19 de Agosto, 1978
Demorei, no mínimo, meia hora para ter coragem de sair debaixo das cobertas. O verão estava no final, mas o clima já era ameno. E eu estava gripada. Vesti um suéter marrom, jeans e sapatilhas, meus cabelos ficaram soltos e percebi que eles já ultrapassavam minha cintura. Totalmente sem corte. Sentei-me à mesa e esperei Emme terminar de preparar o café.
– Bom dia – resmunguei, apoiando o rosto na mão. – Dia difícil pela frente?
– Você nem imagina – ela resmungou de volta. – Acabaram de me mandar uma coruja urgente dizendo que uma ponte estourou em algum lugar.
– Vai ter que desaparatar diretamente pra lá? – perguntei, sentindo-me levemente com pena. Espirrei e me lembrei que meu dia seria pior. A pena passou.
– Acho que sim – ela disse, pegando uma torrada e preparando a varinha. – Até amanhã, Lil.
Assim, ela desapareceu. Edith estava jogada no sofá da sala, dormindo pesadamente. Provavelmente passara a noite acordada novamente enquanto estudava ou escrevia. Busquei um edredom e a cobri. Provavelmente amanheceria gripada. Assim como eu.
Desaparatei.
Como sempre, passei reto pelo Quartel dos Aurores sem tentar esgueirar olhares para dentro. Cumprimentei meus colegas ao entrar na sala e peguei a minha bata roxa. Hoje eu assistiria a um julgamento importante e presenciaria Sr. Crouch presidir a corte pela primeira vez. Bones havia me escolhido por causa do trabalho duro e fibra moral que eu demonstrara. Senti-me orgulhosa por breves momentos antes de perceber que aquilo só significaria mais trabalho para mim, até porque eu teria de fazer o dobro pela Ordem da Fênix. Além de tudo eu precisava arranjar uma maneira de anotar tudo sem que me percebessem. Suspirei e entrei no elevador.
Parei no nível nove, também pela primeira vez, já que eu nunca tivera de entrar nas salas de tribunais antes, e observei o andar. Era feito de pedra escura, mal-iluminado por tochas. Procurei a escada da qual Bones havia me falado e adentrei na escuridão. Atingi o nível dez e, por fim, entrei na sala.
Localizei a chefe e sentei-me ao lado dela. Recebi um sorriso confiante e me senti mais confortável. Não trocamos palavras. Como eu não havia chegado a conclusão alguma sobre como escrever sobre os julgamentos sem ser vista, resolvi tentar memorizar os detalhes importantes. Segundo o burbúrio, o primeiro julgamento era de um homem chamado John Wilkes. Pelo jeito todos estavam surpresos por ele ter de prestar as contas com o Ministério. Um bruxo ao meu lado alegou tê-lo visto crescer. John Wilkes... Wilkes.
– Severus – murmurei, recordando do nome. Havia um Wilkes que estudara em Hogwarts havia uns dois anos. Ele era amigo de Severus. Agora eu já estava inclinada a julgá-lo culpado. Uma dúvida surgiu na cabeça: – Bones, eu devo votar, caso perguntem ao juri?
– Sim, você faz parte da corte hoje, Evans – ela respondeu, parecendo orgulhosa. Senti-me como uma moça vestida com sua beca universitária, prestes a se formar. – Hoje você pode tudo o que eu posso.
Alguns minutos se passaram e o réu foi trazido à sala do tribunal. Sim, era Wilkes. Não era nem grande, nem pequeno. Estatura e peso médios. Ele se sentou na cadeira, sem precisar usar as algemas. A sala caiu em silêncio e o Sr. Crouch se pronunciou.
– O senhor é John Wilkes, filho de Tilda Selwyn Wilkes e Herbert Wilkes, nascido em 1958, proprietário desta varinha? – ele perguntou de forma automática, mostrando a varinha no alto de sua cabeça, para que todos a vissem.
– Sim – ele respondeu, confiante.
– O senhor sabe o motivo pelo qual foi convocado à corte? – Sr. Crouch perguntou, também de forma automática.
– Sim, senhor – ele disse, parecendo sincero. – Me informaram via coruja.
– O senhor é acusado do homicídio doloso de Caroline Ferret, cometido na noite de dezessete de Julho de mil novecentos e setenta e oito – ele disse, claramente. – O senhor tem alguma declaração antes de iniciarmos a prossecução?
– Sim, senhor – ele respondeu. – Sou inocente.
– Você está em plena ciência de que pode ter um advogado nesta sessão da corte?
– Sim, senhor – respondeu, sorrindo confiante. – Acredito não precisar de um advogado porque sou inocente.
– Muito bem, podemos começar – ele declarou, imponente. – Madame Bones, passo-lhe a palavra.
Madame, pensei. Não sabia que ela era tratada por Madame. Na verdade não fazia ideia de que ela era casada. Fiz uma nota mental para chamá-la de Madame daqui em diante.
– Obrigada, Sr. Crouch – ela disse, levantando-se. – Sr. Wilkes, vou lhe fazer perguntas e quero que o senhor as responda sem delongas, de preferência. – Ele assentiu com a cabeça. – Onde o senhor se encontrava na data da morte da Senhorita Caroline Ferret?
– Em casa – ele respondeu, simplesmente. – Fiquei em casa o dia inteiro durante esse dia.
– Tem alguém que pode confirmar a história? – ela perguntou, remexendo nos papeis.
– Meu elfo doméstico Kinnie – ele disse, sem piscar.
Ele não estava nervoso. Nem um pouco nervoso. Seria inocente ou dissimulado? Desde que se sentara na cadeira ele não mexeu um dedo sequer. Até parecia que estava confortável.
– Poderia chamá-lo?
– Já o trouxe aqui, caso fosse necessário – ele disse, parecendo impaciente pela primeira vez. – Francamente, pensei que eram mais sensatos, por que, raios, eu mataria essa mulher?
– Obrigada, Sr. Wilkes – ela disse, em tom de reprovação. – Srta. Evans, por favor, busque o elfo do lado de fora e traga-o até a corte.
Tomei um susto à menção do meu nome e levantei de supetão, derrubando algumas folhas que eu estava segurando, deixei pra lá e segui para a porta, sendo seguida pelos olhos de todos da corte, incluindo de Wilkes. Ele se lembrava de mim. Engoli a seco e me apressei para a porta. Do lado de fora encontrei o pequeno elfo, tremendo dos pés à cabeça. Nunca havia visto um antes. Sempre que falavam sobre elfos domésticos eu imaginava algo totalmente diferente. Ele era muito pequeno, muito sujo e tinha muito medo. Peguei em sua mão.
