Disclaimer: Os personagens e os lugares desta história pertencem à J.K. Rowling. Não é minha intenção auferir lucro com eles.


V- Finite Incantatem

Depois de tantos combates

o anjo bom matou o anjo mau

e jogou seu corpo no rio.¹

Com o fim do ano letivo, e a instalação oficial de Voldemort em minha casa, tudo parecia ter ficado num passado extremamente distante. O beijo, o toque, a cumplicidade momentânea, não passavam de um borrão em minha memória. A guerra havia começado, e eu deveria escolher um lado, ciente de que não havia espaço para romances juvenis, tampouco um amor proibido que poderia me levar em direção a morte.

Na mesa de reuniões todos os comensais cochichavam, enquanto Voldemort não chegava. A contragosto eu estava ali, mas o desejo de aparatar para o mais longe possível era visível, não obstante o esforço empenhado para disfarça-lo.

Por muitos anos eu havia acompanhado os passos daquele que me criara para ser o defensor da linhagem, perpetuador da pureza: Meu pai. Desejara por muitos anos agradar e surpreende-lo, me tornando aquele que ajudaria na limpeza do mundo bruxo. No entanto, já não queria mais partilhar da mesma posição que Lucius Malfoy. Ser um comensal era o pior castigo que eu poderia ter recebido e, às vezes, eu confesso, da janela do meu quarto, olhava para as estrelas e perguntava, a quem quer que fosse, se por acaso eu estava sendo punido pelas vezes em que desejei a morte de Hermione Granger. Nunca recebi uma resposta.

Ao cair da tarde, caminhava pelos corredores estreitos que me guiaram até a sala dos quadros. Era um lugar grande e bastante gelado, com janelas altas e cortinas finas, facilmente chacoalhadas pelos ventos. Os quadros dos meus antepassados — perfeitamente enfileirados — estavam salpicados de sangue. Voldemort havia alimentado Nagini ali. Alguns elfos domésticos da Mansão, trouxas e nascidos trouxas, compuseram o banquete da cobra asquerosa.

Desde os oito anos de idade a sala dos quadros tinha sido meu lugar preferido na casa, depois do meu quarto. O ponto alto das minhas férias era quando eu enfrentava os grandes lances de escada com entusiasmo e me trancava na sala tranquila, sentindo o perfume do mogno, oriundo dos móveis antigos e magicamente conservados.

Eu sonhava com o dia em que seria bom o suficiente para estar ali, entre os mais nobres da minha linhagem. Na época não fazia ideia do que queria, apenas reproduzia o discurso de meu pai e me sentia muito importante utilizando as palavras dele.

O frescor cítrico da colônia que minha mãe escolhia para o dia-a-dia também passeava pela atmosfera que, para mim, era tão aconchegante quanto a voz da mulher que me dera a vida. Provavelmente ela também passava um tempo considerável ali, admirando a família Malfoy, lendo algum livro ou escrevendo cartas para mim, as quais chegavam ao meu dormitório todas as sextas feiras pela manhã.

Todavia, nada restara daquela sala, do que um dia já fora. O cheiro de sangue seco, acumulado nas frestas das janelas e arestas das paredes me enojava de tal forma, que parei de entrar ali, só o fazendo quando ordenado, para limpar a sujeira que aquela cobra dos infernos fazia. Eu havia me tornado a empregadinha particular de Voldemort, depois do meu fracasso na Torre de Astronomia. Uma dose especial de humilhação que me deixava injuriado, mas não me atrevia a contrariar o Lorde, não quando ele estava tão perto da minha família. Para evitar as tarefas degradantes, comecei a sair de casa cinco vezes ao dia. Algumas vezes aparecia para jantar, outras, ficava em qualquer outro lugar, sempre bem longe de Wiltshire. Quando não conseguia escapar dos serviços, me aventurava pela Londres Trouxa, sob ordem de encontrar algum trouxa desavisado, para servir de presa à Nagini. Antes de realizar estas empreitadas sempre enviava uma coruja para ela.

' Qual o comprimento das penas verticais da asa de uma coruja parda? E como esta medida influência no processo de transfiguração?'

