Disclaimer: Os personagens e os lugares desta história pertencem à J.K. Rowling. Não é minha intenção auferir lucro com eles.

II - Repello Trouxatum


O primeiro toque não fora calculado, tampouco voluntário. Ela desvendava os ingredientes e buscava a melhor forma de utiliza-los. Eu estava do lado dela, contra minha vontade ( ou não, ainda não havia me decidido sobre o que eu queria ou não queria, quando o assunto era ela). Goyle havia causado um pequeno acidente com os ingredientes da poção que deveria ser preparada. Ele fizera buracos em toda a mesa, destruíra as minhas anotações e como se não bastasse, as vestes de Severo Snape havia sido vítima da burrice do garoto.

O professor, então, não querendo "prejudicar o rendimento de um aluno tão aplicado como o Sr. Malfoy", optou por me deixar do lado dela, que nas palavras dele, apesar de insolente, era uma aluna que realizava suas tarefas sem maiores tumultos. A última frase veio acompanhada de um olhar mortal na direção de Gregory Goyle.

As masmorras não refletiam luz alguma, mas de certa forma ela trazia um brilho matreiro no olhar. A sombra de um sorriso de quem se orgulhava por mais uma descoberta — mais uma de tantas outras — . Ela estava feliz, e virava freneticamente as folhas do seu livro de poções, cheio de rabiscos e anotações com a letra miudinha e redonda.

Então aconteceu de novo. Ela sorriu, de verdade, para uma colega sem importância, provavelmente da Griffinória. E nem mesmo a escuridão das masmorras conseguiram ocultar meu desconforto. Comecei a multiplicar o número de ladrilhos do banheiro da Murta - que - geme pelo número de artefatos proibidos escondidos em minha casa. A distração sempre era a melhor fuga.

Mas minha poção não mentiria. E o erro na mistura pôde comprovar a extensão de minha completa derrota e perdição, bem como colocou por terra minha teoria de que "A distração sempre era a melhor fuga". Em se tratando de Hermione Granger, talvez a morte fosse a melhor fuga.

Prof. Snape tinha uma peculiar afeição pela casa da serpente. Os pontos eram garantidos mesmo quando Goyle fazia alguma coisa muito estúpida, como derrubar ingredientes extremamente nocivos e causar estragos imperdoáveis. Ou quando eu cometia o mais infantil dos erros e perdia o ponto de fervura da poção, destruindo um trabalho impecável de horas. Claro que isto nunca havia acontecido

Até aquele dia.

Ao contemplar a coloração azul turquesa da poção e o odor fétido de dente de trasgo — indicadores de um fracasso colossal — meus olhos permaneceram estáticos, observando o líquido se espalhar pela mesa e cair no chão. Eu experimentei a sensação de catatonia pela primeira vez. Ouvi a voz do professor Snape como se ela estivesse a quilômetros de distância, e o burburinho da sala era só um leve barulho, que mal chegava aos meus ouvidos.

Quando meu nome foi chamado pelo que eu imagino ter sido a terceira vez, voltei, e tive que lidar com os risinhos abafados, bem como os olhares curiosos, que pulavam de mim para o professor. Por certo, todos estavam esperando a punição do aluno predileto, da casa Predileta.

Cerrei o punho com força, machucando a palma de minha mão com a pressão das unhas, que, mesmo curtas, me presentearam com algumas escoriações que causariam uma dorzinha incômoda mais tarde.

De repente, aquela velha ardência no estômago, o tremor violento pelo corpo, e a jugular pulsando descontroladamente indicaram um sentimento, velho conhecido meu. Vergonha e Ódio.

Se ela não tivesse sorrido, nada daquilo teria acontecido.

As palavras de Severo Snape ainda longe, mas suficientemente audíveis, chegaram aos meus ouvidos; todavia, demorei em compreendê-las. Ele não me puniu. Não fez qualquer observação, sequer dirigiu-me o seu famoso olhar de reprovação. Apenas me chamou para um "comparecimento a sala dele", e eu pude notar, na carranca impassível, uma expressão de curiosidade e surpresa. Ele percebera.

