CAPITULO II
— E do que deveriam chamar de senão de desorientação! — Rin exclamou ao sentar num banco na universidade.
— Decidiu abandonar e voltar para a fazenda? — Ayame, uma loira que já estava sentada, zombou.
— Tá brincando? Vou me divertir muito! Só estou dando uma descansada para prosseguir e procurar meu caminho nessa bagunça.
Ela esticou as pernas cobertas por uma calça jeans, observando a brisa brincar com a gola da camisa branca que não servia mais em Jinenji há seis meses.
— Não se preocupe. Mesmo os estudantes do segundo ano se perdem de vez em quando — Ayame disse com que era uma estudante desinteressada, e que seus pais pagavam a universidade para ela ter um diploma qualquer.
Rin, ao contrário, não queria perder tempo na universidade. Sua meta era ter um diploma no menor tempo possível, já que não tinha tempo suficiente para ganhar um dinheiro extra para prolongar seus estudos.
— Pelo menos tem energia para enfrentar o que vem por aí — Ayame completou com um olhar gozador, olhando Rin de cima a baixo. — Vocês, garotas do interior, tem pique para descer e subir os Alpes.
— Nossas fazendas não ficam em nenhuma parte dos Alpes e os cachorros é que correm. Eu apenas encosto no portão e assobio.
Rin, ao ouvir Ayame chamá-la de garota do interior, sentiu um calafrio. Nas duas últimas semanas quase não vira Sesshomaru, talvez por que adotara a política de evitá-lo. Fora as batidas nas paredes quando ela colocava a música num volume alto para esconder o choro de Kohaku, ele não manteve contato.
Qualquer coisa que Sesshomaru Taisho fizesse para sobreviver, suas horas eram irregulares e não dava para Rin saber com exatidão quando ele estava em casa ou não. Contudo, encostar o ouvido na parede do quarto era o que determinava suas saídas. Cada vez que descia ou subia a escada, o coração de Rin batia violentamente.
— Não acredito que esteja cursando alemão e russo — Ayame surpreendeu-se. — Uma língua por vez é o suficiente.
— Já fiz cursos básicos por correspondência, então não serão tão chocantes. Quando era criança gostava de inventar línguas com regras de gramática — Rin explicou.
— Inventar gramática? Você é sobrenatural. — A loira revirou os olhos. — A maioria das pessoas passa a infância tentando escapar da gramática. Seus professores te amavam! O que achou das palestras até aqui?
— Ok.
— Sorte sua. Carrego alguns assassinos do ano passado. Ele, por exemplo. — Ayame apontou com a cabeça uma das figuras que cruzavam o pátio. — Belo corpo, personalidade do Drácula. Sabe, algumas pobres almas escolhem política achando que é moleza. Puro engano. Ele é diabólico.
— E por que ainda escolhe política? Não consegue resistir ao belo corpo? — Rin brincou, olhando para o pátio.
— Descobri que gostei do assunto — a outra admitiu, fazendo Rin rir. — Isso choca a mim mais do que ao professor Taisho. Ele acha que sou uma loira burra. Deixe ele sentir uma fraqueza e logo estará no seu pé!
Rin não escutara as últimas frases. Encontrara Sesshomaru ao mesmo tempo que Ayame pronunciara o nome dele. Ele caminhava na direção delas, usando terno, camisa e gravata e calça escura. Carregava uma pasta.
— Professor Taisho? Professor Sesshomaru Taisho? — Rin disse, horrorizada.
— É. Conhece?
— Professor?
— Política. — Ayame levantou o braço e acenou para ele, para aumentar o desespero de Rin. — Olá, Sesshomaru.
Ayame recebeu um murmúrio e um aceno de cabeça como resposta.
"Já não bastava ter que evitá-lo no apartamento?", Rin pensou.
— O que está fazendo aqui? — ele perguntou a Rin, ignorando sua aluna.
— Seguindo você, claro — Rin ironizou.
— Pra quê?
"Caramba! Ele acreditou. O incrível egoísmo masculino", ela disse a si mesma.
