VI- Evanesco

Minha vida seguiu o curso que deveria seguir. Quase a esqueci por algum tempo, exceto pelo fato de que meu corpo arrepiava por inteiro à mera lembrança da presença dela; à simples memória dos nossos corpos se chocando com paixão. Já havia provado a droga que atendia pelo nome de Hermione Granger, e a abstinência era a consequência inevitável que meu organismo se recusava evitar. Alucinações constantes.Ansiedade severa. Delírio.Depressão. Paranoia. A dificuldade em dormir era rotina, e os pesadelos, nos quais Hermione estava banhada em sangue e Voldemort ria, enquanto alimentava-se de sua carne, me despertavam todas as noites, às vezes sem ar, às vezes – eu confesso – chorando copiosamente.

Era fim de inverno, e a primavera se aproximava. Da janela do meu quarto eu conseguia observar os jardins da Mansão Malfoy, os primeiros sinais do florescer das rosas azuis que minha mãe ordenava, religiosamente, o cultivo.

Antes de mim, Narcissa Malfoy tivera mais cinco gravidezes, todas, obviamente, mal sucedidas, e muito sofridas. Até o dia em que, cansada dos comentários ácidos e olhares de esguelha das mulheres do seu círculo social, resolvera visitar, sob orientação de minha avó, Druella Black, um Mestre de poções famoso. Tratando com ele descobriu que somente uma certa curandeira poderia dar-lhe a solução para o seu problema. Minha mãe, desesperada, procurou por toda parte pela misteriosa mulher, chamada 'Malai Kulap', e quando a encontrou, foi orientada a cultivar flores por toda a casa para que a fertilidade retornasse à linhagem dos Malfoy.

Em conjunto ao ritual, dez tipos diferentes de feitiços deveriam ser lançados sobre as flores, a fim de permitir que a geração nunca morresse, que a infertilidade não se estendesse aos membros homens daquela família. As flores foram plantadas, mas os feitiços não foram lançados, pois meu pai achou uma tremenda asneira.

Nove meses depois, na primeira semana do Verão de 1980, eu vim ao mundo, sob o manto azul das flores que enchiam o jardim. Um perfeito Malfoy, perpetuador da pureza e da honra. Mas as instruções de Malai Kulap se provaram verdadeiras, e nunca mais a fertilidade visitou nossa família.

xx

No dia em que a vi novamente, tive duas certezas.

A primeira era a de que meu maior erro havia sido abandona-la.

Rendida, aos meus pés, agarrada pelos cabelos por Greyback. Uma camisa esgarçada, larga, de um marrom muito escuro, por cima de uma calça encardida de algodão e as mãos protegidas por apenas uma luva. O outro par provavelmente se perdera pelo caminho, durante a fuga, que ela e os amigos haviam empreendido numa floresta, conforme explicaram os captores.

Hermione Granger estava ali, na Mansão. Fora pega junto de seus amigos. Estava fraca e muito magra, um aspecto horrível, se comparada à antiga Hermione, que preparava poções e relatórios de feitiço com um brilho inebriante no olhar.

Levaram-na para o porão, deixando Potter e o ruivo pobretão amarrados na sala, a espera de Lorde Voldemorte. Bellatrix foi logo atrás do comensal que guiava, grosseiramente, os passos de Hermione em direção às escadas. Fui puxado pelas mãos ásperas da mulher de cabelos revoltos e olhar assassino, e, enquanto descia os degraus, ouvi os protestos de Ronald Weasley, que gritava, inutilmente, exigindo a soltura de Hermione, levando, por conta de todo escândalo— e atrevimento— um soco no estômago.

Minha tia somente descia junto dos prisioneiros por uma razão. Uma bem terrível: Cruciatus. Meu corpo enregelou-se por inteiro de puro pavor ao imaginar quais seriam os planos daquela mulher mentalmente desequilibrada. Permaneci em o mais absoluto silêncio, lamentando pelo dia em que me envolvera com a sabe-tudo mais arrogante de toda a escola, porque todos pagaríamos, de uma forma ou de outra.

Um dos comensais que também descera conosco alisou a pele ferida do rosto de Hermione, dizendo coisas que um bruxo de alta estirpe não diria. Continuei estático, um corpo sem alma e inerte perante tudo o que se desenrolava em minha frente. Ele que, logo descobri, se chamava Denner Dickson, sob ordens de minha tia, despiu a prisioneira, lambendo as maçãs do rosto dela — este último gesto por vontade própria —.

Meu desejo era sair dali e vomitar até que minha garganta sangrasse, até que tudo o que estivesse dentro de mim se esvaísse: Estomago, fígado, intestino.E desselugar à uma centelha de coragem, que eu jamais possuíra.