– Ei, escute – eu disse, baixo, sorrindo. – Tudo vai ficar bem, não vai acontecer nada, só vamos te fazer umas perguntas e você vai embora.
Ele não pareceu me ouvir. Suspirei, imaginando que não houvesse nada que eu pudesse fazer para acalmá-lo. Comecei a levá-lo para dentro, com passos pequenos. Ele parecia uma criança de três anos, totalmente indefesa. Decidi ficar por perto. Coloquei-a ao lado de Wilkes e me afastei. Ele não olhou para mim.
– Muito bem, você é o elfo doméstico do Sr. Wilkes? – Bones perguntou, com sua voz trovão ecoando pela sala de pedras escuras. O pequeno começou a tremer mais do que eu julgava possível. Gostaria de abraçá-lo e levá-lo para casa.
– Responda – vociferou Wilkes, olhando para o lado pela primeira vez.
– S-s-sim, milady – o pequenino disse, com uma vozinha esganiçada e trêmula.
– Onde seu senhor, John Wilkes, estava às 18h do dia dezessete de julho deste ano? – ela perguntou, olhando para o elfo.
– Em c-c-casa, milady – ele disse, olhando para os pés.
– Obrigada, Srta. Evans, pode levá-lo daqui – Bones disse, ainda sem olhar para o pequeno.
Adiantei-me e peguei o elfo pela mão. Quando me virei para começar a andar, Wilkes me olhou. Ele tinha um sorriso debochado escondido naqueles lábios finos e amarelados pelo cigarro. Ele parecia muito velho para ter vinte anos. Pálido, com olheiras abaixo dos pequenos olhos azuis elétricos, que me fitavam incessantes durante todos aqueles dois segundos. Parei de respirar e me virei. Esperava não ter expressado nenhuma emoção, porque o que eu sentia era aflição. Aflição e desprezo.
Chegamos ao lado de fora e ele pareceu querer soltar a minha mão.
– Você foi muito bem lá dentro – eu disse, soltando-o. – Pode ir embora, mas se cuide.
A criaturinha piscou os grandes olhos e assentiu. Demorou alguns segundos para que ele conseguisse juntar os dedos e desaparatasse, estalando-os. Voltei para a corte, enquanto Bones seguia com o questionário.
– Não, eu não a conhecia – ele disse, respirando descompassadamente. – Eu nunca vi essa mulher na minha vida.
– Encontramos provas de que ela se sentia ameaçada até mesmo dentro de casa – ela continuou. – Você pode imaginar pelo quê ou por quem?
– Não faço a mínima ideia – ele disse e se levantou repentinamente, quase simultaneamente dois aurores apontaram suas varinhas em sua direção e ele permaneceu estático. – Isso aqui não tem o menor fundamento, eu poderia aproveitar meu tempo de um jeito melhor.
– Sente-se, por favor, Sr. Wilkes – ela disse, apreensiva pela primeira vez no julgamento. – Acalme-se.
Ele bufou e se sentou na cadeira que continha as algemas, que pendiam inertes aos lados do seu corpo.
– Gostaria de chamar à corte o chefe do Quartel General dos Aurores, Alastor Moody – ela disse, aumentando a voz.
O mesmo auror que eu vira na primeira reunião do Quartel passou mancando pela porta, grunhindo a cada passo, resmungando palavras, enquanto o olho maior se remexia loucamente e o menor fixava-se no homem da cadeira, que o evitava. A reputação de Moody era enorme, e mesmo os que não eram culpados sentiam medo. Eu ainda não o havia encontrado em reuniões da Ordem, já que as duas únicas em que eu estivera foram compostas por Frank, Alice e James, da última vez, e da primeira algumas outras pessoas.
Moody dispensou a cadeira oferecida por um senhor de idade.
– Você é Alastor Moody, nascido em oito de Março de 1909, Chefe do Quartel dos Aurores, investigador-mor do caso Caroline Ferret? – Bones perguntou, depositando as mãos na banca de madeira.
– Sim – ele disse, rispidamente.
– Sr. Moody, por favor, descreva o caso para o juri – ela disse, sentando-se, finalmente, para escutar.
– Os pais da garota chegaram em casa e encontraram o corpo no jardim, sob uma nuvem que tomava forma de caveira – ele começou. – A gritaria acabou chamando a atenção de um bruxo que passava pela rua e reconheceu a magia, que convocou o Departamento de Execução das Leis da Magia e meus aurores Frank Longbottom e Urkes Filbert foram verificar o caso. Os pais já haviam mexido no corpo, mas souberam nos dizer como ela estava antes disso. Ela tinha o rosto molhado de lágrimas e a perícia concluiu que ela havia sido torturada em silêncio por várias horas antes de ser morta. Vocês vão encontrar cópias dos documentos se o subdepartamento legal tiver feito seu trabalho direito.
– E o motivo? – perguntou Bones.
– Temos razões fortes para acreditar que ela foi assassinada por ser nascida-trouxa – ele respondeu. – Elas seriam cartas trocadas com uma amiga, também estudante de Hogwarts, que diziam: (aqui ele pegou um pergaminho) "(...) aconteceu ontem. O cara cuspiu na minha cara, me chamou de sangue-ruim e disse que se eu contasse a alguém, a culpa seria minha se algo acontecesse aos meus pais. (...)" e "(...) ele me mandou aquela trancinha que eu cortei da parte debaixo dos meus cabelos. Eu reconheci por ser o mesmo lacinho que eu usei àquele dia. Kate, eu estou com medo. Gostaria de poder contar aos meus pais, mas não quero preocupar ninguém. Você acha que eu devo avisar o Ministério? (...)". As duas cartas foram escritas com um ano de diferença, a última foi feita um dia antes do assassinato. A amiga, Katherine Lidget mandou um comunicado ao Ministério, que chegou na hora aproximada do assassinato ao Quartel.
– E por que o suspeito principal é o Sr. Wilkes? – Sr. Crouch perguntou, levantando uma sobrancelha.
