05 de Agosto, 1978

Levantei preguiçosamente. Olhei para o meu relógio no criado-mudo: 05h31. Sim, já era hora de acordar. E eu precisava tomar café em casa, já que a cafeteria não abre antes das 8h. Era quinta-feira e minha primeira sessão do tribunal aconteceria naquele dia. No meu primeiro dia de trabalho Bones chegara a mencionar que iríamos visitar o tribunal e havia esquecido. Não sabia se dessa vez seria diferente, mas eu estava animada. Saí do banho e vesti calças, botas e blusa pretas, minha capa de costume. Comi um bolo de frutas rapidamente e consegui chegar no Ministério às 06h30. Grant e Brody já me esperavam na sala da chefe.

– Ela nos deixou um bilhete dizendo para checarmos a papelada e destruirmos o que não presta – Grant disse, suspirando. – Como eu amo meu trabalho.

– Ah, ela deixou esse aqui pra você – Brody disse, me entregando um post-it.

Evans, quero que vá tomar notas da reunião dos aurores que acontecerá hoje às 9h. Quero tudo detalhado e passo para pegar ao meio-dia.

– Então é hoje que você vai encontrar o Pottinho – ele disse, fazendo voz fina.

– Cala a boca – eu disse, me jogando na cadeira mais próxima. Comecei a verificar os papeis, mas minha cabeça estava em outro lugar. Sim, era hoje que eu encontraria James Potter. Durante as últimas semanas o nosso relacionamento baseou-se em cumprimentos breves quando nos víamos nos corredores, elevadores e cafeteria. Hoje eu teria de me sentar à mesa com ele. E escutá-lo falar por vários minutos. Meu estômago começou a revirar e o pouco que tinha nele voltava à minha garganta. Não tinha motivo algum para ficar nervosa. Nós não tínhamos mais nada. Não tinha certeza nem de que tivemos algo algum dia. Eu estava sendo muito boba.

Até às 9h eu consegui acalmar meus nervos e me despedi dos meus colegas. Entrei na sala que me indicaram e algumas pessoas já estavam presentes. Nenhuma que eu conhecesse. Ah, Frank e Alice Longbottom entraram. Eles fizeram parte do time de quadribol de Hogwarts, mas se formaram em 74. Provavelmente já eram aurores de verdade. Alguns homens entraram e logo atrás deles, James Potter. Todos riam muito. Potter cumprimentou Alice com um beijo no rosto e Frank com um grande abraço.

– Muito bem, onde está a Bones? – um senhor que parecia um tanto maluco perguntou. Tentei não olhar, mas ele tinha um olho muito maior que o outro, que girava sem parar e era azul demais. Um azul elétrico.

– Ah, ela não pode vir, então me mandou, senhor – eu respondi, temerosa. Aquele cara me botava medo. Ele tinha várias cicatrizes e abriu um sorriso perverso.

– Ótimo – ele disse, acenando para todos se organizarem. – Precisamos pegar Mulciber. Quando tiverem uma estratégia que não cheire à titica, venham me procurar.

Com isso, ele bateu a porta com força e se dirigiu ao Quartel. Engoli seco e escrevi: Estratégias para a captura de Mulciber.

– Quem quer cerveja amanteigada? – perguntou Frank, tirando as garrafas do armário e distribuindo junto de sua esposa. Quando ela entregou a minha, sorriu e piscou. Respirei fundo e tentei assimilar o que estava acontecendo. – Muito bem, Alice e eu fomos encarregados da tarefa, então preparamos alguns tópicos pra discutirmos.

– Primeiramente – começou Alice, pegando um papel. Preparei-me para escrever. – Ele quase arrancou a cabeça de James da última vez, então tomem cuidado com as de vocês.

Todos riram um pouco. Não me atrevi.

A reunião seguiu agitada. Muitas pessoas se alteravam e não concordavam com algumas decisões. Gastei muito pergaminho registrando tudo. Potter não disse muita coisa, ao contrário do que imaginei. Finalmente, depois de umas duas horas, ela acabou e as pessoas foram saindo aos poucos. Sobramos eu, Potter, Frank, Alice e uma moça que se chamava Marlene McKinnon. Eu me preparei para sair mas fui interrompida.

– Por favor, fique – Alice disse, gentilmente. Sentou-se ao meu lado. Senti-me como meu tio Gordon no dia em que a família fez uma intervenção contra os hábitos de bebida dele. – Nós precisamos conversar.

Frank e Marlene pareciam inquietos.

