20 de Agosto, 1978

Levantei-me, sozinha na cama. Por alguns instantes nada parecia fora do normal. Exceto pela cueca de James, debaixo de Lancelot, que dormia tranquilamente. Oh, meu Deus, eu transei com James Potter. Fiquei eufórica, meus olhos se abriram totalmente e eu segui para o banheiro. O bastardo não tivera a decência nem de deixar um bilhete.

Abri a porta e me deparei com um pequeno papel grudado no espelho. Ok, talvez ele não seja tão infeliz ao ponto de não deixar um bilhete. Sua caligrafia era apertada e garranchosa.

Lil,

Não fique brava. Achei melhor ir embora antes de alguém me ver. Pelo bem do nosso affaire.

Atenciosamente,

JP.

Atenciosamente. Isso era realmente uma relação estritamente sexual. Pelo menos era casual, já que eu realmente precisava repetí-la de vez em quando, segundo os frios na barriga que eu sentia quando pensava no que acabara de acontecer. Balancei a cabeça e comecei a me arrumar. Seria uma sexta-feira muito estranha. Não sabia se conseguiria manter uma pose normal quando o encontrasse pelos corredores.

Vesti-me e saí pela porta. Comi o resto do bolo (Emmeline ou James comeram o bolo inteiro) e segui para o trabalho. Senti-me na praia, o clima estava quente e úmido, o sol brilhava impiedoso e meu nariz sofria de queimaduras. Precisava começar a passar protetor solar antes de sair de casa.

Chegando ao Ministério, meu estômago começou a dar voltas e não se decidia de que maneira ele ficaria mais confortável. Cheguei ao meu corredor e Brody já se encontrava na sala, organizando uns papeis.

– Bom dia! – ele disse, sorrindo. – Ouvi dizer que o julgamento de ontem foi complicado.

– Julgamento? – perguntei, tentando me lembrar. – Ah, sim, é.

Bolotas! Eu tinha esquecido completamente da corte. Teria de fazer um relatório para Bones e para Dumbledore sobre aquilo. James Potter acaba com minha memória. Seria outro dia horrível. Eu já tinha muitas coisas para lidar além do trabalho. Por que a vida faz isso comigo? Tentei raciocinar o que faria primeiro. O que era mais importante? Bones ou Dumbledore? Bones me comeria viva. Dumbledore não. Maaaas, é muito mais eficiente para o mundo bruxo se eu der prioridade às instituições que realmente funcionam. No caso ela seria a Ordem da Fênix. Acho que vou fazer o mesmo relatório para ambos.

– Você acha que ele era culpado? – ele me perguntou. – O cara parecia realmente seguro de si, de acordo com o Profeta.

– Tenho certeza – respondi. – O Profeta já lançou a matéria?

– Sim.

– Bom, vou tomar café e já volto pra cá – disse, largando minha bolsa na mesa e me dirigindo à cafeteria. – Preciso ler o jornal.

Não sabia o que esperar do Profeta Diário. Ultimamente ele parecia muito vendido, na minha opinião. Uma pena que não tenha nenhum outro para confrontar esse monopólio. Talvez esse fosse o meu caminho. Abrir um outro jornal e ficar rica. Oh, quem sabe escrever uma coluna sobre bolos em um jornal novo? Vou sugerir a ideia para Edith. Fiz uma nota mental sobre aquilo.

Senti o cheiro de ovos fritos e aquilo revirou meu estômago. Eu nunca ficava enjoada com o cheiro de ovos fritos. Nunca. Gravidez, ecoou uma voz unissex na minha mente. Quê? Eu? Grávida? Mas eu nem transo! Ah, é. Ah, não, não, não, não. Eu não podia ficar grávida. Lily, respire. Você obviamente não está grávida. E se estiver, certamente os sintomas não apareceriam logo no dia seguinte à sua primeira relação sexual, então dê a si mesma o benefício da dúvida e vá comprar um teste de gravidez depois do expediente. Sim, DEPOIS do expediente, porque você vai se manter tranquila e inabalável.

– Muito bem, agora vou pedir os malditos ovos – falei para mim mesma, baixinho.

– Bom dia – o atendente reclamou com voz entediada de quem realmente não me desejava um bom dia. Talvez estivesse mais para o contrário. – O que vai ser hoje?

– Ovos – eu disse, simplesmente. – E suco de laranja.

– Mais alguma coisa?

– Um café também vai bem – eu disse, colocando o dinheiro no balcão. Ele me deu o troco e entregou a comida, que já estava pronta.

Peguei um jornal e comecei a comer. Uma foto de Wilkes estampava a primeira página, com a manchete de INOCENTE! Que me embrulhou o estômago ainda mais. Sim, eles realmente estavam defendendo o Comensal da Morte. Larguei o Profeta de lado e terminei a refeição. O que faltava acontecer hoje? Uma tempestade de raios? Pelo menos era sexta-feira. Eu passaria o final de semana inteiro de molho na banheira, com um copo de leite e lendo qualquer livro do século XIX.