– Durante o último ano dele em Hogwarts, o mesmo primeiro ano da vítima, Wilkes aqui quase foi expulso da escola por ter sido pego forçando a ela e Mary Smith, duas nascidas trouxa, a entrar na Floresta Negra, o que é expressamente proibido sem a supervisão de um professor. Forçar as duas menores de idade foi um agravante no caso e os pais o transferiram para Durmstrang para evitar a expulsão, com permissão Dumbledore e...
– Com licença, mas as cartas mencionavam o nome de Wilkes? – um bruxo de mais ou menos quarenta anos se pronunciou no juri.
– Eu teria chegado a isso sem a sua pergunta idiota, Crawley – Moody explodiu repentinamente, quase gritando, fazendo com que todos, incluindo a mim, pulassem nas cadeiras. Crawley abaixou a mão e tentou manter sua dignidade, o que resultou em uma expressão de dor misturada com um sorriso cômico. Dois ou três bruxos, aparentemente familiarizados com Moody, tentaram conter o riso. – Continuando, as cartas não faziam nenhuma menção ao nome de Wilkes, mas, segundo a Srta. Lidget e nossa perícia, ela já conhecia o seu assassino. A análise das duas cartas diz que ela conhecia o assassino e tinha receio de que as cartas estivessem sendo interceptadas. A opinião Srta. Lidget eu prefiro que ela mesma deponha.
– Obrigado, Alastor – disse o Sr. Crouch. – Para fins do julgamento, pedimos para que o senhor fique presente no Ministério até o final do dia. A sessão será, agora, adiada até às dezesseis horas do dia de hoje e conta com mais duas testemunhas.
Ele se levantou e os outros o seguiram. Em silêncio, voltei para a sala com Bones. Chegando lá, ficamos sozinha na sala, já que Grant e Brody estavam no almoço.
– Você era monitora no ano em que ele foi expulso, certo? – ela perguntou. Parecia cansada. – Não ouviu nada sobre isso?
– Não – eu respondi. – Imagino que o Prof. Dumbledore tenha abafado o caso.
– Dumbledore coloca muita fé nas pessoas – ela disse, passando as mãos pelo rosto. – O processo será longo depois do julgamento.
– Tem algo que eu possa fazer pela senhora? – perguntei, tentando ser breve. Sentia que qualquer exagero de contato pessoal a colocava ao ponto de perder as estribeiras.
– Traga um café na volta do almoço – ela finalizou, abrindo o envelope e começando a reler os relatórios.
Tirei a bata e saí da sala. Como eu tinha até as 16h para almoçar, resolvi que ia a um restaurante próximo ao Ministério, e chamaria James Potter. Sem a menor das segundas intenções, obviamente. Mas havia alguns dias que eu decidira que ele era boa companhia, amigável e que eu poderia desenvolver um relacionamento amistoso. O único problema é que eu ainda estava com vergonha por ele ter presenciado minha embriaguez. Como chama isso mesmo? Ressaca moral, segundo Emme. Ela diz que ele me trouxe para o apartamento, com ajuda de Frank, e me colocou na cama. Felizmente eu esperei um pouco antes de vomitar tudo o que tinha no meu estômago. Mal conseguia olhá-lo durante a última reunião, mas resolvi criar coragem.
Entrei no Quartel e o localizei.
– James? – eu chamei. Ele demorou um pouco para levantar a cabeça, pois estava escrevendo algo.
– Lily, oi – ele disse, vindo até mim. – Como está o julgamento?
– Não sei o que pensar ainda – respondi, sincera. – Quer almoçar comigo?
– Claro, claro – ele disse. – Moody me deixou ir para a segunda parte, então até as quatro horas estou livre.
– Ótimo – falei, sem ter muita certeza do que eu precisava responder.
Esperei-o terminar de escrever um relatório e seguimos juntos para o elevador. Não falamos muito, exceto por bobagens e comentários sobre o tempo maluco daquele verão. Decidimos entrar em um lugar de fachada regular, colorida. Parecia de comida mexicana, mas o cardápio revelou que era uma hamburgueria. Resolvemos que era tão bom quanto as nossas expectativas e fizemos nossos pedidos. Os refrigerantes chegaram primeiro.
– Então o Wilkes matou a garota, hein – ele disse, tomando um gole de sua coca-cola.
– Certamente – concordei. – Mas infelizmente, se continuar assim, o julgamento não vai dar em nada.
– Como assim?
– Bom, legalmente, precisamos de mais do que suposições para culpar alguém – disse, também bebericando a minha garrafa. – Por enquanto a única testemunha ocular foi do elfo doméstico dele falando que ele estava em casa durante o assassinato, então estamos em desvantagem.
– Mas o juri vai perceber que ele é culpado – ele disse, balançando a cabeça.
– Pode ser – respondi. – Mas não nesse julgamento.
Ele pareceu murchar na cadeira.
– Snape, Avery, Rosier e Wilkes – ele vociferou. – Os Comensais mais jovens a já terem pisado na Grã Bretanha.
– Não sei se isso é verdade – rebati. – Wilkes e Avery, sim, mas os outros nunca foram pegos fazendo nada.
– Lily – ele começou. -, eu sei que você pensa o contrário, mas é só questão de tempo até o nome do Seboso surgir por aí como Comensal, então prepare-se pra quando isso acontecer.
Eu resolvi não discutir aquilo. O ódio entre eles era muito grande, embora eu não soubesse a sua fonte. Eu nunca perguntei a Severus o porquê da inimizade e não perguntaria a James. Não me interessava mais. Algo dentro de mim me dizia que Severus não tinha ido pelo caminho dos outros três e eu acreditava veemente que ele não teria se tornado um dos Comensais da Morte. Eu tinha perfeita noção de que ele só fazia parte daquela turma porque se sentia acolhido. O Severus que eu conhecia não machucaria uma mosca. Os hambúrgueres chegaram e começamos a comer. James devorou em questão de alguns minutos e pediu outro.
– Como é trabalhar para Madame Bones? – ele perguntou, limpando os dedos com um guardanapo.
– Ela é melhor do que você pensa – respondi, achando graça. – Aprendo muito com ela, embora ultimamente tenha percebido que essa carreira não é pra mim.
– Como assim?
– Não gosto de ficar atrás de uma mesa, sem contribuir ativamente.
– Você pensa em desistir? – ele perguntou, sério.
– Não sei – respondi. – Eu sinceramente não faço a menor ideia do que fazer.
– Bom, você poderia facilmente se tornar uma auror – ele disse, sorrindo. – Lembro daquele dia em que tentaram te lançar o Levicorpus e você reagiu.