– Lily, lembro muito bem de você – Alice começou, sorridente. – E por isso preciso te avisar de algumas coisas.

– Também lembro de vocês – eu disse, baixinho, querendo corresponder à primeira frase. – Tem algum problema?

– Sim, o problema é que o Ministério foi infiltrado – Frank disse, de voz grossa. – E você é...

– Nascida-trouxa – Potter resmungou, olhando para o chão.

– Sim – disse Alice. – E nós queremos que tome cuidado.

– E-eu tomo cuidado – eu disse. – Quer dizer, desde que ouvi aquela notícia sobre a Caroline Ferret.

– Você sabe sobre isso? – Marlene perguntou, alarmada.

– Bom, eu trabalho no escritório ao lado do seu – eu retruquei, sentindo-me um pouco na defensiva. – Vocês falam alto às vezes.

– E mais uma coisa – Frank começou, voltando a inquietar-se. – Nós queremos te convidar para uma reunião que vai acontecer hoje às sete horas.

– Do Quartel? – perguntei, confusa. – Eu não posso presenciar as reuniões sem a chefe ter...

– Da Ordem da Fênix – Potter me interrompeu, sentando-se à minha frente. – É um grupo secreto que trabalha contra as Artes das Trevas.

Eu senti um peso no estômago e ao mesmo tempo uma agitação em todos os meus membros.

– O que, obviamente, é muito perigoso, então gostaríamos de uma resposta assim que possível – disse Alice.

– Não precisa ser hoje – disse Marlene. – Fazemos outras reuniões, caso você decida depois.

– Mas eu aceito – eu disse, rapidamente. – Como faço pra comparecer à reunião?

Vi Potter esboçar um sorriso e olhar para Frank como se dissesse "eu avisei". Alice sorriu abertamente e me explicou que todos nos encontraríamos no Átrio para uma aparatação conjunta. Ela me levaria até lá e não seria seguro falar onde era em voz alta. Despedi-me de todos com um aceno rápido e percebi que Potter ainda sorria. Voltei para o escritório da chefe e relatei uma experiência chata e entediante para meus colegas. Pelo que eu sabia algum deles poderia facilmente ser um infiltrado.

O dia seguiu chato. Como sempre, tivemos de organizar pastas, grifar arquivos, destruir folhas desnecessárias. Meu coração acelerava cada vez que eu percebia uma hora passar. Lentamente as 19h se aproximavam. Às 18h Grant e Brody foram embora. Obviamente não iríamos a nenhuma sessão de tribunal. Terminei de limpar o escritório e postei-me no Átrio, no local combinado. Depois de uns quinze minutos Potter aproximou-se sozinho. Eu sorri inutilmente e o cumprimentei com um aceno. Ele correspondeu com um balanço da cabeça.

– Frank disse que se não chegassem até as sete, eu teria de levar você até lá – ele explicou, cruzando os braços e apoiando-se na parede. Eu assenti e permaneci em silêncio. – Como foi o final do sétimo ano?

Ele obviamente só estava arranjando assunto para evitar constrangimentos. Ok, eu posso suportar isso por quinze minutos.

– Foi tranquilo – respondi, mexendo no cabelo. – Nada de mais. Como é a Academia de Aurores?

– Nada tranquila, mas divertida – ele respondeu. O silêncio reinou. Era mais confortável e absurdamente incômodo ao mesmo tempo. – Bom, temos de ir.

– Como fazemos isso?

– Você tem que segurar o meu braço – ele respondeu, sorrindo. Eu enrubesci no mesmo instante. Hesitante, coloquei minha mão no braço dele e me senti como se me espremessem através de um canudo. Em questão de um segundo eu estava no meio de uma floresta muito escura e silenciosa. Percebi que não tinha soltado o braço dele e larguei imediatamente, ainda sentindo minhas orelhas queimando. Ele respirava alto. – Acho melhor você se segurar em mim até atingirmos a casa.

O sussurro dele ecoou pela clareira. Eu obedeci, procurando a sua mão. Estranhamente entrelaçamos os dedos. Senti um nó na boca do estômago. Eu certamente sofreria de severas dores de barriga mais tarde. Uma garota só aguenta certo nível de ácido gástrico. Fui guiada por meia hora através da floresta escura, na qual minha única referência era a claridade da lua. Minha barriga começou a roncar alto. Por mais que eu tentasse inibir os sons, eles apareciam de vez em quando. Não sabia se ele conseguia ouvi-los. De repente Potter bateu de cara em uma parede que estava muito bem camuflada.

