08 – Queima de arquivo
Newton conduziu James e Teresa para uma sala privativa e, após fechar a porta e se sentar diante de uma mesa, convidou os dois a fazerem o mesmo. Assim que se acomodaram, o ex-deputado disse:
― Bem, vamos aos negócios. Sr. Moore, diga-me quanto quer pelo DB5. Não importa quanto queira por ele, eu estou disposto a pagar qualquer valor por aquele belo exemplar.
― Lamento desapontá-lo, Sr. Toledo – James falou sem qualquer sotaque britânico enquanto Newton colocava sobre a mesa o talão de cheques. – Mas aquele carro não está à venda.
― Como assim? E o que significa isso, Sr. Moore...? Se é que ainda posso chama-lo assim.
― Nossa intenção desde o início nunca foi negociar um carro antigo. – Bond não se deixou abalar ante a surpresa de seu interlocutor. – E queremos informações.
― Não tenho nada a declarar no que se refere à Operação Lava Jato.
― Não se preocupe, isso é entre o senhor e a Polícia Federal de seu país. Meu interesse é sobre outra operação... A Operação Oriente.
Newton gelou ante a menção da outra operação. Fora alertado de que era investigado pela tal Operação Oriente, por conta de suas atividades tidas como escusas. Já era difícil se defender daqueles cães da Polícia Federal, e agora tinha que lidar com ABIN e estrangeiros.
Onde estava seu protetor quando precisava dele...?
― É melhor falar o que sabe. – Teresa alertou com o rosto impassível. – Será bem melhor para você.
― E se eu me negar a falar qualquer coisa?
― Terá sérios problemas.
― Acaso pensam em me matar? – Newton sorriu com ironia.
― Não. Queremos preservar sua vida. Conte-nos o que sabe e protegeremos sua integridade física.
― E se eu não contar? – ele insistiu, visivelmente tenso.
― Eu o aconselho a começar a contar. – James encarou friamente o homem à sua frente. – A sua vida está em jogo, meu caro. Mais do que pode imaginar.
Newton quedou-se pensativo, como se começasse a pesar os prós e os contras do que lhe pediam. Mas, claro, não iria se deixar seduzir pela oferta daqueles dois. Porém...
― Parece que terei que obrigá-lo a falar tudo o que sabe.
Rapidamente, o britânico sacou sua arma e a apontou para a testa do político, que suou frio e percebeu que tudo era sério.
― Não! – exclamou assustado ao sentir o cano da Walther PPK em sua testa. – Eu contarei tudo! Têm a minha palavra e...
Nem deu tempo para que ele terminasse a frase. Uma bala saiu do peito de Newton, que tombou para a frente já sem vida. O projétil, a grande velocidade, foi parar na parede oposta. James rapidamente se levantou de onde estava e correu até atrás da cadeira onde estava o outro homem, encontrando um furo na parede, feito do outro lado. A parede, na verdade, era uma divisória, o que permitiu que o disparo fatal perfurasse também a cadeira e atingisse as costas do político e atravessasse o peito dele tal como fizera.
Por mera formalidade, Teresa tomou a pulsação de Newton, confirmando sua morte instantânea.
Acabavam de presenciar uma queima de arquivo.
Já era madrugada quando o Aston Martin passou pela região da Ponte Estaiada, produzindo em meio ao silêncio típico do horário o som dos pneus em contato com o asfalto molhado pela fina chuva que caía desde então. Desde o momento em que Newton Toledo fora baleado e morto até aquela hora, James e Teresa estavam na delegacia da região, depondo como testemunhas. Não houve qualquer problema quanto a isso, pois dentre os policiais havia um contato da ABIN, que já sabia da presença dos dois agentes e se responsabilizara pela tomada de depoimentos, fazendo apenas perguntas pontuais que não denunciassem o que os dois realmente eram.