D.M

O conteúdo da carta não tinha nada de romântico, chegava a ser ridículo. Eu não sabia como iniciar uma conversa sem parecer invasivo ou íntimo demais, também não queria que ela pensasse que tínhamos alguma coisa. Uma pergunta neutra, sobre alguma matéria escolar dava conta de chamar a atenção dela, sem causar maiores constrangimentos, para ambas as partes.

Era um alívio encontra-la, às escondidas, com tanta coisa acontecendo lá fora. Pertencíamos a lados completamente opostos, que nunca entrariam num consenso, mas entre os becos de uma rua trouxa qualquer, nos entendíamos, nos beijos sôfregos e toques afoitos, o alento para as almas desesperadas.

Nos dias em que eu não voltava para casa, ficava com ela, caminhando a esmo pelas ruas sujas. Nunca dávamos as mãos, ou algo do gênero, apenas caminhavamos, como dois andarilhos, perdidos por fora e por dentro.

Hermione estava envolvida numa missão bastante séria com Weasley e Potter, que não sabiam que ela estava comigo, achavam que a amiga estava resolvendo problemas familiares, vigiando seus pais desmemoriados e cuidando dos negócios da família. Mal sabiam eles que ela estava ali, comigo, jogando conversa fora, buscando um refúgio que não encontrava neles, um alento que, misteriosamente, só encontrávamos nos braços um do outro.

xx

25 de Dezembro de 1997

Eu não tinha onde passar o natal. Minha casa estava cheia de Comensais, circulando como se estivessem de férias, comendo como animais e deteriorando, sem qualquer pudor, aquela que seria minha Mansão no futuro.

Ela então me mandou uma carta, dizendo que tinha uma coisa para mim. Um presente de natal. Hermione possuía uma facilidade em marcar encontros, dizer o que queria e tornar tudo cristalino e lógico. Eu a invejava muito por isso.

Eu não havia comprado nada para ela, sequer tinha cogitado a ideia de passar o feriado na companhia dela. Mas, pelo bem da etiqueta — fui muito bem criado, apesar dos pesares — aparatei no beco diagonal. Uma atmosfera negra e mórbida havia tomado conta do local, e me lembrei, com doída nostalgia, da primeira vez que coloquei meus pés ali para comprar meu material escolar. O som das crianças deleitando-se com as vitrines e esbaldando-se com os milhares de sabores de sorvetes na Florean Fortescue,

Apenas uma sombra de um passado que parecia estar morto, junto com os muitos comércios que haviam fechado suas portas.

Escolhi o lugar mais provável para comprar o presente natalino. Floreios e borrões. Comprei um livro sobre runas antigas e seus ocultos poderes mágicos, era perfeito para ela, grosso e pesado; as folhas douradas e a capa de camurça vermelha lembravam as cores da Grifinória, e eu ri, imaginando que ela pensaria a mesma coisa.

Marcamos encontro às 19:00, e ela não me cumprimentou quando chegou, apenas respirou fundo e acenou levemente com a mão, bastante insegura, como se estivesse buscando coragem o suficiente para me falar algo.

Eu perguntei o que a incomodava e ela apenas disse que gostaria de ir para um lugar tranquilo. Tive um pouco de medo, estava me acostumando à presença constante dela. Se todo aquele clima de seriedade significasse sua partida, jamais deixaria de odia-la, por condenar-me a uma existência ainda mais vazia e escura.

Reticente, disse a ela que conhecia um bom lugar, onde ninguém nos incomodaria. Era a estalagem de Bill Tenger, um bruxo que não tinha lado na guerra, não fazia perguntas e não dava informações sobre os hóspedes. Apenas concedia abrigo à quem ali chegasse, mediante a quantia 'irrisória' de trinta e cinco Galeões.

O local era limpo, a comida decente, e os quartos contavam com camas relativamente confortáveis. Hermione não pareceu muito à vontade no recinto, mas não fez nenhuma objeção, apenas indicando que não queria ficar nas mesas porque havia gente demais ali. Concordei com um aceno de cabeça e pedi que Bill reservasse um quarto. O homem sorriu maliciosamente, fitando Hermione com uma expressão canibal. A forma com que sustentou os olhos negros nos seios dela me fez querer quebrar o pescoço gordo e opulento do homem com minhas próprias mãos.

Subimos em silêncio a escada de madeira úmida e fétida que levava aos quartos. O ranger do piso era a música de fundo.