– Nunca consigo calcular quando já chegamos – ele resmungou, parecendo envergonhado. Demos a volta e achamos a porta. Assim que foi aberta, uma onda de calor nos atingiu e finalmente conseguíamos enxergar algo. – Acho que por enquanto somos só nós.

Eu assenti e continuei a explorar o hall com os olhos. Fui guiada para a sala, ainda pela mão (eu simplesmente esqueço que estou de mãos dadas com James Potter às vezes). Ele me deixou sentada no sofá e seguiu para o que parecia a cozinha. Não era uma casa grande. No mínimo era confortável. Várias poltronas estavam espalhadas pela sala, em volta da lareira. Parecia meio desarrumada, como se alguém vivesse nela. Essa Ordem da Fênix devia existir havia algum tempo. Comecei a refletir sobre o porquê de eu ter aceitado o convite logo de cara. Afinal, eu nem sabia quem era o idealizador do negócio, nem quem participava, o que faziam e como faziam. Eu só sabia o objetivo. Tentei reunir coragem para saciar minhas dúvidas mas resolvi esperar. Se eu estivesse prestes a presenciar uma seita maligna a qual me sacrificaria em nome de algum deus obscuro, meu alarme tocaria. Meu alarme não estava tocando agora.

Olhei para um relógio na parede. 19H15. Um chiado de chaleira começou a soar na cozinha.

– Chá – anunciou Potter, da porta da cozinha, balançando uma xícara vazia na mão. Por que não, certo? Levantei-me e fui até a cozinha, sentei-me à mesa, esperando-o. O cômodo era escuro, as únicas fontes de luz disponíveis eram o fogão e uma pequena lâmpada no canto em cima do balcão. Os óculos dele refletiam a luz amarelada e eu não conseguia ver seus olhos. – Imagino que você conseguiria me dizer se essa erva é venenosa ou não.

O pote estava na minha frente e só dizia "Tea" com uma letra rústica. Podia ter sido escrito com carvão.

– Por que diz isso?

– Porque está no armário faz muito tempo e ninguém tem coragem de perguntar ao Professor Dumbledore – ele explicou. – E você é boa com Poções, certo?

– Certo – eu repliquei, abrindo o pote. – É camomila.

Ele agradeceu com a cabeça e pegou o pote. Alguns minutos de silêncio depois, estávamos os dois com xícaras cheias de chá, bebericando-as.

– Sinto muito pelo seu pai – ele disse, de repente. – Foi inesperado.

– Na verdade foi bem esperado – eu repliquei, suspirando. – Ele esteve doente desde que minha mãe morreu.

– Você está bem?

Por que de repente ele resolveu se importar comigo, mesmo? Até agora há pouco era simplesmente "Com licença, Evans" e tchau tchau. Eu assenti com a cabeça para tentar despistá-lo do assunto. Será que iam demorar muito para chegar?

– Que horas a reunião começa? – perguntei, olhando para o relógio novamente.

– Às dez – ele respondeu. – Nós costumamos vir cedo, Alice, Frank e eu.

– E Marlene? – eu perguntei sem saber exatamente por que estava perguntando.

– Ela é nova, só gosta de pagar uma de veterana – disse, dando uma risada irônica. – Você aprende a gostar dela em pouco tempo.

– Entendi – eu disse. – E o que você, Frank e Alice costumam fazer três horas antes das reuniões?

– Normalmente nós discutimos algumas ideias – respondeu. – E Marlene escutou nossos planos ontem e pediu para vir.

Assenti mais uma vez.

– Eu provavelmente deveria esperar o resto pra te dizer isso, mas já que vão demorar umas duas horas, acho justo te tirar da angústia – ele disse, apoiando o rosto na mesa. Eu depositei minha xícara no píres e sentei-me ereta na cadeira. – A Ordem da Fênix é uma organização criada pelo Prof. Dumbledore. Ela tem sido vital para o combate de Voldemort e seus Comensais da Morte.

– Comensais? – perguntei, sentindo uma brisa fria vinda da janela.

– Voldemort está criando seu exército particular – ele continuou, assentindo. – Cada dia que passa, mais pessoas aderem à causa dele.

– Mas como combater algo assim? – indaguei, interessada.

– Bom, nós, principalmente, espalhamos a palavra de que há uma resistência e evitamos que o nome dele ganhe poder – ele respondeu. – Infelizmente, a segunda anda difícil de concretizar.

– Todos já conhecem Voldemort – eu disse, com um rápido aceno com a mão. – E todos têm medo dele.

