CAPÍTULO III

Rin respirou fundo antes de bater na porta do apartamento de Sesshomaru. Ela deu outra respiração longa ao vê-lo enrolado numa toalha.

Odiava admitir, mas ele era impressionante, com músculos bem definidos nos ombros e no peito. A barriga também era definida e bronzeada como o resto do corpo e as pernas eram longas e fortes, cobertas com o mesmo pêlo preto que cobria braços e peito. Gotas de água caíam dos cabelos, como se ele tivesse sido interrompido no banho.

— Já viu o suficiente? — ele perguntou.

Rin pensou no que ele faria se ela dissesse "não". Ela desviou o olhar.

— Eu fiz macarrão com molho e pensei que você gostaria... Como forma de agradecimento por ter me ajudado no outro dia. Trouxe sua gravata, limpa e passada.

Sesshomaru dissera que queria a gravata na sexta, mas Rin achara que ganharia pontos se trouxesse um dia antes, embora a expressão facial dele não fosse nada encorajadora.

Ela sorriu, oferecendo com uma mão o recipiente plástico com o macarrão e com a outra a gravata. Não contaria que ela mesma lavara e passara.

Sesshomaru pegou a gravata, mas não fez nenhum gesto para aceitar o macarrão. Rin percebeu que ele tinha que segurar a toalha.

— Entre — ele murmurou, irônico.

— Obrigada. Ficarei só alguns minutos.

A arquitetura do apartamento de Sesshomaru era a xerox da de Rin, mas com algumas diferenças, como ela mesma percebera com intenso interesse.

Havia um tapete tão denso e suave que os pés de Rin afundavam-se ao caminhar. As paredes tinham uma pintura especial que provocavam um efeito interessante nos quadros ali pendurados. Uma estante ficava de um lado da janela e do outro, um enorme espelho de moldura dourada tomava conta da parede, aumentando as dimensões do apartamento. O sofá e as poltronas eram de couro.

A cozinha era maior que a dela, desenhada para receber todas as tecnologias modernas. Quando Rin colocou seu recipiente de plástico em cima do balcão de madeira, preocupou-se com seu econômico mas modesto recipiente, como se ele não fizesse parte da decoração.

— Tudo o que tem que fazer é aquecer... — ela começou a explicar.

Mas quando ela se virou, descobriu que falara com o vento. Sesshomaru tinha desaparecido. Rin olhou para o telefone na parede da cozinha, pensando em tirar vantagens enquanto ele não estava por perto, porém decidiu que não devia enfrentá-lo mais do que já fizera.

Caminhou até uma das pinturas penduradas na parede. "São originais, claro, mas mais escolhidas com o coração do que com a intenção de investimento", ela pensou.

— Não gostou? — Sesshomaru perguntou de repente.

Rin pulou ao vê-lo na porta que ficava ao lado da pintura. "O quarto dele", ela supôs, respirando fundo, incapaz de apagar a imagem de Sesshomaru enrolado numa toalha, apesar de ele estar usando calça de linho e camisa.

— Não — ela respondeu, seca, mas rapidamente lembrou que estava sendo inconveniente e começou a se explicar: — Quer dizer, eu não entendo muito de arte, então não posso...

— Não pedi uma crítica. Só perguntei se gostou.

— Faz diferença? — ela indagou, pensando se fora ele quem pintara. Tentou ler a assinatura sem dar muito na vista.

— Não, não é minha. Não sou habilidoso com um pincel. Então, não estará me insultando se disser que não gostou de meu gosto por arte... não que minha inteligência seja facilmente enganada por mentiras educadas — ele acrescentou, ao mesmo tempo que Rin mordeu o lábio.

— Tudo bem, detestei — ela admitiu. — Não posso definir o desenho e não gostei das cores. Satisfeito?

— Completamente. Para falar a verdade, foi minha mãe quem pintou.

Ela fechou os olhos. Quando os abriu de novo, Sesshomaru ria.

— Sinto muito pelo seu pai — ela zombou.

— Meus pais são divorciados desde que eu estava no primário. Meu pai está morto, mas dividia com você o desgosto com relação a arte de minha mãe.

— Desculpe. Tenho certeza que sua mãe é uma boa artista.

— O mundo internacional da arte também pensa assim. É bem conhecida. Na verdade, paguei muito caro pela pintura que você detestou.