Ok, eu preciso comprar esse maldito exame de gravidez. Levantei-me, deixando o prato para trás. Os relatórios poderiam esperar, já que se eu estivesse grávida de um pequeno Potter eu não teria com o que me preocupar financeiramente. Quem diria, Lily Evans praticando o golpe da barriga. Afastei o pensamento cretino da minha cabeça e comecei a procurar uma farmácia do lado de fora do Ministério.

Achei uma beeeem merreca e entrei, de cabeça baixa. Peguei um teste e paguei, ainda de cabeça baixa, com medo que alguém me reconhecesse.

Voltei para o Ministério com a sacolinha na mão, e cheguei ao meu andar. Onde era o banheiro por ali? Realmente estranho eu nunca ter ido fazer xixi em outro banheiro que não fosse o da cafeteria.

– Lil! – disse a última voz que eu queria ouvir. Virei-me.

– James! – disse, tentando parecer feliz.

– Eu só queria ter certeza de que tudo está OK entre nós – ele disse, parecendo envergonhado.

– Claro, somos amigos, certo? – perguntei, segurando a sacola nas minhas costas.

– Óbvio – ele concordou com a cabeça. – Você tá meio pálida.

– Eu sou pálida mesmo – disse, dando de ombros.

– Na verdade você é bem rosinha na maioria do tempo – ele falou em tom de malícia. Eu devo ter ficado muito vermelha, de acordo com o que ele disse depois: – Ótimo, agora você está com alguma cor nas bochechas.

– Hehe – ri, sem graça.

– O que é isso?

Ele estava apontando para a minha sacola, que por acaso eu tinha esquecido de manter fora de sua vista. Não dava pra ver o que era.

– Não é nada.

– Você tá doente? – ele perguntou, apontando para o logotipo da farmácia. – Você sabe que sempre tem alternativas bruxas muito mais eficazes para doenças trouxas, certo?

– Claro, mas fique tranquilo, não é nada – respondi, querendo desviar do assunto. – Onde é o banheiro aqui embaixo?

Ele ficou estático.

– Você acha que... – ele começou. – Oh, Merlin, você acha que...

– Não, não, não, não, eu sou paranoica – disse, rapidamente. – E como raios você sabe sobre o exame?

– Eu não sou idiota, Lily – ele respondeu, rispidamente. – É na segunda porta à esquerda.

Eu agradeci e comecei a andar na direção do banheiro. Sentia seu olhar pesado às minhas costas e por algum motivo fiquei mais calma. Eu não tinha com o que me preocupar. Ele não tinha surtado, então não tinha problemas. Obviamente eu não estava grávida. Certo?

Entrei na cabine e não sabia como lidar com o palito. Aparentemente eu não fazia ideia de como usá-lo. Li as instruções na caixa e comecei. Era extremamente desconfortável, mas me segurei até terminar de urinar. Ainda lá dentro, esperei pelo resultado sair. Podia levar cerca de um ou dois minutos. Toda minha calma passou e eu comecei a sentir fortes palpitações no peito. Suava frio. A única vez em que estivera tão nervosa assim foi no dia em que Avery quis se despedir de mim no sétimo ano. Graças às minhas habilidades com a varinha eu tinha escapado, mas a situação atual não seria resolvida com um toque da varinha ou com minha destreza mental.

Um risco.

O que raios isso significava?

Peguei a caixa do lixo (com nojo) e olhei. Um risco = negativo.

Por algum motivo eu pude sentir um pouco de decepção em meio à alegria. Claro, eu estava totalmente despreparada para ter um filho: sem pai, mãe, namorado, trabalho fixo, eu morava em um apartamento pequeno com outras duas mulheres e meu lado emocional estava um lixo. Mesmo assim, eu deixei derramar uma lágrima, dei um soluço e tentei me recompor. Aquilo era bom. Criança nenhuma merecia viver sob essas condições, por mais maravilhosa que a mãe ou o pai sejam.

Saí da cabine e limpei os olhos com papel higiênico. Eles estavam um pouco mais vermelhos que o normal, mas eu achei que daria para disfarçar. Ajeitei a roupa, me recompondo. James provavelmente estava completamente preocupado àquela hora. Eu devia estar no banheiro havia mais de cinco minutos. Talvez ele tivesse achado que eu fugira pelas janelas. Claro que ele não acharia isso, porque ao contrário de mim, ele lembra que as janelas são encantadas e que realmente não há maneira de fugir por elas.

Deixei o banheiro com a melhor expressão que pude. Coloquei um sorriso na cara e fui de encontro a ele.

– Viu? – eu disse, apontando para meu rosto. – Era paranoia, eu me conheço.

– Graças a Merlin – ele disse, soltando todo o ar que tinha nos pulmões. – Claro que eu assumiria responsabilidades, mas minha nossa, como é bom não ser pai aos dezenove anos.

– Eu que o diga – falei, tentando ficar animada. – Bom, vou pro escritório, a gente se fala mais tarde?

– Certamente – ele respondeu, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. – Até mais.

Suspirei, observando-o ir embora. Fui despertada to transe por Grant, que chegava atrasado ao trabalho, e me lembrei que precisava fazer os relatórios. Exalei uma boa quantidade de ar e sentei-me a uma das mesas do escritório. Peguei pergaminho, tinta e pena e comecei.