– Exatamente – ele disse. – Somos umas vinte pessoas, oficialmente. Temos colaboradores por fora, também.

– E por que eu?

– Aí que está – ele disse, sorrindo. – Você é uma das pessoas mais confiáveis que eu conheço. Quando sugeri seu nome para o Prof. Dumbledore, ele nem hesitou.

Engoli seco. Aquilo me atingiu com força. Precisei de um momento antes de recuperar minha plena respiração.

– E o que eu faria pra ajudar? – perguntei, ainda tentando respirar normalmente.

– Nada muito perigoso, por enquanto – ele disse, mexendo no chá com a colher. – Mas assim que você descobrir como as coisas funcionam, na prática, tudo pode ficar um pouco mais arriscado. Ultimamente temos enfrentado coisas piores do que o esperado.

– Mulciber?

– E isso é só a ponta do iceberg – ele disse, inalando uma grande porção de ar. – Ele liderou um ataque a trouxas que tinham acabado de descobrir uma bruxa na família.

A pequena bruxa tinha onze anos. À menção daquilo, eu senti um soluço na garganta. Talvez tenha sido o susto, a surpresa. Agora eu soluçava audivelmente, por mais que eu tentasse parar. Hic. Ah, pelo amor de Deus, recupere-se, mulher. Hic.

– Potter – eu comecei. -, quer dizer, James.

– Hm? – ele parecia confuso. Eu não o chamava pelo primeiro nome havia alguns meses.

– Você, hic, acha – continuei. -, hic, que eles podem vir atrás de mim?

Ele franziu o cenho. Nosso silêncio continuou intacto, exceto pela brisa noturna que se esgueirava para dentro através das frestas das janelas rústicas de toda a casa. Ele limpou a garganta, ainda com faces tensas. Era tão ruim assim, então? Evitando levantar os olhos, ele abriu a boca e ficou parado por um tempo antes de se pronunciar.

– Sim, acho que sim – ele respondeu, ainda não olhando para mim.

Ainda soluçante, murchei na cadeira. Sabe quando você tenta negar que algo ruim está acontecendo e, de repente, vem alguém e te tira dessa ilusão? Foi essa a sensação. Como se eu estivesse aberto as cortinas para o mundo, e ele era horrível. Eu era uma nascida-trouxa, uma das únicas da minha idade. Sangue-ruim, ouvi uma voz conhecida sussurrar no meu ouvido. Afastei o pensamento como se ele fosse uma mosca. Fechei os olhos por alguns instantes, tentando absorver a informação. Aquilo significaria que eu precisaria de muito mais cuidado do que uma pessoa normal. Eu não gostaria de por a vida de Emme e Edith em risco. Talvez eu devesse me mudar logo.

– Nada de ruim vai acontecer – Tomei um susto. Agora ele estava ao meu lado, fitando-me, enquanto eu fitava a parede à frente. – Lily, ouça, nada vai te acontecer.

– Essa conversa está tomando proporções esquisitas – eu disse, rindo um pouco. – Quer dizer, quando você acha que as coisas começaram a dar certo, vem uma notícia assim.

– Desculpe – ele disse, passando a mão pelo rosto, como se tivesse feito algo estúpido.

– James, a culpa não é sua – eu disse, tocando seu joelho. – A estupidez foi minha, eu deveria ter visto isso acontecendo.

– Não, não é estupidez – ele rebateu, olhando para minha mão. – É esperança.

– Pode ser – eu disse, sorrindo. – Você está certo.

– Raramente não estou – ele disse isso estufando o peito pomposamente, o que me fez rir. Senti sua mão na minha e, de repente, estávamos em pé. – Vamos para a sala. Colocar algo pra tocar no gramofone.

– Eu nunca vi um desses – disse, recuperando minhas forças, quando me encontrei parada à frente do aparelho enorme. – Em casa só tínhamos uma vitrola pequena.

– Deve ser muito melhor – ele falou, colocando um disco e dando corda. – Mas a vida é para ser vivida com estilo.

– Isso que é estilo – eu disse, ao ouvir uma melodia animada. – Tenho a sensação de que minha avó ouvia essa música nas suas noites por Londres, ela era bem rebelde.

– Somos parecidos, sua avó e eu – o ouvi dizer. – Talvez devesse nos apresentar qualquer dia desses.

– Claro, por que não? – eu respondi, rindo. – Não sabia que você gostava de mulheres maduras.