— Sou uma masoquista. Pensei que se eu me jogasse em seus braços você se apaixonaria por mim e me convidaria para vivermos juntos em qualquer lugar.
Rin ouviu a respiração tensa de Ayame, mas ignorou. Sesshomaru não era seu professor. Era apenas um desagradável estranho.
— É uma piada? — ele perguntou.
— Não para alguém que não tem o mínimo senso de humor.
— Está estudando aqui? — Sesshomaru perguntou educadamente.
— Estou pensando em me matricular em política. Rin e Sesshomaru ficaram se olhando em silêncio. Ela só não corou porque estava muito aborrecida.
— Desculpe, mas minha classe já tem uma lista de espera — Sesshomaru mentiu.
— Tenho certeza de que haverá muitas vagas quando seus alunos perceberem o quanto você é doce e tolerante.
Dessa vez, Ayame deu-lhe uma cutucada. Rin sentiu-se culpada por sua raiva sobressair.
Sesshomaru desviou o olhar para o rosto corado e curioso de Ayame.
— Contando histórias fora da universidade, Ayame? — indagou.
— Nem sonharia, professor — a loira respondeu com respeito.
— Então, vamos. Quero separar o trigo bom do podre antes da minha primeira aula.
— O podre é aquele que não leva cada expressão sua como uma pérola de indisputável sabedoria — Rin murmurou.
— Fico surpreso por uma caipira misturar suas analogias de celeiro. Talvez você não saiba tanto quanto pensa, srta. Nakayama.
— Eu vim até Auckland para uma palestra sobre comportamento suíno.
— Não está na hora de irmos, Rin? — Ayame interrompeu, colocando a bolsa no ombro e puxando a amiga.
— Rin? Pensei que fosse Kagura — Sesshomaru falou, surpreso.
— Minha família me chama de Rin — ela respondeu.
— Por quê?
— Porque é um de meus nomes — ela disse, evasiva.
— Muitas pessoas não gostam de seu nome do meio — completou, escolhendo seus comentários cuidadosamente, para não cair num equívoco. — Gosto de Rin. É claro e descomplicado.
Aquilo era uma mentira. Sempre quisera ser chamada de Kagome, Koharu ou Midoriko. Algo mais dramático.
As sobrancelhas dele ergueram-se e Rin sabia exatamente o que Sesshomaru estava pensando: que "claro" e "descomplicado" combinavam com ela. Embora os olhos de Rin fossem grandes, não tinham uma cor definida. O nobre nariz Nakayama estragava a pequena feição. Seus irmãos diziam que ela tivera sorte ao herdar o queixo Nakayama senão ficaria fora do centro da gravidade.
Um atributo que nenhum irmão jamais ousara zombar era a inabalável lealdade de Rin com aqueles que amava.
O acidente automobilístico que a mãe sofrerá quando ela tinha quinze anos ajudara a formar a personalidade de uma mulher apaixonada, sempre disposta a ajudar. Kagura sempre fora inútil na cozinha e quando o acidente ocorrera, já tinha mergulhado na obsessão de ser escritora.
Então, Rin tivera que colocar seus sonhos de cursar uma universidade e viajar, para ser a pequena mãe da família. Sempre encarara os afazeres domésticos com entusiasmo. Entre os intervalos de cozinhar, limpar e cuidar da mãe, Rin empenhara-se em cursos por correspondência, o que aumentara seu apetite pelo saber.
Durante anos, sempre mostrara-se otimista em relação ao estado de saúde da mãe, enquanto o resto da família perdera a esperança. Depois de muitas operações e fisioterapias, Kaeda Nakayama não se livrara totalmente da dor, mas conseguia fazer os serviços da casa sem ajuda. Rin sentira-se livre para recuperar seus sonhos de infância.
Mas seu destino começara a se unir com o de Kagura inexplicavelmente. Rin achara muito difícil negar o pedido de ajuda da irmã. E lá estava a transparente Rin fingindo ser a complexa Kagura. O pior era que começava a gostar.
