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Mais um capítulo quentinho! e aqui deixo meu obrigado aos reviews! Felicia Malfoy e Angel Tonks! Obrigada por acompanharem, amores!


VII - Aresto Momentum

Tic-tac

Tic-tac

Quantas batidas um relógio dá, até que a vida se esvaia de um corpo cansado?

xx

Acordei num lugar estranho. Um quarto branco e cinza, as paredes tinham quadros de paisagens, que disfarçavam as muitas rachaduras e infiltrações. Eu jamais havia visitado os Lugares retratados nas telas, e talvez nem chegaria a visitar . Eram paraísos tropicais, ilhas e arquipélagos, pude concluir de minha observação sonolenta.

Talvez eu estivesse morto. Ou esperando meu julgamento.

Mas não achava que o tártaro fosse branco, muito menos decorado com quadros de lugares paradisíacos.

O barulho de algumas crianças brincando do lado de fora me chamou a atenção, e eu me lembrei que, caso não estivesse morto, seria pai. Consegui perceber um intenso formigamento no estômago ao trazer a informação de volta à memória. A palavra 'pai' caiu amarga em minha língua à medida em que fui me recordando de alguns fragmentos dos recentes — ou não tão recentes assim— acontecimentos. Minha boca, bastante seca, tentava, a todo custo, proferir algumas frases, chamar alguém que me explicasse o que havia acontecido.

Não precisei esperar muito. Uma mulher de cabelos vermelhos apareceu na porta do quarto em que eu estava. Ela me olhava com piedade, um semblante quase maternal.

" Olá, Sr. Malfoy. Sou Tina Cunnis, a medibruxa responsável pela sua recuperação."

Pisquei os olhos várias vezes, em descrença. Eu estava num hospital que não era o St. Mungus, pelo menos não como eu me recordava.

Mas não estava morto. Primeira observação. Saberia se isso era bom ou ruim depois, ainda nao podia comemorar.

A segunda observação era: Eu estava muito dopado, a julgar pela fraqueza nas pernas e pensamentos imbecis como pensar que apesar de velha, a tal da enfermeira Cunnis renderia uma boa diversão.

Resolvi sanar algumas das dúvidas que martelavam o meu cérebro, espantando as fantasias descabidas.

"Er...Cunnis...Que dia é hoje? Onde estão meus pais?" Perguntei, como o mesmo tom de quem cobra uma explicação de um empregado.

A mulher continuou me olhando, desta vez com curiosidade e uma pitada de indignação. Fechei meus olhos e soltei um grunhido impaciente. Ela percebeu.

" Desculpe, Sr. Malfoy, mas em sua ficha não constam os nomes de seus pais." Ela começou, a expressão curiosa ainda firme em seu rosto.

" Ora! Como assim? Como vim parar aqui, então?" A pergunta saiu raspando pela minha garganta, já muito seca, e não pude evitar um longo acesso de tosse. A enfermeira correu em busca da jarra de água ao lado da cama e entregou-me um copo cheio, que desceu queimando.

"Aparentemente o senhor não se lembra de nada" a mulher falava, mais para si do que para mim. " O senhor chegou aqui há três meses, banhado em sangue, a vida por um fio e..."

"Mas que diab…" Exclamei aturdido, quando vi um pequeno elfo, que eu conhecia muito bem, atravessando meu quarto, acenando para Cunnis e entregando-me duas cartas.

" Bom dia, senhor Malfoy, Dobby está a serviço do amigo Harry Potter. Foi Dobby quem trouxe o senhor aqui, no hospital, mas não posso ficar por muito tempo..."

"Conte-me o que aconteceu, Agora!" Ordenei, e Dobby não se curvou. Permaneceu com os bracinhos cruzados e uma expressão petulante nos olhos esbugalhados.

Suavizei a expressão, como se pedisse "por favor", com exagerada má vontade, devo acrescentar. Ele pareceu persuadido, prosseguindo com o seu relato.

"Harry Potter encontrou Dobby no Chalé das conchas. Dobby estava numa missão importante... Quando chegaram, senhorita Hermione estava passando muito mal, e havia uma grande confusão entre os três amigos: Rony Weasley, Harry Potter e Hermione Granger. Eles discutiam sobre voltar e salvar alguém, em demonstração de gratidão. Dobby captou apenas alguns fragmentos da conversa, mas ofereceu-se para ajudar depois de ouvir um pouco mais sobre o ocorrido. "

"E..." Insisti, sem paciência, sem sequer me importar em questionar onde diabos era o tal 'chalé das conchas.'

