VIII- Orchideous

Dentre todas as decisões que eu tomara na vida, esta fora a mais difícil. E também a menos provável, sendo eu quem sempre fui.

Recebi alta do hospital depois de uma semana, e o endereço de Hermione ainda estava amassado embaixo da cama. Em meu colo a carta de minha mãe. Cheirei o pergaminho com força, buscando o perfume da mulher que me trouxera ao mundo, aquela que significava mais do que o próprio oxigênio que eu inspirava todos os dias. Minha mãe.

Pedir para um homem escolher entre o amor de sua genitora e o amor de uma mulher deveria ser proibido. Deveria figurar na lista de maldições imperdoáveis.

Mãe é sempre mãe. Os caminhos mudam, as pessoas morrem, envelhecem, o mundo caminha em várias direções diferentes; convicções são atiradas ao vento. Mas o amor de uma mãe jamais perece.

Era engraçado pensar em Narcissa com tanto carinho, quando ela me pusera contra a parede de forma tão fria. Entretanto, a frieza daquela mulher, que poderia muito bem ter sido feita de mármore, era o que me fazia relutar ainda mais. Dentro dela havia o calor materno, havia uma infinidade de sentimentos contidos que somente eu conhecia. Era fácil ama-la sabendo quem ela era.

Levantei de meu estado reflexivo e resolvi enfrentar a decisão tomada.

Pedi uma pena, um pedaço de pergaminho e um punhado de pó de Flu para Cunnis, a enfermeira, e comecei a escrever apressado.

Mãe.

Declino de sua oferta. Infelizmente não posso abandonar alguém que carrega um filho meu. A senhora e meu pai me educaram sob a égide de ensinamentos aristocráticos, e a honra era um dos pilares fundamentais. Manterei o bom trabalho de ambos.

Draco.

Reli a carta muitas vezes, até sentir os olhos úmidos. Minhas mãos tremiam e a coragem, pouco a pouco, diminuía.

Com uma das corujas do hospital entreguei a carta. E não precisei esperar muito.

Na noite do dia seguinte recebi duas correspondências. Uma delas era um envelope negro, com uma textura áspera.

Dentro dele o brasão da família Malfoy.

Quando abri, um laço esverdeado amarrou a ponta do meu dedo indicador, a ponta do laço se transformou numa agulha que picou minha pele, fazendo sair uma gota de sangue.

Após a gota de sangue pingar no envelope a voz de meu pai soou, baixa e ameaçadora.

"Draco Lucius Malfoy está morto. Que a Poena repuddia se aplique e lhe sejam retirados todos os benefícios desta família. Que seu sobrenome seja apagado."

O envelope pegou fogo. Uma chama azul consumiu minha sentença de morte.

Estava feito.

O outro pergaminho continha ameaças, e insultos. O que era bastante previsível, então, li rapidamente e atirei-o no lixo.

Não esperei amanhecer. Desci ate o saguão principal do Hospital e joguei o pó sobre a lareira, proferindo o endereço amassado no pergaminho trouxa.

"Espero que não seja tarde demais." Foi o meu último pensamento, antes de ser engolido pela lareira.

XX

As alças da mala, que Tina Cunnis me emprestara, estavam deslizando entre meus dedos suados. Parte de mim era nervosismo, a outra parte era medo.

Ela abriu a porta. Sempre espontânea, sempre sorrindo e fazendo chegar até minhas narinas o seu aroma característico. Correu até mim, e atirou-se em meus braços tão logo eu larguei a mala no chão de cascalhos.

Ela ainda se lembrava de mim.

Uma onda de alívio percorreu minhas entranhas. Aproveitei-me do momento para exalar todo o perfume que ela emanava. Aspirei fundo, meu nariz pousando em seus fartos cabelos.

A barriga despontando por baixo da blusa de lã, tornando o abraço bastante confuso, era um dos muitos motivos que me fizeram partir.

As mãozinhas não paravam de entrelaçar os fios do meu cabelo. Ela sorria, chorava, arfava e exclamava entre soluços abafados: "Você veio".