O resto do dia foi chato, como sempre, mas produtivo. Terminei tudo o que pretendia terminar, joguei conversa fora com Brody e Grant, o que não fazia havia alguns dias por motivos profissionais. Sentia-me mais animada no final do expediente. Bones não havia aparecido durante o dia inteiro. Só recebemos alguns memorandos sobre o que tínhamos de fazer na próxima semana, já que, pelo jeito, ela não nos veria até o final do mês. Segundo Yolanda, a assistente sênior dela, Bones viajaria para a França e permaneceria lá até resolver um caso de criminosos britânicos que agiram por lá.

– Lily, uma tal de Marlene quer falar com você – Grant disse, indicando a porta.

Ahhhh, nada como uma conversa desagradável para fechar um dia maravilhoso como aquele. Fechei minha bolsa com um estalo, desejei boa noite e um agradável final de semana e me dirigi ao corredor. Eu começava a ficar cansada daquele ambiente escuro e monótono.

– Oi, Marlene! – eu disse, tentando ser afável.

– Lily – falou, também fazendo um considerável esforço para não ser rude. – Nós faremos um encontro no próximo sábado à tarde, com a maioria dos membros.

– Certo, muito obrigada por avisar – eu disse, aliviada. Não seria uma conversa longa.

– Ah, e James pediu para te entregar isso – ela completou, mostrando um bilhete. Percebi que ela o fazia de mal-gosto.

– Ah, ok, obrigada de novo – eu respondi, pegando o bilhete. – Boa noite!

– Noite – ela respondeu, virando-se e voltando para cochilar no Quartel dos Aurores.

Suspirei, imaginando que o dia tinha acabado. Abri o bilhete.

Lily,

Desculpe não te falar tchau hoje, mas meu pai está no hospital novamente. Não se preocupe. Conto tudo amanhã, por carta.

James.

Oh, Deus. A vida não fica mais fácil, fica? Pobre James. O que será que aconteceu?

Tirei o casaco, porque aparentemente o calor só aumentava conforme a noite caía. Cheguei ao apartamento às 21h13, segundo o relógio. Tomei banho, troquei de roupa e me sentei à mesa da cozinha. Conjurei pergaminho, tinta e pena e comecei a escrever.

James,

Espero que esteja tudo bem. Por favor, mande notícias assim que possível. Não há nada que eu possa fazer? Hoje de manhã tudo parecia normal, você nunca me disse que seu pai estava doente.

PS.: No pote tem bolo para você e para o seu pai, se ele puder comer.

Lily.

Fui dormir, inquieta.

21 de Agosto

Querida Lily,

O bolo estava delicioso, meu pai mandou seus cumprimentos.

Eu nunca disse que meu pai estava doente porque ele nunca esteve doente. O problema é que desde o falecimento da minha mãe, ele criou alguns vícios estranhos. Consegui impedi-lo de gastar toda nossa fortuna em jogos de azar, mas infelizmente ele transferiu a ansiedade para outro campo: o de experimentos. Ele tem esse hobby de criar feitiços. Alguns são inúteis – Uediuósi, que por algum motivo faz chicletes voarem -, outros são extremamente legais, como o Levicorpus. Independente disso, ele sempre acaba machucado. É a terceira vez no ano em que ele vai parar no hospital. Dessa vez parece mais sério, mas o curandeiro diz que não há nada para nos preocuparmos.

De qualquer forma Sirius está comigo. Acho que você se lembra de quando ele fugiu de casa, certo? Deu até notícia no jornal. Ele se hospedou na minha casa por uns dois anos até conseguir comprar um apartamento próprio. Para o meu pai, Sirius é o seu segundo filho, e para Sirius, ele é o seu único pai.

Resumindo, não se preocupe, tudo vai bem.

James.

23 de Agosto

Querido James,

Espero que tudo esteja bem. Não te vi no trabalho hoje e fiquei preocupada. Como está seu pai? E Sirius? Estou realmente inclinada a ir visitá-los se não me responder dentro de dois dias. Eu entendo pelo que você está passando, de verdade. Meu pai adoeceu depois de minha mãe ter morrido. Passei a maioria do meu sétimo ano em Hogwarts preocupada. Não tenho nem certeza de como consegui tirar notas tão altas nos N.I. .

Fiz outro bolo ontem de noite, de chocolate com amêndoas, espero que goste. Estou sozinha em casa pelo resto da semana. Fico muito solitária dessa maneira. Assim que puder, por favor, devolva a carta.

Lil.

26 de Agosto

Lil,

As coisas parecem ter se estabilizado hoje. Desculpe pela falta de notícias, eu só não lembrei de responder, espero que entenda. O bolo estava realmente bom. Meu pai parece gostar muito de você. Fica dizendo para eu pedir mais. Então, por favor, envie mais pedaços. Não me atrevo a pedir para que você venha, já que só permitem familiares no quarto.

Sirius mandou oi.

J.

27 de Agosto

J.,

Obrigada por responder.

Você acha que conseguirá ir ao encontro de sábado?

Diga a Sirius que eu mandei um abraço.

E um beijo para você. Sinto sua falta.

PS.: O bolo é de morango com doce de leite.