– Aquilo foi sem querer – tentei me defender. – Eu não queria ter feito aquilo.
– Exatamente, o cara foi pra Ala Hospitalar por engano – ele começou a rir. – Isso é instinto.
– Ha-ha – disse, cruzando os braços. – Já você teve muitos anos de prática, certo?
– Obviamente – ele respondeu, levantando sua garrafa, como se quisesse brindar àquilo. – E mesmo assim me tornei Monitor-Chefe.
– Ainda não sei como o Prof. Dumbledore chegou a essa brilhante decisão – comentei, sucumbindo ao riso. – Pobre Sr. Filch.
– De qualquer forma, ele compensou o ano do Sr. Filch escolhendo você depois que eu saí – ele disse, ajustando os óculos e pegando o segundo hambúrguer que tinha acabado de chegar. – A Monitora-Chefe mais eficiente de todos os tempos, imagino.
– Nah, eu não era muito boa – disse, balançando a mão. – Sempre dava segundas chances pra todo mundo.
– Você deveria deixar seu cabelo solto sempre – ele disse, de supetão.
– Quê?
– Seu cabelo, ele é bonito solto.
Comecei a me sentir tonta. Meu rosto queimava, em chamas, assim como minhas orelhas. Desviei meu olhar para a garrafa de coca e pigarreei.
– Obrigada – disse, sem saber mais o que falar.
– Se eu pudesse, prenderia os meus – ele continuou. – Ou talvez eu raspe a cabeça, o que acha?
– Não, seu cabelo é bonito – rebati, quase instantaneamente.
– Mas toda vez que eu passava a mão por eles você ficava brava.
– Com a sua arrogância, não com o cabelo – eu respondi. – Quer dizer, quem é que fica bravo com cabelos? É loucura.
A conversa se estendeu até as três horas da tarde e resolvemos voltar juntos para o Ministério. Sermos vistos juntos era contraindicado por causa da Ordem, mas todos sabiam que nós éramos colegas em Hogwarts, e, na hora, aquilo fazia sentido. Vesti a minha bata e, temporariamente, sentei-me ao lado de James na plateia. Era a sua primeira vez lá, também. Quase não conseguia esconder sua animação.
Os membros da corte, um a um, foram chegando e se instalando, repassando os detalhes do processo. Discuti com James quem ele achava provável que fossem as próximas testemunhas. Katherine com certeza, e a segunda poderia ser alguma testemunha da cena da primeira carta. Não tinha como adivinhar aquilo. Era um processo no qual qualquer surpresa seria possível. Finalmente Amelia Bones entrou, acompanhada pelo Sr. Crouch e eu tive de voltar ao meu posto ao seu lado. Despedi-me de James com um "até mais" e aguardei pelo início do julgamento.
– Muito bem, senhores – Sr. Crouch disse, dirigindo-se aos aurores que guardavam a salinha em que o réu era mantido preso. – Passo a palavra a Amelia Bones.
– Srta. Evans, por favor, busque a nossa próxima testemunha, Katherine Lidget – ela ordenou.
Novamente, com todos os olhos em mim, levantei-me e alcancei a porta, sem olhar para trás. Com certeza agora todos sabiam da minha existência no Departamento. Imaginei que aquilo fosse bom. Encontrei Katherine do lado de fora, não muito menos trêmula do que o elfo doméstico de Wilkes.
– Oi, Katherine, lembra de mim? – perguntei, tentando ser o mais dócil possível com a garota. – Sou Lily Evans, fui Monitora-Chefe ano passado.
Ela assentiu com a cabeça, com os olhos lacrimejantes.
– Fique tranquila, nada vai te acontecer lá dentro, nós ainda não chamamos Wilkes – eu disse, chamando-a com a mão. – Se quiser, eu fico ao seu lado o tempo todo.
Ela disse que sim, com a cabeça. Parecia muito assustada. Entramos na sala e ela se sentou na mesma cadeira que Wilkes havia sentado horas antes.
– Sr. Crouch, peço permissão para permanecer ao lado da testemunha por motivos de apoio moral – pedi o mais formalmente possível, sentindo-me idiota ao mesmo tempo.
– Permissão concedida – ele disse, ríspido.
Juntei as mãos na frente do corpo e aguardei Bones começar a falar. Katherine parecia desesperada. Olhava todos os rostos, procurando por sinais de aceitação, de compreensão, mas todos estavam vidrados em Amelia Bones, que ainda estava se organizando com os papeis. Finalmente, ela deu o sinal para o redator começar a escrever e se levantou.
– Você é Katherine Charlotte Lidget, nascida em vinte um de Junho de mil novecentos e sessenta e cinco, tem treze anos de idade, filha de Loreena e Jack Lidget e começará a cursar o quarto ano da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts? – ela perguntou, solene.
– I-isso – a garota disse, respirando rapidamente.
– Srta. Lidget, qual era a relação de John Wilkes e Caroline Ferret?
Houve uma pausa antes de Katherine começar a responder, na qual todos podiam ouvir os soluços da menina por causa da menção do nome da amiga. Eu quis falar palavras de conforto, mas não pude. Ela se recompôs após alguns segundos e tossiu forte.
– Lin, i-isto é, c-Caroline tinha muito medo dele – ela iniciou. Pareceu ficar mais fácil depois disso, e ela conseguiu falar normalmente. – Ele era muito mau com todo mundo.
– Srta. Lidget, Caroline falava dele para você durante o último ano? – ela perguntou.
– Não – Katherine respondeu, imediatamente. Ela parecia retomar a fase de nervosismo.
– Stra. Lidget, Caroline alguma vez deu a entender que conhecia o assassino? – Bones perguntou, finalmete chegando ao ponto o qual todos esperavam.
A garota olhou para Moody, que estava sentado na plateia, próximo a James, em seguida olhou para Bones e terminou por fitar as próprias mãos. Era como se estivesse buscando algum consolo. Parecia um filhote de corsa perdido na floresta. Começou a respirar fundo, de olhos fechados.
– Não, senhora – ela disse, repentinamente.
O susto foi tamanho que eu pulei para trás. Todos estavam de olhos arregalados e um burbúrio irritante se espalhou pelo tribunal como uma onda do mar atingindo a areia. Pude ouvir Moody xingando no que ele julgava que fosse uma voz baixa. Aquilo acabava com o caso contra Wilkes. As chances já não eram muito grandes.