Eu estava ali. Mas ainda não acreditava. Dentro da mala apenas um livro e uma capa. A roupa do corpo fora a esmola de minha família, que cogitara, muito seriamente, o fato de arrancar as peças que eu vestia. Segundo eles, eu poderia me cobrir do manto de vergonha sob o qual colocara o nome dos meus antepassados.

Havia fechado todas as portas atrás de mim. Meu pai faria um funeral simbólico, e declarar-me-ia como morto. A primeira atitude não Sonserina que tive em minha vida culminara em minha completa pobreza e fracasso. Mas Hermione continuava me beijando e alisando meu rosto, os olhos marejados. E por esse motivo, eu não estava tão arrependido.

Ela me arrastou para dentro do que parecia ser uma construção trouxa deixada incompleta. Hesitei mentalmente. Havia entrado num jogo complicado, um caminho sem volta, que me conduziria à um novo destino. Era um ambiente trouxa, com uma nascida trouxa. O que mais faltaria para completar a cerimônia do infortúnio? Ciente disto, e com um certo peso na consciência por repudiar o que ela me oferecia sem reservas, entrei no local, que, aparentemente, seria a nossa casa.

Hermione mostrava, bastante orgulhosa, as melhorias que havia feito com alguns feitiços de reparo dos quais se lembrava com perfeição. Eu assentia silenciosamente, ouvindo-a com atenção, o os olhos fixos na fisionomia dela, reparando que havia uma sombra de tristeza, e eu podia imaginar de onde ela vinha. Não tinha sido eu o único a abandonar algumas crenças. Ela perdera boa parte dos amigos, não porque fizera uma escolha entre eles e eu, mas porque quisera conciliar ambos os lados, e isto, francamente, era impossível. De certa forma seus amigos eram a sua família, então ela estava igualmente devastada.

Naquela madrugada, enquanto ela continuava a disparar palavras e mais palavras, na vã tentativa de ocultar sua dor, eu a ouvi, sem fazer comentários sarcásticos, sem insulta-la.

Em poucos segundos venci o espaço curto que havia entre nós e abracei-a. Num primeiro momento ela apenas deixou os braços soltos ao lado do corpo, e um silêncio sepulcral invadiu o quartinho, que sem dúvida pertenceria à alguma criança trouxa, se estivesse concluído. Os tons de amarelo da parede e quadros infantis conferiam um clima ainda mais melancólico ao ambiente. Então eu pude ouvir, e sentir, próximo ao meu peito, os soluços abafados; as mãozinhas desesperadas, que há pouco acariciavam meus cabelos, estavam agarrando-se com força em minhas vestes.

Hermione chorava, e eu me permiti chorar também. Estávamos sozinhos, num cenário nada promissor, sem qualquer perspectiva de que no futuro seríamos alguma coisa.

Após alguns minutos, intermináveis, de lágrimas e soluços. Trouxe-a para a cama que ela conjurara mais cedo, e nos deitamos nela.

Nada falamos, apenas fechamos os olhos, deixando que o peso das nossas decisões recaísse em nossos ombros cansados.

XX

Amanheceu, e ainda estávamos abraçados. O ventre redondo, bastante proeminente, subia e descia, no ritmo da respiração dela. Pousei a mão onde, pela calmaria dos movimentos, meu bebê repousava e se desenvolvia em absoluta paz. Meu bebê.

Era estranho trata-lo assim, não soava correto nos meus lábios, e logo percebi que o termo não se encaixava na relação estranha que fora construída ali. Hermione não era minha namorada, noiva ou esposa. Alguma coisa muito doentia nos conectava, de modo que não conseguíamos ficar longe um do outro por muito tempo. Das vezes que achei ter me livrado da mazela chamada Hermione, ela reaparecia, da forma mais inesperada e desastrosa possível.

Esta criança, que eu chamava de pequeno mestiço — apenas em meus pensamentos, é claro —, era a confirmação de uma catástrofe, e eu jamais fingiria felicidade.

No entanto, ali dentro florescia a vida. Em sua forma mais pura e inocente. Não tinha como não me lembrar dos jardins que Narcissa Malfoy cultivara na esperança de ter um filho.