" E aparatei até a mansão, que se encontrava em absoluto silêncio. Avistei-o numa poça de sangue, frio e quase sem vida, senhor. Sua mãe chorava muito na sala dos quadros, e quando ouviu que alguém estava na sala, desceu apressada, encarando Dobby , que tentava verificar seus batimentos cardíacos. Ela tentou impedir Dobby, dizendo que o senhor estaria morto de qualquer forma. Mas Dobby insistiu, afinal, havia sido um pedido do amigo Harry Potter. A senhora Malfoy então, entregou a Dobby alguns galeões e pediu para leva-lo até um hospital que não fosse o St. Mungus, para não chamar a atenção daqueles que o estivessem procurando. Muitos Comensais desejavam a sua morte, depois de seu ato heróico, Sr. Malfoy. E, bem, aqui está o senhor, em Yellow Pitstone, na Escócia."

Após a enxurrada de informações que Dobby trouxera, encostei minha cabeça no travesseiro gelado, digerindo todos os acontecimentos. Eu não morri, mas havia contraído uma dívida. Potter me salvara, não de livre e espontânea vontade, eu sabia, mas ainda assim me salvara.

A pedido dela.

Novamente ela interferira no curso da minha existência. Hermione, ao que tudo indicava, não se cansava de meter o bedelho em minha vida. Desde a primeira vez que pus os olhos nela, de uma forma ou de outra, tudo gravitava em torno dela.

Dobby balançava o corpinho, distraído. As cartas presas entre os dedos enrugados; tomei-as da mão do elfo traidor e rasguei o envelope, onde repousava o brasão da família Malfoy. A carta era concisa, mas decisiva.

Draco,

Estou lhe enviando esta carta para que você saiba o quanto ainda nos preocupamos com você.

Seu pai está muito desapontado, e exige uma explicação bastante convincente sobre os acontecimentos em nossa Mansão. Não que eu acredite existir justificativa suficiente para que alguém atente contra a própria família. Entretanto, entenderemos tudo como um surto de loucura, como um desejo pelo proibido, típico da juventude.

Decida rápido. Não abuse da boa vontade de seu pai. O tempo está passando.

Narcissa

Novamente a escolha batia em minha porta. No entanto, desta vez, estava em minhas mãos o resto de minha vida, a ser definido nos movimentos apressados de uma pena num pergaminho.

Já imaginando à quem pertencia a outra carta, abri. A letra de Hermione, espremida e redonda, tingia o pergaminho, e eu respirei fundo, sem saber o que esperar.

Draco,

A sua mãe veio até a toca, onde eu estava até alguns meses atrás. Ela olhou minha barriga com tanto nojo que quase joguei-a no jardim, junto dos gnomos (Com certeza eles fariam uma festa). Me perguntou quanto eu queria para entregar a criança, pois ela conhecia alguém de confiança, que "daria um jeito" nas gravidezes mais avançadas. Eu a esbofeteei. Me desculpe, mas não me arrependo. Da mesma que nunca me arrependi de tê-lo atingido em cheio no terceiro ano.

Quando estiver lendo esta carta, é provável que eu já esteja no departamento de Obliviadores. Não me entenda mal. Não o odeio. Mas preciso viver em segurança, criar meu filho longe de toda esta atmosfera carregada, e, apagar minhas memórias foi uma das condições (ou ameaças) que sua família impôs para que eu pudesse viver em paz. Sua mãe deu a entender que você sofreria a Poena Repuddia¹ se optasse por assumir esta criança e a mim.

Nunca imaginei que a maternidade fosse mexer tanto comigo, quase não me lembro mais daquela garota destemida que eu um dia fui. Dela só restou o pensamento lógico e racional, que, neste momento, concentra-se em proteger esta criança, que virá ao mundo em breve.

As vezes sinto ele, ou ela, mexendo em minha barriga. E uma sensação estranha, como se houvesse um aquário repleto de água dentro de mim. Às vezes eu choro, talvez seja culpa. Sabe, culpa? Por nós, por todos os meus amigos que morreram na guerra.

Peço que me perdoe, pela decisão abrupta. É melhor assim, para nós dois. Nunca deveríamos ter nos aproximado

Sinceramente.

Hermione

Quando finalizei a leitura meus dedos suavam e o pergaminho grudava na pele molhada. A notícia de que Hermione, em breve, não se lembraria de mais nada caiu em meus ombros como uma malha de ferro. Precisava ir até ela, tentar impedi-la.

Ou não. O pensamento escorregou pelos meus lábios, num murmúrio.

Na mansão eu fora tomado por uma carga elevada de adrenalina, mas, agora, deitado numa cama de hospital, com duas escolhas a serem feitas, sendo uma delas capaz de retirar toda a herança e renome que eu possuía, me perguntei se precisava mesmo pensar sobre elas, se já não sabia o que era mais sensato a ser feito.

Hermione era conhecida por estar sempre certa. Talvez fosse o momento de assumir que isto era verdade.

Dobby me encarava como se esperasse uma pergunta.

"Onde a Srta. Granger está?" Perguntei, com o mesmo tom de ordem, mas desta vez ele pareceu não se importar. Meus olhos ardiam, e eu senti a umidade da vergonha se espalhar neles. Estavam marejados. A criatura retirou do bolso do macacão que vestia, algo que parecia um pergaminho, mas era branco e possuía traços paralelos. Possivelmente alguma invenção trouxa.