27 de Agosto, mais tarde

Lilypad,

Ele parece bem melhor hoje. Amanhã vou sim, mas ficarei pouco. Moody quer falar comigo sobre algo, então acho melhor comparecer. Aí mato as saudades de te ver. Penso em você.

Sirius mandou um "e aí, tudo bem?" e eu mando um beijo e um abraço.

PS.: Realmente acho que o bolo está curando o meu pai. Como você faz isso?

J.

28 de Agosto

Levantei-me cedo e escutei barulho na cozinha. Emme ou Edith? As duas. Podia ouvi-las conversando e rindo alto, nem ao menos se importando com o meu precioso sono. Era sábado, finalmente, e eu acordei às 8h da manhã. Fiquei nervosa. Fiz tudo o que tinha de fazer no banheiro e saí do quarto batendo porta.

– Eu estava com saudades, mas agora só quero matar vocês duas – grunhi. – Podiam ter me deixado dormir pelo menos mais uma horinha.

– Lilypad! – Edith disse, me abraçando. Opa. Opaaaaaa.

– Cadê a carta? – perguntei, estendendo a mão. Emmeline, rindo, deu a carta para mim. – Isso não tem graça.

– Quem é J.? – perguntou Edith, animada. – Acho que merecemos saber depois de dois meses inteiros de amizade!

– Não é ninguém! – eu respondi, bruscamente. – Agora me passem a manteiga.

– Ela está apaixonada – Emme disse, suspirando. – Como isso é bom.

– Não estou apaixonada – protestei. – É só um jeito de falar, todo mundo me chamava de Lilypad na escola!

– "Penso em você" – entoou Edith. – Todo mundo da escola pensa em você, também?

– Vai se ferrar, Edith – disse, atirando meu prato dentro da pia, sem terminar a torrada.

– Ah, Lily, vamos – Emmeline começou, quando Edith pareceu se ofender. – Era só brincadeira, não achamos que você ia reagir assim.

Tranquei-me no quarto sem respondê-la. Eu gosto das duas, sabe. Realmente gosto delas. Mas esse senso de humor é simplesmente intolerável. Eu precisava de algo para fazer enquanto estivesse nervosa. Talvez arrumar o quarto? Bah, isso não. E se eu voltasse a dormir? É, parecia bom. A cama parecia muito convidativa. Lancelot me olhava sonolento, dizendo para que eu retornasse ao lugar que me era de direito: ao seu lado, na cama e dormindo.

– Ok, Lance, você tem um bom ponto – eu disse, sorrindo. – Até porque se eu ficasse acordada, meu humor só pioraria pelo resto do dia.

Ele miou e se virou de barriga para cima. Adormeci.

Senti como se tivesse dormido apenas alguns segundos quando acordei ao som de batidas na porta. Não parecia Edith ou Emmeline. Claro que era James Potter. Só podia ser ele. Agora sim eu teria de aturar poucas e boas nas mãos de Edith. Preparei-me mentalmente para recebê-lo, só joguei um casaco por cima das minhas roupas e abri a porta.

– Oi.

– Oh, Sirius – eu sussurrei. – Ah, que ótimo, entre.

Pude perceber que as duas tentavam olhar para dentro do meu quarto. Sirius não tinha como ser o "meu" J. Nem tudo estava perdido.

– Desculpe entrar assim, é que eu precisava falar com você – ele disse, passando os dedos nos seus cabelos longos e pretos. Nem parecia o Sirius que eu conhecia.

– A culpa não seria sua caso eu ficasse irritada – eu disse, indicando a única poltrona do meu quarto e me sentando na cama. – Edith e Emme estão um pé na bunda hoje.

– Bom, em primeiro lugar, eu vim te escoltar até a sede – ele começou. O QUÊ?! – Em segundo lugar, eu quero construir uma amizade baseada em confiança e se você puder retribuir com algum pedaço de bolo eu agradeceria muito.

– Você veio o quê? – eu perguntei, como se estiversse surda.

– Prongs disse que você levaria isso pelo lado ruim – ele respondeu, dando uma risaca rouca. – Lily, veja só, Prewett descobriu hoje de manhã que o Wilkes estava certo.

– Só pode ser brincadeira – eu disse, apoiando o rosto nas mãos. – Mesmo assim, isso não é motivo pra me escoltarem, eu sei o caminho até a sede.

– Outra coisa que ele descobriu foi um esquema pra pegar a gente lá por perto – ele disse, cruzando os pés. – E agora eles têm certeza de que você tá envolvida com a Ordem, o que te faz prioridade na lista de nascidos-trouxa.

Eu emudeci. Ele estava certo, óbvio. Eu estava brava com a situação, com medo de quem a provocou e agradecida por quem se ofereceu para me ajudar. Eu teria de apagar a minha prepotência de quem acha que dá conta de cinco Comensais da Morte sozinha. Além disso, se fossem cinco ou dez comensais, James tinha mandado apenas Sirius. Ele me considerava capaz de lidar com a situação, só não queria me deixar sozinha. Levei alguns minutos para sintetizar tudo.

– Ok – eu disse, suspirando. – Ok.

– Então vamos almoçar – ele disse se levantando. – Troque de roupa e eu vou esperar do lado de fora.