XX

No oitavo mês eu senti a flutuação leve e despreocupada, dentro da bela barriga, já redonda o suficiente para anunciar a chegada de mais um bruxo, ou bruxa, no mundo. E meus pelos se eriçaram.

Um medo que nunca havia sentido antes se apoderou de mim. Como seria dali em diante? Uma criança viria ao mundo, filha de um ex-comensal fracassado e sem um nuque no bolso. Não tínhamos sequer um lugar para morar, apenas os restos de uma construção trouxa, o que atestava minha vergonha de forma trágica.

Com o tempo, uma boa dose de paciência e o auxílio de magia, deixamos o lugar aceitável, revertendo aos poucos nossa situação de extrema desgraça. Logo tínhamos nossa própria mobília, todas de segunda mão, compradas por ela, que conseguia descontos incríveis por estar grávida, e ser muito bonita.

Minhas roupas estavam tão desgastadas que ao simples toque dos meus dedos se rasgavam. Hermione fazia os remendos e costuras, me sentia um verdadeiro palhaço.

Mas eu jamais saía de casa, minha história se espalhara demais, e não queria ser visto comprando artigos usados, roupas, móveis, livros, e tantas outras coisas. Me sentia uma imundície fazendo esse tipo de coisa. Ou pior, me sentia um membro da família Weasley. Os melhores clientes das lojas de segunda mão.

Certa noite, depois de uma briga intensa, Hermione sugeriu que eu escrevesse um livro de memórias. Ela sabia que o fato de ter sido repudiado por minha família havia sido um duro golpe, e que talvez eu devesse, para manter a sanidade, escrever, porque para ela escrever era libertador.

Os olhos ainda inchados da recente discussão me fitavam com interesse, e os cabelos formavam um ninho no colchão. Senti vontade de beija-la até meus lábios caírem, bem como pedir perdão por tê-la feito chorar pela milionésima vez.

O fato é que nós sempre brigávamos. Sempre. Era a nossa religião. Levávamos para o altar as lágrimas e os insultos. Ela me dava pontapés, socos e gritava muito.

Depois chorava descontrolada, pedindo desculpas, culpando o fiasco de vida que levávamos nossa incompatibilidade e tantas outras coisas que ficavam ocultas entre os gritos e os soluços.

Nestes dias eu vomitava na cara dela tudo o que eu havia perdido. Ressaltava como ela era ingrata e mesquinha, mesmo sabendo que eu era muito mais. Não estava levando em consideração tudo o que estava acontecendo dentro e fora dela.

Eu sempre saía pisando duro, batendo a porta atrás de mim. Dormia em algum lugar frio e reservado aos mendigos trouxas. Esta era minha vida. Não tinha para onde ir quando eu e ela discutíamos, então as grandes construções trouxas, que eu logo descobri se chamarem 'viadutos', serviam de casa. Fiz alguns colegas, das vezes em que Hermione não conseguia me encontrar e eu ficava sumido por dias; contava à eles que eu era bruxo, e uma vez ligaram para um hospital, dizendo que eu havia abusado de uma tal de cocaína. Não fazia ideia do que era aquilo.

Neste mesmo dia ela foi me buscar no hospital psiquiátrico, com uma mão apoiada nas costas, e a outra trazendo uma roupa bastante quente. Como eu a odiava por isso, por retribuir com bondade e paciência toda minha ingratidão e egoísmo.

Voltamos para casa sob um silêncio fúnebre, quebrado por uma das minhas perguntas que significavam pedidos de desculpas.

"O que é cocaíla, Hermione ?" Perguntei, e Hermione me olhou com estranheza.

"CocaínA." Ela corrigiu secamente.

"Que seja! O que é?" Insisti.

"É uma droga muito potente, estimula fortemente o sistema nervoso central e é extraída de uma planta chamada Erytroxylon coca ou simplesmente coca."

Mas era óbvio que a resposta viria acompanhada de uma aula de alquimia trouxa.

"Hum... E você já usou?" Rebati, com outra pergunta.