– Ela foi forçada – disse James, em tom alto. – Ela foi obrigada a dizer isso!
– Cale a boca, garoto! – Moody vociferou puxando James de volta ao seu assento com sua mão direita. – Mais uma dessas e você está fora daqui.
James desvencilhou-se da mão de Moody e se sentou, nervoso. Eu não sabia o que fazer.
– Muito bem, Srta. Evans, acompanhe a Srta. Lidget para fora do tribunal – Bones terminou por dizer, decepcionada.
A garota me acompanhou, com os ombros tensos e arrumando a camiseta. Do lado de fora, ela desabou a chorar. Seu pai a aguardava, e tinha expressão de preocupado. Eu queria ter dito "não se preocupe" ou "você foi muito corajosa" mas não deu tempo. Ou eu não tive a iniciativa. Observei-a saindo vagarosamente pelas escadas. Recebi um último olhar culpado da garota. Tentei sorrir.
Entrei no tribunal e Wilkes estava sentado e parecia ansioso pela primeira vez. Sentei-me e não sabia pelo que as pessoas pareciam esperar. Provavelmente seria pela próxima testemunha. Ouvi um barulho de correntes e a porta se escancarou. Fiquei surpresa. Era o primeiro Comensal da Morte já capturado, no ano passado. Quando ele foi preso ninguém ainda os conhecia por Comensais da Morte. Agora o nome parecia ter se popularizado. Ele foi colocado à frente de Wilkes e o encarava copiosamente, parecendo feliz.
– Senhoras e senhores, este é Avery, capturado em seis de Julho de mil novecentos e setenta e sete, autodeclarado Comensal da Morte, seguidor de Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado – apresentou Bones. – No dia de hoje Avery tomou três gotas de Veritaserum e será obrigado a responder verdadeiramente às minhas perguntas.
Todos seguraram a respiração por um instante. O uso de Veritaserum em prisioneiros estava em discussão na comissão dos Direitos Humanos do nosso Departamento. Aquilo sim traria um debate enorme para eles. Avery retorceu o nariz em loucura. Ele babava incessavelmente, por deixar sua boca aberta. Seus olhos estavam vivos. Aquele era o pai do meu ex-colega de Hogwarts.
– Avery, John Wilkes, o homem à sua frente, participa do grupo de seguidores do Lorde das Trevas?
– ela perguntou.
A sala caiu em um silêncio mortal.
– Hehe, não, não – ele disse, rindo bobamente. – Ele não é nada, esse cara, hehe, nunca vi, hehe, não, não, por favor, não me deixem voltar pra lá, ah, não, não, por favor. FRACO! Você é FRACO, FRACO, FRACO, não faz parte, nós não somos fracos, seu FRACO, FRACO, FRACO.
O coro do homem continuou até que alguém obrigasse os aurores a tirá-los da sala. A sala permanecia em silêncio, ouvindo os gritos de "não" e "fraco" vindos do lado de fora. Por algum motivo aquilo me deu um nó na garganta. Por trás da sua loucura eu conseguia ver um homem normal que uma vez já fora. Seria aquilo trabalho de dementadores ou de isolamento social? Dementadores, provavelmente.
Olhei para James e Moody, juntos na plateia. Ambos carregavam expressões amargas, de quem acabou de tomar um tapa na cara do próprio pai. Wilkes seria liberado. Sim, ninguém o puniria e ele sairia do Ministério da mesma maneira que entrou: desalgemado. Meu desgosto era enorme, e julgava que o de Bones e Crouch também, que permaneciam impassíveis, diante de rostos de bruxos e bruxas que se tomaram por convencidos pela defesa do réu, cuja única testemunha, de um elfo doméstico obrigado a mentir na corte, rebatera as outras três da persecução.
– Esta sessão será interrompida para a ponderação das provas – Sr. Crouch disse, estático. – Retornaremos para a votação daqui a exatamente trinta minutos – Em seguida bateu o malhete e se sentou.
O burbúrio foi imediato. Eu só queria que aquilo acabasse logo. Olhava para as minhas próprias mãos. Será que Wilkes era culpado mesmo? Talvez o elfo doméstico estivesse falando a verdade. Quer dizer, nem todas as pessoas más são Comensais da Morte. Talvez eu devesse dar o benefício da dúvida a ele. E não poderia fazê-lo com James me olhando durante a votação. É, eu votaria pela libertação de Wilkes. Por isso teria de pedir para Bones para sair de lá.
– Madame Bones? – chamei-a. Ela olhou para mim. – Por favor, me perdoe, mas não acho que eu deva votar hoje.
– Estive pensando o mesmo, só não queria voltar atrás com a minha palavra – ela disse, sorrindo. – Esse caso foi mais decepcionante do que imaginava.
– Imagino que sim.
– Queria que você sentisse o quão maravilhoso é poder votar a favor de uma condenação certeira ou de uma liberação certeira também – ela comentou, suspirando. – Hoje não houve nada certo, mesmo que eu pensasse o contrário.
– Avery foi uma surpresa – eu revelei, sorrindo. – Se ele tivesse reconhecido Wilkes, tudo seria diferente.
– Era o que eu tinha em mente – ela respondeu, assentindo. – Mas da próxima vamos pegar o bastardo.
– Com licença – eu disse, ainda sorrindo, e me levantando da bancada. Fui para fora o mais rápido possível.
Esse trabalho não é pra mim, pensei assim que atingi o corredor do andar. Não, mesmo. Eu teria de começar a pensar em outra carreira. Minha aspiração de trabalhar no Departamento de Execução das Leis da Magia era apenas minha vontade de me vingar de Voldemort. Agora eu tinha outra maneira de fazê-lo, então não fazia mais sentido. O problema era que eu precisava do dinheiro. Eu sempre gostei muito de Trato das Criaturas Mágicas. Será que devia tentar algo do tipo? Se bem que eu provavelmente seria mandada para fora da Inglaterra, não teria ninguém conhecido. Também não teria nenhum Voldemort. Eu já não tinha família mesmo. Seria esse o caminho? Louca, você está louca, minha própria voz ecoou na cabeça. Se eu quisesse fazer a diferença, não conseguiria fugindo para a Armênia. Por mais que eu gostasse de dragões, unicórnios e pelúcios. Talvez eu devesse adotar outro gato. Não, qualquer animal sofreria muito nas patas de Lancelot. Ele é muito mau.
