No dia seguinte, foi despertada bruscamente com aquela porta pesada abrindo até bater na parede.
– Como passou o resto da noite? – perguntou Laffitte.
– ...tranquila. – Lina esfregava os olhos, acostumando-se com o despertar bruto.
– Que bom. Você terá direito a comer alguma coisa no pequeno almoço e nas outras refeições, hoje... porém...
– Porém o quê?
– ...se quiser ter desses privilégios nos outros dias, terá que colaborar com a justiça, depondo contra os aliados dessa máfia que provocou a desordem na cidade na noite anterior... – ele puxou a cadeira e sentou-se ao lado dela, ainda deitada – e um deles é seu pai.
– Depor? Contra meu pai? – ela se sentou, parecendo que tinha definitivamente acordado depois de ouvir aquilo.
– Exato. E então... o que me diz?
– E... quando vão julgar meu pai?
– Amanhã mesmo. Mas quero saber agora mesmo... se vai colaborar com a Lei.
A jovem ficou calada, pensativa. Ele, esperando a resposta com as pernas cruzadas.
– Vamos, não tenho tempo o suficiente.
– ...eu... não tenho coragem de fazer isso.
– Ohh... mas foi tão bem em me falar tudo ontem!
Lina coçava a cabeça tentando se lembrar do que realmente falou para ele. Laffitte sabia bem daquela confusão dela. Dessa vez, testaria ela; e faria com que ela depusesse contra o pai sem a intervenção de sua habilidade hipnótica.
– Vai arriscar passar fome e sede? Acho que seu pai, no fundo, perdoaria sua acusação em vez de vê-la sofrer o que sofrem os prisioneiros normais...
– Já chega! – ela se levantou – Já chega!
– Ei, você não tem condições...
– Não sou culpada de nada! E não sei direito o que meu pai realmente fazia!
– Sabe, sim... e acho bom você colaborar conosco... sairá ganhando.
– ...dê-me um tempo para pensar. Prometo que vou pensar e te dar a resposta...
– Você terá até essa noite... o dia completo para pensar... – levantando-se, ele falava com ar sorridente, como se apreciasse aquela situação. E de fato, estava – terá todo o dia p pensar e não quero indecisão como resposta novamente... – e acrescentou sério – ouviu?
– ...sim, senhor.
– Pode me chamar de Laffitte... ou simplesmente de Xerife.
– Certo... prefiro pelo nome.
– Ótimo. Tenha uma boa refeição! – saindo, permitiu que entrassem com uma simples badeja de café da manhã. Lina devorou aquela bandeja cheia de pão e saboreou aquele café amargo. Nunca pareceu tão saboroso aquela comida tão simples, diferente das refeições luxuosas em seu casarão, agora confiscado. Não teve o direito de voltar para lá. Também, o que faria ali sozinha? Os servos também foram tirados de lá e não sabia o destino que eles tomaram.
– Então, ela já acordou? – perguntou o seu antigo chefe, oferecendo-lhe uma xícara de café.
– Já sim.
– Que bom. Ah, amanhã vou definitivamente me aposentar e deixar todo o serviço com você.
– Ah... que pena. – parou para sorver aquele café forte, quase fazendo careta ao prova-lo. Ele nunca fazia um café normal.
– Mas não tenho mais o pique que tinha antes... e já são muitos anos... e garanto que, em suas mãos, tudo terá o mais excelente controle.
– Bom... se diz.
– Não seja modesto, Laffitte! E então, mudando de assunto, qual a decisão que tomou em relação aos bens daquele infeliz?
– Estão confiscados. Ele será preso...
– E a filha? Já arrancou informações?
– Sim, algumas. Mas sinto que está envolvida com o pai nisso... – ele mentiu.
– E... acha que vai precisar dar uma lição nela?
– Humm... não me anima em fazer nada disso com ela... mas terei a prova ainda hoje. Falei com ela se ela vai depor amanhã e denunciar o pai. Se não fizer... sinal que ela está envolvida.
– Mas talvez ela nem esteja envolvida... e sendo o pai que vai ser julgado, é natural que ela hesite em depor contra ele!