"Ora! É evidente que não, Malfoy. Pessoas como eu não precisam de drogas para qualquer estimulação." Eu ri do nariz arrebitado e da irritação presente em cada linha de expressão. Malfoy. Ela sempre me chamava assim quando estava brava.

Eu precisava tanto dela.

"Você parece criança." Ela continuou, indignada, e eu sorri passando a mão pela cintura dela, enquanto encontrava uma fraca resistência, vencida com facilidade.

Quando Hermione sugeriu que eu escrevesse um livro de memorias eu não aceitei. Disse grosseiro, que não queria me lembrar de tantas infelicidades e erros.

Ela fitou-me, visivelmente magoada, esgotada das minhas palavras ferinas, que todos os dias chicoteavam sua face. Mas não disse nada, apenas respirou profundamente, como se estivesse tentando sugar todo o ar do quarto, e virou-se de costas para mim.

"Eu não acho que tenha sido um erro vir para cá." falei desajeitado. Não sabia pedir perdão, então tentei remediar o efeito da minha ingratidão.

Ouvi um choro contido, daqueles em que a respiração se torna controlada para que ninguém escute os soluços.

"Você é um imbecil, arrogante e pessimista, Malfoy" Ela falou, engasgando com um soluço que escapara.

"E você é uma irritante e otimista sabe-tudo. De alguma forma estamos quites. "

Era o suficiente para sorrirmos amargurados. Ela riu e chorou ao mesmo tempo, e eu abracei-a, como se ela fosse desaparecer dali.

Entre nós não havia espaço para as famosas três palavras. Quando nos tratávamos desta forma, 'imbecil', 'arrogante', 'sabe tudo', sabíamos que as coisas estavam indo bem. Era como voltar ao passado das discussões ferrenhas, com o diferencial de que as frases estavam sendo ditas sob o mesmo leito e com uma criança em formação como testemunha.

"Eu vou escrever um livro de memórias." Falei após um breve silêncio, puxando-a para mim e encostando minha testa em suas omoplatas.

"Eu sabia." Ela falou, virando-se de frente para mim, e eu olhei para ela esperando uma explicação.

"Você faz tudo por mim." Ela falou, num erguer de sobrancelha. Convencida.

Ri, desdenhoso, e quando ela caiu no sono, sussurrei perto de sua orelha

"Sim, eu faço." Ela não ouviu, mas eu sim. Isto era com certeza um começo.

XX

O verão chegara e estávamos bem. A calmaria era um pássaro de plumas esverdeadas, que batia suas asas com leveza, enchendo nossos sonhos com uma brisa suave.

E era estranho estar ali, com ela.

Eu ainda não conseguira fazer meu coração bater num ritmo decente — não que acreditasse ser possível — mas queria me livrar da sensação incômoda de saber o quanto meu organismo precisava dela.

Ela remexeu-se na cama, fazendo o centro do colchão ondular com o movimento. Eu não quis acorda-la, ou chama-la. Hermione precisava descansar. No dia anterior ela havia tomado coragem para visitar os pais para desfazer o feitiço de modificação de memória que utilizara neles antes do estopim da guerra. Não fora um dia fácil, ambos, Sr. e Sra. Granger estavam preocupados, com os efeitos do feitiço, e sobretudo, com um certo ventre arredondado. Não discutiram, apenas tiveram uma longa conversa e Hermione achou melhor traze-los até a região de Bibury, onde passamos a morar depois de ela ter conseguido um emprego no Ministério. Uma esmola a uma heroína de guerra, eu diria, se não soubesse que ela iria se chatear.

Os pais dela me conheciam. Encontramo-nos na livraria há muitos anos atrás, enquanto meu pai dizia qual deveria ser o lugar deles. Aparentemente eles não haviam esquecido, pela forma que me dirigiram o olhar, eu poderia apostar que preferiam ver a filha morta a estar comigo. Eles aproveitaram a oportunidade para perguntar, na minha frente, quais eram as despesas que tínhamos, e como estávamos arcando com elas. A Sra. Granger perguntou qual era minha ocupação e eu tive que responder a verdade: No momento estou esperando alguma proposta num hospital em Yellow Pitstone. A resposta não agradou, e o desdém estampado no rosto da mulher me fez imaginar quanto eu perderia se a matasse ali mesmo.