Assenti e olhei pela janela. O tempo estava fechando. O vento gelado se atirava à minha cara e eu tinha de suportar aquilo. Troquei meu top por um suéter chocolate, meu shorts por calças jeans, meus chinelos por mocassins confortáveis e não me dei ao trabalho de pentear o cabelo. Saí do quarto com cara de bosta. Sirius sorriu para mim, convidando-me a sair de casa. Seria um dia interessante, pelo menos. Nunca tive a oportunidade de ficar a sós com o melhor amigo de James.

– Vejo vocês mais tarde – avisei as meninas, que acenaram para mim, em resposta. Tanto faz. Depois acertamos isso.

Saímos do prédio em silêncio. Era um pouco constrangedor. Sempre observei Sirius de longe. Ele era muito bonito, claro, mas nada que me atraísse muito. Além de tudo, ele sempre foi muito irritante. Por incrível que pareça, James era quem colocava limites no grupo dele, principalmente quando se tornou Monitor-Chefe. Lembro de uma vez que Sirius explodiu uma espécie de pó rosa na cara de uma primeiranista e James ficou furioso. Claro, ficou furioso do seu jeitinho: "Po, Padfoot, não faz isso de novo senão vou ter que dar uma detenção" e afins.

– O clima não tá muito agradável lá em cima – ele comentou, tirando um maço de cigarro do bolso e me oferecendo.

– Elas andam muito atrevidas – retruquei. – Mais tarde eu resolvo isso.

– Elas são bonitas – ele comentou, sonhador. – Imagino que tenham namorado.

– Edith vai se casar no final do ano, inclusive – eu disse, tentando tirar qualquer ideia maléfica de sua mente perversa. – Aonde vamos comer?

– Pensei que você soubesse – ele disse, ainda andando ao meu lado na calçada. – Vamos fazer o seguinte, entramos no primeiro lugar que acharmos nesse lado da rua.

– Certo – eu disse, um pouco temerosa. Espero que não seja nenhuma espelunca.

Acabamos entrando em um barzinho merrecas, comi um salgado esquisito e duvidoso, tomando cerveja. Não, aquilo não era bom. Eu realmente preciso me controlar mais quando for para as reuniões da Ordem. Não queria ficar bêbada como da última vez.

– Vamos que horas? – perguntei, olhando para o relógio que marcava 13h30.

– Daqui meia hora – ele avisou, bebericando da sua garrafa.

– Como está o Sr. Potter? – eu perguntei, depois de reunir coragem.

– Melhor nessa manhã – ele respondeu, sorrindo. – Prongs ficou lá com ele, por isso eu que vim te buscar.

– E como está James? – indaguei, bebendo um pouco também.

– Olha, Lily, eu sei sobre o que está acontecendo entre vocês – Sirius disse, dando risada. – Você pode se abrir pra mim.

– Em primeiro lugar, James te contou? – eu exclamei, indignada. – Em segundo lugar, eu não vou me abrir pra você, com você ou sem você.

– Óbvio que ele me contou, como ele explicaria todas aquelas cartas? – ele disse, sarcasticamente. – Vocês mal se falavam desde Hogsmeade e esperava que eu achasse normal a correspondência de vocês?

– De qualquer forma, nossa relação é estritamente sexual, é só um affaire – eu expliquei, olhando para os lados.

– O quê?! – ele exclamou, aumentando o sorriso. – Vocês transaram?

– Mas... eu achei que ele... – balbuciei tentando controlar minha vontade de matar Sirius para que ele nunca mais mencionasse aquilo e a mim mesma, por ter simplesmente entregado. Obviamente James não havia contado sobre a nossa noite, ele prometeu não contar, e assim o fez. E eu havia contade da mais branda e pura vontade própria. Agora Sirius sabia que eu tinha um affaire com seu melhor amigo, e não deixaria isso barato.

– Ele só contou que vocês se beijaram – ele explicou, terminando a cerveja, deixando uma quantia generosa de dinheiro na mesa e se levantando. – Caralho, que animal!

Mantive-me quieta, engolindo a própria vergonha. Papai não havia me criado para aquilo. Definitivamente não. Que vergonha, Lily Evans.

– Não vou contar pra ninguém – ele disse, ainda sorrindo. – Mas Prongs vai sofrer por ter omitido esse detalhe particularmente quente da relação de vocês.

– Obrigada – eu disse, em voz baixa, acompanhando-o para fora do aposento. – Eu não sei o que tem de errado comigo.

– Nada – ele retrucou, pondo sua jaqueta. – Lily, é perfeitamente normal transar com o Prongs.

– Você só diz isso porque quer que seu amigo transe – eu disse.

– Também, mas ele não precisa da minha ajuda pra isso – ele disse. – Na verdade digo isso pelo seu próprio bem.

– Você não se importa comigo, Sirius – retruquei, rindo baixinho. – Lembra daquele dia no lago?

– Eu era um babaca – falou, também sorrindo. – Mas aposto que sua amizade com a Lula Gigante ficou mais profunda depois de você ir visitá-la.

– Idiota – xinguei, gargalhando. – Mas obrigada, Sirius, sempre admirei sua habilidade de sorrir apesar de momentos como esse.

– Que momentos?