Bom, de qualquer forma eu teria mais dois meses até o próximo julgamento. Bones chamaria Grant no próximo mês e Brody ainda no próximo. Dois meses de papeis chatos e irritantes. O trabalho era sim hardcore. Só que de uma maneira péssima. Não sei se eu aguentaria. Tentaria, pelo menos. O dinheiro não era muito, mas eu precisava dele. E continuaria assim até eu arrumar uma outra opção.
Decidi esperar por James do lado de fora do tribunal. Aquele corredor me dava medo. Em vários minutos, ninguém passou por lá. Era preto e mal-iluminado por tochas com chamas azuladas e muito quentes, o que me dava a sensação estar febril. Tirei a bata para ver se melhorava. Alguns minutos se passaram e eu comecei a realmente achar que estava com febre. Talvez eu devesse ir embora, tomar um chá e dormir o quanto antes. Mas isso não teria a menor graça. Precisava saber com certeza se Wilkes tinha sido absolvido. Sentei-me no chão e repousei a cabeça na parede.
– Oi – uma voz conhecida soou ao meu lado. – Você está bem?
– Ah, James – eu reconheci, ainda com os olhos fechados. – Não faço a menor ideia, e você?
– Também não – ele disse, encostando seu ombro no meu. – Você parece doente.
– É porque eu estou – respondi, respirando fundo. – Achei que tivesse passado, mas pelo jeito é gripe mesmo.
– Talvez fosse melhor se você voltasse para casa – ele sugeriu. – Você tem as suas amigas para chamar, caso qualquer coisa dê errado, certo?
– Não vou morrer de gripe, não estamos mais em mil e seiscentos – disse, rindo um pouco. – Prefiro esperar só pra ter certeza.
– OK – ele disse. – Fora a gripe, tudo bem?
– Não sei se quero trabalhar aqui – falei, tirando o peso das minhas costas. – tudo bem, é uma ótima oportunidade, mas agora que temos a Ordem, não me parece muito útil ficar julgando as pessoas. Pelo que sabemos, Wilkes pode não ser um Comensal, assim como pode ser. Enquanto não tivermos evidências, nada vai fazer a diferença. Nada.
– Você pensa em mudar de carreira? – perguntou.
– Sim – disse, olhando para ele. – Eu faço bolos incríveis. Também jogo bexigas muito bem, talvez devesse entrar para campeonatos.
– Esse é o pior jogo do mundo, Lil – ele comentou, cobrindo a boca para não deixar o riso escapar e atrapalhar a sessão. – Snap Explosivo eu aceitaria, mas não vou deixar você estragar seu futuro com bexigas.
– Não faço ideia de como se joga isso – eu disse. – Mas sério, você precisa comer um dos meus bolos qualquer dia desses.
– Eu aceito, mas com duas condições.
Ele tirou a varinha e conjurou um frasco de vidro cheio de líquido amarelo.
– Isso é urina? – perguntei, com ânsias.
– Isso é uma poção e é antigripal – ele respondeu. – Minhas condições são que você tome isso e sare da gripe, e que faça o bolo ainda hoje.
– Por que ficou tão ansioso? – perguntei, pegando o frasco de sua mão e engolindo o líquido que, surpreendentemente, tinha gosto de maracujá.
– Porque eu nunca vi alguém cozinhar – respondeu, de modo simples. – Minha mãe só entrava na cozinha para falar com os elfos domésticos e eu duvido que meu pai tenha entrado lá alguma vez na vida.
Nossa, ele deve ter bastante dinheiro. Os elfos domésticos, no plural. Nunca imaginei James Potter como ricaço.
– Você mora com eles? – perguntei, sentindo que estava começando a conhecê-lo melhor.
– Com meu pai, sim – ele respondeu, fitando a parede oposta a nós. – Minha mãe faleceu perto do Natal.
– Eu sinto muito – disse, ao mesmo tempo em que me batia mentalmente por ter trazido um assunto desses à tona, tão cedo.
– Tudo bem, Sirius tem ajudado muito em casa – ele respondeu. – Meu pai sempre gostou muito dele.
– Seu pai parece legal – eu disse. – Eu lembro que Sirius morou com vocês durante um tempo, não sei se meus pais teriam feito o mesmo.
– Bom, é diferente, meus pais conheciam a família de Sirius havia décadas – disse. – E quando Sirius foi embora da casa dos Black, meus pais o acolheram imediatamente, afinal, ele devia ser sensato, segundo meu pai.
– Às vezes esqueço que você é puro-sangue.
– Às vezes eu gostaria de esquecer, também.
BANG! A porta se abriu de repente e James me ajudou a levantar o mais rapidamente que pôde. A gripe já começava a passar, mas eu ainda me sentia febril. Muitos bruxos começaram a sair do tribunal, e era muito difícil dizer qual teria sido o veredicto final. Não precisamos esperar Bones ou Moody saírem da sala. Wilkes, de terno e gravata, com uma capa preta majestosa que me fazia lembrar de quadros de condes ingleses, saiu com atitude de vitorioso.
Naquele momento, eu soube que ele era culpado. Ele entrara confiante e saiu mais confiante. Devia se sentir intocável. Sem percebermos, James e eu nos aproximamos, lado a lado. Wilkes andava olhando para nós, deixando claro que nos reconhecera dentro da sala. Ele parou. Fiquei apreensiva. Não queria que James fizesse nada por impulso, como eu sabia que era de seu feitio.
– Eles procuram por vocês – ele murmurou para nós. – Se fosse comigo, eu tomaria cuidado.
– Obrigada, Wilkes – eu disse, em voz alta, segurando o pulso de James. Várias pessoas se viraram para tentar descobrir por que o interrogado conversava em segredo com funcionários do Ministério.
O rosto de Wilkes se retorceu em raiva e ele se virou, fazendo uma cômica impressão do Drácula com sua capa. Quando ele desapareceu pelas escadas, eu soltei o seu braço. Pude ouvi-lo xingando baixinho. Afinal, ele não era a pessoa mais calma do mundo e eu sabia disso. Eu também não estava nada tranquila. Tentei respirar fundo e comecei a puxá-lo para as escadas. Madame Bones e Moody não sairiam de lá tão cedo. Deviam querer conversar privadamente.
– Vamos – chamei. – O bolo, lembra?