– Sei disso... mas Lei é a Lei. E...
– ...teme em machuca-la? Não é verdade?
– ...um pouco. – mentiu novamente. Precisava passar confiança para que não a tirassem dali tão cedo.
...
O dia se passou, chegando a noite. Lina sentia necessidade de se banhar, de sair, de falar com alguém de confiança. Mas como não passou o dia de estômago vazio, não reclamava de outras necessidades. Laffitte levou o jantar para ela, já esperando qual seria a decisão dela.
– Vou deixa-la jantar primeiro... quando terminar, bata a porta. Entrarei em seguida...
– Espera...
– O que foi? – ele ia saindo do quarto, mas parou.
– ...não poderia ficar aqui enquanto janto?
– Bem... pensei que quisesse ficar sozinha.
– ...eu estou praticamente isolada de tudo e todos... – ela falava meio angustiada.
– Está bem! – ele se sentou na cadeira, vendo-a sentada na cama e com o prato de comida na mão.
– ...obrigada.
Assim, ela pode jantar com a companhia distante dele. Já ajudava a não se sentir sozinha. Ele observava a garota de cabelos cor de amora comer sem se preocupar se estava sendo incômodo em fita-la. Ao terminar o jantar, levantou-se e colocou o prato em cima da mesa. Seu antebraço fino e delicado foi pega pela enorme mão dele. Lina observou aquilo. Viu que compartilhavam (quase) do mesmo tipo de antebraço – delgado -, porém o dele era bem maior que o dela. A mão dele preenchia quase todo o antebraço dela.
– O que foi?
– ...vem cá... – ele puxou-a, fazendo ficar frente a frente com ele, que ainda era um pouco maior que ela, mesmo sentado. Lina queria tirar seu antebraço, mas nem tentou fazer nenhuma ação que provocasse a raiva dele. Veria até onde aquilo tudo chegaria – noto que é uma mocinha muito delicada... tão sensível... juro que não quero lhe fazer mal, sabe?
– ...onde quer chegar?
– ...quero muito que eu não precise apelar para o rigor da Lei...
– ...você quer saber se eu aceito depor amanhã contra meu pai, não é?
– hmmm... – ele soltou-a devagarzinho – e então? O que me diz?
– ...aceito.
– Isso... teve uma ótima decisão! – disse, sacudindo levemente os ombros dela, que começou a chorar silenciosamente diante dele. Olhando-a fechar as belas orbes púrpuras para permitir as lágrimas descerem, perguntou.
– Ora... mas por que está chorando?
– ...não é fácil para mim... perder tudo de uma hora para a outra!
– Mas você não perdeu nada, Lina... ao contrário, sairá ganhando! – ele tirou um pano do bolso da calça e deu para ela – Toma.
Lina pegou o lenço e ficou olhando para aquele que o entregou. Por que ele estava sendo tão gentil com ela? Aquilo era um jeito de convencê-la a fazer o que quer? Lina sequer imaginava as mais profundas intenções dele, envolvendo seu trabalho e seu deleite...
No dia seguinte, Lina pode também cuidar de seus asseios, porém ainda teve que vestir a mesma roupa que estava desde aquela noite. Conduzida até o Fórum de Justiça local, ela se preparava psicologicamente para ter que acusar o pai como um dos envolvidos com a tal Máfia. Ainda tentava se lembrar do que realmente falou para Laffitte naquele interrogatório. Não sabia se estava com uma boa aparência aquele dia. Mesmo devidamente arrumada (pelo menos no básico) para tentar passar uma boa impressão diante do juiz e dos outros membros da bancada, Lina nem precisava se olhar no espelho antes para saber que estava horrível – era como se sentia. Uma garota acostumada a se arrumar e se adornar como todas as outras jovens damas de sua cidade. Mas era apenas sua impressão. Sequer tinha olheiras. Tinha uma agradável aparência, mesmo um pouco esguia. Viver como prisioneira – mesmo não dentro de uma cela – era horrível do mesmo jeito. E sentia que deveria ser obediente aqueles homens – principalmente ao xerife -, a não ser que quisesse experimentar o pior.