Permiti que ela entrasse primeiro, e olhei para ambos os lados do corredor, para ver se alguém havia nos visto. Aparentemente, estava tudo limpo.

Quando fechei a porta atrás de mim, ela me olhava com profundo desejo. Não de forma escrachada ou caricata como as revistas de mulheres nuas que Zabbini vez ou outra trazia para o dormitório, mas uma expressão naturalmente febril e tímida. Havia receio nos movimentos trêmulos dos ombros, e a respiração dela tornara-se irregular. Naquela altura eu já havia compreendido qual seria meu presente de natal, e estava pronto para desfruta-lo.

Caminhei até ela, destruindo o pequeno espaço entre nossos corpos, e não nos dei tempo para ponderações. Se pensássemos, desde o início, não estaríamos ali.

Ela não demonstrou resistência, tão somente fechou os olhos e soltou a respiração, que, acredito eu, nem mesmo ela havia percebido que estava suspensa. O hálito quente e mentolado, tão perto do meu rosto, era uma droga poderosa, que me convidava para uma viagem sem volta ao corpo e alma dela.

Tomei o rosto cálido entre as mãos e demorei-me em beija-la, consumindo cada sabor que os lábios mácios poderiam ter. Nossas línguas pediram passagem ao mesmo tempo, e numa dança frenética se entrelaçavam, eriçando todos os meus pêlos. Não a toquei, apenas brincava com os fios de cabelo que haviam escapado do coque mal feito, que desfiz com meus dedos, e agarrei possessivamente. O corpo miúdo se insinuava no meu, tornando ainda mais evidente a situação do membro entre minhas pernas. Vagarosamente fui guiando- a até a cama, sem parar de beija-la. Sentamo-nos no colchão fofo, que afundou levemente com o nosso peso. Deslizei meu corpo para trás, recostando-me na cabeceira da cama, e ela ajeitou-se por cima das minhas pernas, ficando em meu colo, enquanto eu ajudava-a a se despir. A camiseta de algodão azul turquesa deslizou fácil pelo tórax e pescoço dela, sendo jogada num canto qualquer do quarto; a calça, feita de um tecido grosso e preto foi mais complicada, mas foi tirada, e tão logo me desvencilhei de minhas roupas, estávamos livres, apenas os finos tecidos das roupas íntimas como barreira.

Tornei a beija-la, desta vez descendo pela curva do pescoço, sugando com delicadeza a pele macia. As mãos dela arranhavam minhas costas, causando um arrepio prazeroso por toda a extensão de pele que ela tocava. Em resposta, massageei um dos seios, por cima da peça íntima, que logo foi removida, para que meus lábios pudessem experimentar a textura dos seios pequenos e redondos.

Demorei-me ali, fazendo pequenos círculos com a língua e arranhando suavemente com os dentes as auréolas, extremamente arrepiadas.

Ela gemia baixinho em resposta, os olhos semicerrados.

Coloquei-me por cima dela, abrindo um pequeno espaço para encaixar minha mão, que tentava encontrar o caminho para a sua intimidade. Retirando a calcinha, até o meio das pernas alvas, meus dedos fizeram o trabalho, alisando o centro da feminilidade, sentindo a umidade e o calor que emanavam dali.

Hermione se contorcia e gemia já não tão tímida. Suas pernas se abriam para receber mais, e ela sussurrava meu primeiro nome numa voz rouca e entrecortada. Interrompi as carícias, e ela, ainda confusa, aproveitou-se do momento, e desajeitada acariciou-me, num ponto extremamente fraco.

Ajeitei-me sobre ela, não aguentava mais esperar, o membro rígido pulsava e doía, tamanho o desejo de possuí-la.

Ela pediu, num suplício. E eu não pestanejei, entrei dentro dela sentindo um leve aperto no local. Abri os olhos, perplexo, e contemplei a expressão de dor no rosto dela. Parei por um momento e questionei-a, já imaginando qual seria a resposta.

" Você nunca fez isso antes?"

Ela me encarou sem graça, com uma expressão de dor, num tom misto de timidez e divertimento, falou:

"Feliz natal, Draco"

Ela estava me presenteado com algo precioso. Algo que, para a maioria das garotas, tinha um valor inestimável.