Muito. Não precisaria pensar para chegar a esta conclusão.

As visitas passaram a ser frequentes, e as alfinetadas també desses dias, quando eles já haviam partido, decidi que era chegado o momento de ter uma conversa séria com Hermione.

"Não quero seus pais aqui. São os trouxas mais insuportáveis que tive a infeliz oportunidade de conhecer."

Hermione olhou para mim, descrente.

"Meus pais virão aqui, Malfoy, quer você queira ou não."

"Bem, então eu posso chamar minha mãe também, seria adorável a reação de ambas num mesmo ambiente. Claro que Narcissa Malfoy não esperaria muito, azararia sua mãe assim que entrasse por aquela porta."

"Que eu me lembre você não tem mãe."

"É! Muito bem lembrado, Granger. Eu abandonei tudo, para ter que escutar de uma trouxa maldita, o quão inútil é o pai do neto dela! Eu poderia estar com qualquer mulher, mas estou aqui, caramba! Aguentando uma porção de insultos de uma..."

"Fale, Malfoy. Vamos! Diga 'Sangue-ruim'. A palavra esta dançando na sua língua, não está?"

Saí, novamente. Fazia tempo que eu não saía de casa, mas desta vez era necessário, sob pena de não saber até que ponto chegaríamos na merda de relação que tínhamos.

XX

Estava frio. Os ventos chicoteavam meu rosto e os lábios ressecavam em resposta.

Não conhecia nenhum mendigo naquela região, então tive que apelar para algum conhecido, e eu só me lembrava de um. Uma, na verdade.

Pedi abrigo para Pansy Parkinson. Segundo Rita Skeeter ela estava desfrutando do dinheiro que a recém-falecida mãe deixara, parecia feliz, a julgar pela forma que vivia esbanjando e ostentando sua riqueza. Tudo mentira. Eu sabia que ela estava ganhando dinheiro com a 'prestação de serviços sexuais' para bruxos milionários, desde a época de Hogwarts. Seus pais estavam falidos por investirem em apoio à Voldemort. Ela então foi embora de casa, deixando uma mãe doente e um pai leviano para trás.

Quando bati na porta dela um brilho desesperado tomou conta dos grandes olhos castanhos. Ela estava satisfeita em me encontrar, e eu era um fracassado. Nem mesmo meus grandes amigos da Sonserina haviam me procurado. Mas ela, ao olhar para mim fez questão de distribuir beijos desajeitados pelo meu rosto.

"Você passará a noite aqui, certo?" falou maliciosa, tocando-me num ponto extremamente sensível.

"Preciso de abrigo, Pansy, apenas."

"Hum... a sangue-ruim não está conseguindo atender suas necessidades, não é? Com aquele barrigão, imagino que você deva estar sofrendo muito."

"Não a chame assim." Adverti, e ela entendeu o recado, fazendo uma careta de nojo.

"Você é o ser mais miserável que eu conheço, Draco. Olhe só para si mesmo, perdeu tudo por causa de uma pessoa como ela. Poderíamos ter tido um ótimo futuro"

"Não, Pansy. Não poderíamos." Falei, imaginando que fora uma decisão ridícula a de pedir abrigo justo para ela.

"Então não vai ficar?" Ela falou quando viu que eu estava me distanciando.

Parei no meio do caminho, Pansy me devia alguns favores.

"Claro que vou. Você me deve muito, e está na hora de cobrar."

Falei sorrindo. Ela era uma Sonserina, odiava estar em dívida com alguém.

E Pansy me devia a proteção que dera nos primeiros meses que Voldemort retornara e seu pai se revelara um dos grandes auxiliadores do Lorde. As pessoas a perseguiam, e eu a protegi, por um curto espaço de tempo, até notar Hermione pela primeira vez, na aula de feitiços.

Quando entrei na imponente Mansão, dei de cara com algumas roupas íntimas espalhadas pelo chão. Os grandes sofás, vermelho sangue, ocupavam metade da sala e duas corujas repousavam silenciosamente neles.