— Ela te fez pagar por uma pintura? O próprio filho?

— Indiretamente. Comprei numa galeria. Minha mãe sempre me dá um quadro de presente de aniversário ou de Natal. Mas quando pedi esta, ela recusou... preferiu vender para a galeria...

— Por quê?

Rin lera sobre o temperamento artístico. Era propenso a raciocínios ilógicos que beiravam o ridículo. Na visão de Kagura, os fins artísticos justificam os meios.

Rin pensou no que ela e a irmã estavam fazendo, insistindo numa mentira inequívoca. Rin se registrara na universidade com o nome de Kagura, embora pedisse: "Chame-me de Rin", para aqueles que se dirigiam a ela como Kagura. Geralmente funcionava. As pessoas aceitavam a correção educadamente, exceto Sesshomaru.

Rin nunca entraria numa situação onde colocaria sua carreira na frente de seu bebê, mas não podia condenar Kagura por ser diferente. A gravidez da irmã fora muito difícil e quase que mãe e filho não sobreviveram durante o parto prematuro.

Depois, quando Kagura voltara com o bebê para sua isolada casa no litoral, ela descobrira que as palavras não fluíam tão facilmente da caneta como antigamente e não tinha mais a paz física e mental que necessitava para escrever. Ela não quisera entrar em contato com o pai da criança, apesar da insistência de Rin.

Rin, que passara o primeiro mês depois do parto com a irmã, ajudando-a, ficara alarmada quando as visitas a Kagura tornaram-se cansativas. E ficara encantada quando a instituição Markham mandara uma carta. Ela achara que Kagura iria adorar.

A irmã adorara, mas não da maneira que Rin imaginara. Kaguran tivera uma brilhante solução para o seu bloqueio de escritora...

Sesshomaru olhava-a pensativo.

— Minha mãe também não gosta desta pintura. Diz que é uma aberração depressiva em seu estilo abstrato — ele explicou.

Rin percebeu que seus devaneios não foram percebidos.

— E por que comprou? — ela perguntou.

— Para aborrecê-la. Hoje em dia, ela vive num mundo de glorificação. Às vezes, minha mãe precisa lembrar que é humana.

— Uma maneira muito expressiva de mostrar seu ponto de vista — Rin comentou num tom desaprovador, pensando que Sesshomaru não tinha que dar aulas para se entregar a tão caro capricho. — E nem um pouco esperada de um filho.

— Você acredita que lealdade à família tem que passar por cima das considerações éticas, como integridade ou honestidade, ou esperar que as pessoas aceitem a responsabilidade pelas ações dos outros?

Rin desviou o olhar. "Isso é conversa fiada", pensou.

— O sangue é mais grosso que a água — declarou, preocupada.

— Esqueci que você tem um provérbio para cada ocasião. Você acha que os direitos individuais são superiores aos do país?

— Não vim aqui para discutir política — ela respondeu rispidamente.

— Você está certa. — Sesshomaru entrou na cozinha e deu uma olhada no macarrão que Rin fizera, soltando um sorriso cínico ao sentir o aroma da comida. — Você trouxe a um pobre bacharel um benefício: comida caseira, com manjericão fresquinho bem exagerado, não é?

— Só uso ervas vegetais naturais quando cozinho e aí tem a dose exata de manjericão — ela disse, enfurecida com o costumeiro criticismo dele. — Fiz esse macarrão milhares de vezes e ninguém nunca reclamou...

— Talvez o paladar rural não discrimine tão bem quanto o paladar urbano...

— O que te faz um expert? — ela questionou.

— Aprendi a fazer alguns pratos com uma especialista em cozinha italiana.

Rin quis pegar de volta seu macarrão, mas resistiu.

— Fez um curso de culinária? — perguntou.

— Mais ou menos. Maria me deu algumas lições.

Algo no olhar de Sesshomaru avisou-a para não cometer o erro de perguntar quem era Maria. Rin teve a sensação que ele se divertiria dizendo que Maria não era apenas uma especialista, mas também uma mulher excelente.

— Claro que não precisa comer se não serve ao seu impecável padrão — ela declarou, decidida.

— Sem dúvida, eu comerei com certa dificuldade. Rin teve um forte desejo de jogar o macarrão na cabeça de Sesshomaru. A quantidade de picadinho de carne que usara custara a ela três refeições.

