Ela dormiu bem naquela noite. Sem saber como, diante de tanta tensão que aquele xerife lhe causava. Mas a ideia de fugir dali não tinha desaparecido em mente. O negócio era não ser encontrada por ele – o que era mais óbvio.
Ganhar a confiança dele.
Conquistá-lo (não de forma erótica).
Não aborrecê-lo.
Eram as três regras principais que Lina definiu para si, caso seu plano fosse sucedido. Fazer com que ele a deixe sair nas ruas e assim, podendo fugir com facilidade. Sair da Chefatura de Polícia sozinha seria impossível. Então o jeito era esse. Lembrou-se da amiga mais próxima, talvez ela se lembrasse dela. Segundo Laffitte, todos na cidade estavam contra ela por causa do pai. Também essa amiga estaria?
Ele chegava de um dia de trabalho, aparentemente entediado. No cabideiro, ele colocou a bengala e a cartola e foi procurar por Lina.
– Lina? Está acordada?
– Estou, sim. – ela apareceu na porta do corredor que dava acesso ao quarto.
– Que bom!
A primeira vez que Lina o viu sem a cartola. Tinha um belo penteado, os cabelos bem penteados para trás, sem escapar sequer um fio.
– Trouxe a comida para nós, quer jantar agora?
– Claro.
Ela ajudou a arrumar a mesa para os dois. Nada que fazia era em vão. Precisava ganhar a confiança dela. Porém, Laffitte começou a desconfiar secretamente daquela atitude tão pacífica e segura, antes rude e amedrontada.
– Ora... vejo que já está melhor. Bom que durma bastante, até para se recuperar daquela nossa brincadeira. – ele pôs um pouco de vinho em ambas as taças simples.
– ...não tenho outra alternativa. – respondeu ela, pegando a taça e mexendo o vinho dentro, sem beber.
– Logo, tendo bom comportamento, posso deixá-la circular por aqui. Meus subordinados já sabem que está comigo e ficam de olho caso... venha aquela vontade de sair sem minha autorização... – ele trocou olhares desconfiados com ela.
– ...tudo bem.
Ele bateu com a taça na dela simulando um brinde e bebeu o vinho. Ela fez o mesmo. Aquela comida condimentada mal lhe abria o apetite. Ele comia normalmente aquela "gororoba" com estilo, como se estivesse em um jantar chique. Lina reconhecia quem tinha uma classe ou não, e ele tinha essa classe. Não era comum policiais, mesmo chefes superiores, terem aquela elegância e porte de uma pessoa rica.
Ao fim do jantar, ele quis limpar tudo para ela, como um agradecimento pela colaboração dela em arrumar a mesa. Lina ficou fazendo companhia para ele na sala modesta de poucos móveis. Ele vivia bem simples, principalmente em comparação a ela, que nasceu em um berço de ouro, literalmente. Depois de trocaram alguma conversa fiada, ele pediu.
– Ajuda-me no banho?
– O quê?
– Disse que para me ajudar no banho, apenas isso. É sempre bom ter alguém para esfregar as partes do corpo onde não dá para alcançar.
Lina virou o rosto para o lado, rapidamente. Depois voltou a encará-lo. Ele sorria de forma enigmática, que não dava para saber suas reais intenções.
– Venha. – ele se levantou e foi em direção ao banheiro.
"Conquistá-lo".
Lina levantou-se e seguiu ele. Dentro do banheiro, ele já arrumava a banheira. Havia um sutil cheiro adocicado que a fez fechar os olhos por um momento. Ao lembrar-se que poderia ver aquele corpo despido novamente, enrubesceu.
– Eu... não quero vê-lo despido. – deixou escapulir.
– Vergonha? – ele disse, desabotoando a camisa diante dela – Ora, mas já nos conhecemos desse jeito... e além disso, não tenho problemas com isso. E você não deveria ter!
– ...
– Vou entrar na banheira, se quiser vire-se. Quando eu chamar, já estarei dentro. Assim você pode me ajudar a esfregar as costas.