"Tenho este quarto. Eu os utilizo quando recebo os hóspedes." Clientes. Corrigi mentalmente. "Se quiser aparecer, meu quarto fica aqui ao lado. Ah! E se ouvir alguns... sons, não se assuste, sou eu me divertindo um pouco."

Senti um rebuliço no baixo ventre, e um volume se formando por debaixo de minhas calças.

"Pode deixar, Pansy. Estou com tanto sono que dificilmente ouvirei alguma coisa." Menti. Eu estava fragilizado neste aspecto, mas não deixaria que ela percebesse.

Ao amanhecer, levantei assustado. Os pesadelos sempre vinham quando dormia longe de Hermione. Desta vez fora mais real, eu estava correndo até meu pai gritando para que ele parasse, e quando ele finalmente me olhava, eu via que ele estava com Hermione nos braços, sangrando. Ela tivera um aborto.

Minha roupa estava colada no corpo, e o suor escorria pela minha testa.

Pelo barulho no quarto vizinho, Pansy estava garantindo o pão de cada dia. Gostaria de saber quem era desta vez, quem sabe fosse algum conhecido. Aquela louca ficaria até com Alastor Moody se fosse bem paga. Imaginar os dois juntos naquele quarto me enojou profundamente.

Só não estava preparado para ver Ronald Weasley saindo do quarto, entregando muitos Galeões nas mãos de Pansy.

Quando o ruivo pobretão me viu, ficou tão vermelho quanto as poltronas da sala de estar.

"O que faz aqui, Malfoy?" Ele cheirava a bebida. E seus olhos estavam injetados. Provavelmente achou que eu estivesse traindo Hermione, ou coisa do gênero. Era o que sua expressão de nojo e ódio deixava transparecer.

" Eu deveria lhe perguntar, Weasley. Seu salário de auror pode bancar uma mulher tão cara quanto Pansy?"

Ele não me respondeu, apenas dirigiu-se até a cristaleira, enchendo o copo de um líquido branco, que poderia ser confundido com água se não possuísse cheiro tão forte de álcool. Mas eu capturei no silêncio e na troca suspeita de olhares o significado daquela palhaçada toda. Eles estavam se envolvendo, de uma forma bizarra, mas estavam. Entretanto, Pansy era experiente, não se apaixonaria por Weasley, e ele, não era tão burro a ponto de arriscar sua vida e carreira com aquela mulher.

Neste ponto percebi que a vida é irônica, sádica e cruel. As duas pessoas que eu considerava burras estavam entrando na mesma situação em que eu e Hermione havíamos entrado. No entanto, não foram idiotas o suficiente a ponto de acreditar que poderiam ficar juntos. Pansy não era ingênua, ela jamais engravidaria. Seu estoque de poções contraceptivas era maior do que todo o estoque de qualquer poção de Severo Snape.

Eu e Hermione, ambos inteligentes, perspicazes e muito arrogantes, acabamos por cair numa grande armadilha. Eu poderia rir disto, mas meu rosto inteiro pesava, e eu estava na casa da Pansy.

" Obrigada pela noite agradável, querido." Pansy falava alisando o corpo de Ronald Weasley, pelo que ele retribuiu com uma palmada nas nádegas expostas da jovem.

Eu cheguei a pensar que ele fosse um homem puritano, mas a partir daquela cena, imaginei que se tivesse a oportunidade, traçaria a maioria das mulheres que trabalhassem no Ministério.

Quando Weasley bateu a porta, Pansy se ajeitou do meu lado, sussurrando:

" Eu toparia um segundo tempo"

" Você é louca!" Falei rindo. Eu não era de negar esse tipo de coisa. Mas havia um par de olhos castanhos, com pintinhas cor de chocolate, que não saiam da minha cabeça.

" Desde quando você está apaixonada por este pé rapado, Pansy?"

"Você sabe..." Ela começou, mas não precisou concluir. Eu realmente sabia.

"É estranho, não é? O rumo que nossas vidas tomaram?" murmurei, apoiando meu corpo contra a parede.