— Rin é o nome de minha avó — Sesshomaru disse inesperadamente, observando Ayame, que puxava a amiga.
— Vai me dizer que ela era traiçoeira feito uma cobra? — Rin perguntou.
— Era uma pessoa querida e adorável, com um coração de manteiga.
— Garanto que nenhuma de suas avós ousaria ser outra coisa.
A expressão facial dele era indecifrável ao olhar o relógio de pulso.
— Por favor, não nos deixe te atrasar. Tenho certeza que há outras pessoas com hora marcada para serem intimidadas por você — Rin declarou, irônica.
— Está dizendo que te intimido, Rin?
— Não.
— Não é o que penso. Então, não ficará preocupada se eu disser que dá próxima vez que deixar algo dentro da máquina de lavar entregarei ao proprietário. Graças ao seu descuido, tenho três camisas rosas.
"Minha camisa vermelha!", Rin lembrou, colocando a mão na boca para esconder o sorrisinho.
A camisa devia ser lavada separadamente, mas na pressa de voltar para casa com as fraldas de Kohaku, acabara esquecendo dentro da máquina.
— Talvez a nova cor suavize sua imagem — Rin zombou.
— E talvez eu faça você comprar três camisas novas.
— Assim como os porcos sabem voar.
— Você tem razão —Sesshomaru afirmou. — Sua ignorância sobre comportamento suíno é completa.
— Sua pomposidade está à mostra, professor. Parece ter um grande interesse em comportamento suíno. É um hobby particular? Oh, é professor de porcolítica...
Ayame e Rin caíram na gargalhada depois de terem certeza que Sesshomaru não explodiria. Ele preferiu sair, comentando sobre o declínio do humor universitário.
— Vocês se conhecem de algum lugar, não é? — Ayame perguntou. — Você não... deu a impressão que...
— Moramos juntos? Somos... vizinhos, —Rin contou rapidamente sobre a bolsa de estudos. — Se ele perguntar algo sobre mim, não conte nada. Principalmente sobre Kohaku.
— Ele não sabe do bebê? Isso contraria algum termo da bolsa? Sei que fiz Sesshomaru parecer Atila, o rei dos hunos...
— Sei lá.
Rin não lera o contrato e seguia as instruções de Kagura, sabendo que a irmã não era muito apegada a detalhes.
— Apenas tenha cuidado com o que diz — ela pediu. — Não que eu espere que ele pergunte — acrescentou vendo o olhar especulativo de Ayame.
Depois daquela tarde, subindo a escada com Kohaku em seu carrinho de bebê, Rin arrependeu-se de não ter aceitado a carona de Ayame até o supermercado. Rin pegara ônibus e no caminho de volta chovera, embora Kohaku tivesse um guarda-chuva acoplado ao carrinho para protegê-lo, Rin tomara chuva do supermercado até o ponto de ônibus.
Empurrou com as costas a porta que dava acesso a escada. Parou na caixa de correio e encontrou uma carta que colocou no bolso da jaqueta. Tirou da cesta do carrinho os pacotes de compras e colocou no primeiro degrau da escada. Depois de checar o caminho, pegou o carrinho de bebê e subiu correndo a escada.
— Sorte sua, meu querido amigo gordinho, que tenho preparo físico, senão... — Rin brincou.
Kohaku chupava os dedos.
— Sei que está com fome. Sempre está. Vai ter que esperar até que eu volte e pegue a comida. Só tenho duas mãos. Pena que não podemos pedir ajuda ao professor esquentadinho. Sabe o que ele teve a ousadia de dizer...
Ela contava a história enquanto destrancava a porta, enfeitando o encontro com Sesshomaruno campus, descrevendo como se sentira e o que preferiria ter feito. Kohaku era um sonho de ouvinte. Não interrompia nem discordava. Os ouvidos inocentes dele eram o diário de Rin.
Ela colocou Kohaku no berço e foi buscar as compras. Ajeitou os pacotes nos braços e subia a escada o mais rápido que podia.