– ...certo. – ela se virou de costas.
Ele terminou de tirar a roupa e colocou no cesto mais próximo. Entrou na banheira aos poucos – era água fria, como ele apreciava – e acomodou-se. Avisou a outra.
– Já posso virar?
– Pode.
Ela se virou e levou um pequeno jato d'água na cara, lançado por ele que ria dela.
– Bobinha.
– ... e o que devo fazer agora?
– Ajuda-me a lavar os cabelos enquanto eu esfrego as partes que posso alcançar.
– Sim.
Ela puxou levemente todo o cabelo dele em suas mãos. Um cabelo tão sedoso e liso, digo da inveja de todas as mulheres. Ele deu um copo vazio, para ela ir jogando nos cabelos. Ela umedeceu os cabelos que eram ótimos em tocar. Laffitte sentiu-se bem ao ter os cabelos tocados por mãos tão suaves. Ainda estranhava aquela mansidão, achando suspeita. Porém nada falou.
– Onde está o xampu?
– Não, é com isso aqui... use isso para ensaboar. – ele pegou um vidro de sabonete líquido.
– Sabonete, mesmo? – ela se surpreendeu. Com um cabelo daqueles...
– É.
Sem falar mais nada, ela lavou os cabelos totalmente, deixando-os bem limpos e cheirosos. E mesmo molhado, não tinha o aspecto ruim típico.
– Agora me deixa colocar uma toalha no cabelo, enquanto isso me esfregue as costas.
– Sim.
Ele se inclinou para facilitar ela, enquanto puxava a toalha para secar os cabelos e enrolar. Ela deslizava a bucha naquelas costas de pele tão branca e com as costelas levemente visíveis. Lembrou-se dele naquele dia, sacudindo a cabeça para esquecer; porém o que mais vinha em mente era a nudez dele.
– Qual foi a sensação que teve quando eu te "despertei"? – ele se referia a virgindade que ele tirou dela.
Ela entendeu o sentido daquela pergunta, parando com a bucha no meio das costas dele.
– ...não me lembro exatamente... não estava me sentindo confortável naquele dia. E sabe por que.
– Hohoho... mas seu corpo não mentiu. Vi quando ele reagiu aos prazeres da carne, quando se acostumou comigo dentro. Talvez, não quer se lembrar... e isso me chateia.
– ...não tomasse-a daquele jeito, então! – Lina voltou a esfregar as costas dele, com um pouco de força.
– Humm... ah, devagar com essa esponja!
– ...desculpa.
Ele sorria discretamente. Lina largou a bucha e jogou água em suas costas.
– Já terminei. Posso me retirar?
– ...não vai se banhar antes de ir dormir?
– Aqui? Com você?
– Eu já estou saindo. – ele se levantou subitamente, sem se importar com sua nudez. Fez de propósito, também.
– ... eu espero. – ela virou o rosto em questão de respeito, mas ele pegou-a pelas bochechas levemente e a fez virar o rosto para ele, olhando-o nos olhos. Lina engoliu seco, e tentou focar sua vista nos olhos dele. Parecia que suas vistas dançavam dentro da órbita, querendo olhá-lo por completo.
De repente, ela sentiu-se relaxada. Sem quebrar o contato visual, a carranca em seu rosto foi desaparecendo, amenizando a tensão em suas expressões faciais. O sorriso dele cresceu, lambendo os lábios.
– Você, Lina... – ele começou a beijá-la pelos cantos dos lábios e as mãos ainda úmidas começaram a explorar todo o seu corpo ainda vestido. Lina sentou-se tão leve que descansou a cabeça nas pernas dele. Ele começou a despi-la com cuidado, enquanto beijava desde o peito até o interior de suas coxas. Ele soltava breves suspiros, aquela carne fresca lhe enlouquecia, já fazendo se excitar imediatamente. Porém, manteve o controle ali mesmo e a fez entrar na mesma água já não tão fria em que ele estava imerso antes. Cuidadosamente, ele a banhava mais uma vez, agora com ela acordada... e sob hipnose. Lina sentia-se tão bem que sequer reagia a qualquer coisa. Ele não estava manipulando seus sentimentos, e sim fazendo liberar seu mais inconsciente desejo.