"Sim, Draco. Mas você está muito pior do que eu, convenhamos"

Sorri fracamente. Ela estava certa, eu havia descido tão baixo, estava tão afundado em minha própria miséria, que sequer sabia se seria possível voltar.

"Eu tenho que ir, Pansy. Divirta-se com seus clientes." Provoquei.

"Ah, quase me esqueço! Uma coruja trouxe isto aqui ontem à noite. Tem seu nome no pergaminho"

" Você teve tempo de olhar a correspondência?" Olhei maliciosamente para ela.

"Consigo fazer muitas coisas, Draco Malfoy" Pansy sussurrou, fazendo- me arrepiar da cabeça aos pés.

Peguei a carta e abri. Era uma proposta de emprego, de Yellow Pitstone.

Senhor Malfoy

É com prazer que, sob indicações de Harry Potter, oferecemos uma vaga em nosso hospital.

Como o senhor não concluiu sua formação em Hogwarts, devo avisa-lo que ocupará um posto de categoria Sub-3, onde os elfos trabalham. A única diferença é que estará sendo preparado para ocupar o lugar de um dos nossos enfermeiros, que foi o maior pocionista da história do nosso hospital.

Esperamos sua resposta

Atenciosamente

Dr. Louis Trent

Era uma desgraça travestida de boa nova. Eu teria enfim um emprego, poderia esfregar na cara de quem ousasse dizer que eu era um parasita.

No entanto, estava devendo mais uma ao Santo Potter.

"Boas ou más notícias?" Pansy perguntou, com uma expressão preocupada.

" Talvez ambas. Leia" entreguei a carta para ela, que leu rapidamente e sorriu.

" Acho que são boas notícias, Draco. Você está recebendo a oportunidade de crescer. De recomeçar, e, se tudo correr bem, você nem precisará criar seu filho, basta enviar dinheiro todo mês. Poderá viver como solteiro novamente!"

Ela dava tapinhas em minhas costas.

A ideia era tentadora. Mas não me seduzia. Eu já estava esperando aquela criança, Era inevitável. Eu pensava nela, como ela seria, com quem se pareceria. Eu me acostumara à ideia de ser pai. Extremamente bizarro, mas real. Aquele ser que crescia dentro de Hermione Granger era meu também, minha única esperança. O motivo pelo qual eu ainda não havia cometido suicídio quando tudo estava desmoronando.

Sorri, olhando para cima, diante da constatação que acabara de fazer. Talvez as ironias da vida não fossem tão ruins assim.

" Obrigado, Pansy. Foi uma noite agradável. Há tempos não me sentia tão bem."

"Err... De nada? " Pansy respondeu, me olhando, confusa.

Cruzei a sala de estar e abri a porta, a vento gelado bagunçando meus cabelos. Estava na hora de voltar para Hermione, finalmente, para tentar fazer as coisas darem certo.

Aparatei para Birbury, com o pedaço de pergaminho firme em minhas mãos, e abri o pequeno portão, caminhando até a porta de entrada.

Na cozinha Ronald Weasley segurava as mãos de Hermione, que chorava silenciosamente.

"Olá, Malfoy." O ruivo desgraçado falou. Um olhar indignado e cheio de rancor.

Corri preocupado para junto de Hemione, ignorando a presença incômoda do outro homem.

"Hermione! Está tudo bem? O bebê? Aconteceu alguma coisa?" Ela me olhava devastada, cansada e o pior de tudo: Decepcionada.

Então senti uma vala se abrindo sob meus pés. O coração falhou umas dez batidas, um gosto amargo na boca.

Maldito Weasley!

Foi a última coisa que pensei, pois Hermione desfaleceu, só não atingindo o chão porque a amparei em meus braços. Desesperado, pus o corpo inerte em meu colo e rumei em direção ao nosso quarto, seguido por Weasley, que mais parecia um corvo esperando uma grande desgraça. Apenas parei de me preocupar com ele quando senti um liquido quente e viscoso em minhas mãos.

Ela estava sangrando.

xx

Orchideous

Dentro dela florescia vida, e dentro de mim florescia um sentimento assustadoramente peculiar. O medo de perde-la, o medo de perder meu filho.