Seis homens entraram para ser julgado. Engoliu as lágrimas ao reconhecer o pai em um estado deplorável – abatido e machucado. Com muita sorte, aqueles homens conseguiram ficar em uma cela isolada, para evitar contato com os outros criminosos. Se fosse condenado seriam jogados aos cães. A justiça seria feita, independentemente da importância daqueles que tinham alguma ligação com eles – como Lina tinha com seu pai. E ainda teria que depor contra ele. Cadê forças naquele momento?
Laffitte estava vigiando-a o tempo todo. Era ele quem estava tomando conta dela, observando cada atitude dela, desde os olhares até pequenos gestos que pudesse fazer. Aquele homem... tinha uma expressão indiferente e os olhos negros que revelavam uma profunda escuridão a qual não podia decifrar. Mesmo assim, algo nele atraía sua atenção. Não sabia o que era exatamente. Desde aquela vez em que sua amiga apresentou-o como o Xerife Superior da cidade. Agora, ele era o único xerife local.
Ela foi chamada para depor. Lina engoliu em seco e demorou a erguer o olhar para o juiz e para os seis julgados, onde o pai estava sentado e olhava para baixo. Por um lado, ela preferia que ele ficasse assim o tempo todo. Enquanto fazia o juramente de não mentir, ela olhou para Laffitte, que olhou fixadamente dela, como se quisesse lembra-la da promessa que fez. Sentou-se à frente do juiz, pronta para responder as perguntas dele e de um advogado. Notou que havia soldados da Marinha ali. Ao responder a primeira pergunta, o homem gordo e com faixas no braço e cabeça olhou para quem respondia as perguntas. Sim, aquela doce voz era familiar. Sua filhinha. Lina percebeu o pai lhe olhando. Mas aquele contato visual foi quebrado quando Laffitte entrou na frente, propositalmente evitando que pai e filha continuassem se olhando. Lina apenas contou parte do que disse quando foi hipnotizada, confirmando para o xerife que ela realmente sabia desses planos do pai, mesmo que tenha ouvido uma simples conversa dele pelo den den mushi. Mas foi o suficiente para o juiz entender e dar sua sentença final. Lina deixou as lágrimas descerem, pois já não aguentava mais toda aquela pressão. Levantando-se, ainda olhou mais uma vez para o pai, que moveu os lábios para sussurrar um "tudo bem" inaudível. Sendo compreendido pela filha, ele cessou as lágrimas que também escapavam de seus olhos. Ele entendeu que ela estava sendo obrigada a depor contra e que a perdoava desde já. Aquilo foi profundo demais para ela.
Lina foi levada para o departamento novamente, para aquele quarto vazio. Uma prisioneira com privilégios. Uma tarde inteira que nunca quis viver em sua vida.
– Muito bem, Lina! Aposto que seu pai deve estar orgulhoso por você! – dizia Laffitte, abrindo a janela novamente, pois havia sido fechada quando ela saiu – se quiser, posso deixa-la que compartilhe comigo uma taça de vinho. Já é adulta, não é? – comentou com um risinho levemente debochado.
– ...não quer nada.
– Certa disso? Aproveita os privilégios que merece.
Lina estava cansada. Um cansaço que era mais mental do que físico. Nem a solidão que a incomodava desde que ficou trancada ali lhe incomodava mais – não queria a presença dele, demonstrando isso ao sentar em um dos cantos do rodapé da parede. O homem de médios cabelos negros observou aquela atitude, entendendo muito bem o que ela queria.
– Entendo. Vou deixar que descanse. Amanhã cedo, pedirei que tragam seu pequeno-almoço. Tenha uma boa noite!
Lina caiu na cama e ficou chorando até pegar no sono. Laffitte passou sozinho em seu escritório, pensando naquela pobre criatura. Chegava a dar um pouquinho de dó... mas não tanto. Até estava disposto em dividir com ela aquela garrafa de vinho, mas sem a disposição dela... passou bebendo solitário, até acabar seu expediente.
...