– Meu gosto para mulheres é bem específico – ele disse. Estendendo a mão, ele continuou: – Felizmente você se encaixa nele, então vamos dançar.

Ri alto e peguei sua mão. Havia visto casais dançando ao som desse tipo de música apenas na televisão. Não fazia ideia de como dançaria aquilo. James começou a me conduzir, mas também não era proficiente na área, vamos dizer assim. A cada passo que dávamos, soltávamos uma risada. Ele me girou, eu o girei, tropeçamos e recomeçamos a dança. Já era a segunda vez que virávamos o disco quando Sirius Black adentrou a casa.

– Ah, Charleston, nunca me decepciona – ele suspirou, deixando o casaco no cabideiro próximo à porta. – É um prazer revê-la, Lady Evans.

– A você também, Sir Black – respondi, com uma mesura debochadamente profunda.

James abraçou o amigo como se não o visse há tempo o suficiente para sentir muitas saudades. Quando ambos finalmente se soltaram, eu abaixei o volume do gramofone e sentei-me na poltrona. Estava um pouco envergonhada. Aquele fora um momento íntimo, mas não havia nada para me deixar envergonhada. Aquela era uma noite muito confusa.

– Padfoot, como foi de viagem? – James perguntou, pegando uma garrafa de whiskey e despejando sobre algumas pedrinhas de gelo conjuradas em dois copos. – Quer? – ele perguntou, dirigindo-se a mim. Respondi que não, com a cabeça. Ele ofereceu o segundo copo a Black, que bebericou um pouco antes de responder.

– Bem, depois quero que você dê uma volta nela – ele disse, sorrindo apaixonadamente. Provavelmente era alguma vassoura extra-especial. Psh, garotos. – O som é incrível, e é incrivelmente mais confortável do que as maneiras convencionais de se viajar.

– Obviamente, ela é macia, se você sabe o que eu quero dizer – ele respondeu. – Qual o nome dela?

Ok, eles estavam falando do quê? Realmente espero que não estejam discutindo mulheres na minha frente.

– Val – ele disse, orgulhoso. – De Valentina.

– Um lindo nome – James comentou, com olhos desfocados. – Quero experimentar mais tarde.

– Hoje ela já foi descansar, mas amanhã, à luz do sol para que você a veja melhor as suas curvas.

Os dois concordaram, sonhadoramente.

– Eu, sinceramente, espero que Valentina não seja uma garota – me pronunciei, num surto de coragem feminista.

– Garota? – Black indagou, confuso. – Como assim?

– Lily, Valentina é a moto nova do Sirius – James disse, tentando remediar a situação.

– Ah, Merlin, curvas, macia... que mente suja, Evans – Black exclamou, sorrindo. – E eu achando que o pervertido aqui era o Prongs.

– Não vamos nos precipitar, eu sou um tanto pervertido – James retrucou, sentando-se, rindo. – De qualquer forma, Padfoot aqui esteve viajando pelos Alpes nos últimos meses.

– Sim, pela Ordem – ele sentiu a necessidade de acrescentar. – Na verdade eu estive procurando traços de gigantes por lá.

– Oh, isso me parece interessante – eu comentei. – E você achou algo?

– Sim, mas Dumbledore me deu expressas ordens para que não interferisse em nada – ele disse, dando os ombros. – Ele só queria saber a localização, ninguém mais sabe exatamente onde eles vivem ultimamente.

– Imagino que não, com bruxos caçadores e coisas do tipo – eu disse, arrumando meu cabelo, que havia se desmanchado durante a dança. – Bom, perto disso tudo o que eu fizer no meu trabalho vai parecer muito chato.

– Às vezes chato é bom – Black disse, esvaziando o copo.

– Estou ouvindo isso? – James perguntou, colocando a mão na orelha. – Padfoot, você está amolecendo.

– Você não diria a mesma coisa se tivesse de passar dois meses escondido em cavernas, sem poder fazer nada quando Comensais aparecessem do além, na mesma missão que você – ele rebateu ferozmente. – Um banho faz toda a diferença do mundo, de vez em quando.

– Um pouco de ação também – eu disse, suspirando, pensando em todo o trabalho que eu teria na outra semana. – Acho que vou querer um pouco disso.