— Oh, por favor, não sofra por minha conta — Rin falou com raiva.

— Não sofrerei — Sesshomaru respondeu docemente.

Ela meneou a cabeça. Parecia que a tentativa de suborno falhara. Pegou a trança, colocou sobre o ombro e começou a mexer nas pontas.

— Mudando de assunto, já que está aqui... — Sesshomaru disse, cortando o silêncio.

— Fala.

— Talvez queira usar meu telefone.

— Telefone? — Rin repetiu, torcendo para que o choque fosse confundido com surpresa.

— É por isso que está aqui, não é?

— O que te fez dizer isso? — ela indagou, brava.

— A maneira que você olha para o aparelho. O orelhão da rua foi vandalizado, eu percebi ontem. E agora você está aqui, jogando charme para um bruto...

— Nunca te chamei de bruto! — Rin protestou debilmente. — Um bruto é alguém sem razão e irracional...

— Você não me engana, pois tem me evitado desde que se mudou...

— Já que você está tão gentil, vou tirar proveito de sua boa vontade — ela interrompeu, caminhando até o telefone. — Você é um homem muito desconfiado — acrescentou, enquanto discava o número. — Lembre-se que foi você quem deu a sugestão tão sutil de nos evitarmos?

— Pensei que não seguisse tão ao pé da letra.

— Esperava que eu me jogasse em seus braços...

— Ou que batesse na porta a cada cinco minutos, oferecendo comida e pedindo para usar o telefone.

Rin fitou-o e virou-se de costas, quando alguém atendeu a chamada.

— Ayame? — Consciente de sua audiência, Rin seria o mais breve possível. — Minhas aulas matutinas de amanhã foram canceladas. Quer dar uma passada aqui depois das aulas para estudarmos russo, ou quer deixar pro final de semana?

Rin virou e viu Sesshomaru movendo-se pela cozinha. Enquanto ouvia Ayame conferir sua agenda para o final de semana, Rin seguia Sesshomaru com o canto dos olhos, notando o quanto ele se sentia à vontade em sua propriedade. Ela o viu tirar uma panela do armário que ficava embaixo da pia de cerâmica e esvaziar o conteúdo do recipiente de plástico nele. Ao invés de usar uma colher como Anne fizera, ele pegou uma garrafa de vinho tinto num armário sobre a cabeça dela, abriu e derramou um pouco na vasilha limpando o resto do molho bem vagarosamente.

Anne voltou a atenção para a voz de Ayame do outro lado da linha.

— Hã... não, obrigada. Tenho muito trabalho a fazer... tenho tarefas a entregar e muitas redações para escrever. Quem sabe uma outra vez...

Rin gostava muito de Ayame, mas a vida social da amiga não era para ela. Ao contrário de Ayame, Rin não podia bombar em nada, já que gastava seu tempo estudando ou ganhando algum dinheiro extra.

— Ok. Te vejo sábado a noite, Tchau! Rin colocou o telefone no gancho.

— Obrigada — agradeceu. Sesshomaru não virou.

— Sei que eu devia dizer "pode usar quando quiser", mas seria mentira — declarou.

— Era uma emergência.

— Eu ouvi. Sinto que haverá muitas emergências em sua vida, então, talvez seja melhor nós dois combinarmos uma hora pra você usar o telefone;

Rin abriu a boca, pronta para recusar com arrogância, mas resolveu deixar o orgulho de lado.

— Bem...

— Que tal não antes das seis nem depois das sete? — Sesshomaru propôs.

— Acho que é um pouco cedo...

Sesshomaru virou a cabeça, com um olhar torto.

— Estou falando à noite, Rin. Gosto de acordar um pouco mais tarde.

Rin podia imaginar. Aquele corpo grande e forte esparramado na cama. Já que ele não tinha nenhuma imperfeição corporal para esconder, dormia nu e a uma distância bem próxima dela, se não houvesse aquela parede entre eles. Ela sabia que a cama de Sesshomaru ficava contra a mesma parede onde encostava-se a sua por que, às vezes, quando ela acordava durante a noite, podia ouvir os gemidos da cama dele.

— Rin?

— Ah, claro. Mas não será freqüente. Tenho certeza que logo consertarão o telefone público.

— Quando consertarem, faça suas ligações enquanto o dia estiver claro. Não é uma boa idéia uma mulher sozinha ficar no telefone à noite, mesmo nesta parte da cidade.