Laffitte repetiu os mesmos gestos dela quando esta lhe ajudou com o banho. Ele usou o polegar para brincar com o seu clitóris, enquanto explorar todo o corpo com a outra mão livre – ao mesmo tempo em que limpava com aquela espuma fraca. Ela descansou a cabeça no braço dele (que estava por trás dela, agachado atrás da banheira).
– Lina... – ele pronunciou em tom baixo e ela gemeu ao ouvir seu nome naquela voz; um sentimento de êxtase atravessou-lhe o corpo todo, conduzido com a luxúria.
O homem de cabelos negros e molhados retirou a toalha do seu corpo, e a pegou nos braços, levando até a cama e enxugando-a lá. Com todo o carinho que ele jamais imaginou ter com uma mulher. Uma garota. Observava a pequeneza dela em comparação a si. Os pezinhos cabiam bem na palma da minha mão. Ele lambeu os dedos limpos de forma carinhosa e sexual ao mesmo tempo. Ela gemia, experimentando uma sensação que até então não conhecia – nem mesmo naquela louca primeira vez deles. Tomada pela vontade de tocá-lo como ele fazia com ela, Lina estendeu os braços e tocou-lhe no peito reto. Ele apreciou aquilo, deixando ser acariciado por ela. Depois de um tempo, ele usou as mãos grandes e de dedos finos e longos para explorar suas coxas e nádegas, dando-lhe um aperto.
– Ai! Hmmm... – Lina deu um falso grito, enquanto alcançava ele com os braços e com isso, sendo puxada para o colo dele, onde ele imediatamente empurrou seu membro para dentro dela e movia-se lentamente no início, para Lina se acostumar, até aumentar a velocidade aos poucos. A jovem dos cabelos cor de amora sentia como se um nó acumulasse em seu estômago, assim como seus músculos interiores se espremessem em torno do pênis dele. Não era uma sensação ruim. A respiração de ambos se tornou mais desigual quando ambos atingiam seus respectivos orgasmos. Ele parecia mais adiantado, sem controlar seus gemidos.
Ela gemeu baixinho e meio soletrado o nome dele, fazendo o outro sorrir. A moça sentiu-o dentro dela batendo com mais força. Ele então levou uma de suas mãos que a abraçavam na cintura até o pescoço e pressionou levemente. Jogou ainda mais o cprpo dele contra o dela.
– Heh... eu não posso me segurar por mais tempo... preciso de você agora... – Laffitte sussurrou em seu ouvido, empurrando-a para baixo na cama enquanto pairou sobre ela, com o rosto tomado pela luxúria bem próximo dela.
Enquanto ele descarregava todo seu desejo nela, ela correspondia ao orgasmo. Lina envolveu seus braços em volta do pescoço dele e levantou os quadris, facilitando a penetração e a fricção do próprio clitóris contra o púbis dele. Gritaram juntos. Ela chegou a se saciar um pouco antes dele, puxando ar pelo nariz e boca. Após gozar fora do corpo dela, ele caiu ao lado dela, ofegante também. Ambos satisfeitos. Sem mais hipnoses. E nem tensões. Ambos se olharam um para o outro, sem falar nada, apenas se olhando.
"Ganhar a confiança dele".
Lina sentia que não era só ele que precisava ter confiança nela; Também precisava voltar a colocar os pés no chão, não deveria se entregar dessa forma a ele. Ela pudesse até amá-lo... mas não podia, ele não era um homem com sanidade mental. E mesmo assim... ainda se deixava levar pelo jeito dele, pelo toque dele, pelo olhar dele...
– Vamos dormir um pouco? – ela falou em tom de sussurro.
Ela concordou com a cabeça. E ambos dormiram profundamente do jeito que estavam.