" Senhorita Hermione vive neste endereço. Desde que a guerra acabou"...

Virei meu pescoço com tanta força que senti estralar, e uma fina pontada se espalhou pela minha espinha.

"Espere aí, elfo. Está me dizendo que a Guerra acabou?"

O choque na notícia me atingiu em cheio. Tudo me pareceu ainda mais turvo e confuso.

Se a guerra havia acabado, então Voldemort estava morto, e eu corria perigo, afinal, ainda que sem sucesso, atentara contra a vida do Diretor de Hogwarts.

"Meus país estão sendo procurados pelo Ministério?" Perguntei, aflito, as mãos deslizando pela roupa do hospital. Estava nervoso.

" Não, senhor. Seus pais ocupam um posto bastante elevado. Alegaram que sacrificaram a segurança do próprio filho para salvar Harry Potter e seus amigos. Disseram que o senhor havia se ferido num ato heroico."

Engasguei com minha própria saliva, um gosto de poção do sono sem sonhos percorreu minhas papilas gustativas. Esperei um vômito, que não veio, então perguntei.

"Espere um momento! Você está me dizendo que meus pais estão vivos? E sem qualquer acusação pesando contra eles?

Eu deveria estar com a pior das aparências, pois Dobby fitava-me, tentando entender até que ponto seria saudável compartilhar os eventos ocorridos durante meu 'coma'. O elfo foi solícito, e não me tratou com o mesmo desdém com o qual eu me dirigia a ele, tratando de explicar as últimas novidades.

"Harry Potter venceu, Sr. Malfoy. Seus pais saíram ilesos. Aparentemente o álibi fora suficiente para convencer o Ministério."

"Hermione Granger? Ela está bem?" Apressei-me em repetir a pergunta, como se dependesse da resposta para sobreviver.

"Senhor, ela está muito bem. Vivendo neste endereço." O elfo insistia, olhando para mim apertando o 'pergaminho' branco com força, e empurrando-o em minha direção.

Me perguntei, mais de uma vez, porque cargas d'agua aquele elfo estava insistindo em me entregar o endereço dela. Quando viu que não o peguei, deixou-o em cima do móvel que ficava ao lado da minha cama.

" Mas se ela estava partindo, por que me deixou o endereço?

Pensei em voz alta, evitando olhar para as letrinhas miúdas que, tentadoras, insistiam em atrair meus olhos. A cabeça latejando furiosamente.

"Talvez ela tivesse alguma esperança, de que o senhor fosse tentar impedi-la."

Foi a última coisa que Dobby falou, antes de estalar os dedos e aparatar.

xxxx

O elfo foi embora, e eu fiquei ali, diante de minhas próprias escolhas. As cartas estavam em cima da cama do hospital, e eu as encarava, incerto.

Não amava Hermione. Ela continuava sendo a sujeitinha arrogante que eu costumava odiar, que, aparentemente tomava decisões sozinhas, e os outros que aceitassem. Ali, longe de mim, ela não causava tanta desordem. Eu diria que era só mais uma memória.

Ela mandara a carta, mas não viera me visitar.

Decidira me manter afastado do pequeno mestiço que nasceria sem um pai. Ou teria Ronald Weasley como pai... O que deveria ser muito pior do que ser órfão.

E eu questionei, milhares de vezes, silenciosamente mirando ambas as cartas, como eu poderia viver longe da pele e da voz dela? Como suportaria a ideia de que ela poderia carregar um filho meu com o nome de outro homem?

E cheguei a conclusão de que talvez eu pudesse suportar.

Talvez eu pedisse para meus pais apagassem minhas memórias também. Porque era isso que eu fazia, não era? Fugia. Encontrava uma saída confortável.

Ela estava entregando os pontos, então, porque eu deveria resistir e bancar o herói? Minha cota de heroísmo já havia se esgotado. Estava na hora de ser o vilão da minha própria história, voltar a ser o objeto de ódio de Hermione Granger, e voltar a desejar morte dela.

Estava na hora de vê-la criando uma criança desconhecida, que me enxergaria como o maior dos desafetos de sua mãe. Como um bruxo arrogante e preconceituoso.

Amassei o endereço de Hermione Granger, e a sensação das pontas do pergaminho trouxa pinicando meus dedos e a palma da minha mão persistiu por várias horas.

A decisão queimava em meu estômago, e não pude evitar o pensamento infame, que insistia em reafirmar que eu estava prestes a cometer o maior erro da minha vida.

xx

Aresto Momentum

Eu estava caindo. Somente a esperança de tê-la novamente— lutando contra minha própria covardia—poderia suavizar a queda.


¹ Poena Repuddia : É criação minha. Consiste numa pena que repudia os herdeiros de uma família bruxa. Quem a recebe perde o direito de carregar o sobrenome da família, a herança e os encantamentos de proteção das casas.