Levantei-me e coloquei um pouco da bebida para mim. Experimentei sem que os dois tivessem chance de me observar. Era quente e gelado ao mesmo tempo, amargo, queimava, mas descia bem pela garganta. Minha respiração ficou um pouco ofegante, mas fora isso, sem efeitos colaterais. Preenchi o copo até cobrir as pedras de gelo e voltei a me sentar. Agora James e Sirius estavam na segunda rodada. James vestia uma camisa desleixada, jaqueta, calça jeans e botas marrons de cadarços, seus óculos estavam tortos e ele ria desinibidamente. Sirius tinha seus cabelos atrapalhando os olhos e um sorriso idiota na cara. Senti vontade de dar risada.

– Ah, esse deve ser Frank – James disse, passando a mão pelos cabelos. – Já não era sem tempo.

Frank, Alice, Marlene, Remus Lupin, Peter Pettigrew, Hagrid e Prof. Dumbledore entraram juntos. Foi a primeira vez que vi Dumbledore fora de Hogwarts. Senti-me de volta à escola, a sensação de nostalgia era infectante. Ver todas aquelas pessoas me encheu de felicidade. Remus e Hagrid, principalmente, foram grandes amigos meus durante os anos escolares. Mal havia me despedido do meio-gigante e já sentira saudades imensas.

– Lily! – o ouvi dizer, vindo ao meu encontro. – James!

– Escrevi para você semana passada, Hagrid – eu disse, abraçando-o, tentando não me importar com as grandes e fortes patadas que recebia nas costas durante o ato. – Senti saudades.

– A coruja chegou ontem – ele disse. – Eu escrevi uma resposta mas não enviei, se soubesse que você vinha, teria trazido comigo.

– Você pode me falar a resposta pessoalmente, agora – eu disse, querendo rir, mas me segurando. – É bem melhor assim.

– Huh, certo, certo – ele disse, batendo na testa com a mão. – Queria que você pudesse ver, tem uma ninhada nova de unicórnios na Floresta, eles são uma maravilha.

Eu sorri, imaginando os unicórnios. Hagrid se virou para falar com James sobre explosivins. Sentei-me ao lado de Remus para conversarmos. Ele não parecia muito disposto, tinha vários cortes no rosto e nas mãos. Ele se virou para encontrar meu olhar e sorriu tristemente.

– Tudo bem por aí? – perguntei, com voz fraca.

– Nada com o que se preocupar – ele respondeu, ainda sorrindo. – Como vai a vida? Ouvi falar que você está no Ministério.

– Quem te contou? – indaguei, rindo um pouco. Quando ele permaneceu em silêncio por mais de dois segundos, eu resolvi esquecer a pergunta. – Sim, agora eu trabalho para Amelia Bones.

– Ela é gente boa – ele resmungou, olhando para a lareira.

– E você? Como vai?

– Um pouco cansado – ele respondeu, coçando os cabelos. – Mas já estive pior.

– Devo me preocupar? – perguntei, sentindo-me impotente.

– Não, claro que não – ele disse, sorrindo e se levantando. – Não com os amigos que eu tenho, pelo menos.

Eu sorri, supondo que ele estivesse falando de Sirius, Peter e James. Sim, os quatro nunca se separavam na escola. Devia ser um mundo totalmente diferente para Remus não ter os três por perto tão frequentemente. Suspirei. Senti uma vontade gritante de voltar para Hogwarts, quando as coisas eram tão mais simples e minhas únicas preocupações eram estudar e tentar não me perder no castelo. Ele pareceu perdido nos próprios pensamentos e eu resolvi não interromper. Mantive minha boca fechada enquanto ouvia as conversas. Regulus Black, irmão mais novo de Sirius, andava envolvido nas Artes das Trevas. Alice adotou um cachorro. A vida social de Marlene era agitada. Peguei outro copo de whiskey.

– Boa noite, Lily – ouvi uma voz conhecida dizer. – Creio que James já tenha esclarecido tudo.

– Prof. Dumbledore! – disse, surpresa. – Ah, sim, ele me explicou bastante.

– Ótimo – ele disse, sentando-se ao meu lado. – Imagino que esteja feliz com a sua escolha de carreira.

Eu estava sentada ao lado de Dumbledore. Conversando. Sobre assuntos mundanos.

– Acho que sim – respondi, coçando a bochecha. – Imagino que o senhor esteja feliz com a sua escolha de carreira.

Ele riu, como se estivesse surpreso pela constatação. Eu fiz Dumbledore rir.

– Imagino que sim.

Quando o relógio bateu meia noite, Dumbledore aceitou a derrota e teve de começar a reunião apenas com os que estavam presente. Todos estavam sentados à mesa da cozinha. Depois de algum tempo, a reunião iniciou.