Ele assentiu e começou a me seguir. Era o fim do turno de vários empregados e eu não estava acostumada a sair do Ministério antes das 21h, era de se esperar que eu assustasse com a quantidade de bruxos presentes no Átrio, despedindo-se dos colegas e dando boa noite. James me seguia, um pouco mais feliz. Talvez tenha começado a esquecer do episódio.
– Eu entendo que eles me procurem, sou conhecido na comunidade, mas por que você? – ele perguntou, parecendo desconsertado. E não, ele não havia esquecido de Wilkes, apenas trabalhava com a informação.
– Às vezes você esquece que sou nascida trouxa – respondi, sorrindo sarcasticamente. – O Ministério tem registro de todos nós.
Desaparatamos em conjunto, para o beco ao lado do meu prédio. A noite já estava escura e não se podia ouvir nada além de ocasionais carros que passavam por lá. Puxei-o para dentro do saguão e ele esqueceu momentaneamente do que pensava para admirar os elevadores. Aquilo seria divertido.
Depois de sairmos do elevador (e de várias observações como "tem certeza que está indo para cima?" ou "podemos ir de novo?"), entramos em casa e despejamos os casacos na poltrona mais próxima. Emme nunca gostava quando eu fazia aquilo, mas ela daria um desconto dessa vez.
– O que é isso? – ele perguntou, apontando para a TV.
– Nunca ouviu falar de uma televisão? – rebati, coçando a cabeça. – Bom, você pode ver por si próprio.
Peguei o controle e cliquei em ligar. Ele tomou um susto tão cômico, tão memorável, que eu nunca vou parar de relembrá-lo desse dia. Sim, aquele dia seria imortal. O dia em que James descobriu a televisão. Ele, alucinado pelo novo objeto, zapeou entre os canais até encontrar um programa famoso de dança da época. Dirigi-me à cozinha, enquanto ele gritava de lá "eu preciso aprender a fazer isso". Peguei todos os ingredientes. Depois de uns minutos encontrei um bilhete na fruteira que dizia:
"Querida Lily,
Estarei fora pelo resto da semana, vou dormir no escritório. Por favor, se você puder, me traga calcinhas no domingo, não sei exatamente que dia poderei ir embora.
Edith."
e um adendo embaixo:
"Lil,
Hoje eu tenho um encontro (sim, também estou abismada com isso). Te vejo amanhã de manhã de tudo der certo. Guarde jantar para mim.
Emme."
O dia ficava cada vez mais estranho. Emmeline Vance tinha um encontro. Eu estaria sozinha com James Potter àquela noite. Um calor subiu pela minha espinha e eu ri baixinho. Achei melhor iniciar o bolo sozinha. Ele parecia se divertir muito na sala, e seria bom se ele tirasse a cabeça do Ministério por uns momentos. Ninguém aguenta tanto estresse. Eu me esforçaria para fazer daquela noite relaxante. E pra isso eu precisava esquecer todos os meus problemas. Naquele dia, eu, Lily Gwenold Evans, tinha uma carreira perfeita, não tinha medo de morrer, não era órfã e não estava cinco quilos acima do peso.
Certo. Leite, açúcar, ovos, farinha, fermento, manteiga, baunilha e lavanda. Sim, eu me arriscaria e faria um bolo com gosto de lavanda. Obviamente eu nunca tinha feito um antes, mas havia estudado bem a receita anteriormente. Além do mais, o que é a vida sem riscos?
– Lil, você quer ajuda? – o ouvi perguntar da sala.
– Não, prefiro não – respondi, sinceramente.
Eu odeio quando tem mais de uma pessoa na cozinha. E essa pessoa era eu. Comecei a preparar a massa, pensando na pobre Edith que provavelmente trabalharia até a exaustão. Talvez eu devesse parar de reclamar do meu trabalho e mandar um grande pedaço do bolo para ela, caso ele ficasse bom. Terminei tudo, coloquei a assadeira no forno e fui para a sala esperar o cronômetro soar.
– Pronto, agora é só esperar – anunciei, sentando-me no sofá junto dele. – O que você está assistindo?
– Acho que o noticiário – ele disse. – É interessante essa televisão, não sei por que não temos isso no nosso mundo.
– Eles mal querem trouxas, imagine televisões – eu disse, abafando um riso irônico. – De qualquer jeito, você pode muito bem comprar uma quando sair da sua casa.
– Com certeza eu vou comprar, é fascinante – ele concluiu. – O que você quer jantar?
– Eu estava pensando em pedirmos uma pizza, ou comida chinesa – respondi, vagarosamente. Não tinha certeza se ele sabia o que isso significava. Senti-me falando com uma criança de três anos.
– Já comi pizza – ele disse, sanando minhas dúvidas internas. – Mas o que vem numa comida chinesa?
– Bom, dependendo do prato, macarrão, arroz, peixe, frango e muitos legumes – disse.
– Certo, podemos pedir isso, então?
– Claro, vou ligar assim que tomar um banho.
Ele assentiu. Percebi que ele procurava pelo telefone com os olhos, com certa curiosidade. Ri baixinho e fui até meu banheiro. Despejei a água morna na banheira e me despi. Estava agradável. Tive a impressão de que há décadas não entrava na banheira. Fiquei de molho por um tempo, lavei os cabelos e de vez em quando pude ouvir James rindo alto da sala. Ele devia ter encontrado algum programa engraçado.
Saí e coloquei uma roupa confortável. Calça de moletom, camiseta e chinelos. Não, eu não queria impressioná-lo. Mas sim, eu estava sem sutiã. Um pouco de provocação não faz mal a ninguém. Ou faz, mas dessa vez não faria. Passei pela sala, sentindo os seus olhos em mim. Tentei manter a compostura e fui direto à cozinha. O bolo cheirava bem e faltavam cinco minutos para dar o tempo. Preparei a cobertura e, finalmente, tirei a assadeira do forno. Desenformei e o montei em uma bandeja de vidro. Tomei o cuidado de guardar um grande pedaço para Edith.
– Ok, agora é só esperar esfriar – anuncei. – Vou fazer o pedido, o que você vai querer?
– Ahn, o mesmo que você – ele disse.
Liguei para o restaurante e pedi dois yakissobas tradicionais. Voltei para a sala e percebi que ele me evitava com os olhos. Na TV passava um daqueles programas idiotas com jogos com plateias. James não parecia achar tão idiota, porque ria esporadicamente, quando alguém não acertava a resposta e recebia um balde d'água na cabeça.