Quando estavam faltando poucos degraus, Rin parou para ajeitar os pacotes e, de repente, ouviu passos atrás dela. Virou a tempo de dar com os pacotes no peito de Sesshomaru, deixando cair alguns mantimentos.
— Posso ajudar? — ele se ofereceu.
— Não!
Rin lembrou do pacote de fraldas que comprara. Mexeu o braço para o lado, fora do alcance dele, mas a caixa de ovos que estava sobre o pacote de fraldas escorregou sobre a superfície de plástico, abrindo e deixando três ovos espatifarem-se no peito de Sesshomaru.
Os dois olharam para a camisa de seda e a gravata, que viraram amarelas.
— Por que não estou surpreso? — Sesshomaru perguntou, irritado.
— É o preço que você paga por ajudar o meio ambiente— Anne respondeu, encontrando o olhar ardente dele.— Os supermercados usam papel reciclado ao invés de plástico. Ajuda a natureza, mas não é a prova de água!
— Com esta são quatro camisas.
— Não seja ridículo. Se lavar, sai.
— E a gravata?
— Posso pagar o tintureiro — ela sugeriu, esperando que ele recusasse.
— Quero de volta na sexta. — Ele abaixou para pegar os pacotes que estavam no chão. — Se abrir a porta, posso colocar na cozinha.
— Não! Pode deixar que eu pego.
Subiu o resto da escada, abriu a porta de seu apartamento e foi direto para a cozinha. As fraldas foram a única coisa que não deixara cair.
Pegou uma caixa de papelão que usara em sua mudança e voltou para a escada.
— Se me der a camisa, lavo e te entrego amanhã — ela ofereceu, desajeitada.
— Obrigado, mas meu guarda-roupa está vazio. Eu lavarei.
— Por que não estou surpresa? — Rin murmurou com cinismo.
Sesshomaru não respondeu, apenas olhou um pote de papinha para bebê e ergueu as sobrancelhas.
— Eu gosto. — Rin tirou o pote da mão dele, colocando-o dentro da caixa de papelão. — Algo contra?
— Não. Mas você deve ser muito mais jovem do que aparenta. — ele retrucou secamente.
— Só porque não sou cínica e não faço as pessoas ao meu redor se sentirem miseráveis, não quer dizer que sou um bebê!
— Eu sei. — Sesshomaru olhou para a camisa branca molhada que Rin usava e que marcava o contorno dos seios. — O pequeno sermão é para mim?
— Se a carapuça serviu...
— Para uma futura escritora você é muito vulgar com as palavras.
— É por que guardo as coisas melhores para meus livros — ela retrucou friamente.
— Coisas melhores? — Sesshomaru repetiu. — Deselegante, mas sucinto.
— Obrigada pela crítica, professor — Rin respondeu com sarcasmo, grata por ter a caixa de papelão para esconder os seios.
O modo que Sesshomaru olhara para seus seios, a deixara incomodada.
— Deixe-me carregar — ele ofereceu-se.
— Obrigada, mas sou capaz — Rin rebateu, subindo o resto dos degraus.
— Pelo menos dê-me a chave para não ter que colocar a caixa no chão.
— Eu me viro — ela rebateu, parando no topo da escada para esperá-lo partir.
— Você é a mulher mais irritante...
— Posso ser muito mais irritante ainda — Rin zombou. — Te vejo depois, professor!
— Não, se eu te ver antes — ele ironizou. — E pare de me chamar de "professor".
— Por quê? Sente o peso da idade?
— Tenho trinta e sete — Sesshomaru declarou, colocando a chave na fechadura de seu apartamento.
— É? Parece mais velho. Acho que é por que você é tão mal-humorado...
— Não sou mal-humorado!
— Não me engana, professor. Tenho certeza que é charmoso com o pessoal da sua geração...
Algo no rosto de Sesshomaru fez Rin parar com sua provocação e entrar.
— Sesshomaru Taisho está fora de minhas experiências com homens — Rin comentou com Kohaku, pensativa, enquanto preparava o purê de vegetais do menino.