Bond não podia negar que a cena que se desenrolara diante de seus olhos era um tanto surreal. Mesmo sendo tão treinado, tal como Teresa, nenhum dos dois conseguiu evitar. O tiro saiu de uma Beretta, possivelmente equipada com um silenciador, atrás de um pequeno furo na divisória, atravessando a cortina, a cadeira e o corpo de Toledo. Não era uma bala comum, havia sido modificada para atravessar seu alvo e o fizera com sucesso.
Mas não fora algo ocorrido do nada. Tanto ele como a brasileira concordavam que alguém sabia que aquele homem, sob pressão, poderia abrir o bico, fosse por intimidação ou por alguma proposta que poderia ser-lhe vantajosa. E mais: sabiam que aquele homem poderia falar demais para os dois.
O que significava também que sabiam quem eram James Bond e Teresa Moura.
Agora vinham as perguntas: Quem? Seria a mando de algum chefão do contrabando de urânio? Ou seria até mesmo o governo da Coreia do Norte? A SPECTRE? De toda forma, independente de quem poderia estar atrás dos dois, após fazer aquela "queima de arquivo", havia o dedo de alguém nisso.
E era alguém que conhecia bem pelo menos um dos dois. À mente do britânico, vinham duas pessoas possíveis: aquela mulher de cabelos platinados e um cara supostamente morto.
Chegava a soar bastante surreal cogitar essas duas possibilidades, mas não conseguia enxergar outras mais plausíveis. Sempre confiava nas outras pessoas de forma meio relutante, mas até então Teresa e Jaime não tinham qualquer suspeita.
― Espero que a morte do Sr. Toledo não prejudique as investigações da outra operação. – ele comentou.
― Não muito. – Teresa disse. – Ele já estava prestes a ser preso. O juiz responsável pela Lava Jato iria expedir o mandado de prisão dele logo. Só escapuliu da cadeia e perdeu a delação premiada, porém acredito que ele não acrescentaria novidades, apenas que se beneficiava do esquema das empreiteiras, tal como os demais que foram presos e condenados. Talvez dê para recuperar o dinheiro desviado com parte do espólio que ele deixou. Mas perdemos mais para a Operação Oriente.
― Não penso assim, Teresa. – James opinou, com os olhos atentos na passagem pela Ponte Estaiada. – Ele parecia ser apenas o peão, talvez não tivesse muito a falar. Mas, se descobrirmos o assassino e para quem ele trabalha, conseguiremos muito mais informações.
― Talvez ele não tivesse muita sobrevida. – a brasileira deduziu. – De uma forma ou de outra, ele seria descartado.
― Facilmente descartado.
Por um breve espaço de tempo, os dois agentes quedaram-se em silêncio, imersos em seus próprios raciocínios e deduções, para depois compartilhar e traçar um novo plano de investigações, a fim de dar sequência à missão da qual foram incumbidos pelos serviços secretos brasileiro e britânico. Além do som do motor do DB5 e dos pneus em atrito com o asfalto molhado, ouviram outros motores bem mais barulhentos e aparentemente potentes se aproximando.
Eram dois veículos bem mais recentes do que o DB5 de mais de meio século de fabricação, que passava a correr com um pouco mais de velocidade. Mais especificamente, dois bólidos bastante poderosos. Um Cobalt preto e um Punto vermelho, ambos tunados. Aparentemente, estavam preparados para disputas de corridas ilegais nas madrugadas dos fins de semana nas avenidas desertas da metrópole que tinha fama de nunca parar.
O Punto avançou à frente do DB5, obrigando Bond a uma freada brusca, quase fazendo com que ele acertasse a cara no volante, visto que seu carro não possuía cintos de segurança. O Cobalt engatou a marcha a ré, deixando o veículo mais antigo aparentemente sem saída na ponte.
Era hora de fazer mais uma prova de fogo com o veterano DB5... Ou eles poderiam ser os próximos arquivos mortos!