Ficamos em silêncio até a comida chegar. Comemos também em silêncio.
– Isso é realmente diferente – ele comentou, com a boca cheia de macarrão. – Quer dizer, quem diria que dá pra comer com palitos? Acho que sou realmente bom com isso.
– Acho que no ano passado Hogwarts teve um prato de yakissoba, ou algo parecido com isso, mas não deu muito certo – disse. – Dumbledore queria diversificar o cardápio, segundo Hagrid, mas os elfos domésticos não faziam ideia de como se fazia comida chinesa.
– Deve ter ficado horrível – ele disse, terminando o seu prato. – Acho que devíamos fazer isso mais vezes.
– Claro, e agora você vai experimentar meu bolo.
Ele sorriu, com um pedaço de brócoli no dente da frente. Resolvi não avisá-lo.
Comemos o bolo, que estava surpreendentemente bom. Ele não parava de me elogiar. Parecia sincero, mas exagerado.
– Nunca comi algo parecido, do que é?
– Lavanda – respondi, sorrindo. – E obrigada.
– Por nada, ficou realmente bom – ele disse, terminando seu segundo pedaço. – Você tem um ótimo futuro como boleira.
– Ha, às vezes penso se não devia largar tudo e virar boleira– eu disse.
– Bom, pra falar a verdade, eu não estou tão feliz lá na Academia, também – ele comentou, apoiando o queixo na mão. – O pessoal é legal, mas eu pensei que teríamos muito mais ação do que a realidade fornece.
– É, acho que me sinto da mesma forma – disse. – Mas talvez seja só o treinamento? Ainda temos muito pela frente.
– É o que me segura lá – ele respondeu. – Eu não preciso trabalhar, na verdade.
– A Grande Família Potter – eu disse, rindo. – Aposto que você poderia se aposentar, se quisesse.
– Não é tanto assim – ele comentou, encabulado. – Mas você ganharia a aposta.
– Não acho que você deva se envergonhar por ser puro-sangue, James – eu disse, agora séria. – É tão perfeitamente normal quanto eu ser nascida-trouxa.
– Mas você é mais bonita – ele disse, sem fazer sentido algum. Independente disto, meu rosto ficou vermelho-camarão. – Talvez seja padrão nas nascidas-trouxa.
– Sim, todas somos lindas, ruivas e inteligentes – eu disse, como a sarrista que eu sou.
– E todas amam James Potter – ele completou.
– Nós esperamos que o amor não seja platônico – rebati, debruçando-me sobre a mesa. Agora ele olhava diretamente para meu decote e parecia ter perdido o fio da meada.
Ele entrelaçou os seus dedos no meu cabelo, penteando e arrumando as madeixas soltas e úmidas. Passou a mão na minha têmpora e em seguida pela bochecha. Fechei os olhos. Senti o toque no meu ombro e o ouvi levantar. Imitei-o e pus meus braços em volta do seu pescoço.
– Emmeline, Edith...?
– Não vão voltar hoje – respondi, acariciando seu cabelo despenteado.
Eu me sentia nervosa e elétrica. Não queria começar a tremer. Suas mãos quentes me abraçaram e meus lábios tocaram os dele. Pude sentir o gosto do bolo durante nosso beijo lento e letárgico. Ele respirava rápido e percebi que eu também. O segundo beijo explodiu em chamas. Minhas mãos percorriam seu corpo, enlouquecidas. Sentia sua respiração quente enquanto eu o guiava para o quarto, com as mãos trêmulas. Não sabia de onde tinha tirado aquela coragem.
Entramos e fechamos a porta, ofegantes. Não enxergava mais nada, exceto que todas as cores pareciam mais quentes. O azul da parede deu lugar a um marrom avermelhado, o escuro da noite era apenas o por-do-sol em seu final e, principalmente, aquela pele era levemente bronzeada, roçando à minha. Era confortável e desconfortável. Deitou-me na cama e ficou sobre mim. Tirei sua camisa, enquanto ele tirava a minha calça. Ele subiu devagar, passando a boca sobre minha blusa, do umbigo ao queixo. Fechei os olhos e ele beijou meu pescoço lentamente. Queria desesperadamente que me despisse, mas ele continuou a enlouquecer meu corpo com sua língua e mãos absurdamente quentes.
Resolveu tirar a própria calça e eu o abracei com as pernas. Neste momento ele mordiscou o lábio inferior, soltando o ar de seus pulmões e descendo em direção ao meu rosto. Beijei-o intensamente. Parecia ter despertado um selvagem que me explorava sem vergonhas, passeando pelas minhas costas, pernas, barriga, seios, umbigo, seios, umbigo, virilha.
Tirei sua roupa íntima e ele arremessou minha blusa para o outro lado da cama, não perdendo tempo e lambendo minha orelha. Mordi seu ombro esquerdo e gemi.
No final, eu não sabia onde minha calcinha tinha ido parar.
Ficamos deitados, imóveis e silenciosos. Não fazia a menor ideia do que aquilo significava. E muito menos do porquê de eu ter feito aquilo. Há mais de um ano eu saí com James Potter, e naquela noite ele estava na minha cama. Talvez eu tivesse que quebrar o paradigma de santa que alimentei durante dezoito anos. É, devia ser isso. Eu definitivamente não amava James Potter. Certamente tudo o que eu sentia era frustração sexual engarrafada dentro de mim, e eu precisava explodir.
– Você tá legal? – ele perguntou. Sua voz quebrou o silêncio de tal forma que eu me assustei.
– Claro, claro.
– Isso foi excelente – continuou. – Você tem certeza que está bem?
– Sim, eu só fico pensando.
– Em quê?
– Não é nada – respondi, balançando a cabeça. – Não temos que namorar ou algo do tipo, certo?
– Claro que não, não estamos mais nos anos cinquenta, Lil – ele respondeu, pegando minha mão. – Isso pode ser puramente sexual se quisermos.
– Oh, meu Deus, eu tenho um affaire! – exclamei, arregalando os olhos. – Alexander Pope bem que tentou me avisar.
– Lily, acho que você ficou perdida no século passado – ele disse. – Aliás, retrasado, se não me engano.
– Você sabe do que eu estou falando? – perguntei, assustada.
– Do poema que esse cara escreveu, não? – ele disse. – É famoso em toda a Grã Bretanha.
– Certo...
– E não se preocupe, você não é nada como a protagonista, ninguém precisa ficar sabendo do nosso affaire.