Os instintos femininos de Rin falaram mais alto.

— Sei cuidar de mim mesma, obrigada — ela rebateu.

— Não é isso. Você é pequena...

— Sou compacta — Rin corrigiu. — Mantenho a boa forma, como você sabe, devido a todas as batidas que você dá na parede. Tenho quatro irmãos em casa!

Ela fez essa declaração, como se isso explicasse tudo.

— Eles não farão muita coisa por você aqui — Sesshomaru zombou.

— Isso não quer dizer que preciso deles para me defender. Quero dizer que crescendo ao lado deles aprendi como lutar sujo. Uma vez quebrei o braço de Mantem, e ele era bem maior que você!

Rin colocou as mãos na cintura.

— O que fez? Bombardeou-o com suas trancas? — Sesshomaru ironizou.

Rin o encarou severamente, porém Sesshomaru nem ligou.

— Na verdade, pulei em cima dele — ela contou. — Joguei-o contra a árvore. Bati nele. Ele tinha dezesseis anos e chorou com um bebê.

Ela sorriu com prazer.

— Quantos anos você tinha? — Sesshomaru perguntou.

— Treze...

Rin mordeu o lábio. Esquecera que, como Kagura, era a mais velha. Ainda bem que não tinha dado nenhuma referência daquela época. Sesshomaru não tinha como saber quem era a verdadeira vencedora da bolsa de estudos e Rin não queria correr riscos. Ela sabia que não aparentava ter seus vinte e três anos de idade, e que dava para passar pelos vinte e oito de Kagura.

Rin olhou para a panela que estava no fogão, dando uma mexida no macarrão.

— O microondas não é mais rápido? — ela perguntou.

— Mais rápido mas não é o melhor — Sesshomaru respondeu, enchendo um recipiente com água e colocando o macarrão em banho-maria. — Uma demorada mistura de condimentos sempre dá um melhor resultado do que apressar a colisão de moléculas.

— Suponho que você ache que só as pessoas desinteressadas usam o microondas.

Naturalmente, uma pessoa como Sesshomaru Taisho não colocaria o baixo custo de energia de um microondas em sua equação.

— Não é bem assim. O microondas serve para alguma coisa. Gosta de massas?

— É barata, saborosa e nutritiva. Por que não gostar? — ela questionou.

Sesshomaru encostou na pia de mármore, enxugando as mãos com uma toalha de papel, observando-a.

— Você se ofende pelo que tenho, Rin? — ele perguntou com uma estranha percepção. — Toda esta sutil hostilidade é intencional? Asseguro que, a maioria das coisas aqui, tive que trabalhar duro para conseguir.

— Eu trabalho duro também.

— Oh? Quando?

— O que quer dizer com "quando"?

— Quando escreve?

Anne mordeu o lábio inferior.

— Escrevo todo o tempo — respondeu na defensiva.

— Não duvido. Russo, alemão e antropologia, não é? O coração de Rin disparou ao perceber que Sesshomaru devia ter checado os arquivos da universidade. Podia ter sido apenas curiosidade ou ele procurara um algo mais?

— Não estou falando dos cursos — ele continuou, num tom que ela presumira ser o qual ele utilizava com seus alunos, um tom levemente sarcástico. — Estou falando de escrever. E por isso que está aqui, não é, para terminar um romance? Se entrar de cara no estudo, onde achará tempo para escrever? Não venha me dizer que arranjará um tempinho aqui e ali, pois redigir envolve esforço concentrado...

— Escrevo melhor à noite — Rin explicou, detestando-o por ter que fazê-la contar outra mentira.

— Mais uma razão para ir com calma, de manhã. Exatamente que horas, à noite? Eu durmo muito tarde e nunca ouvi sua máquina de escrever funcionar.

— Prefiro revisar meu trabalho à mão.

Se ele podia ouvir a máquina de escrever na sala de estar, então as paredes eram mais finas do que Rin pensava.

— Você deve estar editando muita coisa, comparando com o quanto você tem escrito — Sesshomaru comentou, pensativo.

— Bem, ainda não entrei numa rotina...

— Depois de tantas semanas? Em minha experiência ou tenho um horário regular ou fico louco. Já determinou suas metas? Ou está sofrendo de bloqueio?

— Acho que sim, de alguma maneira. — Rin respondeu. — Estou entrando num período de ajustamento...