Agora estávamos parados, próximos ao ponto de ônibus. Não lembrava de ter parado, mas pude observar que seus olhos estavam mais cansados e algumas rugas apareciam no fim dos olhos, levemente. E como eu já havia observado, mesmo assim suas íris eram vivas, e o sorriso não o abandonava. Ele ainda era moleque, brincando pelas ruas de Londres com sua motocicleta nova.

– Pelo que eu ouvi sua vida é bem complicada, Sirius – eu respondi, tentando ser o mais delicada possível.

– É, mas existem vidas piores – ele disse, depois de uma pausa que o deixou sério. – Mas deixando isso de lado, você se sentiria ofendida se eu a chamasse pra me acompanhar até aquele beco?

– Não – respondi, entrelaçando meu braço no dele. – Afinal, becos escuros são os lugares mais seguros da Inglaterra hoje em dia.

Depois de alguns segundos andando, deparei-me com uma cena que eu nunca mais esqueceria. Foi a primeira vez que eu olhei para a motocicleta voadora de Sirius Black. Não consegui ver nenhuma marca que eu poderia conhecer. Talvez fosse americana. Era inteira preta, de couro brilhante nos bancos. E enorme. Era enorme.

– Você quer que eu ande nisso? – eu perguntei, dando um sorriso irônico.

– Eu quero que você voe nisso – ele disse, montando nela.

Quê! A única vez na qual eu havia voado foi com uma vassoura e no primeiro ano de Hogwarts. Comecei a suar frio.

– Os trouxas não veem? – indaguei, me aproximando.

– Implantei um feitiço de desilusão – ele respondeu, ligando a moto e acelerando. O barulho me fez dar um passo para trás. A fumaça começou a inundar o beco. – Sobe aí.

Subi na moto, sentindo-me totalmente desprotegida. Eu realmente não acreditava que faria aquilo. Voaríamos acima dos prédios de Londres até sabe-se lá onde num céu que obviamente desabaria daqui a trinta minutos.

– Segura em mim – ele disse. – Ah, e se estiver com frio, tem uma jaqueta ali atrás.

Procurei com os olhos e achei a jaqueta. Vesti e o abracei pela cintura. Nunca pensei que andaria numa moto voadora na minha vida. Os últimos dois meses estavam sendo muito loucos para o meu próprio bem. Só faltava eu provar drogas. Ok, vamos apagar esse meu último pensamento e nos concentrar em posicionar os pés nos pedais, Lily.

– Posso ir? – ele perguntou, acelerando a moto pela última vez antes de começarmos a andar. Ele não esperou pela minha resposta e começamos a nos mover. Entramos na rua e percebi que já estávamos invisíveis, porque Sirius tinha de desviar de carros que não nos viam. O vento bagunçava meu cabelo e eu cheguei à conclusão de que teria de cortá-lo quando chegássemos à sede.

Fora o cabelo, a sensação era realmente boa. Pilotar aquilo sozinha deveria ser maravilhoso. O frio na barriga começava a passar quando percebi Sirius fechando o visor do capacete. Imitei o gesto, ainda bem, e ele começou a empiná-lo. Não tive outra alternativa a não ser gritar. O que RAIOS ele estava fazendo? Queria nos matar? Só depois percebi que aquilo era apenas o primeiro passo para elevar a moto no ar. Oh, meu Deus, estávamos voando.

Nunca tinha visto Londres do céu (obviamente) e foi maravilhoso. A liberdade era tanta que eu sentia vontade de simplesmente me jogar. Talvez fossem meus desejos suicidas enrustidos, também. Hoje eu ando pensando muita merda. Preciso parar o quanto antes. Meus dedos começaram a congelar e eu me arrependi de não ter pegado um part de luvas. Meus pés estavam gelados e eu não os sentia mais.

Uma hora depois de voo, pousamos e minhas juntas não pareciam querer esticar. Desci da moto com dificuldade. Minha bunda doía terrivelmente. Tirei o capacete e confirmei a teoria dos cabelos. Acho que eu não ficaria tão feia careca.

– O que achou? – ele perguntou, sorrindo idiotamente para a moto.

– Legal – respondi, sem realmente saber o que dizer. – Então, vamos?

Ele assentiu.

– Acho que vai chover – ele disse, segundos antes de um trovão soar e me deixar quase surda e as gotas começarem a cair.

Não demorou mais que um minuto para ficarmos encharcados. Lembrei de lançar um Impervius nos nossos rostos (e nos meus sapatos) e continuamos a andar. Foi o mesmo caminho que fiz com James, mas dessa vez a floresta estava iluminada. O chão estava barrento e eu quase escorreguei várias vezes. Sirius já não teve tanta sorte nesse aspecto e chegou à sede completamente sujo de lama.

– Entrem, rápido! – chamou uma voz feminina que eu não parecia conhecer. Invadimos a casa e molhamos o hall inteiro. – Olá, meu nome é Dorcas e você deve ser Lily Evans.

– Só Lily – eu disse, apertando sua mão.

Ela parecia magra demais, em meio aos cabelos negros que lhe caíam até o quadril, nariz pontudo e olhos pretos bem pequenos. Parecia ter mais de trinta anos. Entramos juntos na sala e percebi que Sirius ficava sem graça perto dela. Será...?