Ela não me olhou uma só vez. A cabeça manteve-se baixa todo o tempo. Talvez minha covardia fosse tão repugnante que ela evitou contemplar-me. Não deveria ser fácil saber que compartilhara a mesma cama com alguém como eu. Um inimigo de guerra. Era muito provável que eu fosse a representação do massacre do brilhantismo e inteligência dela; DracoMalfoy. Significava para ela a fase irracional de sua vida ,e, sendo Hermione o ser mais lógico do universo, isso era uma vergonha. Da mesma forma que ela fora minha ruína, culminando na destruição de tudo o que eu acreditava, eu também representava o fracasso dela. Portanto, sabia o que ela estava sentindo. E Era bom saber que ela se sentia desta maneira, por mais egoísta que fosse. Me sentia vingado por todas as madrugadas que senti Hermione Granger se espalhando pelos meus nervos e poros, levando-me à loucura, fazendo com que eu me sentisse a escória de minha família, por deseja-la tão fervorosamente.

A luz no porão era quase inexistente, então, fingindo ajudar minha tia, acendi minha varinha, conseguindo ver Hermione com maior nitidez, eu precisava olhar para ela, suprir a necessidade dos meus olhos de contempla-la, e a luz fraca não era suficiente.

Ao apontar a varinha sob um murmúrio fraco, enquanto minha tia se distraia em alguma discussão com o comensal que a acompanha, eu pude vê-la. Entre os muitos ossos cobertos por uma fina camada de pele. E então, a segunda certeza se formou:

A curandeira estavaerradasobre a infertilidade dos Malfoy.

Uma pequena bola centralizada no ventre da então prisioneira destoava de toda a magreza. Apaguei a luz diante da constatação, apavorado com a descoberta. Grávida! Não de muito tempo. Pelo tamanho da barriga, aproximadamente quatro meses, se me fosse permitido arriscar um palpite.

Não precisei fazer contas. Não houvera outra pessoa antes de mim.

Meu coração pulsava na garganta e as pernas fraquejaram. Minhas mãos tremiam e eu senti vontade de pedir o punhal de minha tia e enterra-lo em meu peito quantas vezes fossem necessárias para acabar com a minha existência e pagar pelos meus pecados, não antes, é claro, de mata-la e à criança, pois era melhor assim. Se não morressem por minhas mãos, seriam torturadas pela mulher mais desequilibrada que eu conhecera em toda minha vida. Não gostaria sequer de imaginar como reagiria minha adorável tia, se soubesse que uma 'sangue ruim' carregava um filho de seu sobrinho. A imagem de Bellatrix abrindo a barriga de Hermione e arrancando a criança não saíam de minha cabeça. Ela seria capaz, e como seria.

"Ora, Ora, ora... Vamos analisar nossa prisioneira e ver o que ela pode nos contar." Fui despertado do meu torpor pela risada de minha tia, que se aproximava de onde estávamos, correndo gelada pelos meus ouvidos.

"Draco, solte as amarras."

Não contrariei as ordens que me foram dadas. Abandonando a esdrúxula e covarde ideia inicial, precisava pensar numa solução rápida para tirar duas pessoas dali, com vida, preferencialmente. Desamarrei os pulsos de Hermione, que continuava evitando meus olhos.

"Vamos! Traga-a aqui e segure-a." minha tia tornou a falar, desta vez com um pouco mais de impaciência no tom de voz. Impaciência não era uma palavra boa quando em se tratando de Bellatrix Lestrange; ela poderia cometer atrocidades quando estava impaciente, ou então, entediada.

Posicionei o corpo de Hermione no chão, virando-a de frente para mim. A pele surpreendentemente quente, mesmo sendo exposta ao frio, que nunca deixava aquele porão, em contato com minhas mãos geladas e suadas.

Ela finalmente olhou para mim. Era outra pessoa, um fantasma ou alguém que fora dementado, quem sabe os dois: Alguém que morreu depois de receber o beijo do dementador. Os olhos castanhos estavam negros, sem qualquer fio de luz ou pintinhas cor de chocolate. Era como mergulhar num mar de lama negra: Desesperador.

Sob a escuridão, pressionei levemente os ombros dela, os dedos, indicador,médio, anelaremindinho, apertando a escápula¹, sentindo os ossos sem qualquer dificuldade. Uma lágrima estava presa em seus cílios, fazendo-os brilhar em contraste com toda a opacidade que a cobria naquele momento.

"Ora, Draco! Se apresse Não tenho dia todo! O Lorde chegará em algumas horas e preciso das informações desta fedelha sobre onde ela conseguiu uma certa espada..." O olhar maníaco de sempre brindava a expressão de Tia Bellatrix. Eu não podia desobedecê-la.

