não mexida, ficaria para outra oportunidade. Por isso, pediu por um coquetel não alcoólico. Sorveu um pouco de sua bebida e encarou o olhar inquiridor de Teresa. Pelo o que percebia naqueles olhos castanhos, a brasileira tinha personalidade forte. Era o tipo difícil, que não se deixava iludir com uma conversinha qualquer, e não tinha medo de se arriscar.
Isso o fazia se lembrar, mesmo que de leve, de uma determinada mulher que marcara sua vida. Ele poderia rever tantas outras que cruzaram seu caminho, mas essa em especial ele jamais veria novamente. Lembrar-se disso o deixou com um olhar mais distante, como se revisitasse alguma parte de seu passado.
― E então? – a mulher à sua frente o tirou de seus pensamentos com voz quase inaudível. – O que descobriu?
― Estão vestidos para matar, se é que me entende.
― Então vamos precisar ser mais incisivos.
― Eu diria que temos que ser bem diretos. – ele a encarou por cima dos óculos que usava de disfarce. – Precisamos de mais informações, e vamos consegui-las.
Percebeu que se aproximava deles um homem com uma expressão desconfiada em seu rosto enquanto falava ao celular. E, para disfarçar, disse a Teresa carregando no sotaque:
― Patty, eu não poderia estar mais feliz se não fosse ao seu lado...
― Oh, William... – Teresa entrou no jogo de James. – Eu também me sinto tão feliz...!
O homem – um dos seguranças da festa – se aproximou ainda mais e, para não gerar mais desconfiança, James aproximou seu rosto do de Teresa e tomou seus lábios em um beijo convincente, como se fossem realmente um casal. Entretanto, mesmo aparentemente mergulhado em um momento romântico, o britânico mantinha seus ouvidos atentos enquanto o tal segurança se afastava.
Logo que perceberam que o homem estava longe, terminaram o beijo e, após um encarar o outro, riram. Foi uma boa cena de improviso para complementar a farsa que encenavam. Porém, precisavam manter o foco e levar o plano adiante.
Com isso em mente, James e Teresa terminaram suas respectivas bebidas e saíram para encontrar Newton Toledo...
... Sob o olhar atento da mulher de branco em outra mesa.