O dia seguinte foi o mesmo de sempre. Aquela vida tediosa estava lhe aborrecendo aos extremos. Mas mantinha a discrição diante de guardas que vinham verificar como estava. Apenas estranhou aquele xerife não tê-la visitado para ver como estava. Também não falou nada, nem quis ficar pensando nele. No fundo, sabia que deveria sentir raiva dele. Quando ficava na janela observando o movimento das ruas. Tudo seguia tão calmo, como sempre... menos ela.
Ele sequer lhe disse o que fariam com os bens de família. E o que fariam com o pai dela. Seria preso ali naquele departamento? Ou iria para a Marinha? E ela, ficaria ali para sempre? Não havia nada que pudesse fazer sobre isso. Apenas respirava fundo e continuava com aquela vida, tentando não sucumbir à tristeza ou a qualquer ideia maluca que viesse na cabeça. Ele queria continuar vivendo. Ele continuaria passiva, esperando o que o destino reservaria para ela.
Por fim, ele bateu a porta avisando que entraria. Sem querer, sentiu seu coração pular dentro do peito, colocando as mãos em direção ao peito. Sua respiração estava meio descontrolada. Agia como se estivessem buscando-a para ser executada.
– Sentiu falta minha? – disse ele, trazendo uma garrafa de vinho e duas taças.
– ...estranhei que não veio de manhã, apenas.
– Viu só como confio em você? – ele abriu a garrafa e colocou vinho nas duas taças.
Lina observava aquilo calada. Nunca havia bebido na vida e não estava interessada em compartilhar com ele aquela garrafa. Ele pegou as duas taças e ofereceu para ela, que hesitou em pegar a taça.
– Relaxa, garota! Pega, anda...
Depois de alguns segundos, ela pegou a taça e olhou para ele, que forçou um brinde.
– Realmente, não pode ficar tão isolada assim... por isso que quero compartilhar essa garrafa de vinho com você. Também fico muito só e entediado em meu escritório... sei como se sente.
– ...sabe quando poderei sair daqui e recuperar minha casa?
– ...bem, você não tem mais casa. Por isso quero que fique aqui. Não vou deixar que passe necessidade nas ruas... afinal... não tem culpa de nada... – parou de falar para sorver um longo gole de vinho.
– ...e o que houve com meu pai?
– Ele foi preso pela Marinha. Nem está nessa cidade, mais.
– ...estou realmente perdida.
Ele aproximou-se dela, pegando a rosa que estava enfeitando seus cabelos presa na orelha. Arisca, ela se afastou dele.
– Calma... apenas quis ver esse adorno.
– Já viu com os olhos, não?
– Huhh... está bem... mas não precisa agir dessa forma comigo.
Lina pôs a taça em cima da mesa, ao lado da garrafa. Laffitte calmamente a observava, sem sair de onde estava.
– Tive uma ideia.
– Qual?
– Vejo que é bastante obediente e respeitosa comigo e com os outros. Sei que não devo dar privilégios aos prisioneiros – visto que já estou dando ao deixar nesse quarto –, mas darei dessa vez: aceitaria sair daqui temporariamente?
– ...mas eu voltaria para cá, não?
– Sim, claro... mas teria uma oportunidade de sair um pouco. Mas apenas sair.
– Certo... e posso falar com minhas amiga?
– Não entendeu, Srta. Lina. Apenas poderá sair. Sem ter contato com ninguém próximo.
– ...acho que vou declinar do convite.
– Vai recusar essa oportunidade? – ele ajeitou o chapéu que caía um pouco na testa.
– Vou sim. Vai ser pior para mim, ver tudo que perdi e saber que terei que voltar para cá.
– ...realmente não entendo. Mas, a decisão é sua.
– Estou certa disso, Sr. Xerife.
Lina não demonstrava nenhum tipo de confiança que pudesse permitir a aproximação do homem pálido. Porém, isso lhe aumentava o desejo de explorá-la. Ele sabia que a liberdade dela era praticamente previsível, pois outras autoridades interferiam nisso. Era momento dele aproveitar o tempo em que ela estivesse ali. Era hora dele desfrutar um pouco de sua insensata diversão naquela criatura que não deixaria rastros... senão, seria tão inválida a presença dela ali...