– Eles têm algo grande preparado – Sirius Black disse, em meio ao monte de vozes. – Eu ouvi um deles dizendo algo sobre ganhar visibilidade.

– Temo que seja verdade – Dumbledore disse, juntando as pontas dos dedos. – Voldemort tem o medo como sua maior arma, é apenas lógico que esperemos por algo grande.

– Algo em Londres? – James sugeriu. – Todos sabemos que falta pouco para os trouxas começarem a sentir a guerra.

– Negativo – retruquei. – Ele não quer que os trouxas saibam de sua existência.

– Por quê? – ele perguntou.

– Pra ele os trouxas são ratinhos que não fazem e nem devem fazer a menor ideia do que está acontecendo, o importante é se impor na comunidade bruxa e purificar a raça – finalmente verbalizei o que havia pensado há um tempo.

– Positivo – Dumbledore disse, sorrindo. – Embora em algum momento mais distante, acredito que o discurso mude.

– Mas precisamos focar no agora – Marlene disse, parecendo um pouco ansiosa.

– A nossa prioridade é descobrir mais – Sirius disse, concordando.

– A melhor maneira de fazer isso é continuar com o plano anterior – James disse e Frank assentiu com a cabeça. – Já sabemos que Trivia é infiltrado, talvez consigamos mais durante esse mês.

– De qualquer forma, não acho que eles vão agir tão logo, isso vai nos ganhar tempo – Alice comentou, enquanto roía uma unha. – Já riscamos vários suspeitos, suponho que confirmaremos algum antes de algo acontecer.

– Enquanto isso nós vamos cercar Trivia – Frank disse, apoiado por Marlene, James e Alice. – Extrair o máximo que pudermos.

– E como vocês vão fazer isso? – indaguei, pensativa.

– Indigo sempre nos avisa quando ele sai pra fazer alguma coisa – Alice disse, sorrindo. – E aí James, normalmente, vai atrás dele.

– Ele nunca foi pego, não faço ideia do porquê – Frank disse, chocalhando a cabeça.

– Vocês o subestimam – Remus disse, rindo pra si mesmo. Pensei sentir ondas de piada interna emanando dos quatro.

– De qualquer forma – continuou Alice. -, ele já conseguiu várias coisas, como o próximo ataque, que por acaso ocorrerá mês que vem.

– Eles estão realmente concentrados nos gigantes – Sirius disse, pesaroso.

– O que me faz pensar se Trivia é um Comensal importante – James se pronunciou. – Eu nunca ouvi uma palavra sobre gigantes, duvido que Voldemort tenha confidenciado esse segredo a todos.

– Muito bem – Dumbledore disse, levantando-se. – Por favor, continuem, mas preciso estar de volta a Hogwarts para resolver problemas pendentes, e antes disso, Remus, se você puder me acompanhar ao segundo andar.

– Claro, professor – Remus resmungou, apressando-se para alcançar o passo de Dumbledore.

– Boa noite a todos – o diretor desejou. -, e seja bem-vinda, Lily, confio a todos a tarefa de fazê-la se sentir confortável.

– Obrigada, professor – eu disse, envergonhada.

Assim ele desapareceu da cozinha, junto de Remus. Fiquei instigada mas resolvi não pedir opiniões sobre qual seria o motivo daquilo, já que se Dumbledore quis vê-lo a sós, obviamente era um assunto secreto. Peter aproveitou para pegar cervejas amanteigadas (a mando de Sirius) e me lembrou de sua presença na casa. Ele nunca foi de falar muito, pensei. Comecei a beber da minha garrafa.

– Muito bem – Frank recomeçou a falar. – Eu acharia interessante se nós déssemos uma primeira tarefa para Lily.

– Você é a nossa primeira representante na corte – Alice disse, como se estivesse orgulhosa de mim. – Nós realmente apreciaríamos se você fizesse um relatório de tudo o que acontece nos julgamentos.

– Tudo? – perguntei, duvidando. Minha mente começava a ficar embaralhada por causa da bebida. – Quer dizer, a única pessoa que pode usar uma pena de repetição rápida é o redator, se eu fosse pega, me expulsariam do programa. E eu seria pega.

– Tudo que você achar estranho, fora de lugar – James disse, se inclinando para a mesa. – E não só do réu, como também do juri.

– É importante lembrar que estamos em busca dos infiltrados – Frank disse. – Qualquer coisa pode ser crucial.

– Ah, e o mais importante – disse Sirius, sério. – Não se deixe ser vista.

– Você não quer ser associada à Ordem da Fênix – Marlene explicou. – Ele já sabe que existimos, já tem alguns nomes.