– Alguém quer chá? – ela perguntou, sorrindo. – Alastor disse que estará aqui em cinco minutos.

Aceitamos e ela foi para a cozinha.

– Você e ela... você sabe... ? – eu sussurrei em seu ouvido.

– Pode tirar esse sorriso idiota da cara – ele retrucou baixinho. – Eu só a acho incrível.

– O que ela fez pra isso acontecer? – perguntei, de olhos arregalados.

– Ela foi a única de nós a ter lutado contra Voldemort em pessoa – ele respondeu, se sentando.

Uau. Comecei a sentir uma grande quantidade de admiração por ela. Quantas pessoas incríveis fariam parte da Ordem da Fênix? Por que eu ainda não conhecia todas?

– Venham – chamou Dorcas, da cozinha. – Está quase pronto.

Sirius começou a andar e eu fiquei em seu encalço. Dorcas usava roupas bruxas, ao contrário da maioria dos bruxos da nossa idade. Parecia insensível perguntar quantos anos ela tinha, então resolvi deixar a dúvida morrer. Sentamo-nos e eu não conseguia arranjar nenhum assunto para conversar.

– Que horas são? – perguntei, num último momento de desespero. – Achei que fôssemos chegar atrasados.

– Realmente, já era pra eles terem chegado – ela disse, olhando para o relógio de pulso. – São duas e meia.

– Não era pra começar há uma hora? – Sirius perguntou, parecendo preocupado.

– Será que aconteceu alguma coisa? – disse, levantando-me. – Não seria melhor checarmos o perímetro?

– Em apenas três pessoas? – Dorcas disse, também se levantando. – Não acho que seria muito inteligente.

Sirius concordou com a cabeça e eu me senti idiota. Estávamos todos em pé, parecendo alertas. O silêncio era mortal. Olhávamos pelas janelas, procurando por algum indício, algum detalhe fora de lugar. Estaríamos seguros ali?

– Dumbledore chegou a realizar o Fidelius aqui? – eu perguntei, depois do clique na minha cabeça.

– Não sei – os dois responderam em uníssono.

Eu podia ouvir a respiração de cada um.

– Eu acho que não – disse, pegando a varinha lentamente. – Eu acho que temos que sair daqui.

Eles concordaram e começamos a nos movimentar lentamente. Observei que Dorcas conjurava um patrono em forma de águia, que saiu voando através da parede. Não me atrevi a perguntar como ela fazia aquilo. Aliás, provavelmente todos conseguiam conjurar patronos dentro da Ordem. Eu nunca sequer tentei. Fiz uma anotação mental de que precisava aprender e deixei o assunto para lá. Percorremos a sala e o hall. Nada parecia anormal.

– Se ninguém responder meu patrono dentro de meia hora, saímos e desaparatamos – Dorcas instruiu. – Nesse tempo, fiquemos alertas.

– Tive a impressão de escutar algo – Sirius disse, apertando os olhos. – Deve ser bestei...

BAM!

Pedaços de madeira por toda a parte. Eu estava soterrada. Precisava sair dali o mais rápido possível. Podia ouvir gritos de fúria de Dorcas, e uma risada histérica em meio a vários berros. Lembrei que tinha varinha e pensei Expulso!, finalmente conseguindo respirar. O mundo brilhava em tom verde e Dorcas lutava ferozmente, junto a Sirius com o que pareciam ser mais de dez Comensais. Merda, merda, merda, onde raios eu fui me meter? Levantei-me.

Estupefaça! – gritei, atingindo o Comensal mais próximo pelas costas. Depois disso, passei dois segundos em saber o que fazer. O branco foi embora assim que um deles se virou para mim e eu apenas soube que precisava desviar. Protego seria inútil. – Expulso! Expulso! Estupefaça!

Eu não acertava nenhum. Ele dançava e lançava feitiços como se conhecesse o jogo há muito tempo. Eu tentava respirar, mas ele não deixava espaço para isso. Debaixo da máscara em forma de crânio eu pude ver brotar um sorriso branco e perverso. Ele gostava de matar.

– LILY! – ouvi uma voz conhecida me chamar. Puta merda, Emmeline? – LILY, NÃO ACREDITO!

– EMME? – eu gritei e a atenção do homem se direcionou a Emmeline. – REDUCTO!

O Comensal não pôde mais mover as mãos, que estavam muito pequenas para segurar a varinha e decidiu desaparatar, em fúria com o próprio erro. Virei-me e Dorcas já não lutava mais sozinha. Moody, Sirius e Emmeline já haviam feito vários desaparatarem e James, acompanhado de dois homens sobrevoavam o campo, acenando para que nos preparássemos para sair dali.

Ouvi um barulho cortante ao meu lado direito, junto de uma luz verde que me cegou. Virei-me empunhando a varinha, mas já era tarde e o Comensal havia desaparatado para evitar uma grande explosão que alguém provocara. Senti meu braço gelado e quente ao mesmo tempo. Minha manga estava encharcada de sangue e o corte era fundo. Ninguém me disse que Avada Kedrava podia cortar as pessoas, pensei, imaginando que teria morrido se não fosse pelo estouro que distraíra o Comensal.