Posicionei Hermione de frente para ela, agachando-a e segurando os braços para trás, os joelhos tocando o chão irregular.

"Agora, você. Levante-se." Minha tia ordenou a mim.

Levantei-me e ela retirou minha varinha do bolso das minhas calças, entregando-a para mim. Com uma voz infantil e expressão falsamente angelical falou, em tom de ordem, mais uma vez.

"Faça."

X

'Escolha.Uma palavra bonita, ou um monte de lixo. Na maioria das vezes a segunda opção.

[...]

Como alguém pode culpar o outro por ter medo? Por preferir o lado mais confortável? Nossas histórias pecam ao contar que os mocinhos são aqueles que passam por cima de todos os obstáculos, que chutam para o alto aquilo que acreditam, em busca de vitória ou redenção.

O ser humano, na verdade, é feito de pequenos atos de heroísmo e vilania.

Em muitas situações eu escolhi a vilania. Mas em alguns momentos eu optei pelo heroísmo.'²

X

Apontei a varinha para Hermione. Eu conhecia a maldição. Minha tia a utilizava com frequência.

Hermione apenas pousou a mão no ventre num gesto protetor e fechou os olhos com força. Ela realmente acreditava que eu fosse capaz.

Apertei a varinha com mais força, os nós dos dedos brancos e rígidos, enquanto a respiração ansiosa de minha tia embaralhava meu pensamento.

1

2

3

...

"Crucio."

...

A voz de Bellatrix Lestrange quebrou o silêncio, lançando a maldição que eu me recusava a utilizar, não nela. Nunca nela. Muito menos agora, na condição delicada em que se encontrava. Naquela dia, então, eu optei pelo heroísmo.

O forte empurrão que recebi de Dickson para que abrisse passagem me pôs no chão. Senti uma ardência e um calor nas têmporas, que haviam atingido uma das colunas do porão.

E então, estava acontecendo, na minha frente. A dor desenhada em cada linha de expressão, e os gritos descontrolados — beirando à insanidade— entrando nas recâmaras da minha alma. Ela implorava por misericórdia, clamava por piedade; dizia, entre sussurros e urros que não era por ela, mas pela vida ainda em formação, que havia dentro dela. Hermione estava implorando. Justo ela. Corajosa e destemida, forte e cheia de si.

Dickson segurava-a para que minha tia pudesse fazer um serviço primoroso. Ele apertava os seios de Hermione, rindo histericamente, enquanto minha tia se preparava para lançar mais um cruciatus.

Vê-lo tocando-a de forma tão suja, provocou em mim um instinto poderia mata-lo com minhas próprias mãos, enterrar meus dedos em sua jugular e minar todo o sangue que ali havia — Sangue puro, mas que me parecia tão imundo quanto um dia eu pensei que o dela fosse. Quanta ironia.

Enquanto eu tentava me levantar, Bellatrix Lestrange cravava na pele sedosa e morna do antebraço de sua vítima, as palavras "Sangue-ruim". E eu jurei, ali mesmo, sob o som dos gritos desesperados de Hermione Granger, que nunca mais utilizaria aquela expressão na minha vida. Não agora que estava encrustada na pele que eu havia tocado, cheio de desejo, ávido por descobrir cada detalhe escondido por entre as células, ossos e carne.

Já em pé, tateei o chão em busca da minha varinha. Quando a encontrei corri até minha tia e a estuporei. O feitiço não saiu tão forte como eu esperava, a fraqueza e a tontura ainda me dominavam. Mas funcionou, só não sabia por quanto tempo. Em seguida derrubei Dickson, com todo o ódio que consegui reunir. apesar de minha vontade pender muito mais para um Avada Kedavra.

Ainda atordoado pela queda, que me causara um ferimento considerável na cabeça, a julgar pelo olhar apavorado que Hermione dirigiu à mim, corri para ampara-la

O mesmo olhar de espanto, em questão de segundos, transformou-se em um desprezo que eu não via ali há muito tempo. Tentei tocar o ventre desnudo com curiosidade e ela me empurrou para longe com uma expressão de nojo.

"Fique longe de mim seu filho de uma..."

Não permiti que ela terminasse. Conversaríamos mais tarde. Naquele momento eu só queria sentir novamente os lábios vivos e convidativos que ela sempre tivera. No fim das contas eu não desejava a morte dela, como sempre pensei que desejasse, quando adolescente.

Ali, no final de tudo, tinha valido a pena, ter minha primeira atitude nobre.