Para Granger, no entanto, dirigiu um olhar de reprovação, e culpou-a do fiasco que havia sido minha poção. Alegou que ela estava próxima demais e algumas poções não reagem muito bem a "certos bruxos". Eu sabia muito bem, e desconfiei que ela também houvesse compreendido que ele estava falando do tema tabu: Pureza do Sangue.

A sala ficou em o mais absoluto silêncio. Mas duvido que algumas pessoas tenham entendido. Nem todos haviam captado no ar a acidez do professor de poções.

Não perdi a oportunidade, claro. Dei uma piscadela para meus amigos, que riram, sentindo-me — sem conseguir entender o porquê —, um idiota logo em seguida. Algo como culpa. Mas não tinha muita certeza naquele momento.

Eu consegui captar o olhar de cumplicidade entre eles; uma revolta mútua e por que não dizer, um ódio dirigido a mim, o maior beneficiado de toda a " Suposta injustiça ".

O trio. Sempre o maldito trio.

Era estranha e quase incômoda essa união inabalável. Todos veneravam os salvadores de Hogwarts. Pessoas que, na maioria das vezes, contavam com a sorte, e claro, o favoritismo que lhes era dedicado pelo diretor — nada imparcial — da escola.

Porém, não me importei com os murmúrios indignados dos Griffinórios. De uma forma ou de outra, eu havia sido favorecido, e eu nunca reclamaria disto. Afinal, vencê-la era um êxtase inominável, desde o dia que meu pai descobrira que ela tinha notas melhores do que as minhas. O tapa violento nunca deixou de arder, e as palavras de reprovação nunca pararam de queimar em toda minha pele.

Desafia-la era bom, ela respondia a altura. Ambos sempre fomos arrogantes e perspicazes, e as respostas nunca saíam da ponta da língua. O ponto alto era a sensação de vingança, quando conseguia tira-la do sério.

Naquela aula, após a confusão causada, bem... por ela mesma. Hermione estava particularmente concentrada, perdida em nossa competição silenciosa, para ver quem entregaria o relatório sobre a poção que deveria ter sido preparada em aula. Snape permitira que eu entregasse o relatório, mesmo sem a poção.

Sempre tive o melhor, então me deparei com alguém melhor. Ela corria contra o tempo e olhava em minha direção a cada cinco segundos.

Quando finalmente levantou, vencendo-me — mais uma vez—, me adiantei, aproveitando-me do tamanho das minhas pernas, na tentativa de mitigar o espaço que me separava da mesa do professor.

O chão ainda possuía resquícios da poção que eu deixara passar do ponto. Estava viscoso e altamente escorregadio. Ela tentou me ultrapassar, aumentando a velocidade, mas foi vencida pelos pés, deslizando e patinando em minha direção.

Quando senti o toque da mão delicada, apoiando-se bruscamente sobre o meu braço, entendi que o sol lá fora era um mero coadjuvante, se comparado com o calor que irradiava por todo o meu organismo. Não permiti que ela caísse, e como se meu corpo respondesse muito mais rápido do que meu orgulho e todas as convicções, pressionei levemente a mão miúda, garantindo a segurança da nascida trouxa que eu costumava odiar.

Com a velocidade de um raio interrompi o contato involuntário, deixando-a sem equilíbrio, com um olhar intrigado e os lábios levemente entreabertos numa expressão de singela surpresa. É claro que ela percebera. Droga.

O contato havia acabado. Me dirigi à mesa e entreguei meu relatório e o dela, após xinga-la, aleatoriamente, de "desastrada ou coisa do tipo". Saí apressadamente, antes que os olhares e risinhos dos outros alunos conseguisse minar o pouco de dignidade que ainda me restava depois da cena cômica que se desenrolara.

Do lado de fora da sala, caminhei a passos largos para a biblioteca. As veias pulsavam e a jugular queimava pela quantidade de sangue que passava ali. Mas, ainda assim, permaneci paralisado por dentro; ciente de que a sensação de cem lareiras acesas permaneceria no local tocado pelas mãos suaves dela por muito, muito tempo.

Então, como quem faz uma prece desesperada, fechei os olhos com força e repeti baixinho, umas duzentas vezes:

"Repello Trouxatum"

Acreditando que desta forma, tudo o que possuísse sangue trouxa se afastaria.

Nunca estive tão enganado.

...