Eu não merecia...

"Feliz natal, Hermione." Sussurrei fracamente em resposta.

Ela pediu que eu continuasse, e eu agradeci por isso, meu corpo inteiro ainda pulsava de desejo. Penetrei-a devagar, enquanto ela contraía o corpo, pedindo, a princípio, para que eu saísse, em virtude da dor. Pedi que ela relaxasse e permaneci dentro dela, acalmando-a e ela foi se acostumando. Então comecei a me movimentar, aumentando o ritmo gradativamente, ficando cego de desejo e, posteriormente, dopado e satisfeito. Ela já havia atingido o ápice quando eu terminei.

Tombei exausto do lado dela, Trazendo-a para perto de mim, encostando o rosto emoldurado pelos fios de cabelo em meu peito. Não falamos nada por um bom tempo. O típico vazio preenchido apenas pelo som da respiração ofegante e relaxada.

Até que eu quebrei o silêncio.

"Obrigado..."

Um sorriso tranquilo foi a resposta. Então dormimos, abraçados de forma tão apertada, que quem nos observasse diria que estávamos querendo aprisionar um ao outro por séculos. Agarrando-se a única esperança de que um dia ambos os mundos — meu e dela — pudessem viver em paz, da mesma forma que nós.

XX

31 de Dezembro de 1997

No ano novo, nos encontramos de novo. A estalagem do Bill estava vazia, por isso optamos por reservar nosso quarto e comer alguma coisa no bar. Ela então me abordou com uma questão que nunca havíamos levantado. Hermione me olhou da forma que sempre fazia quando estava comigo: Nariz arrebitado e olhar altivo, as palavras em tom de desafio, mas sempre suavizadas por alguma carícia engraçada. Eu sabia que ela não era do tipo que gostava de demonstrações públicas de afeto, eu também não, então agradecia. Porém, as vezes, ela abria uma exceção, e com gestos desajeitados, deslizava a palma da mão, morna e macia, em minha face pálida e áspera. Eu nunca reclamava destes surtos carinhosos. Era o único momento do dia em que eu me sentia vivo, mesmo estando condenado por dentro.

Na virada do ano, porém, enquanto a neve caia fina do lado de fora da estalagem, depois de alisar meus cabelos com os dedos e encostar a cabeça em meu ombro, ela teve a audácia de se dirigir a mim como a velha sabe-tudo inconveniente que sempre fora.

Hermione me perguntou por que eu não ia embora de casa; por que não abandonava tudo e recomeçava do ponto onde tudo começara a dar errado. Porque eu não aniquilava a covardia e o conforto em prol de algo bom. E eu respondi, com a irritação crescente formando um bolo em meu estômago, que o motivo era bastante simples: Eu ainda acreditava em tudo aquilo. Uma parcela gigantesca de minhas convicções ainda estava fincada nos ideais de pureza e na extirpação dos que não possuíssem os requisitos corretos, ou não pertencessem à família correta.

Ela levantou-se bruscamente, levando a bolsa e deixando um vento frio em seu lugar. Não fui atrás dela, mas se eu vivesse mil anos, não haveria um mísero dia em que eu não me lembraria da dor e mágoa profunda que fizeram uma volta completa nos olhos castanhos e acusadores. Tenho certeza que ela me odiou mais do que qualquer coisa naquele momento. Mesmo que o ódio não coubesse naquele corpo delicado e angelical.

Ela desapareceu por três meses, e eu senti cada punhalada que a ausência dela desferia. Senti falta do cheiro doce dos cachos volumosos e do aroma de algum creme hidratante trouxa.

Um pedido de desculpas era o mais adequado a se fazer. Por óbvio eu não desceria tão baixo. Também poderia comprar flores, mas que tipo de idiota eu seria se fizesse isto? Então deixei-a. Como quem permite que uma fagulha de felicidade se perca.

Estava morto outra vez e desta vez ela não voltaria para me trazer de volta à vida.

xx

Permiti que todo o encantamento que nos envolvia se fosse.

'Finite Incantatem'

xx

Depois de tantos combates

o anjo bom matou o anjo mau

e jogou seu corpo no rio.¹


NOTAS FINAIS

¹ Poema da Purificação

(Carlos Drummond de Andrade)

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.

As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.