Mas não estávamos resolvidos, pude notar pela mordida que recebi, junto de um chute, fraco, mas num lugar extremamente sensível. Cobri-a com minha capa e tomei a mão dela, sob uma chuva de protestos, tentando não odiá-la por ser tão orgulhosa a ponto de não querer salvar a própria vida.

Que pensasse na criança que carregava, oras!

Precisávamos sair dali, e eu conhecia um acesso para os portões da Mansão. Ela, no entanto, recusou-se a partir sem os amigos.

Discutimos, aos sussurros, mas permiti que ela voltasse para socorrer os dois inúteis, desde que seguisse o meu plano e não lutasse. Ela concordou, mantendo uma distância bastante segura de mim, repelindo-me, como se eu fosse portador de alguma moléstia grave e contagiosa.

Subi pela escada, segurando-a como se fosse minha prisioneira, e chamei Rabicho. O homem repulsivo me olhou desconfiado, perguntando sobre a Madame Lestrange. Inventei qualquer desculpa e subimos.

A sala estava parcialmente vazia, apenas dois comensais e os prisioneiros. Agradeci internamente por isso. Seria muito mais fácil duelar contra duas pessoas. Estuporei ambos.

Quando me viu, trazendo Hermione pelos pulsos, Weasley começou a gritar uma quantidade imensa de palavrões, e eu tive que utilizar um feitiço de cola nos lábios do ruivo imbecil. Permiti que ambos— ele e Potter — se livrassem das cordas mágicas que os prendiam, e fui, tão logo Weasley viu as mãos livres, atingido por um soco certeiro no olho esquerdo. Hermione empurrou o amigo, dizendo que eu estava tentando ajudar. A confusão que se desenrolou atraiu meus pais, e ,para meu desespero absoluto, minha tia, que se recuperara rápido demais do feitiço estuporante. Do topo da escada ela gritava feitiços que amarraram Hermione.

O que aconteceu em seguida são memórias entrecortadas. Lembro-me de Hermione gritando para que eu abaixasse minha varinha. A voz de minha tia, berrando palavras como 'Traidor', 'Inimigo da linhagem', 'Amante de sangues ruins'.E o olhar insano da mulher que despejava aqueles insultos, dando pistas do que seria feito em seguida.

As mãos pálidas de Bellatrix buscaram o punhal cravejado de esmeraldas, preso em seu cinto. O alvo: Hermione Granger.

Desesperadamente empurrei Hermione para longe da mira de minha tia, fazendo-a perder o equilíbrio, tombando para trás. A mulher, ensandecida, sangue do meu sangue, dirigiu o ataque na minha direção.

O golpe certeiro havia me atingido onde talvez houvesse salvação. Talvez não.

Senti o sangue quente e espesso deslizar pelo peitoral, tingindo de púrpura a minha melhor camisa branca. Abri os olhos com dificuldade, procurando Hermione, e contemplei as orbes castanhas, vermelhas e inchadas. Ela se arrastara até onde eu estava, me contemplando com uma expressão de medo e angústia. A íris brilhava pela umidade das lágrimas. Com um esforço sobre-humano, e um leve erguer de varinha, falei baixinho.

'Relaxo'

E as cordas que prendiam as pernas dela se soltaram. Com as mãos livres acariciou meu rosto, tremendo violentamente, as lágrimas provavelmente impedindo-a de enxergar. Senti, ainda atordoado, os lábios quentes buscando minha boca, já seca, beijando-a repetidamente, entre palavras desordenadas, me pedindo para ficar. Minha visão estava turva, só conseguia enxergar borrões e vultos correndo de um lado para o outro, enquanto jatos verdes, vermelhos e prateados voavam pelos ares.

Ela ajoelhou-se por sobre mim, e com visível desespero tentava estancar o mar de sangue que se formava no meu peito. Hermione tomou minha varinha, apesar de minha fraca resistência, e proferindo palavras ininteligíveis, fez com que o sangramento diminuísse. Entretanto, alguém a puxou, interrompendo o feitiço curativo, e mesmo sob a nuvem de sangue, lágrimas e dor, eu consegui identificar a figura ruiva e um amontado de fios negros arrepiados. Eles estavam-na levando para longe de mim. Consegui ouvir partes de uma discussão e em seguida, o barulho seco, característico da aparatação. Hermione havia partido, mas estava a salvo. Eu estava parcialmente aliviado, mas ciente de que nunca mais a veria. Não acreditava em minha salvação. Ali no chão da minha própria casa, sabia que meu fim era mais do que certo.

O sangue voltou a jorrar, e eu sabia que em poucos minutos perderia a consciência. E assim aconteceu.

'Evanesco'

Qualquer pequena esperança de vê-la novamente se desintegrara. Qualquer esperança de estar vivo se perdia.

xx

Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".²