— A pior coisa que pode fazer é parar ou se distrair!

Ela devia ter desconfiado que aquele simpatia se transformaria numa enfurecida lógica.

— Obrigada pelo seu conselho, mas estou certa que tudo dará certo — ela declarou com firmeza, esperando que Kagura recuperasse a criatividade sozinha em sua casa em Golden Bay.

— Traduzindo: você irá ignorar o problema e torce para que ele tome seu rumo sozinho.

A desaprovação de Sesshomaru estava clara.

— É problema meu — Rin retrucou. — Suponho que seja um capricho ocupacional de um professor passar sermão nas pessoas. Pensei que política fosse seu campo, e não literatura.

— Toda a essência da política no comportamento humano, a complexidade das relações que as pessoas formam para dar mais poder a suas crenças e investir com autoridade sobre os outros. Num senso adjetivo, é muito político da sua parte fugir de minha pergunta original... Você se ofende pelo que tenho?

— Não pelo que tem e sim pelo que é — Rin rebateu, grata por desviarem o assunto de seu inexistente romance.

— E o que sou?

— Não me provoque — ela ameaçou.

— Vamos. Esteve perfeitamente livre para emitir sua opinião sobre mim até então. Por que parar agora?

— Você é inteligente, forte, absolutamente independente, tão confiante a ponto de ser arrogante.

Sesshomaru a fitou por um momento, notando que ela falara sério.

— Esqueceu do "bonito" — ele zombou.

— Você não é.

— Então por que me devorou com os olhos quando estava enrolado na toalha?

— Você é grande e tem um corpo sexy, mas isso não dá beleza. Quando chegar aos quarenta, vai ficar cheio de rugas na testa.

— Porém ainda terei meu corpo grande e sexy. Prefiro isso a ter uma carinha bonita.

— Por isso não é casado? É sozinho por que não quer uma presença feminina te distraindo de sua adoração a si mesmo?

Ela corou diante do olhar vivido e a gargalhada dele. Sua risada, como a voz, era inesperadamente jovial para um homem com o temperamento e dureza de Sesshomaru. Ele era, Rin começava a perceber, para o seu desespero, muito mais atraente do que ela suspeitara.

— Não é bem assim. E fui casado. O quanto de manjericão você quer?

— Desculpe? — Rin murmurou, tentando encobrir seu embaraço e sua curiosidade em saber mais sobre o casamento.

— Não consigo comer tudo isso sozinho — ele declarou.

— Está me convidando para jantar?

— Não era o que esperava? — Sesshomaru perguntou secamente.

— Não, não era o que eu esperava! Pensei que seu apetite fosse igual ao seu tamanho. Não preciso de nenhuma tática para ser convidada para jantar...

— Está recusando meu convite?

Houve um breve silêncio. Rin estava tensa e olhou para o relógio.

— Gente! Olha a hora! — ela exclamou. — Obrigada pelo telefonema. Preciso ir. Deixei meu jantar no...

ARin já estava na porta, quando Sesshomaru perguntou:

— O que é isso?

— O quê?

Ele ergueu a cabeça e o som se repetiu, de nada disfarçaria que vinha do apartamento dela,

— Talvez eu tenha deixado o rádio ligado — Rin improvisou, lançando um brilhante sorriso ao mesmo tempo que o som se tornava mais intenso. Começou a rezar.

— Não é música — Sesshomaru negou, aproximando-se de Rin, que afastava-se. — Parece um...

— Gato! É um gato. Eu percebi que alguns circulavam o armazém — ela desconversou, sabendo que os soluços eram inconfundivelmente humanos. — Eu devo ter deixado a janela aberta... Seu macarrão está queimando. Fique e cozinhe sua refeição. Eu irei...

Sesshomaru bloqueou a saída.

— Se é um gato, sou um macaco de circo — ele garantiu, já na porta do apartamento de Rin.

Dez segundos depois Sesshomaru olhava Rin desconfiado, enquanto ela pegava Kohaku no colo.

— É um bebê e não está de visita. O nome dele é Kohaku Nakayama e mora comigo. Pare de olhar dessa maneira. Está assustando-o!

As lágrimas nas bochechas de Kohaku começavam a secar. Rin estava prestes a chorar diante do olhar desaprovador de Sesshomaru.

Era melhor ela pensar em algo rapidamente.