James pousou ao meu lado, fazendo com que eu tropeçasse e caísse de costas no chão. Agora eu tinha um pulso torcido.

– Merlin, Lily, você está...

– Sim, deixa – eu disse, tentando me apoiar em algum dos braços e falhando miseravelmente. – Na verdade, por favor...

Não precisei terminar a frase, ele me ergueu pela cintura e pude me recompor. Todos os Comensais haviam desaparecido, agora. Moody mancava fortemente – embora a perna dele já não fosse boa-, Dorcas não carregava nada além de um corte no rosto, Sirius também mancava e Emmeline não estava ferida. James ainda me segurava, tomando o cuidado de não relar nos machucados.

– Vamos aonde? – perguntei, com a visão esbranquiçada. Podia enxergar as manchas que eu deixava em James conforme ele me abraçava.

– LIL – gritou Emme, correndo em minha direção. – Não acredito, você é da Ordem?

– Vance, voando – Moody grunhiu. – Todos para St. Mungo's.

Com a ordem dada, James tentou me posicionar na vassoura de modo que eu não escorregasse, o que não parecia dar certo.

Encarcerous – sussurrei, amarrando-me a ele. – James, quando pudermos aparatar, prefiro...

– Assim que sairmos da floresta, Lil – ele disse.

Assenti e encostei a cabeça em suas costas. A dor no braço direito parecia crescer e eu já não sentia meus dedos. Merda, merda, merda, um coro entoou na minha cabeça como se fosse meu novo mantra. Começamos a voar, embora eu não percebesse nada além do vento. Não queria desmaiar, simplesmente me recusava. Ouvia um zumbido irritante nas orelhas. Protegi meus braços entre meu corpo e o de James. O vento gelava minha manga ensanguentada e eu tremia.

Ultrapassamos o limite da floresta e James desceu. Eu arfava, procurando por ar que pudesse respirar, o que não parecia existir. Meu suor umedecendo minhas roupas, o braço de James debaixo das minhas axilas. Eu havia perdido um dos sapatos. Pisquei e de repente estávamos no hall do que eu imaginei que fosse St. Mungo's. James me ajudava a andar e percebi que alguém era carregado por várias pessoas ao meu lado. Era Sirius, cuja perna sangrava abundantemente e deixava um rastro largo por onde passava.

– Sirius? – chamei, o mais alto que pôde. – SIRIUS?

– Ele vai ficar bem – James disse, pegando-me no colo. – Todos vão ficar bem.

Sirius fez "joia" com a mão e eu pude me deixar levar até o quarto, escoltada por dois curandeiros. Todos pareciam despreocupados, exceto James.

– O que aconteceu com ela? – perguntou um dos curandeiros, ao me deitar na cama. – Isso não parece um corte comum – ele disse, colocando várias gazes, tentando estancar o sangue.

Avada Kedavra – respondi. – Meu pulso...

– Acho que ela torceu – James disse, apontando para a minha mão esquerda. – Eu tenho certeza de que poderia consertar isso, mas não lembro o feitiço.

O curandeiro sorriu.

– É sempre melhor deixar essas coisas para nós se possível – ele disse, tirando a varinha do bolso. – Episkey. Sempre há uma chance de dar errado.

– Você nem imagina quantas pessoas consertamos diariamente por causa de feitiços mal-feitos – o outro completou. – Mas o que aconteceu?

– Vocês têm alguma objeção a eu não contar? – perguntei, sentindo que podia dobrar a mão sem sentir dor, novamente. – Eu realmente não acho necessário.

– Sem problema, senhora.

– Senhorita – eu corrigi, sentindo que minha visão piorava. Agora várias bolinhas pretas apareciam e a cor das pessoas sumia.

– Desculpe, achei que fossem casados – o curandeiro mais jovem disse, de bochechas coradas. – Bom, não vamos conseguir mais nada nesse corte, certo, Kyle?

– Não, sinto muito – Kyle disse, conjurando mais gaze e substituindo a suja. – O máximo que podemos fazer é esperar.

– Como assim? – James perguntou. Ele parecia enfurecido, tentando controlar a raiva. – Como assim esperar?

– Bom, enquanto ela estiver sangrando, não podemos fazer nada além de trocar os curativos – ele explicou. – Daremos tônicos para repor o sangue de quatro em quatro horas.

– Esse é o primeiro caso que temos em décadas – o curandeiro mais jovem disse. – A maioria das pessoas não consegue desviar de um Avada Kedavra.

– De acordo com registros médicos anteriores, o paciente chegou a sangrar por três dias até o ferimento começar a cicatrizar – Kyle disse, mexendo nos armários. – Pronto, tome.

James andava de um lado para o outro, nervoso.

– James – eu chamei. – James, vá ver Sirius.

Ele assentiu, parecendo impaciente. Tomei a poção e fiquei arrepiada.

– Isso vai te devolver a cor no rosto – ele disse, bondoso. – Agora beba isso, é para você descansar.

Coloquei o líquido na boca. Não era ruim, mas não era bom. Senti minha mão segura na dele, o único ponto do meu corpo que retinha calor. Tomei o frasco inteiro. Olhei para suas faces sujas pelo meu sangue e sorri. Li em seus lábios que tudo ficaria bem e adormeci.