– Que nomes? – perguntei, surpresa. Agora já podia sentir os efeitos do álcool. Tudo ao meu redor parecia mais colorido e a imagem chegava aos meus olhos com atraso em relação à audição. – O grupo é recente.

– De alguma maneira ele já sabe sobre mim – Marlene disse. – e Sirius, James, Alice, Frank, Dorcas, Fenwick, Hagrid e... quem mais?

– Eu – Peter grunhiu, entre um longo gole de cerveja amanteigada.

– Sim, e Peter – ela concluiu.

– Tudo bem, começo quinta-feira – disse, sorrindo. Fiquei surpresa comigo mesma por estar tão animada. Eu já não falava direito.

Peguei mais um copo de whiskey.

A reunião não foi muito mais pra frente do que isso. Remus voltou depois de uns quinze minutos de conversa com o professor e não pareceu querer mencioná-la. O relógio bateu duas da manhã e eu finalmente admiti que estava embriagada. Era a primeira vez na minha vida. Frank e Alice disseram que me levariam para casa, já que ninguém queria que eu deixasse a sede sozinha.

– Até mais, Remus, Hagrid – eu os abracei, sentindo minhas bochechas queimando ao mesmo tempo em que experienciava uma espécie de amortecimento da pele do meu corpo. – Black, Pettigrew, McKinnon – acenei pesadamente e me virei. – James.

– Vai ser rápido – ele disse, me puxando pela mão para a cozinha. – Cinco minutos, Frank.

Chegamos lá e paramos em silêncio por alguns segundos. Ele parecia estar reunindo coragem para falar e eu comecei a ficar nervosa. Seus olhos quase verdes olhavam para meus pés e eu me senti desajeitada. Peguei-me fitando o seu cabelo desarrumado. Tive vontade de afagá-lo, mas me segurei. Teria sido muito estranho.

– Lily, eu preciso te falar – ele começou, com expressão dura, tirando-me do transe. – Que você é um alvo bem claro dos Comensais.

– Bom, sim, eu sou nascida trouxa – eu respondi, tentando entender o que ele queria dizer. – Você já disse isso.

– Não, Lily, você não entende – ele disse, cortante. – Você é tópico de discussão deles desde que entrou no Ministério.

– Se eles me matassem eu viraria um mártir – eu disse com um sorriso debochado, tentando justificar. Se me matassem todo mundo se rebelaria, não seria um movimento inteligente. Eu acho.

– Exatamente – ele disse. -, você viraria um mártir.

– E...?

– E o que seria mais perfeito do que um mártir? – ele perguntou e de repente eu me vi fora do globo de neve em que estava vivendo. Parecia que a cada olhada que eu dava para aquele assunto, em pior situação eu me encontrava. Suspirei e fitei o chão, de repente sentindo-me muito mais cansada do que eu pensava estar. Minhas pernas vacilaram e James me segurou pelos cotovelos. – Eu achei que você devesse saber.

– Obrigada – eu respondi, ainda segurando seus braços para me manter em pé. – Eu só estou sonolenta.

– Queria que nada disso pudesse te preocupar – ele sussurrou, enquanto eu encostava minha testa em seu ombro quente. – Queria poder... fazer algo.

– Shhhh – Eu respirei fundo e minhas pernas se aproximaram das dele sem meu comando. – Não estou preocupada.

– Não? – ele perguntou, soltando meus braços para apertar-me contra si.

– Não – respondi, tentando me lembrar onde minhas mãos se encontravam e o que eu deveria fazer com elas. – Veja, não tem problema.

– O que não tem problema?

– Morrer, sabe – eu disse, sentindo que a camiseta dele agora tinha manchas úmidas. Não sabia identificar se eram de baba ou de lágrimas. Não havia notado que estava chorando. – É ok.

– Não, não é ok – ele disse, passando os dedos pelos meus cabelos.

– Você vai ficar bem – falei, sem ter certeza do que estava falando. Funguei e repeti: – Você vai ficar bem.

– Nós todos vamos – o ouvi sussurrar para a minha orelha. Ele levantou a cabeça e eu fechei os olhos. O ouvi dizendo algo para Frank. Não sentia minhas pernas e não sabia se ainda estava acordada. Talvez estivesse. Mas estava tudo muito morno. Tive a impressão de ter sido liberada de um abraço logo antes de me ver sozinha, na minha cama, às três da manhã. Senti um frio na barriga. Então virei para o lado direito e vomitei.