...
Ela acordava aos poucos. Sentia-se totalmente leve. As dores no corpo haviam desaparecido e as marcas da surra da bengala estavam sumindo aos poucos. Olhou para o lado: Laffitte não estava mais lá. E realmente, pelas dez horas da manhã ele já estava em seu local de trabalho, mas deixou dois policiais sob suas ordens às portas de sua casa ali nos fundos. Arrumando-se, ela foi até a sala e viu uma bandeja modesta de café-da-manhã e foi imediatamente se alimentar. Após isso, começou a verificar aquela casa pequena onde ele vivia. Espiou pela porta e viu um dos guardas em prontidão em sua casa.
– Será que em todos os pontos ele colocou guardas para tomarem conta de mim?
"Não aborrecê-lo".
Agora, seria mais difícil uma fuga a partir dali. Ela tinha vários planos em sua mente para convencê-lo a deixar sair para passear, mas precisava colocar suas metas à frente. Laffitte era um homem perigoso. Tão perigoso como prazeroso em ter. Lina teve que vasculhar a estante dele para ler livros, senão ficaria louca somente pensando nessa fuga.
Enquanto isso, Laffitte lidava com outra missão de busca de ladrões que saqueavam parte do comércio daquela cidade de West Blue. Por dentro, ele deu graças aos céus por lhe fazer trabalhar dentro do seu emprego fatigante. Prendeu os tais homens não sem antes de aplicar algumas "correções". A violência de Laffitte espantou os outros policiais e guardas.
– É desnecessário!
– Não foi algo tão bruto para se fazer isso!
–Não sabia que o Xerife Superior era tão impiedoso assim!
E vários outros comentários que fizeram acerca dele. E Laffitte não estava nem aí. Ao chegar em casa, mandou os guardas saírem de prontidão em frente à porta e entrou.
– Lina! Já cheguei!
– Laffitte...
– Já podemos jantar. Como passou o dia?
– Lendo. Tudo o que posso fazer aqui!
– Hoh... aprecia boas leituras?
– ...um pouco. Apenas quando não tenho nada para fazer.
– Entendo... na próxima vez, vou comprar outros livros para caso já ter lido todos estes.
– Ah... não se incomoda com isso! E não tem como ler todos esses livros...
– Ah, mas faço questão! Também trouxe um vinho, se quiser beber... – ele colocou a comida condimentada e o vinho em cima da mesa.
Lina o observava, apenas. Ele tinha um leve cheiro de sangue.
– Bom, vou me banhar, tive um dia desgastante. Será que podemos apenas jantar hoje? – disse ele, tirando o chapéu e a bengala, colocando-as no cabideiro.
– er... sim, claro. – Lina concordou, sentindo um alívio por dentro. E uma inconsciente frustração – já posso ir comendo? Sinto fome, não consigo mais pular o almoço só bebendo água.
– Hmm... pode sim, minha querida. E pode dormir mais cedo, se quiser.
– Certo.
Ela o achou esgotado. Sorte dela, que poderia dormir sossegada. Quando ele deitou-se ao lado dela, comentou algo interessante para ela.
– Se der amanhã, venho te buscar na hora do almoço e poderemos comer fora daqui. Que acha?
– Ah... ótimo! Agradeço muito. Mas... lembro-me que disse sobre o perigo que corro ao pisar nessas ruas...
– Verdade. Mas estará ao meu lado e não vão confrontar o xerife da cidade... vendo que me é obediente, merece um pouco de ar mais fresco que o da janela daqui de casa... não é mesmo? – ele apertou levemente a ponta do nariz dela, de forma carinhosa.
– ...se achar que é assim... concordo.
– Bom, vamos dormir! – beijou-a nos lábios – Boa noite!
E ele parou a conversa para dormir. Lina deslizou os dedos nos lábios, sentindo um pouco de calor naquele beijo roubado. Não... não era naquela oportunidade que deveria fugir... mas já era um excelente sinal.
